Trust Me

2 Capítulo 2 – Tensão


Notas iniciais
Oioi eu não esqueci dessa história, demorei, mas postei o segundo capítulo. Se alguém ainda estiver interessado em ler, segue em frente =)

Sexta-feira 7:13h

Acordei com o som da campainha tocando e levantei a cabeça recostada na cama, sentindo meu pescoço doendo. Virei pra janela e olhei a claridade do dia até que me caiu a ficha de que eu tinha dormido. Voltei rapidamente para Bernardo pra medir sua respiração. Fiquei aliviada ao confirmar que ele ainda estava respirando; quando coloquei a mão em sua testa, entretanto, senti que estava razoavelmente quente, isso não era nada bom. A campainha voltou a tocar, foi quando eu finalmente olhei para o relógio e levantei sobressaltada.

— Caramba! Já passou das sete, eu estou muito atrasada para o trabalho. – corri para abrir a porta da sala, pois eu já sabia quem estava tocando.

— Bom dia dona Laura, a senhora ainda está em casa a essa hora?! – Neide me cumprimentou ao entrar e parou abruptamente encarando minha roupa. – Meu Deus, o que aconteceu?

— Ah! – segui o olhar dela para minha roupa branca do dia anterior que eu não havia trocado e estava cheia de sangue de quando ajudei Bernardo a se levantar. – Aconteceram alguns imprevistos... eu já te conto, só tenho que ligar pra Érika pra avisar que eu vou me atrasar.

— Está bem. – ela respondeu receosa, mas seguiu pra cozinha, enquanto eu corri pra fechar a porta do quarto de visitas e em seguida liguei pro consultório.

— Consultório Veterinário Laura Sanders, bom dia. – a voz cadenciada da Érika atendeu do outro lado.

— Érika, sou eu. Eu tive um imprevisto, só vou chegar oito horas. Encaixa as consultas de agora pra mais tarde.

— Está bem. Posso ajudar em mais alguma coisa dona Laura?

— Não, só isso mesmo... está tudo em ordem ai? – perguntei com receio de ter esquecido algo fora do lugar na noite anterior.

— Está, sim. Posso passar a primeira consulta pro Doutor Afonso? Ele tem uma abertura entre sete e meia e oito horas.

— Faça isso, por favor! Até mais. – desliguei o telefone e abri minha bolsa na mesinha da sala, pegando o frasco de anti-inflamatório e a seringa, observando se a Neide não estava olhando e fui até o quarto de visitas fechando a porta atrás de mim. Caminhei até Bernardo que continuava inerte e com inicio de febre.

Tirei a seringa da embalagem, encaixei a agulha e enfiei no frasco puxando o conteúdo, depois apliquei no cateter em seu braço. Observei sua face plácida com o cabelo castanho escuro e uma leve franja lateral, despenteado. Sua face era fina com a barba mal aparada e sua pele tinha um tom café com leite.

— Da onde foi que você surgiu? – divaguei comigo mesma preocupada com o quê eu estava me metendo. Depois afastei esses pensamentos e levantei indo pro meu quarto tomar um banho rápido e trocar de roupa.

Quando sai do banho, fui até a cozinha onde a Neide estava.

— Você nem comeu o que deixei pra você ontem, estou passando o café. Aproveita e senta aqui pra comer um pãozinho.

— Obrigada Neide, um café vai ser ótimo pra me acordar! – beijei ela carinhosamente na bochecha e sentei na mesinha da cozinha pra comer o pão quentinho na manteiga que ela deixou pra mim. Eu conhecia a Neide desde o colegial, mais do que uma cozinheira, ela era uma segunda mãe. – O que seria de mim sem você?

— Você ia morrer de fome! – ela ironizou.

Soltei uma risada alta.

— Pior que é verdade. – olhei pro relógio e era sete e quarenta e dois. Peguei o pão e enfiei rapidamente goela a baixo, tomando o café pra descer o resto e levantei pra não me atrasar ainda mais no trabalho.

