Try Again
3 We Had It All
Notas iniciais

“You were the best thing in my life I can recall you and me we had it all
I know that we can never live those times again
So I let my dreams take me back to where we have been”
We Had It All — Willie Nelson
Na mesma noite em que o médico disse que Jethro teria alta e ofereci para que ele ficasse em minha casa, percebi que já estava na hora de contar a verdade as crianças. Cheguei em casa já era noite e eles já estavam de pijama, dispensei a senhora Martinez e chamei as crianças para conversar.
Nos sentamos no sofá e eu comecei:
—Lembram aquele dia no jantar que fui e papai não pode ficar com vocês?
Ambos fizeram que sim com a cabeça, olhando então em seus olhos azuis eu não sabia ao certo como abordar o assunto, no entanto eu precisava, sendo assim escolhi as palavras mais simples:
—Houve um acidente e ele se machucou.
—Ele está bem não está? -Jéssica mal esperou eu terminar de falar e já me perguntou preocupada.
—Sim honey, ele está. Mas ele se machucou um pouco. Ele bateu a cabeça e tem amnesia. –Eu disse enquanto colocava uma mecha de seu cabelo ruivo atrás da orelha.
—O que é amnesia? –Jasper perguntou.
—Bem... amnesia é quando você não se lembra de algumas coisas. –Respondi.
—E do que ele não se lembra mamãe? –Jéssica perguntou curiosa.
—Bem querida, papai não se lembra de nós. –Eu disse sentindo um enorme aperto no coração.
Ela abriu a boca surpresa, no entanto nada disse.
—Mas ele vai lembrar, certo? –Jasper perguntou um tanto quanto receoso, e lá diante da visão de meu pequeno Jethro, era impossível não me abalar diante de toda essa situação inusitada.
—Claro que vai Jasper, mas isso pode demorar, por isso quero pedir a vocês que tenham paciência com ele e me ajudem a tomar conta dele. Okay? –Eu pedi apoio aos meus filhos.
—Papai vem morar com a gente? –Jasper me perguntou e fiz que sim com a cabeça e Jessica não demorou para gritar em comemoração.
—Parte dos cuidados do seu pai, incluem nada de gritaria. –Eu a repreendi suavemente.
Ela instantaneamente cobriu a boca com as duas mãos e murmurou um:
—Desculpe.
—Tudo bem querida. –Eu disse antes de lhe dar um beijo na bochecha.
Após olha-los por alguns segundos em silêncio finalmente fez a pergunta de um milhão de dolares:
—Então, posso contar com vocês?
—Sim. –Os dois disseram ao mesmo tempo.
No dia seguinte, após pega-lo no hospital o levo até a casa dele e digo ao estacionar:
—Você vai precisar fazer uma mala.
Então nós dois adentramos aquela bendita casa, cuja fechadura não conhece uma chave.
Enquanto ele arruma sua mala, espero na sala, quando ele aparece eu digo:
—Abre a mala.
Ele riu, será que ele acha que eu não o conheço?
—Jethro abre a mala. –Eu disse séria e ele viu que eu realmente não estava brincando, assim relutantemente ele abriu a mala e lá estava: uma garrafa de Bourbon.
Pego a garrafa e guardo no armário, ao voltar a encará-lo eu digo:
—Você está tomando remédios Jethro. Nada de misturar com álcool.
Ele fecha a mala e vai para o carro em silêncio, não é preciso que eu seja uma especialista em Gibbs para saber que ele está emburrado, depois ainda tem a audácia de me perguntar a quem as crianças puxaram esse suposto bom-humor...
—Não fique magoado, quando você melhorar eu mesma te dou uma garrafa nova. –Eu disse não escondendo o tom divertido em minha voz.
Ele não me respondeu, não que seja novidade, afinal Jethro não é lá muito falante. Sendo assim, ele continuou olhando para frente, e eu liguei o carro, afinal de contas eu não iria adular ele, realmente as crianças tem quem puxar.
Quando finalmente estaciono em frente a minha casa, eu digo, esperando que não seja muito tarde, afinal não há tempo melhor do que o agora, não é mesmo:
—Jethro, antes de entrar você precisa saber de uma coisa.
Ele finalmente me olhou nos olhos e não vou negar que aqueles olhos azuis não mexeram comigo.
—Você é casada? –Ele perguntou.
—Não, um casamento já foi o suficiente. –Eu disse o que definitivamente não era mentira, pergunto-me como algumas pessoas conseguem se casar tantas vezes....
