Acordei várias vezes na madrugada e Toyo me deu remédios para parar os enjoos. Sabia que gravidez não poderia ser porque fazia horas que tínhamos transado e que isso não seria espontâneo. Depois de tomá-los parei de enjoar e consegui dormir com muito custo.

Só levantei depois das onze e notei que Toyo não estava no trailer. Não o vi na cozinha, na sala ao meu lado e nem no banheiro, mas quando saí na janela para espiar vi que ele chegava com uma sacola na mão e corri para a cama de novo. Fingi que estava dormindo enquanto observava ele entrar, deixar as sacolas na cozinha e vir até mim. Ele me deu um beijo na testa e inventei que acordei naquela hora.

– Bom dia preguiçosa.

– Bom dia pra quem passou mal a madrugada inteira.

– Desculpe, sinto muito.

– Relaxe, estou melhor. — sorri.

– Bom vamos pra sua casa hoje?

– Sim, vamos. Quando?

– Agora?

– Agora. Vou me trocar e já saímos.

– Ok, quer comer alguma coisa?

– Não obrigada, comemos em casa. — me troquei como um foguete. Vamos?

– Sim vamos. — ele me beijou.

Saímos do trailer e começamos a andar pela mata de mãos dadas porém em silêncio. Víamos os animais e plantas enquanto andávamos, sorríamos um para o outro e ele me ajudava a passar por algumas raízes maiores. Levamos de meia a uma hora andando até chegarmos ao final da praia onde entraríamos na outra mata que daria para as costas de minha casa.

Chegando na praia Toyo se transformou em lobo e subi em suas costas para irmos mais depressa. Mesmo assim levamos de trinta a trinta e cinco minutos para chegar até atrás de casa. Sai da mata primeiro para ver se tinha alguém ou algo que denunciasse que ele estava ali de volta ou que o lobo que aparecera da tv voltou para assombrar a redondeza. Felizmente não tinha nada.

Corremos para casa e entramos pela varanda. Subimos as escadas e fomos direto para meu quarto e nem notei se minha mãe estava, mas me parecia que não. Entramos e tranquei a porta. Recuperamos nossos fôlegos, nos entreolhamos e dissemos que tínhamos conseguido fugir de tudo e de todos. Ficamos felizes mais ainda lutávamos pelo ar.

– Conseguimos. — ele disse.

– Sim conseguimos. — confirmei e ele me beijou.

– Bom vamos ver se essa mensagem é mesmo verdadeira.

– Sim vamos.

Passamos uma parte da tarde trancados investigando se aquela mensagem enviada de um parente próximo de Kanji era mesmo verdadeira e pulamos de alegria quando vimos que era mesmo de verdade. Descobrimos também que ele viajaria dali a alguns dias para o exterior e decidimos agir. Tomei a liberdade de ir a delegacia e denunciar tudo que havíamos descoberto sobre ele. Decidimos que era melhor eu ir sozinha para não piorar a situação de Toyo e nem por tudo a perder.

– Boa tarde senhorita. — disse o investigador que fumava na porta da delegacia.

– Boa tarde senhor. Gostaria de saber se o policial, é ... — li o nome no cartão que aquele policial que batera duas vezes em minha porta me dera. — O senhor Ren está.

– Sim ele está, do que se trata? — ele jogou o cigarro fora e me encarou.

– Posso falar com ele? — me mantive firme.

– Sim, mas do que se trata?

– Só ele sabe e pode me ajudar já o conheço.

– Ok, vou chamá-lo. Pode esperar naquela sala?

– Sim.

A sala era pequena e apertada, só tinha uma mesa com duas cadeiras, uma na frente para eu sentar e outra atrás para o policial sentar. Um computador estava em cima da mesa cheia de papeis e um armário do lado direito da mesa cobria quase toda a parede. Me sentia presa como bandidos ficam quando vão para um interrogatório mas me mantive calma.