Quando peguei a bolsa, parei por um instante olhando a porta do quarto onde Bernardo estava e respirei fundo refletindo sobre o que fazer. Eu não podia simplesmente deixar a Neide sozinha com um desconhecido na casa, sem informar nada a ela. Se ele acordasse, poderia fazer algo contra ela; por outro lado se ele não acordasse, isso poderia ser um risco pra ele.

— Neide, vem cá, preciso da sua ajuda pra uma coisa. – chamei ela na sala.

— Sim, o que foi? – ela veio andando com o pano de prato nas mãos.

— Seguinte... você perguntou o que aconteceu quando viu minha roupa suja. Eu vou te contar, mas não fique alarmada, ok? – eu respirei fundo pensando em como contar. – Ontem quando eu estava saindo do consultório, eu encontrei por acaso um antigo conhecido da época de colégio. Ele tinha sido assaltado e agrediram ele.

— Ah, que horror! – ela levou as mãos ao rosto, chocada.

— É, então, eu tentei leva-lo para o hospital, mas ele tem pavor de médico, então eu acabei ajudando ele e... eu trouxe ele pra cá. – ela ergueu as sobrancelhas surpresa. – Ele está ai no quarto de visitas, mas ele tá dormindo, eu dei um sedativo pra ele descansar e não sentir dor, então ele deve permanecer dormindo por um tempo. – eu abri a porta do quarto de visitas para que ela o visse, depois fechei voltando a falar com ela. – Eu preciso que você venha de vez em quando ver como ele está, você faria isso por mim, por favor?

— Claro! Pode deixar, se ele é seu amigo, eu farei isso.

— É... não é bem meu amigo, eu me lembro dele da escola, mas a gente não conversava muito, então eu não tenho intimidade com ele, mas ele estava precisando de ajuda, então eu ajudei. – seria ruim demonstrar uma intimidade que eu não pudesse manter depois. – Outra coisa, ele está com um pouco de febre, eu acabei de dar um anti-inflamatório, mas eu preciso que você confira se ela não sobe de novo. Qualquer coisa, você pode me ligar no consultório. Apenas peça pra passar o telefone pra mim, eu não quero que essa história chegue no pessoal do consultório, se não eles ficam se metendo demais.

— Eu entendo Laura, pode deixar. Eu sou burra velha em cuidar de gente doente, tive que cuidar dos meus três filhos, pode deixar que eu vou cuidar desse ai muito bem, pode ir sossegada. A propósito, qual o nome dele?

— É Bernardo. Obrigada Neide, você é demais. Vou indo.

Sexta-feira 8:05h

Cheguei afobada ao consultório cumprimentando Érika rapidamente.

— Bom dia Érika! Pode ser que a Neide me ligue mais tarde, você pode me passar, ok?

— Está bem Laura.

Fui direto pra minha sala. O primeiro paciente era um Setter Irlandês.

— Olá, tudo bem Marta? – cumprimentei a dona do cão. – Como está o Mike?

— Então, ele não está muito bem, não. Já faz alguns dias que ele não tem comido muito e ele anda estranho, ora ele fica quieto, ora ele fica se coçando irritado, mas eu passei antipulga nele, está tudo em dia, não sei o que está acontecendo.

— Humm vamos ver o que está acontecendo com esse rapaz. – peguei ele e coloquei em cima da mesa de atendimento. Apalpei a barriga, examinei as patas, enquanto ele balançava a cabeça de um lado para o outro incomodado. Notei um odor forte, então examinei sua orelha e descobri o problema. – Olha, está vendo esse excesso de cera no ouvido dele? É isso que o está incomodando, ele está com otite. É algo comum na raça dele, por possuir orelhas longas. Eu tenho que avaliar em que grau já está avançado, mas geralmente é um problema relativamente simples de resolver. Basta limpar bem os ouvidos e tratar com remédio próprio. Eu vou mostrar como faz pra limpar e você pode trazê-lo novamente aqui ou pode realizar esse procedimento em casa mesmo. Vamos ver como ele vai reagir.

