Stan Marsh acabou se tornando um homem de hábitos regrados. Toda sexta-feira, às cinco horas da tarde, Stan dirigia sua caminhonete híbrida até a cidade para comprar no mercado tudo aquilo que ele não podia plantar na horta de casa. O hábito se desenvolveu depois do casamento, mais pela pressão de Sally do que pela vontade de Stan. Ela listava tudo aquilo que faltava em casa ao longo da semana, entregava a lista sexta-feira de manhã e pedia para que ele passasse no mercado depois do trabalho, quando Stan ainda trabalhava no setor de direitos humanos de uma empresa comedora de gente, ou pelo menos era assim que ele enxergava. Há dois anos, Stan largou o emprego para se tornar analista de comunicação no Greenpeace, enfim realizando o sonho de contribuir com alguma coisa que ele realmente considerasse importante. Sally apoiou a decisão completamente, porque esse era seu papel de esposa e ela o cumpria muitíssimo bem.

Mesmo que seus horários não fossem mais os mesmos, e Stan já estivesse em casa às cinco horas da tarde de uma sexta-feira, ele não quebrou seu ritual de ir ao supermercado com a lista de compras da esposa toda semana. Mesmo dia, mesmo horário. Desenvolveu um certo gosto por esses momentos de solidão enquanto escolhia um chocolate que Sally gostava – mesmo que ela não colocasse isso na lista – e um leite desnatado que estivesse na promoção. O dinheiro era curto, mas suficiente. Ele preferia fazer as compras sozinho pelo cálculo matemático simples de que Sally sempre pegava um carrinho ao entrar no mercado, enquanto Stan pegava uma cesta. Duas, no máximo, quando havia algum evento fora do comum em casa.

Stan não pensava em todos os motivos que poderiam ter evitado que ele estivesse atravessando o corredor de enlatados exatamente naquele momento. Estava totalmente alheio aos milhares de fatores que poderiam ter evitado que Stan Marsh pisasse naquele corredor; Sally poderia não ter sentido vontade de comer brigadeiro, portanto não teria escrito “leite condensado” naquela lista. Stan poderia ter decidido tomar banho antes de sair de casa, como pensou em fazer, então teria chegado no mercado por volta de 17h30 em vez de 17h10, então não estaria pisando naquele corredor exatamente 17h25, quando Kenny Mccormick retirava uma lata de feijão da prateleira. Stan não teve dúvida alguma. Não havia como duvidar, o encontro se deu bem na curva do corredor de enlatados. Kenny estava próximo demais para que Stan não o reconhecesse.

Mesmo que estivesse oito anos mais velho do que Stan se recordava.

O cabelo loiro sujo parecia um pouco mais longo, um corte tão irregular que poderia ter sido feito em casa. Provavelmente foi mesmo. Caía por cima dos olhos, azuis como duas piscinas no sol, e Kenny sacudia a cabeça para afastar os fios do rosto enquanto procurava o preço na lata de feijão. Vestia um moletom cinza muito maior do que ele, com dois números grandes escritos na frente em azul, embora estivessem apagados demais e Kenny estivesse de lado, então Stan não identificou quais números eram. Não que isso importasse.

O loiro sentiu uma presença estranhamente próxima, mas estava distraído demais para se ocupar em olhar. O que deixou Stan sem reação. Talvez não fosse tarde demais para sair de mansinho, em passos leves, e fingir que aquele encontro nunca aconteceu. Não que Stan de fato considerasse a possibilidade; especialmente porque, lá no fundo, os cantos dos lábios queriam abrir um sorriso diante da figura de Kenny bem à sua frente. Não sorriu porque seu cérebro ainda não havia tido tempo de processar se essa figura era real.

Stan deu um passo à frente. Ergueu a mão pálida, os dedos finos atravessando na frente do loiro e apontando a plaquinha amarela na prateleira, batendo de leve com o indicador em cima.

-“$3,29”, eu nunca entendi porque não arredondam os centavos. – ele disse no tom mais casual que pode, oferecendo um sorriso discreto quando Kenny virou o rosto para ele com um ar desconfiado, como se ainda não tivesse notado que havia alguém ali.

