Notas iniciais
mais um :)

Hábito

O imortal guiava-me por uma série de corredores semi-iluminados, onde as paredes amareladas estavam repletas de quadros e estatuas que eu suspeito serem incrivelmente antigas e valiosas.

Percebi que estávamos no subsolo, pois depois de uns três corredores encontramos uma escada que era tão alta que se perdia na escuridão do teto. Suspeito que seja noite, pois a única luz (fora as tochas acesas com fogo) era de um intenso azul, que só poderia vir da lua.

Subimos cinco lances de escada antes que uma porta de madeira escura se fizesse presente em meu campo de visão. O imortal – que eu notei num rompante não saber o nome – abriu-a e atravessou. Eu o segui e o que vi não me era nada estranho.

Era uma sala perfeitamente redonda e mais iluminado, como um torreão de um castelo. Ao que parecia, estávamos entrando por uma porta paralela a principal, pois os três tronos estavam de costas para mim e o imortal. Ele parou. Ergueu a mão, indicando que eu parasse, porém ele continuou.

Ele caminhou até os tronos e desceu os degraus que o levariam para diante de quem quer que estivessem sentados ali. Quando ele se ajoelhou perante os tronos, foi que eu liguei os pontos.

O terno, o colar de ouro em volta de seu pescoço pálido, a sensação de familiaridade de uma das vozes enquanto eu sonhava, os três tronos. Como eu não percebi antes?

Pude ver que não éramos os únicos na grande sala. Uma movimentação perto do que supus ser a entrada principal me fez vislumbrar outros três vampiros.

Um calafrio percorreu minha espinha, mais uma prova que eu não havia me transformado em vampira completamente. Eu devo ter soltado um bufo, pois a movimentação nas sombras cessou. O imortal que me levara ali me olhou e indicou que eu fosse até ele.

Apertei minhas unhas em minha palma, algo que eu fazia quando estava nervosa e fiz o que ele pediu. Evitei olhar para as figuras pálidas sentadas nos tronos ao passar e abaixei os olhos ao ficar diante deles.

Um suspiro cortou o silencio, e eu tive o impulso de olhar para cima e encarar aqueles vampiros nos olhos. Mas o pânico tomou conta de todo o meu corpo e me mantive com o olhar no chão de mármore.

— Eu disse que ela sobreviveria ao veneno. — uma voz de anjo falou e eu me vi engolindo em seco quando o senti caminhar até mim. Uma mão pálida e fina segurou em meu queixo e ergueu meu rosto. Olhos sangue me encaravam, cabelos loiros-neve caiam em cachos sobre o rosto anguloso e pálido. — Sabe quem sou, menina?

Eu sabia, já o havia visto dezenas de vezes no quadro pendurado na sala de Carlisle. Na pintura, porém, ele parecia mais angelical do que era de fato. Talvez essa fosse à intenção, deixá-lo menos irritadiço.

Intimidada, eu sabia que não conseguiria falar, então me aproveitei de seu toque em meu queixo.

Caius. Caius Volturi.

Ele se afastou, como se não esperasse que eu usasse meu dom ao respondê-lo. Ou por não saber quem sou. Ele virou-se para os outros dois, Marcus e Aro, ainda em seus tronos, olhando-nos com curiosidade. Arrisquei um olhar para o imortal ao meu lado e percebi que ele não estava mais ali.

Pânico tomou conta de mim.

— Minha doce criança — num piscar de olhos, Aro estava diante de mim com uma de minhas mãos entre as suas próprias. Os olhos vermelhos leitosos olhavam o além e eu sabia que ele tinha acesso a cada pensamento meu durante minha curta vida. Quando por fim me olhou de fato, ele tinha um olhar compassivo. — Sinto muitíssimo por tudo o que a senhorita passou até chegar até aqui. — ele beijou o dorso de minhas duas mãos — Quero que saiba que é muito bem-vinda em minha corte, especialmente por não querer ser encontrada. Não há no mundo lugar mais discreto para a senhorita permanecer. Além de, é claro, me honrar grandemente.

Eu não sabia o que dizer sobre a proposta, mas sabia que recusá-la não era uma opção. Assim que eu escolhesse sair pelas ruas de Volterra, ele comunicaria meus pais sobre minha localização, então eles me levariam de volta para a Ilha. E essa era a última coisa que eu queria no momento. Por outro lado, viver com os Volturi me renderia uma experiência sobre como é viver como, de fato, uma vampira e não com vampiros que fingem ser humanos.

A expressão em meu resto deve ter sido clara, pois Aro respondeu com um grande sorriso:

— Fico imensamente feliz com sua decisão, minha doce criança — ele juntou as mãos na frente do peito, como se rezasse, seu sorriso ainda alargando-se em seu rosto de porcelana — Meus irmãos e eu a acolheremos como uma de nós, pelo tempo que achar necessário.