Depois da consulta, sai por um breve momento para o corredor de encontro ao próximo paciente, quando minha assistente de administração, Lígia veio até mim.

— Laura, olha, eu chequei os nossos materiais como de costume e tem algumas coisas faltando, é estranho, por que ontem antes de ir embora, eu tinha verificado e estava tudo certinho. – Meu coração começou a bater acelerado, eu precisava criar uma desculpa rápido. — Mas agora a conta não está batendo, está faltando dois frascos de anti-inflamatório, dois sedativos, uma manta...

— Fui eu! – a interrompi rapidamente. – Acontece que ontem ao sair eu encontrei um cachorro atropelado na rua, eu precisei pegar o material do consultório pra tratá-lo.

— Nossa, é sempre horrível quando isso acontece. Mas onde está o cachorro? Eu não vi nenhum animal novo na sala de internação. Ele tinha dono?

— Não, infelizmente ele parecia abandonado por isso o levei pra minha casa.

— Quem parecia abandonado? – Afonso estava vindo na minha direção com o jaleco branco balançando pra lá e pra cá com o seu andar compassado e sua forma corpulenta de um metro e noventa fechando o corredor.

— Err... um cachorro que eu encontrei acidentado ontem a noite – essa mentira estava ficando cada vez maior.

— E porque não me chamou para ajuda-la? – ele passou a mão pelos cabelos pretos com gel.

— Não havia necessidade, já estava bem tarde e eu pude dar conta sozinha.

— Humm e de que raça é?

— Vira-lata! – Pensando bem, isso não estava muito distante da realidade. Bernardo era como um cão vira-lata que eu encontrei abandonado e cuidei. O porém é que esse cão tem um passado e eu espero não ter que lidar com isso.

— E o Nic não está com ciúmes do novo colega? – perguntou a Lígia sobre o meu cachorro.

— Ah o Nic está na fazenda da minha prima, a gente reveza pra cuidar dele, porque eu não posso ficar em casa o tempo todo, ela ficou de trazer ele aman... – a palavra morreu na minha boca. De repente eu me dei conta de que eu teria a visita da minha prima, ela costuma entrar em casa e ficar conversando pra caramba, o que eu ia fazer com Bernardo em casa?

— O que foi? Eu posso passar na sua casa mais tarde se quiser ajuda com o novato. – ofereceu Afonso.

— Não há necessidade... – eu tentei não parecer desesperada. – ele é bem calmo, quase não dá trabalho e também...

— Doutora Laura, o próximo paciente está esperando. – Érika me salvou.

— Bom, eu tenho que ir, depois falamos sobre isso. – Eu me esquivei com o coração na mão e entrei de volta na minha sala.

Sexta-feira 12:05h

Eu estava terminando uma consulta, quando a Érika me passou uma ligação.

— Alô?

— Oi, Laura? É a Neide!

— Oi Neide, pode falar!

— Você pediu pra mim te ligar se precisasse... então, é o Bernardo, a febre está aumentando, até as 11h estava estável, mas depois ele começou a ficar cada vez mais quente, eu fiz algumas compressas e fechei a cortina do quarto porquê o sol está subindo, mas eu estou ficando preocupada, a febre está subindo muito rápido.

— Entendi. Seguinte, eu vou sair daqui a pouco por que já é hora do almoço e vou direto pra aí!

— Ok, estou te esperando!

Desliguei o telefone e terminei a consulta, pegando minha bolsa e indo pra recepção.

— Érika, me faz um favor, desmarca as consultas de amanhã e encaixa na semana que vêm pra mim, eu vou ter que resolver uns problemas pessoais amanhã. – já estava complicado ter que lidar com um desconhecido desfalecido na minha casa e trabalhar com isso na cabeça, seria melhor se eu evitasse passar pelo mesmo no dia seguinte, pensei comigo.

— Tá certo Laura!

— Obrigada! Até daqui a pouco.