Já separava os lábios para dizer algo quando bateu os olhos no moreno, inclinando-se para trás de leve, soltando uma gargalhada surpresa.

-Marsh?! – Kenny perguntou com o sorriso mais largo que Stan já viu na vida, o suficiente para que ele notasse que faltava um dente lá no fundo da boca de Kenny. Mas quem ligaria para isso agora?

Especialmente pela forma com que o loiro abriu os braços tão calorosamente, fazendo com que Stan se sentisse imbecil por temer a reação dele. Afinal de contas, oito anos era tempo mais do que suficiente para que qualquer banalidade dos vinte e poucos anos ficasse para trás, não era? A sensação era essa quando Kenny passou seu braço firme em torno do tronco de Stan e deu duas batidas nas costas dele, apoiando o queixo em seu ombro por um breve momento, falando alto perto do ouvido:

-Cara, que saudade de você.

E Stan também sentia. Não soube verbalizar no momento, mas sorriu com a boca fechada enquanto correspondia ao abraço curto, dando os mesmos dois tapinhas nas costas em retribuição, antes que Kenny se afastasse e largasse a lata de feijão em qualquer lugar da prateleira. Houve um momento demorado de silêncio, mas não o suficiente para ser constrangedor, preenchido por risadas quase tímidas dos dois lados, enquanto uma mulher empurrava um carrinho com uma criança e parava próxima a eles, analisando as opções de molho de tomate.

-Meu deus. – Stan soltou sob um ofego pesado, ajeitando a cesta no braço enquanto erguia a outra mão em um gesto incrédulo, dando uma olhada analítica enquanto se convencia: Kenny era real. – Quando você voltou pra South Park?

Ele estreitou os lábios enquanto pensava, rindo ao se dar conta de que não sabia responder, batendo com a mão na lateral da coxa.

-Uma... Uma semana, talvez. Eu não sei, podem ser duas. 10 dias, eu acho.

-Uau. Mas... Você veio visitar?

-É, não, eu vim por causa de um funeral, na verdade.

Stan ergueu as sobrancelhas, abrindo os lábios sem saber ao certo o que gostaria de dizer. Rolaram poucos segundos de silêncio entre eles, enquanto a criança no carrinho à frente resmungava com sua boneca.

-Eu sinto muito, Kenny. Alguém na família?

-Sim, uma tia. Não precisa fazer essa cara, eu nem me lembro direito do rosto da mulher. Mas vim pela minha irmã, sabe, achei que tava na hora de uma visita.

-E quanto tempo você vai ficar?

Kenny levou uma das mãos até a cabeça, coçando o escalpo de forma barulhenta enquanto estreitava os olhos, encolhendo os ombros de forma descuidada.

-Um tempo.

Era incrível como, mesmo depois de tantos anos, em poucos minutos de conversa já se manifestavam traços que Kenny carregava consigo desde a infância. A falta de atenção, de noção de tempo, a forma inespecífica de responder tudo que dizia respeito a planos e coisas concretas. Stan sorriu enquanto observava ele coçar a cabeça, dando-se conta de que a saudade era muito mais genuína do que ele se permitia imaginar nos últimos anos. Não pensava em Kenny com frequência, mas também não havia como esquecê-lo. Porque eles eram amigos. Quando Kenny foi embora, por pior que as coisas estivessem entre eles, os dois ainda eram amigos. Era tão puro e tão diferente de quando você tem paixão por alguém. Os dois sabiam bem como isso funcionava.

Assentindo em afirmação, Stan bateu os olhos na cesta quase vazia que Kenny carregava. Cerveja e comida processada que se cozinha no microondas, basicamente.

-Você vai ficar na casa dos seus pais? – ele perguntou de repente.

-Ahn... Não, na verdade eu fiquei na Karen nos primeiros dias. Ela já casou, acredita?

