Três Anos
1 Um Sonho
Notas iniciais
Magali apertava tanto os punhos que conseguia sentir as unhas fazendo marcas nas palmas de suas mãos. Era impossível não ficar ansiosa.
Por mais que soubesse que Mônica e Cebola estavam bem ao seu lado, os dois gritando feito doidos, não tinha plena consciência da presença deles. Na verdade era como se não existisse mais ninguém naquele ginásio, por mais lotado que estivesse.
Faltava menos de um minuto para o fim da partida. Ao longo desses três anos ela aprendera que no basquete isso poderia se tornar uma eternidade. Os jogadores corriam pela quadra, passando a bola de mão em mão e toda hora o jogo parava, congelando o relógio outra vez.
O time de Cascão estava quatro pontos atrás do adversário. Eles haviam feito uma campanha excelente e chegado às finais (pela primeira vez na história do clube) completamente invictos, o que causara um fervor imenso nos comentaristas e jogadores.
Magali soltou um gritinho animado quando um companheiro de equipe de seu namorado fez uma cesta de dois pontos. Agora faltavam apenas mais outros dois.
Os últimos dez segundos começaram. As pessoas gritavam de maneira ensurdecedora, fazendo com que ela não escutasse mais a música que saía das caixas de som. Ela mesma gritava, sem nem ao menos perceber.
Apenas mais um segundo. A bola foi parar nas mãos dele e todos o olharam sabendo que era sua última chance. Ele não estava perto o suficiente para conseguir correr a tempo, então sua única alternativa era arriscar.
Sem pensar muito, ele arremessou.
O tempo pareceu congelar. O relógio era seu pior inimigo. Todo o esforço que Cascão fizera desde que entrara no time parecia passar como um filme em sua cabeça, todos os sonhos que ele criara, todo o amadurecimento e as mudanças as quais sobreviveu durante esse tempo, que parecera uma vida inteira e ao mesmo tempo apenas um dia. Sabia que se acertasse, sua vida se transformaria completamente, mais do que já havia se transformado.
A bola bateu no aro, girou levemente e finalmente entrou, finalizando uma perfeita cesta de três pontos. Quando o apito do fim do jogo soou, uma coisa era certa: pela primeira vez, ele era um campeão de verdade.
O que aconteceu a seguir foi uma confusão de abraços, risadas e gritos que ele nunca conseguiria explicar. Seus companheiros de time o levantaram no ar e logo que a taça foi entregue ao capitão, que a beijou e comemorou brevemente, ela foi passada para ele, que repetiu o gesto, extasiado.
Quando conseguiu se desvencilhar da multidão, a primeira coisa que conseguiu pensar foi em Magali. Ela continuava ali, na primeira fileira das arquibancadas, com um sorriso enorme no rosto e lágrimas emocionadas no rosto.
Enquanto corria até ela, seus olhos não se desgrudaram por um milésimo de segundo. Até hoje não acreditava que continuavam tão unidos, dia após dia. Viveram muitas coisas juntos, como amigos e como um casal e era incrível a calmaria que ela sempre despertava.
A garota riu enquanto ele a tomou nos braços, trazendo-a da arquibancada para dentro da quadra. Se beijaram apaixonadamente, esquecendo das pessoas ao redor. Só depois disso ele cumprimentou os amigos, que como sempre fizeram algumas piadas e o parabenizaram infinitas vezes.
Se o mundo acabasse naquele segundo, ele morreria feliz.
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Do Contra acendeu a luz do quarto e se jogou na cama, exausto. Depois da grande jornada do aeroporto até o Limoeiro ele tivera de contar para a família várias histórias sobre o tempo que passara fora. Finalmente estava de volta! Por fora ele era uma pessoa totalmente diferente, mas por dentro guardava muito daquele garoto do ensino médio.
Durante o terceiro semestre da faculdade fora convidado para um projeto de pesquisa de uma professora de Psicologia do Desenvolvimento. Se esforçou arduamente e, junto com sua equipe, partiu para o Rio de Janeiro para apresentar o resultado final em um congresso de uma semana. Lá vivera momentos incríveis, fizera muitos amigos e tomara a decisão mais maluca de sua vida, que acabou se tornando a melhor.
Tudo começou com cara e uma garota, que eram obviamente o casal mais estranho que ele já vira e tinham uma banda que precisava de baterista. E daí, depois de uma noite num bar que tinha palco aberto para quem quisesse tocar, uma amizade nasceu e, bem... O resto foi história.
Não eram uma banda grande, mas tocaram em vários bares e casas de shows pequenas pelo país, se amontoando numa mini van muito feia e usando o dinheiro das apresentações pra se manter. Maurício tinha consciência de que teria que voltar para sua vida e suas responsabilidades mais cedo ou mais tarde e não tinha intenção nenhuma de abandoná-las para sempre, mas viveu aqueles momentos como se nunca fossem acabar.
Todo mundo o achara um doido sem noção quando ele trancou o semestre e caiu na estrada com os novos amigos. Seus pais ficaram loucos e Nimbus até hoje não acreditava. Mas tinha valido cada segundo, até porque surpreender era sua atividade favorita no mundo, junto com a música. Unir os dois era um sonho.
Agora, depois de seis meses vivendo uma vida digna de rock star ele estava de volta ao bairro onde nascera. Ao fim das férias voltaria ao campus para retomar sua faculdade como um estudante normal, mas era uma felicidade imensa ter se permitido aquela aventura.
Plugou o celular na caixinha de som, já colocando para tocar uma de suas músicas barulhentas. Xaveco lhe deixara várias mensagens dizendo que tinha novidades. Aparentemente sua irmã iria se casar em breve e muitos dos velhos amigos estavam vindo para a ocasião.
Por um segundo o garoto se perguntou o que aqueles reencontros todos proporcionariam. Muitas coisas haviam mudado, afinal. Não via quase ninguém da turma há um bom tempo e seu desgosto por redes sociais tampouco lhe permitia saber o que se passava nas vidas deles.
O que ele não sabia ainda era que muitas coisas permaneciam exatamente iguais.
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