Fui até o carro e passei numa farmácia antes de ir pra casa pra comprar ibuprofeno. Ao sair da farmácia, meus olhos se direcionaram para uma loja de roupas ao lado. Eu vi algumas calças masculinas logo na frente e pensei que Bernardo estava praticamente sem roupa para vestir quando acordasse. Fiquei uns segundos em frente da loja, pensando se fazia isso ou não até que decidi entrar. Comprei uma muda de roupas, em um tamanho aproximado ao dele e fui pra casa.

— Neide? – chamei ao entrar em casa.

— Oi? Estou aqui. – ouvi sua voz saindo do quarto de visitas.

Andei até a porta e vi ela curvada ao lado da cama onde Bernardo estava deitado e aparentemente ainda inconsciente.

— Ele não teve nenhuma reação enquanto eu estava fora? – perguntei pra ela ao me aproximar.

— Não. Quer dizer, ele solta uns murmúrios de delírio às vezes, mas nada além disso... Ele está muito quente. – Neide tirou a compressa da testa dele e molhou na bacia ao lado para colocar de volta na testa de Bernardo em seguida.

Eu coloquei as roupas que comprei em cima da cômoda e me dirigi até ele pra sentir sua testa ardente. Saquei o frasco de ibuprofeno com a seringa da bolsa, aplicando o conteúdo no cateter. Depois puxei seu braço pra sentir a pulsação.

— Não seria melhor levar ele à um hospital? – perguntou Neide.

Eu respirei fundo e olhei pra ela pensativa.

— Vou tentar controlar a febre por mais um tempo, com a dose que eu dei agora, acredito que a febre irá baixar, mas se a temperatura não se estabilizar até a noite, eu o levo... Eu gostaria de manter minha palavra com ele, entende? Mas se isso colocar a vida dele em risco, eu serei obrigada a fazer o que for melhor.

— Tudo bem. – ela passou as mãos nas minhas costas me apoiando.

— Ah, preciso da sua ajuda em uma coisinha. – levantei e peguei a sacola de compras na cômoda e estendi a calça com a cueca.

— Ele tá pelado? – a Neide me perguntou surpresa. – Ah claro, eu vi as roupas na lavanderia!

— Não me julgue. Estava tudo sujo de sangue. – eu contive um sorrisinho. – Seria melhor vestir pelo menos a parte de baixo, não?

Puxamos o cobertor pro lado e começamos a colocar a cueca.

— Olha, bem dotado o rapaz.

— Neide! – eu disse em tom repreendedor, olhando chocada pra ela.

— O quê? É verdade. Na minha idade eu não tenho mais que ser pudica com o que falo.

— Tá, mas... ainda bem que ele está dormindo. – olhei pra cima pra ter certeza de que ele não tinha aberto os olhos.

— Você está parecendo mais velha do que eu Laura. Menina, desfrute mais da vida, aproveita que você ainda pode.

Eu ri daquela situação sem falar mais nada, enquanto terminávamos de vestir o rapaz e eu aproveitei pra trocar suas bandagens, verificando como estavam os pontos da cirurgia, limpando e cobrindo-o novamente em seguida. Depois fomos pra cozinha.

— Senta ai que eu vou passar seu prato. Hoje tem lasanha pro almoço.

— Opa, que delícia.

— Eu vou deixar uma sopa pronta pra a noite, pro caso do garoto acordar.

— Obrigada Neide. – sentei-me à mesa, enquanto colocava um pouco de suco de laranja num copo pra beber.

— Você quer que eu fique aqui até você chegar?

— Eu já estou pedindo tantas coisas pra você hoje. Não vai te atrapalhar ficar até tão tarde?

— O meu único problema é o ônibus, você vai chegar que horas?

— A última consulta é as 18h, mas até fechar tudo... eu consigo chegar por volta de 19h se eu me apressar.

— Então dá pra mim esperar. – ela colocou o prato na minha frente e meu estômago roncou em resposta àquele cheirinho maravilhoso.

— Obrigada Neide, você não existe! – segurei nas suas mãos com carinho e em seguida me servi.