-Sim, eu soube. – Stan respondeu com um sorriso suave, como se fosse óbvio. Mas não culpava o loiro por se esquecer como eram as coisas em cidades pequenas, frente a tudo que Kenny devia ter visto por esse mundo.

-Claro que soube. Nada acontece nesse buraco negro de cidade que a população inteira não fique sabendo.

Rindo, ele concluiu o óbvio:

-Então eu imagino que você não pretenda voltar pra cá, não é?

Podia ver como Kenny passava a língua pelos dentes da frente, coisa que sempre fez quando ficava um pouco ansioso. Pensou na pergunta com mais cautela do que da primeira vez, trocando a cesta de mão como se quisesse ganhar algum tempo.

-Quem sabe. Não é como se eu tivesse algum lugar fixo pra voltar, mesmo.

Quando o silêncio caiu sobre eles novamente, Stan já estava respirando fundo para soltar uma pergunta que ecoava na cabeça dele desde que viu Kenny com a lata de feijão. Não seria confortável, é claro, mas era o tipo da situação em que não dizer nada se torna ainda mais esquisito do que dizer. Mesmo que Stan já soubesse a resposta.

-Escuta, Kenny... O Kyle sabe que você voltou?

-Hm? – ele respondeu distraidamente, alternando o rosto entre Stan e as latas de feijão, como se não tivesse ouvido. Mas é claro que ouviu. E isso quase fez

Stan se arrepender de ter tocado nesse nome.

-O Kyle sabe que você tá em South Park?

Pegando uma das latas na mão e jogando dentro da cesta sem verificar o preço – o que entregava a apreensão que ele sentia – Kenny soltou uma risada baixa que quase tinha um tom de maldade, balançando a cabeça.

-Você não é mais o super bff pra me perguntar isso? Claro que ele não sabe. Você saberia se ele soubesse. – e suspirando fundo, voltando o corpo de frente para o de Stan e se aproximando em mais um passo, ele prosseguiu, com uma voz mais ríspida – E eu realmente gostaria que você não contasse.

Foi intrigante como não havia qualquer tom de dúvida na pergunta, “você não é mais o super bff?”, porque Kenny sabia muito bem que o que Stan e Kyle tinham era pra uma vida inteira e um pouquinho mais. Eles sobreviveram ao furacão que Kenny causou antes de ir embora, sobreviveram a tudo que veio antes e depois disso. “Super bff” podia não ser mais a descrição acurada, como quando tinham 10 anos, mas o espírito da coisa nunca mudaria realmente. Foi Stan quem cuidou de Kyle todas as noites em que ele se permitia ser cuidado (o que não era tão comum, exceto quando ele bebia) depois do rombo que Kenny deixou ao ir embora. E Kenny sabia que Stan limparia a bagunça muito bem, independente da encrenca em que Kyle se metesse, porque era isso que ele fazia. Ele cuidava. Dava tudo o que tinha e o que não tinha por Kyle, sempre deu, sempre daria.

Era essa a pontinha obscura dentro dele que não o permitia sentir a felicidade que ele queria sentir por ver Kenny de novo.

-Eu não posso mentir pra ele, cara.

-Não é mentir. É ficar na sua.

O tom de Kenny era suave, não acusatório e nem ameaçador como as palavras fariam parecer. Mesmo assim, Stan se sentiu tão desconfortável que quis encerrar aquela conversa por ali e fingir que não aconteceu nada.

Era um pouco tarde agora.

Diante do silêncio de Stan, ele continuou:

-Olha, eu peguei o telefone pra ligar pra ele umas vinte vezes desde que eu cheguei aqui, ok? Não é que eu não queira falar com ele. Mas você não acha que eu tenho razão de ter receio? Ele é uma porra de uma bomba relógio, eu não sabia se tava pronto pra lidar com o drama todo ainda. Só quero fazer isso no meu tempo.

-Tudo bem, Kenny. – ele finalmente respondeu, erguendo a mão livre num gesto de “pode parar”, mantendo um tom calmo na voz. – Eu não vou dizer nada.

