Trust me
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Notas iniciais
Seus pulmões queimavam com a respiração extremamente ofegante. Junto com o suor, sangue podre escorria de seu rosto e da lâmina enferrujada do facão que segurava em uma das mãos, o qual usou inúmeras vezes para destroçar as cabeças já em decomposição dos mortos que os cercavam cada vez mais. Hyoga avistava uma brecha pelos errantes e corria em direção a ela, apoiando seu companheiro com o braço livre. Sabia que ele estava sentindo muita dor, podia ouvir os gemidos que ele soltava a cada passo que era obrigado a dar o mais rápido possível com uma ferida aberta em seu calcanhar. Ainda assim, como um sobrevivente nato, não deixava de proteger o flanco esquerdo dos dois, acertando todos que conseguia com sua katana, a lâmina também coberta de pele putrefata e restos de cérebros.
— Estamos quase lá... Aguenta...
Sussurrou com o resto de oxigênio que conseguia puxar pelos lábios entreabertos e ressecados. Precisava chegar àquele galpão abandonado de qualquer jeito. Precisava salvar Ikki.
"Dói muito..." O moreno murmurava em seus gemidos desesperados de dor e aflição. Antes fosse apenas a mordida, mas a situação de Ikki era para lá de séria. Questionava o que seria de seu corpo nas horas seguintes, imaginava se Hyoga precisaria matá-lo no ímpeto de preservar a própria vida. Se fosse necessário, então que o fizesse sem pensar duas vezes. "Você também, seja forte. Vamos alcançar o galpão, logo..." Ainda teve forças para otimizar a situação em que se encontravam, antes de sentir a visão fechar pelas laterais e a própria voz se distanciar do corpo. Um desmaio completamente inesperado para um momento tão delicado.
Não faltava mais que alguns metros para chegar à porta do galpão. Já tinham deixado para trás a maior parte dos mortos, mas alguns ainda estavam em seu encalço. Porém, seu maior medo estava se concretizando: Ikki começava a perder a consciência. O desespero de Hyoga era proporcional à quantidade de sangue que saía da ferida na perna do maior, que agora era praticamente arrastado pelo corpo forte, porém menor, que ainda o apoiava fielmente. Tentava conversar com ele, mas mal tinha ar para se manter de pé.
— Aguenta... Precisa acordar... Quase lá... Quase lá...
Dizia mais para si mesmo, pois Ikki já tinha a cabeça pendida para frente, balançando violentamente com a força descomunal que o russo usava para carregá-lo. Acertou a cabeça de um último errante em seu caminho com tanta raiva que os miolos grudaram na parede exterior do galpão. Teve que largar a arma para que pudesse erguer a porta de metal com a mão livre. Recusava-se a soltar o rapaz enquanto ele não estivesse em segurança. Depois de três tentativas, no qual conseguiu apenas erguer trinta centímetros da porta, Hyoga urrou e aplicou toda a força que lhe restava, conseguindo abrir espaço suficiente para passar abaixado com maior. Com toda a rapidez que podia desprender naquele momento, deixou o corpo desacordado no chão e correu para apanhar seu facão e fechar a porta, finalmente selando os mortos do lado de fora, escapando por pouco das garras de um deles. No instinto, correu pelo local, vasculhando se havia outros ali dentro. Agradeceu aos céus por estar limpo. Enfim, correu em direção ao rapaz, que estava empapado de suor e sangue.
— Acorda... Acorda... Por favor... Preciso... Que acorde...
O moreno movia o rosto vagarosamente, a consciência falhando pela falta de ar. Entendia a gravidade da situação, mas não era capaz de demonstrar qualquer resquício de força, como abrir os olhos e encarar o rosto do loiro. Havia perdido muito sangue na correria e o local do ferimento ardia mais do que o próprio inferno. Dor de matar. Não lhe restava voz. Ikki estava no extremo da exaustão. Desfalecia nos braços do loiro enquanto forçava aos lábios um movimento maior, tentando falar qualquer coisa que fosse.