Sexta-feira 18:48h

Ao chegar em casa e me despedir da Neide, larguei a bolsa no sofá e fui ver como Bernardo estava. Finalmente sua febre havia baixado, embora ele ainda estivesse quente. Ao suspirar aliviada, voltei pra sala e me joguei cansada no sofá, sentindo o peso de uma noite mal dormida e um dia sobrecarregado. Fiquei alguns instantes olhando pro teto sem prensar em nada até me levantar e encher um prato de sopa, me sentando na mesa da cozinha para comer.

O caldo quente desceu por dentro aquecendo meu estômago dando aquela sensação gostosa de comidinha caseira. Eu estava na metade do prato quando escutei um barulho de baque na cômoda vindo do quarto de visitas. Levantei sobressaltada e corri para o quarto, abrindo a porta e ligando a luz. Bernardo estava caído no espaço entre a cama e a cômoda, enrolado no fio do soro e encostado na parede tentando se reerguer ofegante. Quando fui em sua direção ele colocou a mão na frente dos olhos cegado pela luz acesa e se encolheu para trás receoso.

— Calma, sou eu! – me agachei na sua frente – Você pediu minha ajuda na clínica veterinária, lembra? Você estava ferido... lembra disso?

— Aham... – ele me olhou confuso tentando organizar as memórias, depois olhou ao redor com os olhos semicerrados. – Que lugar é esse? Não era assim...

— Não... – refleti antes de dizer — Você está na minha casa. Você estava demorando pra acordar, então eu te trouxe pra cá.

— Sozinha? – ele me olhou descrente.

— Sim. – eu vi a incredulidade em seus olhos e mudei de assunto – Vamos, eu te ajudo a levantar. – me levantei e estendi as mãos para ele; depois de um certo receio, ele estendeu a mão direita para mim, apoiando a outra na cama, se sentando com o rosto retorcido de dor.

— Você disse... – ele estava respirando com dificuldade – ...eu demorei pra acordar?! Que horas são?

— Agora é sete e vinte... – puxei gentilmente seu braço direito vendo que a agulha do cateter já estava metade pra fora devido o puxão que ele deu quando caiu e estava vazando um pouco de sangue.

— Da manhã? – ele olhou pra janela – Mas está escuro...

— Err, não, é da noite! – peguei um pedaço de algodão da cômoda e pressionei o local da agulha, retirando o cateter. Ele retorceu o rosto com dor.

— Como assim? Parecia ser mais tarde quando...

— Bernardo, hoje é sexta-feira, você apareceu ontem à noite no meu consultório.

— O quê...? Você me dopou? – ele me olhou com as sobrancelhas serradas e tentou recuar, mas eu o segurei firme pelo braço.

— Não me insulte! Se eu não quisesse que você acordasse, você ainda estaria sedado agora. – o encarei sobre os olhos — A verdade é que você ficou em coma temporário. Você perdeu muito sangue, é natural que seu corpo precisasse de um tempo pra reagir.

— Como sabe o meu nome? – ele desviou o olhar e esfregou a mão na barriga por cima dos curativos.

— Estava na sua carteira. – eu fiz um movimento para que ele dobrasse o próprio braço para manter o algodão no lugar.

— Eu preciso ir embora. – ele começou a se levantar, mas seu corpo começou a tombar pra trás e eu o amparei sentando-o de volta.

— Olha, saco vazio não para em pé. Eu vou buscar um prato de sopa pra você. Não faça nada precipitado!

Eu levantei e fui pra cozinha, peguei um prato no armário e enchi de caldo, voltando pro quarto.

— Aqui. Cuidado que está quente. – entreguei pra ele temendo que ele estivesse fraco demais pra segurar o próprio prato. Ele recebeu em silêncio e começou a comer. – Eu vou terminar de comer, qualquer coisa me chama. – voltei pra pegar meu prato, encher mais um pouco de sopa e sentei de novo na cozinha. Que situação desconfortável, eu não posso deixar um completo estranho em minha casa, mas ele não está em condições de ir embora nesse estado. O que eu vou fazer?

Terminei meu prato e quando estava lavando, escutei o som de uma porta fechando, me estiquei pra ver o que era e vi que Bernardo foi ao banheiro do quarto de visitas.