Não sabia bem como reagir àquela afirmação, então fiz o que o imortal fizera ao se apresentar diante dos reis vampiros: uma reverência. Quando me ergui, porém, me mantive de cabeça baixa. Olhar para os três irmãos era como olhar para um deus: eu me sentia minúscula diante deles.

— Alec, venha aqui, por favor.

Ao som de sua voz, o imortal surgiu das sombras. Ele pairou diante o mestre com uma graça que eu não notara antes. Na verdade, eu não havia notado nada sobre sua aparência física – o cabelo castanho escuro caia liso sobre a testa pálida. Os olhos, de um vermelho intenso, brilhavam a medida que as luzes refletiam neles. A boca carnuda e rosada, com uma fina e quase imperceptível cicatriz que cortava o lábio inferior. A postura ereta e imponente, com as mãos cruzadas nas costas.

Ele não deveria ter mais do que dezenove anos quando fora transformado, o que deixava ele com um ar jovial. Mas eu conhecia algumas historias sobre ele para saber que não se deve deixar enganar sobre sua aparência.

Uns dizem que ele é o gêmeo bom e que sua irmã, Jane, é a crueldade em forma de gente. Porém, há quem diga que Jane é precipitada, e que sua única real vantagem é o dom da dor, fazendo, então, do irmão um ser extremamente inteligente e estrategista, e inteligência é poder.

Eu não sabia em quem acreditar, mas acho que pelo fato de eu estar diante a possibilidade de convivência com os gêmeos, eu estava prestes a descobrir.

Aro já tinha terminado sua frase direcionada à Alec quando voltei a realidade e o mesmo me encarava com uma curiosidade que me deixou um pouco receosa.

— Venha doce criança, faço questão de mostrar pessoalmente minha casa a você. — Aro deu uma última olhada aos irmãos antes de me guiar para fora da sala. Alec seguia o mestre como um cão de guarda, e quando passamos para o longo corredor, mais dois vampiros se juntaram a ele. Quando as pinturas começaram a surgir nas paredes, Aro voltou a falar: — Você conhece a historia por trás dos Volturi, criança?

Eu só sabia o que meus pais haviam me contado – sobre como eles dominavam o mundo vampiro a partir do medo, mas não sabia como eles chegaram a essa posição, então me limitei a balançar a cabeça, negando.

— Há quem diga que a sede por poder juntou Caius, Marcus e eu e que essa sede nos fez procurar apenas vampiros com dons para compor o clã, em uma tentativa de nos fazer sermos aceitos como soberanos. Entretanto, essa não é de fato verdade — Aro sorriu pra mim, um sorriso assustador — Somos considerados os vilões, não é verdade? Principalmente pela sua família. Mas e se a única diferença entre quem é o vilão depende única e exclusivamente de quem está contando a historia?

Ele segurou meu braço levemente e me guiou até uma sala escura. Alec, que caminhava em silencio atrás de nós, entrou primeiro e acendeu as luzes. Não havia janelas naquele cômodo, mas havia grossas cortinas vermelho sangue.

Dispersas aleatoriamente, estantes repletas de livros preenchiam o cômodo. Uma biblioteca. Um sorriso mínimo brotou em meus lábios com aquela visão. Por ínfimos doze meses, a única coisa capaz de me fazer sorrir foi às diversas passagens de livros.

Observei, um pouco atônita, Alec se dirigir a uma das poltronas que havia no cômodo e sentar-se nela com um livro de capa de couro no colo. Não parecia que estivesse com ele para lê-lo, e confirmei isso quando Aro indicou que eu sentasse na poltrona ao lado, enquanto ele sentava-se na outra.

Três poltronas, percebei. Três como os três reis Volturi. Talvez o número três fosse o número da sorte deles.

Alec me passou o livro, e eu o abri na página destacada.

— Escrevi pessoalmente esse livro quando viramos o primeiro século como lideres. — Aro estava dizendo — E ainda nos dias de hoje, a cada nova guerra que vencemos, eu ainda continuo escrevendo.

Passei a mão pelas paginas, admirada com a riqueza dos detalhes.

— Pode lê-lo quando quiser. Já que vai permanecer conosco por um tempo, é certo que quanto mais souber sobre nós, melhor.

Assenti, ainda admirada pelo grande livro que continha em meu colo. Aro ergueu-se e tocou em meus cabelos.

— Espero que sua estadia aqui seja de bom proveito para ambos, minha doce criança.

Não tinha certeza se eu havia entendido direito sua intenção ao proclamar sua ultima sentença antes de sair, Alec e os outros dois guardas em seus calcanhares, mas quando despertei de meus devaneios, eu estava sozinha na biblioteca e eu encarava os olhos dourados dos meus pais me devolvendo um olhar gelado.