Jethro me encarava e eu sabia que ele queria saber o que eu claramente escondia dele.
—Nós dois... Eu e você bem... –Eu meio que gaguejei, como diabos eu gaguejei? Eu sou Jenny Shepard a primeira mulher a frente de uma agência armada, respirei fundo e então disparei -Temos dois filhos.
E assim ele me olhava em espanto, no entanto ele não chegou a dizer nada, não sei se fico feliz ou triste por receber uma reação tão típica dele.
Eu continuava a observa-lo, esperando uma reação e eu tive certeza que viria quando vi ele me dirigir um de seus clássicos olhares de Gibbs irritado, ele até mesmo chegou a abrir a boca para falar algo, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, a porta da frente se abre e as crianças saem, Jessica é rápida ao gritar para quem quisesse ouvir:
—Mamãe! Papai! Finalmente vocês chegaram.
Às vezes me pergunto como ela pode ser tão escandalosa....
Assim que a ouviu, Jethro instantaneamente virou desviou sua atenção de mim, para poder encarar a cena, dos dois vindo em nossa direção, até que não tiro a razão dele, afinal nossos filhos realmente são muito bonitos.
Sem que eu falasse nada, ele já foi logo saindo do carro e eu fiz o mesmo.
E assim, em questão de segundos, ele já se encontrava sendo abraçado por ambos, devo dizer que eu posso ter sentido uma pontada de ciúmes, como assim de repente eles me ignoram? Ingratos.
—Ei crianças, deem um espaço ao papai. –Eu digo e Jasper se afasta, mas Jessica continua agarrada a suas pernas.
—Jéssica. –Eu digo em um tom levemente repreendedor, mas então Jethro se abaixa ficando na altura dela e bagunçando seus cabelos ruivos, que já estavam bem desgrenhados diga-se de passagem.
—Tudo bem. –Ele diz e então ela levanta o rosto para olha-lo e percebo que ele não esperava por isso, ao encara-la, percebi sua postura vacilar.
—Jasper, leve a mala do seu pai para o quarto de hospedes. Jessica vá ajuda-lo. –Eu disse rapidamente e lhes lancei o olhar que indicava sem discursões, ao menos eles ainda respeitam esse olhar.
Após alguns minutos sozinhos do lado de fora da casa, coloco minha mão no ombro de Jethro em sinal de apoio.
—Está tudo bem Jethro. –Eu digo suavemente.
Ele não respondeu, apenas começou a caminhar em direção a casa e eu fiquei ali encarando ele me deixar para trás, um pouco chocada e levemente irritada, apressei o passo para alcança-lo.
—Jethro, me escute. –Eu disse ao agarrar seu braço, fazendo com que ele se virasse para mim.
—Eu sei que embora Jessica seja muito parecida comigo, ela ainda lhe lembra muito a Kelly, mas por favor não a puna por isso. Os dois estão felizes por você estar aqui e a única coisa que eu lhe peço é que não os machuque. –Eu digo o encarando fixamente.
Em resposta ele franze o cenho para mim.
—Eu sei o quanto você pode ser rude, quando está triste. –Eu disse apenas, e segui para dentro da casa o deixando só.
Quando ele finalmente entrou, as crianças já haviam descido e eu fiz as apresentações:
—Jethro esses são nossos filhos, Jasper e Jéssica.
Ambos sorriram e antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, meu celular começou a tocar, antes de atender eu disse a eles:
—Que tal vocês mostrarem a casa ao seu pai?
E enquanto eles faziam isso eu atendi:
—Shepard.
—Diretora, sei que você pediu para que não te ligasse até as onze, mas temos o FBI e a equipe de Gib... digo DiNozzo, brigando por um caso. –Minha fiel secretária dizia do outro lado da linha.
Suspiro em derrota, até quando o Jethro não está, sua equipe insiste em ser uma pedra no meu sapato.
—Estou a caminha Cinthia. –Digo apenas.
Quando chego no NCIS, não demora para que eu veja DiNozzo e Fornell perto das mesas discutindo, passo por eles e digo:
—DiNozzo, Fornell na minha sala agora.
E eles me senguem.
Adentro minha sala e logo me sento na cadeira enquanto eles começam a discutir, não resisto e rolo os olhos, é cada coisa que eu tenho que lidar....