— Até que esse rapaz tem certa resiliência. – comentei comigo mesma, surpresa por ele ter conseguido se levantar sozinho.

Depois de algum tempo ele saiu do banheiro e veio até a porta do quarto se escorando.

— Eu... agradeço pelo que você fez por mim. Eu vou embora agora.

— Humm... – eu o olhei de cima a baixo, ainda sem camisa, com o dorso enfaixado. Ele vestia apenas a calça que eu havia colocado nele mais cedo. Seu corpo magro e fragilizado não me transmitia nenhum tipo de confiança de que aquele rapaz chegaria até a esquina de casa sem cair na calçada. – Está bem. – eu disse por fim – A porta está aberta, você pode sair quando quiser.

— Minha carteira...

— Está na mesinha. – apontei a cabeça pra mesa de centro da sala, enquanto eu secava os pratos. – Tem uma camisa na cômoda do quarto também, pode pegar já que picotei a sua.

— Obrigado! – ele andou cambaleante até a mesinha da sala e quando se curvou pra pegar a carteira, claramente começou a tombar pro lado. Eu corri da cozinha para ampará-lo, mas ele conseguiu se apoiar antes de cair.

— Eu posso chamar um taxi pra te levar em casa. – cogitei enquanto me aproximava.

— Não precisa. – ele desviou o olhar pro chão.

— Você tem uma casa? Um familiar pra cuidar de você?

Ele permaneceu em silêncio.

— Está bem... – respirei fundo. – Como pretende ir emb...

— Você já fez mais do que o suficiente por mim. Eu vou parar de incomodá-la. – ele se esforçou pra ficar ereto na minha frente e me encarou com seus olhos cor de mel em um semblante cansado, seu peito emanava um calor febril e sua testa estava levemente suada. Em pé ele era um pouco mais alto do que eu. Apesar de haver um esforço da parte dele em transparecer pujança, notava-se a fragilidade em sua condição. – Eu agradeço por tudo, embora não tenha como te pagar pelo que fez por mim, sendo sincero.

— Eu não vou te cobrar, não se preocupe com isso. – virei as costas para voltar pra cozinha sem saber o que fazer diante daquela situação. Ele não é um problema meu e eu devo agir como tal tentei dizer à mim mesma.

— Nesse caso, eu vou indo, então. Se não se importa vou aceitar a camisa que me ofereceu. – escutei seus passos pesados atravessando a sala até que ouvi um som de gorfar e quando me virei, ele se apoiava na batente da porta enquanto esmorecia ao chão.

— Bernardo! – Me apressei ao seu lado. Coloquei as mãos em suas costas quentes enquanto ele se curvava pra frente e vomitava toda a sopa. Seu corpo espasmava devido ao esforço e eu temi que seus pontos arrebentassem. Levantei pra pegar um pano na cozinha e limpar sua boca. Ele virou o rosto contra a parede tentado não me encarar enquanto seu corpo tremia violentamente. – Está tudo bem! – tentei acalmá-lo. – É normal sentir enjoo após anestesia.

— Desculpa... – ele balbuciou entre um arfar e outro. Apoiou a mão na parede e tentou se levantar sem sucesso.

— Calma, respira fundo! – coloquei a mão em seu peito. – Se acalma. Essas coisas acontecem.

Ele inspirou uma grande lufada de ar e fechou os olhos enquanto recostava na parede tentando conter o tremor.

— Acho que eu tenho um antiemético aqui. – me levantei e fui pra cozinha.

— Anti o quê? – Bernardo balbuciou.

— É remédio pra vômito. – falei enquanto vasculhava o armário de remédios.

— Não precisa, eu já estou indo...

— Não diz besteira. O máximo que você vai conseguir é desmaiar na frente do meu portão desse jeito... Achei! – peguei a caixa de plasil e enchi um copo de água com duas colheres pequenas de açúcar e uma de sal, misturei, peguei um comprimido do remédio e voltei para sala. – Aqui, toma isso, é soro caseiro, vai descer melhor.

