Trânsito

1 Capítulo Único


Trânsito

O dia começou chuvoso, mas o clima estava agradável, não estava nem frio nem abafado, o que é comum em alguns dias de chuva. Em pleno verão as ruas estavam congestionadas, parecia que todas as pessoas da cidade decidiram sair para trabalhar no mesmo horário. No meio do trânsito matutino todos estavam estressados, bom, quase todos. Débora estava feliz, adorava o congestionamento, parece estranho, mas esse abarrotamento de carros no meio da rua fazia com que ela se sentisse bem. Isso porque foi parada na rua em horário de pico que ela conheceu aquela que a fez tão feliz.

Três meses antes.

A cidade estava parada, um dos piores congestionamentos do ano, um mês de outubro complicado, trabalhos da faculdade, contas atrasadas, chuvas constantes, a metrópole de São Paulo sempre alagando, e para melhorar ainda mais as coisas tinha acabado de perder o emprego. Pois é, sua vida estava péssima, não tinha como piorar. Para uma pessoa de 19 anos tudo isso era demais, ela não conseguia dar conta de tudo, em sua cabeça sua vida não tinha mais solução, pensava que algumas pessoas eram feitas para serem felizes e outras para serem tristes. Ela se considerava na segunda opção. O trânsito, na sua opinião, era só mais um de seus problemas, pois achava um desperdício de tempo ter que ficar parada no mesmo lugar por tanto tempo.

Estava já a uma hora e meia sem andar nem um centímetro, Débora estava extremamente estressada, não apenas com o congestionamento, mas também com os vendedores que batiam na sua janela oferecendo de doces a carregadores de celular. Em plena 23 de maio, tinha vontade de sair do carro e pegar o metrô mais próximo, com certeza chegaria em casa mais cedo, bom, se tivesse ido a pé chegaria mais cedo. Não estava conformada com a situação, e para diminuir sua ansiedade começou a olhar à sua volta.

Quando olhou para o carro ao lado, avistou a mulher mais bonita que já havia visto. A janela de seu carro estava abaixada, e sem pensar duas vezes, Débora também baixou o vidro da sua. A mulher misteriosa chamou um dos vendedores para comprar uma barra de chocolate e quando tirou uma nota de cinquenta o cara falou que não teria troco, nisso a mulher desistiu do chocolate. Débora, vendo a situação, chamou o vendedor e disse que ela iria pagar o doce para a outra, deu a nota de dois reais para o moço, que imediatamente estendeu o chocolate para a mulher.

_ Moça, seu chocolate.

_ Mas eu não paguei, você disse que não tinha troco.

_ Eu sei, mas aquela mulher _ apontou para Débora _ pagou para você.

_ Eu não posso aceitar, me desculpe. _ ela disse para Débora.

_ Aceite, vi sua decepção ao não poder comprar o chocolate, por isso quis comprar para você, e são só dois reais mesmo.

A mulher pegou o chocolate e agradeceu, mas disse que um dia iria retribuir o favor, e com isso, pediu o telefone de Débora, que ficou radiante, até esqueceu todos os motivos da sua irritação. Não sabia como aquela mulher poderia ajudá-la com alguma coisa, nem se conheciam.

_ A propósito, meu nome é Débora.

_ Prazer, Sofia.

As duas ficaram conversando banalidades por uma hora, que foi quando o trânsito começou a andar, se despediram e seguiram seus caminhos.

Quando Débora chegou em casa, seu celular começou a tocar, a mulher ficou radiante ao ver no identificador o nome da pessoa que estava ligando. Sofia. Ela atendeu na hora, com uma voz de pura ansiedade, Sofia só queria saber se ela havia chegado bem em casa, o que ela afirmou que sim, e começaram a conversar sobre suas vidas. Débora contou a outra de seus problemas e de tudo por o que estava passando, ao ouvir todos aquele desabafo, Sofia sabia como retribuir o favor que Débora lhe fizera.

_ Sabe, eu sou gerente de uma empresa, e estamos em busca de uma nova estagiária, você por acaso não estaria interessada em estagiar lá?

_ Nossa, seria ótimo, mas só se eu merecer o estágio, não quero estar lá só porque você acha que me deve alguma coisa, se quiser pagar, me compre um chocolate e estaremos quites.

Nessa hora Sofia soube que era Débora que ela queria no estágio, alguém que quisesse realmente trabalhar, e não somente alguém que queria mais um estágio para enfeitar o currículo. Disse a ela que sinceramente a queria no trabalho, então combinaram tudo e se despediram.

Naquela noite nenhuma das duas conseguiu dormir direito, não conseguiam parar de pensar uma na outra, sentiam uma atração imensa e não sabiam porque se sentiam assim. Débora sabia que era lésbica, tinha sido expulsa de casa por esse motivo, mas nunca tinha sentido nada tão intenso, nem com suas antigas namoradas por quem ela pensava que era apaixonada.