Fiquei olhando para cima e para as paredes enquanto esperava o policial chegar. Liguei para Toyo para dizer que tudo estava correndo bem e que o plano iria mesmo dar certo, e comemoramos pelo telefone mas nossa conversa foi interrompida pelo abrir da porta e entrada do policial na saleta. Me despedi fingindo ser minha mãe e dizendo que ligaria depois. O policial me cumprimentou e eu comecei a dizer o porquê de estar ali.

– Então quer dizer que você sabe onde está Kanji? — ele perguntou curioso.

– Sim sei.

– E como descobriu? — ele me olhou desprezivelmente.

– Investiguei tudo, fui atrás de parentes e achei. — respondi fria.

– Sim.

– E ele vai fugir em poucos dias.

– Como?

– Isso mesmo, ele vai fugir para o exterior.

– Não vai conseguir.

– Espero.

– Mas espere, como saberei que isso é verdade? — ele voltou atrás.

– Tenho provas. — respondi certeira.

– A é? E onde elas estão?

– Aqui. — peguei o computador e abri as conversas e pastas que tinha arquivados as provas, e mostrei ao policial.

– Meu Deus! Como fez tudo isso?

– A garota que ele matou era minha melhor amiga, prometi ajudar a pegar esse canalha por ter feito o que fez com ela.

– Ah, sinto muito por ela. — ele se solidarizou.

– Não sinta. — respondi sem mais.

– Está bem. Então vou enviar fotos dele a todos os aeroportos para que ele não consiga sair.

– Não.

– Não? — ele perguntou confuso.

– Não, ele é esperto e se ver alguma coisa dele voltara pra casa. Deve dar as fotos aos funcionários e pessoas próximas porque o que conheço de Kanji ele vai passar desapercebido e mudado. — entreguei.

– Como assim mudado?

– Ele não vai estar como está nas fotos.

– Como ele estará?

– Não sei, mas tenho uma dica.

– Qual?

– Ele tem uma marca de nascença atrás da orelha que vai até o pescoço. Não tem erro nem maquiagem que cubra.

– Obrigada senhorita tem ajudado bastante. — ele me incentivou.

– De nada. Faria tudo por Nara e estou fazendo o possível.

– Agradeço e pelas dicas também.

– De nada.

– Mas antes de ir tenho uma última pergunta.

– Sim. — olhei ironicamente para ele.

– Onde está seu amigo Toyo?

– Toyo?

– Sim.

– Não sei, não quero nem saber. Brigamos, bati nele e ele sumiu da minha vida.

– Ah entendo, mas mesmo assim se o vir me diga.

– Pode deixar.

– Acabamos então.

– Sim. — nos levantamos e ele esticou a mão para que eu apertasse. Apertamos ao mesmo tempo.

Peguei meu computador, guardei e sai da sala com um gosto de vitória. Andei até fora da delegacia e antes de ir para casa passei em um mercado para comprar sushis, temakis, norimakis e tempurás para comemoramos a denúncia sobre Kanji e que tudo desse certo quando ele fosse preso.

Cheguei em casa e Toyo estava na varanda sem camisa. Amava aquela visão.

– Oi. — respondi envergonhada.

– Oi. — ele me beijou. — Como foi lá?

– Tudo certo, estamos bem próximos de pegar Kanji.

– Que notícia boa. — ele me pegou no colo e girou.

– Sim, sim. Trouxe comida, vamos comer?

– Sim vamos. — ele me soltou e me deu um selinho.

Comemos até dizer chega e comemoramos bastante, mesmo ainda não tenho a prisão de Kanji e tudo no seu devido lugar. Estávamos cantando vitória antes da hora, mas sabíamos que correria muito bem o que planejamos. Toyo e eu estávamos feliz não só em fazer justiça, mas também em ajudar Nara a ter pelo menos um descanso em paz.

– Emi?

– Sim.

– Eu te amo e estou feliz em poder ajudá-la.

– Eu também te amo e obrigada Toyo.

– Já me ajudou tanto, devi essa a você mas ainda devo mais.

– Não me deve nada.

– Devo.

– Não se preocupe, não me deve. — sorri.

– Então tá. — nos beijamos