Ele pegou o copo e o comprimido tomando devagar. Enquanto isso peguei outro pano na lavanderia e coloquei no chão por cima do vômito.

— Eu só estou te causando mais problemas. – ele falou sem me encarar.

— Escuta, você não precisa ficar se desculpando por tudo que acontece. Seu corpo não está cem por cento, já é muito você ter conseguido ficar de pé.

— Eu só preciso de alguns minutos...

— Tá tá, me faz um favor, para de se iludir! – ele me encarou surpreso. – Eu já te trouxe pra cá mesmo. Se você dormir aqui uma ou duas noites, não vai fazer diferença. Claramente você não tem condições de sair agora, então não tenta. Você nem podia estar fazendo o esforço que fez depois de tão pouco tempo de cirurgia. Eu não vou te impedir de ir, se é o que você quer, mas me pouparia o trabalho de catar teu corpo na rua, porque é o que vai acontecer.

— Eu não posso ficar aqui. – seu olhar estava levemente vago.

— Mas também não está em condições de ir embora. – estiquei a mão para sua testa. – Sua febre está aumentando novamente. Consegue levantar?

— Acho que sim...

O apoiei de volta ao quarto e ele desabou na cama.

— Fica aqui até se sentir melhor. Eu vou trazer um pão pra você.

— Eu não quero comer nada.

— Eu sei que o seu estômago está sensível, mas você vai ter que se forçar a comer ou não vai conseguir melhorar.

Eu saí do quarto terminando de limpar o chão e depois peguei um pão na cozinha.

— Eu vou deixar aqui. – coloquei o pão sobre a cômoda. – Quando estiver se sentindo melhor, tenta comer. Talvez algo seco estabilize melhor no estômago do que sopa. Agora deixe-me dar uma olhada nesses pontos, espero que não tenha arrebentado. – desfiz as bandagens e analisei o ferimento, estava um pouco inchado, mas os pontos não tinham rompido felizmente. Bernardo olhava pra parede pra não me encarar, enquanto ficava um silêncio estranho entre nós. Limpei o ferimento com um pano úmido esterilizado e ele se retesava de dor enquanto eu o envolvia com novas faixas.

— Desculpe, eu não sei seu nome até agora. – ele finalmente se pronunciou.

— É Laura.

— Obrigado Laura.

— Por nada! Olha, o anti-inflamatório por via intravenosa funcionaria mais rápido, mas eu não quero te machucar colocando agulha no seu braço de novo, então eu vou deixar a cartela com comprimidos aqui, o ideal é que você tome um a cada 6 ou 8 horas. A última dose que eu te dei era no almoço, então você pode tomar agora, mas seria bom que você comece alguma coisa, porque excesso de remédio em cápsula vai acabar doendo o estômago. Não esquece de tomar, está bem? Você está muito quente, é importante controlar a inflamação o quanto antes. – olhei pro relógio, já era oito e quarenta da noite. Tudo que eu queria era tomar um banho e ir pra minha cama. — Precisando de alguma coisa, é só chamar, eu vou estar no quarto o lado. – me levantei e andei até a porta.

— Está bem.

— Eu vou deixar a luz acesa pra você, melhor assim?

— Pode ser.

— Ok, boa noite.

Fechei a porta atrás de mim, arrumei a sala, desliguei as luzes e fui pro meu quarto, Quando fechei a porta, olhei pra fechadura e pensei se trancava ou não. Obviamente Bernardo não estava em condições sequer de andar, quiçá de roubar ou tentar algo contra mim, mas por via das dúvidas eu deveria me assegurar. Virei a chave do meu quarto e tirei a roupa indo pro banho relaxando maravilhosamente debaixo da água quente. Depois de secar o cabelo, desabei na cama e apaguei aliviada por não ter que trabalhar no dia seguinte.

Notas finais
Eu adoro adicionar uma carga dramática às minhas histórias, espero não ter exagerado rs Ainda tem muita coisa pra acontecer em Trust Me, por favor acompanhem e deem sua opinião. Bjoo
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.