Truques Mortais

16 Capítulo 15 - Onde há Luz há Trevas


Notas iniciais
Olha que lindo! Eu bancando uma de mamãe noel postando o mega capítulo hoje, 24/12 21:37. Queridos... Antes de tudo, queria agradecer a linda recomendação que a querida Naomi deixou para Truques Mortais, fiquei muito feliz por isso. E, gente... Leiam o capítulo, a gente se fala lá embaixo... Como prometido o capítulo é o maior da fic, tem música e narração dupla. E o que falta? Ah, depois que vocês lerem este capítulo cheio de fatos e histórias vou deixar algumas opções de voto para vocês, mas isso lá embaixo para não dar Spoiler... Até mais... Ah, e é claro! Feliz Natal para todos vocês!

“ São cinco e meia da manhã de Segunda-feira. Não consegui dormir direito a noite toda, para um dia só acredito que fora muita informação. Disse que ia dar uma volta e acabei mais uma vez perdendo total controle de minhas ações. Me pergunto quantas pessoas mais que me cercam são tão diferentes e insanas. Fiquei surpresa com Mike, sempre foi um idiota e repulsivo, mas... Confesso que nem sei o que pensar sobre isso. Apesar de toda aquela confusão, espero que ele esteja bem, porém, prefiro que fique bem longe de mim.

Estou preocupada com Josh. Me sinto culpada por ele e, vez ou outra, quando lembro dele me sinto vazia e estranha. Procuro saber quem eu sou, mas essa busca está sem sucesso algum. Porém, o que me deixa ainda mais envergonhada e extremamente culpada é saber que o motivo de não ter conseguido dormir esta noite não fora Josh quase ter morrido ou eu ter sido perseguida por Mike e ele ter sido remetido a porradas... Não consegui dormir por causa dele, Scott Vitorino.

Estou começando a questionar minha briga com Juliet. Talvez ela esteja certa... Eu tenho roubado tudo dela. Talvez eu já tenha sido o centro das atenções demais. Ela foi bem clara no dia em que os novos alunos chegaram, ela queria que eu deixasse ele para ela. E, eu concordei. Nunca gostei de ninguém de verdade, nunca me apaixonei e achei que seria fácil cumprir esta promessa.

Dizem que quando nos apaixonamos percebemos na hora. Há uma mudança em você e em todos a sua volta, mas acredito que isso não se aplica a Scott Vitorino, com ele é impossível ter certeza de algo. Mas sim, ouve uma alteração, mas ainda não sei identificar meus sentimentos por ele. Talvez apenas me sinta atraída. Afinal, ele é realmente muito bonito e charmoso, mas... Além disso, tem o jeito como ele me olha. Ele me olha como se me odiasse e ao mesmo tempo não, me olha com firmeza como se o mundo pudesse acabar a qualquer momento. E verdade seja dita, eu adoro isso.

Ontem a tarde quando ele me beijou eu quebrei a promessa que fiz a Juliet. Ele me surpreendeu, mas não o impedi. Eu o queria também, só não sabia ainda. E, ele provou ser uma pessoa totalmente diferente do que aparentava pelo restante do dia. Scott seria perfeito se não guardasse tantos segredos, é impossível não notar que ele esconde algo... Isso me incomoda, mas naquela tarde não incomodou. Depois de sair do hotel em que ele me levara fomos dar uma volta pela Ilha. Paramos na praia e conversamos bastante. E meia-noite quando ele me deixou aqui no dormitório, mesmo indo embora, ainda não saiu de perto de mim. Não consigo parar de pensar nele e em como todos os meus planos e promessas para esse ano se desmancharam em cinzas.

Jennifer Green

Jennifer agora se encontrava deitada na cama. O cabelo castanho esparramado pelo colchão enquanto ela encarava o teto branco com o diário sob seu estômago. O quarto começava a clarear com a chegada da manhã. Na cama ao seu lado Juliet dormia virada para a parede. Por outro lado, a cama da frente estava arrumada e vazia. Holly não voltara para o dormitório, o que era estranho.

Sem conseguir dormir Jennifer se levantou em silêncio. Passou por Juliet que ainda dormia e entrou no banheiro. Tomou um banho gelado e ás seis e meia, já arrumada para a aula ela guardou o diário na gaveta da cômoda e ficou pensativa em sua cama.

— Holly não voltou?

Jennifer levantou a cabeça vendo Juliet sair do banheiro. Nem notara quando ela levantara, agora já estava prestes a sair. Procurava a bolsa.

— Não — Jennifer respondeu.

Um silêncio incômodo se formou depois que Juliet deu de ombros. Agora ela procurava a bolsa de baixo da cama, dentro do guarda-roupa e até no banheiro.

— Ela não estava com você na festa?

Juliet encarou Jennifer surpresa, como se pensasse que a conversa já havia sido terminada.

— É, ela estava — Concordou — Quer dizer... Não.

Jennifer franziu o cenho. Juliet suspirou.