Sua respiração ainda estava muito ofegante, enquanto tentava reanimar o maior. Ao notar que sua cabeça e seus lábios se moviam, a primeira reação de Hyoga foi arrancar o cinto que prendia a calça do outro e amarrar a perna machucada bem apertado, acima do joelho, improvisando um torniquete. Esperava estancar o sangramento daquela forma. Em seguida, olhou em volta, com mais atenção dessa vez, na busca de qualquer tipo de produto de primeiros socorros. Correu até uma das portas e seu coração deu um pulo ao ver uma prateleira cheia de ataduras cirúrgicas, todas lacradas e esterilizadas. Podia chorar naquele momento, mas sua busca ainda não tinha acabado. Viu algumas caixas empilhadas no canto da sala e correu para abrir a primeira.
Talvez fosse um milagre, embora estivesse questionando a existência de Deus devido às circunstâncias. Naquela caixa havia centenas de cartelas de antibióticos. Colocou-a de lado e abriu a caixa abaixo dela. Ali havia seringas e agulhas para primeiro uso. Hyoga estava familiarizado com utensílios hospitalares, afinal, antes de tudo começar, era enfermeiro-chefe em um dos maiores hospitais do Japão. Abrindo uma outra caixa, encontrou vários litros de álcool 70%. Não havia tempo para raciocinar como havia parado naquele galpão com todos os suprimentos de que necessitava naquele momento. Talvez fosse uma estação improvisada para tratar os feridos. Correu para onde Ikki estava, molhou uma das ataduras com soro fisiológico, também encontrado naquela sala, e fez pressão em cima da mordida na perna do rapaz. Esperava que ele demonstrasse pelo menos dor, seria um indício de que estava acordado.
— Fica comigo, Ikki... Fica comigo... Fica comigo...
Ele mesmo já acreditava que não seria capaz de voltar, quando conseguiu dar o primeiro gemido gutural de dor.
— Por que... — Continuava a tentar concluir a frase incansavelmente, pois no fundo, estava certo de que conseguiria. Ainda tinha vida, afinal de contas. Era de se esperar que não por muito tempo, mas ainda tinha. — Por que me trouxe...?
Finalmente resmungou, antes de mover levemente as pálpebras pálidas para cima. Dali, nasceram as lágrimas que fizeram seu caminho pela lateral do rosto, desenhando uma fina linha sobre a camada de suor e poeira que cobria a pele morena. — Eu vou morrer mesmo... Não tem cura... — Continuou, enquanto mais lágrimas saltavam dos olhos que denunciavam o medo absoluto. — Sou caso perdido...
Hyoga se esforçava para limpar o ferimento com tudo que tinha em mãos. Precisava da perna alheia limpa para o que faria a seguir. Apertou ainda mais o cinto em torno do joelho de Ikki e ainda usou outra faixa de atadura para reforçar o torniquete. Estava determinado. Iria parar a infecção. Talvez foi o instinto de sobrevivência que impediu que o moreno soltasse a katana que tinha em mãos e Hyoga agradeceu por isso. Enquanto pegava a arma, inclinou-se sobre o corpo dele, encostando as testas, falando com o rapaz para mantê-lo acordado.
— Você foi incrível lá... Muito bem, amor... Estou orgulhoso, você é muito forte... É o meu herói...
E era verdade. Ikki havia protegido sua retaguarda durante muito tempo, enquanto o russo vasculhava armazéns abandonados à procura de comida para os dois. Já perdeu a conta de quantas vezes acordou de noite e encontrou o moreno ofegante, provavelmente porque havia acabado de limpar a área de errantes que se aproximavam do acampamento improvisado. Ele nunca se deixou abater por cansaço ou fome. E agora estava ferido por ter se arriscado para proteger sua vida mais uma vez. Não deixaria que ele desistisse naquele momento. Estava proibindo-o de desistir. Molhou outra camada de ataduras com álcool e começou a limpar a arma com afinco. Deixou a lâmina extremamente limpa e esterilizada. Tudo estava pronto, menos seu psicológico. Era arriscado tentar aquilo, mas não tinha escolha. Deixá-lo morrer não era uma escolha. Voltou para perto do companheiro e segurou a mão dele, sem largar a espada, para que não se contaminasse novamente.
— Preciso que confie em mim... Você precisa confiar em mim, Ikki... Eu não consigo fazer isso sozinho... Eu preciso de você, preciso parar a infecção...