—Trabalhem juntos. –Eu digo chamando a atenção deles e antes que Fornell proteste, eu completo –Vou ligar para o seu diretor.
Assim, peguei o telefone da minha mesa e esse era claramente o sinal para eles saírem, no entanto apenas DiNozzo foi o bom São Bernardo obediente e saiu.
—Algum problema Fornell? –Pergunto não escondendo minha paciência.
—Como Gibbs está? –Ele me perguntou.
Por mais que eu estivesse curiosa com sua pergunta, não deixei que minha postura vacilasse e então me limitei a responder:
—Agente Gibbs vai se recuperar. –Eu disse.
—Eu sei que vai diretora, mas quero saber como ele está atualmente, os boatos dizem que ele perdeu a memória. –Ele disse.
—Se você sabe, não deveria estar perguntando para mim então. –Disse não escondendo minha crescente irritação.
—Por que não a fonte mais segura que você, quando se trata do Gibbs.
Eu o encarei levemente confusa por alguns segundos, até ele me dizer algo surpreendente:
—Shepard, eu sei sobre você e ele.
Engoli em seco, isso era como um balde de água fria sobre minhas esperanças de manter nosso “relacionamento” escondido, enquanto ele se recuperava.
—Se você realmente sabe sobre mim e ele, deveria saber que não existe nada entre mim e ele. -Disse soando o mais dura possível, afinal não estamos escondendo nossa situação há anos para vir a luz justo agora.
—Apenas duas crianças. –Ele disse e eu o olhei chocada, diante disso ele prosseguiu –O que foi não vai me dizer que tem uma terceira?
—O que te leva a acreditar que tenhamos filhos? –Eu simplesmente perguntei, afinal de contas eu tinha que saber como ele sabia tanto e se por acaso Jethro tivesse ousado contar para ele, nós dois realmente teríamos um acerto de contas.
—A nova escola do seu garoto. É a mesma de Emily, eles são colegas. –Ele disse simplesmente, exibindo um sorriso vitorioso.
E eu só podia pensar em uma coisa: Como fui deixar que um deslize desse acontecesse?
Acho que a essa altura eu já não conseguia mais esconder minha face de surpresa, tanto é que ele completou:
—E eu já vi tanto Gibbs, quanto você saindo com eles.
—Você não contou a ninguém contou? –Perguntei temerosa.
—Não é da minha conta para sair dizendo aos outros, embora Diane esteja curiosa para saber quem é a ruiva mãe do garoto. –Ele respondeu e eu não resisti e rolei os olhos, era só o que eu precisava a essa altura, Diane tendo ataques de ciúmes, se bem que não nego que seria muito divertido ver sua expressão quando descobrisse.
—Só quero saber se ele está bem. –Fornell finalmente disse mostrando ligeira preocupação.
—Às vezes ele tem flashes de memória, no entanto tudo está confuso. Ele ainda não se lembra do NCIS, nem de tudo o que vem depois. –Confessei a ele, mas por que diabos eu estava contando isso a ele? Talvez pelo fato dele ser o único amigo de Gibbs, além de Duck.
—Ele vai ficar bem, ele é Gibbs. –O agente federal disse confiante, logo antes de sair.
E assim trabalhei o restante do dia sem nenhuma grande ameaça ao NCIS e quando já era quase seis, dei meu dia por encerrado.
Voltei para casa e como de costume dispensei meu motorista e segurança. Devo dizer que ao adentrar a casa e encontrar os três Gibbs assistindo à desenhos infantis, meu coração se aqueceu diante da visão.
—Oi mamãe. -Ambas as crianças disseram ao mesmo tempo.
—Olá crianças, Jethro... –Eu os cumprimentei, Jethro se limitou a um aceno com a cabeça.
—Jasper, fez o dever de casa? –Perguntei alto o suficiente para me ouvirem, enquanto eu adentrava em meu escritório e deixava algumas pastas sobre a mesa.
—Sim. –Jasper gritou.
—Já jantaram? –Perguntei agora encarando os três.
—Sim madame. –Jasper disse sem se mover de onde estava e nem mesmo me encarar, rolei os olhos eu detestava quando Jethro falava isso e se não fosse o suficiente, ele ainda ensinou as crianças a me chamarem de madame, diretora, ou ambos, mesmo que eu já tenha inúmeras vezes brigado com os três, eles continuam a fazer.