— Tá bom! Tá bom! — Juliet sacudiu as mãos — Não precisa me olhar assim... Sei o que está pensando e, sim! Saí estressada com você ontem... Bebi mais do que devia e, acho que tratei a Holly mal também. Depois disso ela saiu com uns amigos e não vi mais ela.

Jennifer balançou a cabeça com um sorriso fraco.

— Qual é o seu problema?

Juliet a encarou.

— Meu problema? — Ela se exaltou — Meu problema? Jennifer, acorda! O problema é seu! Eu estou cansada de olhar para você todos os dias. Você finge para os outros, os engana com esse seu sorriso falso, finge que tem o controle de tudo e que nada te atinge, mas acontece que eu te conheço desde o jardim de infância. Sei quando as coisas estão ruins e quer saber? Você está se afundando aos poucos.

Jennifer levantou da cama dando as costas para Juliet.

— Está vendo? — Juliet deu dois passos no quarto — Sabe que eu estou certa e já está indo embora, não é?

— Se o problema é meu porque se importa tanto? — Jennifer gritou com Juliet virando-se para ela.

— Porque quando algo da errado para você... Todo o restante tem que dar certo, e você não se preocupa em passar por cima dos outros para isso, passar por cima de mim.

Jennifer balançou a cabeça pegando a mochila e indo em direção a porta. Tocando a maçaneta Juliet falou mais uma coisa:

— Eu li a sua carta...

O coração de Jennifer pareceu parar por um instante.

— Eu sinto muito... Mesmo — A voz de Juliet era baixa — Mas se for preciso, eu vou fazer questão de trazer todo o seu passado de volta. Não pode fazer o que está fazendo. Dessa vez não vou estar perto para juntar os pedaços, Jenny.

Jennifer respirou pesadamente e por fim, sem dizer nada, abriu a porta e saiu do quarto deixando Juliet sozinha.

— Ainda bem que a minha aula só começa ás 9:00. — Freddie falou afundando os cachos dourados sob o travesseiro.

Scott não disse nada. De frente para o espelho do quarto ele respirou fundo... Achava que nunca mais conseguiria olhar para um espelho sem se sentir sufocado.

— Acredito que você vá chegar atrasado do mesmo jeito.

Freddie se remexeu na cama.

— Acredito que eu não vá para a primeira aula... Vamos estudar os novos conceitos da gramática. Besteira.

— Claro que é — Scott falou irônico — Ainda mais para o seu tipo de curso... Quem precisa saber gramática quando cursa Letras, não é?

— Ah, me deixa em paz! — Freddie se virou para dormir.

— Bem que eu queria... Quem sabe outra hora — Scott falou antes de sair do quarto.

No corredor do dormitório masculino não havia quase ninguém ás seis e quarenta. Provavelmente estariam todos dormindo por conta da ressaca. A festa tinha durado até as três da manhã. O que não era nada para Scott que nem sequer dormira.

Desceu as escadas e seguiu pelo pátio principal. Estava próximo do prédio A quando alguém o chamou.

— Não acredito que você está indo para a aula.

Scott se virou para trás com as sobrancelhas erguidas. Era Lola. Ele repreendeu o próprio suspiro nervoso. Lola Greymark era uma pessoa legal. Apesar de não se importar muito com opiniões era uma pessoa simpática. Os cabelos pretos e ondulados estavam presos em um rabo de cavalo. Uma calça Jeans clara e uma regata branca.

Ele fingiu um sorriso e foi até ela...

— É... Tenho que ver qual personagem ganhei na peça. — Falou pegando as mãos dela.

Ela sorriu.

— Ainda duvida? — Ela perguntou brincando com os dedos dele — Você vai ser o Fantasma, o que é uma pena... Acho um desperdício esconder esse rosto, mesmo que seja só uma parte.

Scott a fitou.

— O que foi? — Perguntou Lola sorrindo.

— Acho que posso chegar atrasado... — Ele se virou a puxando delicadamente pelo braço.

— Aonde vamos?

Ele se virou para ela. Os narizes se tocando quando ele sussurrou.

— Vamos nos tornar infinitos.

Ela sorriu pegando a mão dele.

Eles seguiram pelo pátio traçando outra rota agora que as pessoas começavam a aparecer com mais frequência por todos os lados.

Perto da fonte que já jorrava água para o alto sob a pedra de mármore branco... Lá do outro lado, não muito distante, Scott a viu. Seus músculos travaram e ele parou de andar... Os olhos fixos em Jennifer Green.

Então ele se perguntou como um sonho poderia se tornar um pesadelo. Ela vinha caminhando pelo pátio com um caderno sob os braços. Os cabelos castanhos brilhavam enquanto balançavam sob os ombros. Ela era linda, não restava dúvidas. Mas foi quando seus olhos castanhos avelã encontraram os dele que ele pôde sentir a ausência de um coração batendo.

Ela o olhou de um jeito terno, como pensara que ninguém jamais o olharia. Um jeito doce e simples, simples de uma forma gratificante... E se tudo não fosse predestinado a dar errado, ele teria certeza que teria ganho seu dia apenas por isso. Após olha-lo Jennifer seguiu com os olhos até a mão de Scott onde ele segurava a mão de Lola.