O suspiro de Kenny foi receoso, quase que carregado de remorso. Ele levou a mão à testa, esfregando as têmporas e afastando o cabelo dos olhos, correndo os dedos pelos fios dourados. Mordiscava o lábio inferior, mantendo os olhos longe dos de Stan.

-Ele ainda me odeia?

-Não, Ken. Ele não te odeia. – O tom de Stan era firme, mas dócil e empático. Bem no fundo, ele não sabia se isso era verdade. Kyle não falava sobre isso há anos. E Kenny não acreditaria, mesmo que fosse.

Porque no fundo, até Stan sabia que ele tinha razão. Ele gostaria de poder erguer a mão e dizer que Kenny não conhecia o Kyle de hoje, que todos eles já estavam quase nos trinta anos e a vida era bem diferente agora, que Kyle não guardaria rancor dele durante tanto tempo. Mas pra ser sincero, do fundo do coração, que garantia Stan podia ter de que isso era verdade? Kyle era mesmo uma bomba relógio, sempre foi. Isso era parte do motivo pelo qual era tão fácil se apaixonar por ele. Porque ele era totalmente passional. Inteligente, é claro, com um raciocínio lógico fantástico e um bom senso invejável, mas apenas para as coisas que não se aplicavam à vida dele. Era extraordinário como Kenny ainda sabia dessas coisas, como se não tivesse passado anos longe dele.

-Olha, Stan... – os olhos azuis dele entregavam muito mais do que a boca entreaberta, pois no fim das contas, Kenny simplesmente resmungou. – Obrigado.

-Por que você não... – Ele começou a dizer antes de propriamente pensar no que estava dizendo, o que também era um hábito. – Vem jantar lá em casa essa semana? Minha esposa faz um bolo de carne de primeira.

Kenny franziu a testa de forma quase teatral. Não sabia ao certo se pela parte da esposa ou pela parte da carne; Stan sempre foi vegetariano. Mas questionar isso pareceria quase grosseiro diante da informação nova de que Stan Marsh era um homem casado.

-Uau. Stan Marsh, seu cachorro. – Ele disse com um sorriso irritantemente charmoso, que até Stan reconhecia, movimentando a cabeça para jogar o cabelo pro lado, afastando-o dos olhos. Ele realmente precisava de um corte de cabelo novo. – Você casou? Que foda, isso é incrível.

Stan correu a mão pelo topo da cabeça de forma um tanto tímida, rindo discretamente enquanto Kenny dava um tapa de cumprimento no braço dele.

-Eu sempre soube que você viveria o sonho da casinha com cerca branca, cachorro, crianças... Vai me dizer que você é pai também?

Ele respondeu balançando a cabeça negativamente.

-Nossa. – Kenny murmurou, mantendo aquele sorriso de contemplação na cara. – Temos muita coisa pra colocar em dia, eu acho. Claro, eu vou adorar comer o bolo de carne da digníssima.

Quando Stan ofereceu que os dois trocassem números, não foi muito surpreendente ouvir que Kenny não tinha mais celular. Não combinava com a persona dele, nem com o estilo de vida que ele aparentemente adotou. Era intrigante, para dizer o mínimo. Mas o loiro tirou uma caneta do bolso – o que foi mais intrigante ainda – e escreveu no próprio braço o número que Stan passou a ele, afirmando que ligaria. Não fez menção de passar qualquer número para que Stan pudesse encontrá-lo, o que deixou o moreno desconfiado lá no fundo, mas não disse nada. Também ficou esperando que Kenny perguntasse se Kyle havia trocado de número – o que não havia -, mas a pergunta também não veio.

Os dois trocaram um abraço de lado muito mais breve e impessoal do que o primeiro, e Kenny se despediu com um cumprimento, fingindo que erguia um chapéu imaginário para ele. Stan riu uma risada genuína.

Durante os próximos dias, cada vez que o celular de Stan tocava, a expectativa nunca era de que fosse Kenny. Não, ele não esperava por isso. Mas esperava – quase que ansiosamente – uma ligação de Kyle. Uma ligação muito, muito zangada de desabafo. Isso não tardou a chegar.