No dia seguinte, quando Débora ia para seu primeiro dia no estágio, pegou um pouco de trânsito, nada que fosse acarretar em um atraso nem nada, mas ela ficou estressada, pois queria muito ver Sofia. Como em um passe de mágica, adivinhem quem estava com o carro emparelhado com o seu na rua. Acertou quem disse Sofia. Logo que uma notou a presença da outra, o congestionamento não passou de uma paisagem, e Débora até gostou dele, pois este proporcionou alguns preciosos minutos com a mulher que ela descobriu que amava.

Duas semanas depois, o estágio ia muito bem, todos na empresa gostaram tanto de Débora quanto de sua eficiência, e por causa disso começaram a se aproximar mais da garota, a chamando para sair ou para tomar um café. Toda essa aproximação deixou Sofia enciumada, e ela ainda não entendia porque não conseguia tirar a outra dos seus pensamentos, era só fechar os olhos que ela já conseguia ver o rosto de Débora perfeitamente, com todos os detalhes.

Demorou mais uma semana para cair a ficha de Sofia, que durantes alguns dias tentou negar a paixão pela outra, mas foi inútil, pois não era mais paixão que sentia, era amor. Um amor forte, inegável, inelutável, que a cegava e dominava todos seus sentidos, ela já não conseguia nem mesmo ficar perto de Débora sem que seu coração disparasse e sua respiração se alterasse.

Sofia então decidiu tomar a iniciativa que Débora nunca tomaria, por conta de sua timidez. Inventou um projeto que deveria ser discutido e chamou Débora para ir à sua casa para ajudá-la, preparou um belo jantar, luz de velas, música romantica. Surpreendeu a garota, e antes que ela pudesse dizer qualquer coisa tomou-a em um beijo, pelo modo que seu beijo foi recebido e retribuído ela percebeu que Débora sentia o mesmo por ela.

Começaram um namoro tranquilo, mas ao mesmo tempo intenso, se amavam com o corpo e a alma, nada podia separá-las por nada, no trabalho a relação era profissional, porém quando saíam do ambiente de trabalho eram namoradas, amantes, apaixonadas. Débora acabou se mudando para o apartamento de Sofia. Tudo ia perfeitamente bem até receberem uma proposta no trabalho.

Uma outra empresa queria fazer um acordo, o plano seria fecharem o acordo, até que Débora viu o nome da empresa. A mulher empalideceu na hora, tinha dificuldade em respirar. Sofia percebeu e perguntou se estava tudo bem, e recebeu uma resposta negativa. A empresa era a do pai de Débora, o mesmo que havia a expulsado de casa quando soube de sua orientação sexual.

No dia da reunião, todos estavam presentes, inclusive Débora. Quando o pai da mulher a viu presente, disse em alto e bom som:

_ Me recuso a assinar qualquer contrato enquanto essa mulher estiver na sala.

_ Sinto muito senhor, mas a presença dela aqui é indispensável. _ Sofia disse.

_ Não sei como uma empresa de nome como a de vocês contrataram um lixo desses, essa mulher deveria estar na rua a uma hora dessas.

_ Não fala assim da minha mulher! Se alguém nessa sala é imprestável, esse alguém é você, que não conseguiu ver o valor de sua própria filha! _ Sofia estorou, poderiam falar mal dela que ela aguentaria, mas se qualquer um tentasse falar mal de sua amada ela a defenderia até com os dentes se fosse preciso.

Naquele dia Débora voltou para casa chorando, já fazia muitos anos que não via o pai, mas ouvir aquelas palavras de sua boca ainda era muito doloroso, com certeza se Sofia não estivesse ao seu lado o tempo todo ela seria capaz de sair correndo daquela sala e nunca mais voltar a trabalhar.

Depois desse acontecimento, Débora conseguiu arranjar um emprego em outro lugar, por indicação de Sofia, pois cada vez que entrava no prédio onde tinha reencontrado o pai, começava a chorar compulsivamente, e com o apoio de Sofia, conseguiu se reerguer e seguir sua vida, sempre com sua amada ao lado.

Agora, três meses depois de ter conhecido a mulher de sua vida, Débora recordava todos os momentos que já havia passado ao seu lado, com certeza para muitos o tempo que passaram juntas era pouco, que nesse tempo não daria nem para elas se conhecerem direito. Mas para Débora era o tempo certo, ela nunca tivera tanta certeza em sua vida, parada no trânsito de São Paulo ela admirava de novo os objetos que comprara no dia anterior, esse seria o dia que pediria a mão de sua amada em casamento.

FIM

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!