— Hyoga... O que pretende com isso... — Questionou, impulsionando o corpo para frente. A vista turvava a cada movimentos que fazia, mas estava desesperado pelo receio da dor e não da morte. — Se tiver que me matar agora pra não presenciar uma cena pior mais tarde... Saiba que não sentirei raiva de você... Desde que lute pela sua vida e sobreviva... — Prosseguiu, sentindo as lágrimas fugirem mais e mais do controle e levarem consigo a firmeza na voz que havia acabado de recuperar. — Eu realmente espero que essa seja a sua escolha por ser corajoso... Vamos nos encontrar em um lugar melhor, Pato... — Respondeu, inclinando o pescoço para trás, e fechando os olhos. Sentia o coração disparado como nunca antes em toda a sua existência. Mas não poderia pedir pelo contrário, seria egoísmo demais. — Leve minha aliança com você. Quando quiser.
Estavam ficando sem tempo. Precisava fazer rápido, antes que a infecção se espalhasse mais. Por fim, calou o marido com um beijo, tentando passar a ele toda a coragem que sentia naquele momento.
— Você não vai morrer. Eu te proíbo de morrer, Ikki Amamiya. Eu só preciso que confie em mim. Se confia, fecha os olhos... Vai acabar rápido...
Hyoga também chorava, não pelo que precisava fazer, mas por tudo que passam até ali e por precisar fazer aquilo ao moreno. Era a única alternativa.
— Quando... Quiser.
A resposta do marido o impulsionou a prosseguir. Daria certo. Ikki era forte, e o loiro faria de tudo para tratar o ferimento em seguida. Por fim, afastou-se e deitou o maior novamente, fechando os olhos dele com uma das mãos. Ficou de pé e se posicionou. Precisava ser rápido e firme naquele momento. Então, tomou uma última respiração profunda
e
com um movimento
rápido
certeiro
apunhalou-o com a espada.
Só levou um segundo.
A lâmina da espada, inegavelmente afiada, separava o corpo de Ikki do pedaço mordido da perna.
Hyoga então correu para enrolar a perna do marido com camadas e mais camadas de ataduras. O corte havia sido feito exatamente na articulação do joelho, onde seria mais fácil de cortar. O russo apertou firme as faixas e, com a ajuda de uma caixa de papelão, manteve a perna dele erguida. Logo após terminar o curativo, sentou-se ao lado de Ikki e puxou a cabeça dele para seu colo, passando a acariciar os cabelos pretos da forma mais calma que conseguia.
— Shh... Acabou... Está tudo bem... Estou aqui... Vai passar....
Ikki por um momento ficou surdo. Não ouvia barulho, não ouvia respiração, não ouvia seus batimentos cardíacos, só sentia uma pressão interna forte, como se já estivesse morto. Seus olhos se abriram no momento em que fora atingido pela lâmina. Daquele jeito ficou. O moreno não piscava, nem tinha um ponto fixo para olhar. Estava apenas em um estado de choque tão profundo que nem o ar conseguia empurrar para os pulmões direito. Sentiu quando Hyoga o trouxe para si e passou a acariciá-lo. Talvez estivesse recuperando a audição aos poucos naquele momento, mas ainda era um homem em choque. Choque absoluto. Nada explicaria a dor de ser amputado acordado, sem anestesias, sem o privilégio de não precisar sentir parte do seu corpo sair de você por meio de um corte. A mágoa emocional era ainda maior. Inválido. Daria muito trabalho dali pra frente, se sobrevivesse. Correr é o essencial para sobrevivência em um mundo cercado de zumbis e ele não teria mais essa chance.
Todas as lágrimas que Hyoga se recusou a deixar rolar, agora vinham como cataratas. A dor preenchia seu coração de tal forma que sua garganta se fechava com tantas lágrimas. Estavam juntos há quinze anos, desde quando terminaram a faculdade. Quinze anos de amizade, lutas, amor, desavenças, dificuldades financeiras... Experiência suficiente para saber que acabara de ferir o orgulho de seu marido. Não havia nada que o desestabilizasse mais do que ser dependente. Mas estava desesperado. Estava com medo. E agora orava para qualquer divindade que estivesse ouvindo naquele momento, com todas as forças para permitir que desse certo. Em troca, prometeu que encontraria um jeito de fazê-lo andar novamente. Mas naquele momento, tudo que Ikki precisava fazer era algo que ele sempre fez e não seria diferente agora: confiar em Hyoga.
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