Não tardou para que Jessica me chamasse para assistir desenhos também, me sentei para assistir e logo ela pulou em meu colo, com minha garotinha em meu colo eu a apertei um pouco nos meus braços, antes de lhe dar um beijo em seu cabelo ruivo, agora penteado, ouvindo instantaneamente o som de sua risadinha, realmente não há nada como o lar.
Com esse pensamento, desviei o olhar da televisão, para observar Jasper rindo ao meu lado e Jethro me olhando e não tardou para que nossos olhares se cruzassem, na verdade acho que algumas coisas nunca mudam.
Quando o filme que assistiam acabou, anunciei:
—Hora de dormir.
E não demorou para que eles reagissem.
—Não estou com sono. –Jasper protestou.
—Nem eu. –Uma Jéssica sonolenta disse em meu colo.
—Isso é porque vocês ainda não deitaram. –Eu usei minha resposta padrão, enquanto colocava Jéssica no chão.
—Agora vão escovar os dentes, que eu vou contar uma história. –Eu disse.
—Pode ser o papai? –Jéssica perguntou com os olhos azuis esperançosos.
Olhei para Jethro, e vi que ele não estava muito confortável com a hipótese, sendo assim eu disse:
—Outro dia.
—Tudo bem. – Minha pequena ruiva disse e nesse momento eu agradeci o raro episódio de compreensão dela.
—... E eles viveram felizes para sempre. Fim. –Eu disse fechando o livro.
Eu estava na cadeira de balanço no quarto de Jessica, com Jasper em meu colo, enquanto ela estava deitada na cama. Coloquei meu filho no chão e guardei o livro, antes de me aproximar dela, e finalmente lhe dar um beijo em sua testa e dizer:
—Boa noite honey.
Jasper me esperou para leva-lo até seu quarto e colocá-lo na cama e assim repeti o mesmo que havia feito com Jéssica.
—Boa noite Jasper. –Disse depois de dar um beijo em sua testa.
Ao sair do quarto do meu primogênito, trilhei em direção ao meu escritório, adiantar alguns arquivos, porém chegou um momento em que eu abri a segunda gaveta da minha escrivaninha e peguei um álbum de fotos com o desenho da Torre Eiffel na capa.
Comecei a foliar as páginas, que começava com fotos nossas nos tempos em que estávamos disfarçados na Europa, enquanto isso um sentimento de nostalgia me atingiu. Não demorou e logo apareceu nossa primeira foto após nos casarmos, eu usava um vestido branco na altura do joelho, minha barriga já era bem evidente. Depois há a primeira foto de Jasper, um bebê de cabelos escuros e olhos azuis iguais aos do pai. Em seguida são os aniversários e natais que passamos juntos, ele nunca apresentou Jasper a sua quarta esposa e secretamente eu era realmente feliz por esse pequeno fato, mesmo que tenha sido uma exigência minha.
Um sorriso surge em meu rosto quando vejo a imagem de ultrassonografia de Jessica, uma foto minha grávida, com Jasper no colo, e depois a primeira foto dela, uma linda bebê de cabelos avermelhados. Há mais algumas fotos de feriados ou aniversários do tempo em que fiquei na França.
Voltei então, para a página que tinha a foto do dia em que Jessica nasceu e fiquei ali a encarando por um longo tempo. Lembro-me tão bem dos eventos que antecederam esse dia, eu havia tido um alarme falso três dias antes e isso acabou ocasionando a vinda de Jethro, que após descobrir ter sido um alarme falso, disse que não iria voltar enquanto o bebê não nascesse e emborra eu ainda estivesse brava com ele por ter me engravidado após o divórcio, uma parte de mim ficou feliz com sua atitude, três dias depois do tal alarme falso finalmente minha menininha nasceu, talvez no fim das contas a garotinha do papai só quisesse que ele estivesse presente em seu nascimento, devo dizer que foi uma boa coisa, afinal foi muito útil ele ter ficado na sala de parto comigo, exceto claro pelo detalhe que eu acabei quebrando o dedo dele, mas o que é um dedo quebrado comparado a dor do parto?
Tracei meus dedos pelo rosto de cada um presente naquela fotografia, em que estou sentada na cama do hospital, com minha caçula em meus braços e Jethro está sentado na beirada da cama, com um pequeno Jasper no colo. Verdade seja dita, tínhamos tudo para ser uma família feliz: filhos lindos, apaixonados e felizes, mas algumas coisas simplesmente não são para ser, e o amor acaba sendo mais complicado do que deveria ser.
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