Tudo mudou... Seus olhos se tornaram por alguns segundos frios como os dele.

— Scott? — Lola o chamou. — O que foi?

Scott olhou para Jennifer. Queria explicar a ela que não tinha nada com Lola, mas... Naquele mundo ao qual ele pertencia, não haviam verdades a serem ditas. Suas histórias jamais deveriam ser contadas, sua música jamais ouvida... Seria apenas um jogo real de campo minado. Todos os caminhos levavam a morte... Ele que pensara que sabia tudo sobre tal assunto, só agora descobrira que a morte interior doía mais do que a exterior. Ele que já se sentia morto por dentro a anos agora se via caindo em ruínas sem poder gritar.

Ser pessimista sempre fora uma maldição, mas a realidade também fora. Seu pensamento estivera certo todo esse tempo.

Um bom anjo sempre trás a luz em sua presença, mas um mau demônio carrega nas costas e na dilacerada alma as sombras infinitas de toda uma era. Apesar de nos filmes o bem sempre ganhar, até mesmo ali, as sombras por tempo indeterminado ofuscavam a tão bela luz... O demônio enfraquecia o anjo. Mesmo assim, para o bem, havia chances de um final feliz, mas para o mau havia só o final...

Scott suspirou e reprimiu os lábios desviando os olhos de Jennifer. Pegou com mais firmeza na mão de Lola e continuou a andar com ela para a rota do próprio inferno.

Jennifer rabiscava a mesa da sala com a caneta. Já não prestava mais atenção no que falavam ao seu redor, nem sequer sabia se estavam ou não falando. A turma estava toda presente... Sentados em suas carteiras ansiosos, vez ou outra se remexendo em seus lugares desconfortáveis e impacientes.

Estava irritada, não triste, não podia ficar triste, era completamente inaceitável. Tinha raiva naquele dia, e ele mal começara. Já estava tudo indo perfeitamente para baixo antes de ver Scott com outra garota. Juliet andava bisbilhotando suas coisas. Ela odiava isso... Se algo acontece e ela não conta para ninguém é porque não quer que ninguém saiba, não precisa ninguém ir vasculhar o passado dela para isso.

Para piorar, não sabia o que Scott queria afinal. A pessoa gentil e sensível com quem conversara pela noite parecia ter morrido ou algo do tipo... Aquele era simplesmente Scott Vitorino novamente... Misterioso, frio e completamente irritante.

Irritante!

Era o que ela escrevia pela quarta vez na mesa de madeira polida sem se importar com malditas regras de limpeza.

— Tudo bem para você?

Idiota!

Arrogante!

A caneta afundava na madeira ao riscar.

— Srta Green? — Novamente a Senhora Rhodes se direcionou a Jennifer com os óculos abaixados até a ponta do nariz. — Pode prestar atenção, por favor?

Jennifer distraída levantou os olhos para encarar a professora. Deu um meio sorriso sem graça, completamente forçado.

— Desculpe.

A professora de Artes Cênicas balançou a cabeça negativamente antes de falar novamente:

— Nem sequer era para estar aqui... A professora Lewis é que cuida da atuação, não eu... Ficará me devendo essa.

Ah como Jennifer odiava aquela mulher. Rhodes era a pessoa mais irritante que poderia imaginar, bem, até conhecer Scott que realmente a deixava com vontade de arrancar os cabelos.

— Estava perguntando se você concorda com seu parceiro? — A senhora Rhodes explicou novamente.

Jennifer olhou para os lados como quem pede ajuda... Do que aquela mulher estava falando?

— Parceiro?

A professora revirou os olhos logo em seguida pondo os óculos mais acima, na altura dos olhos.

— Não ouviu nada do que eu falei... Que ótimo — Saiu resmungando em direção a própria mesa. — Pelo menos sabe em que peça iremos trabalhar este ano Srta Green?

Jennifer apertou os dedos em torno da caneta.

— O Fantasma da Ópera.

— Muito bem Falou a senhora Rhodes sentada em sua cadeira — Repetindo: A professora Lewis, junto da professora de canto e respiração mais a nova professora de postura e coreografia escolheram você como a atriz perfeita para interpretar Meg Giry no espetáculo...

Meg Giry... Jennifer apreciava bastante a peça, mas mesmo que não gostasse seria impossível não conhecer a obra que rendeu milhões para a Broadway... Meg Giry não era lá a personagem principal, mas tinha seu imenso momento ao fazer parte da canção Anjo da Música no segundo ato da peça, achava.

— Porém... — Continuou a professora — A garota que iria atuar como Christine infelizmente faz parte de uma das vítimas desaparecidas do Campus... Então, posso assim dizer novamente... Que você será Christine Daaé no musical, uma grande responsabilidade.

Jennifer agora estava completamente focada no que Rhodes dizia... Christine Daaé? A personagem principal do musical?

Esse ano quem conseguir os papéis principais vão conseguir três pontos a mais do que ganharão o restante do elenco para o semestre.

Fora Scott quem havia dito isso em Fevereiro lá no teatro quando ela o ouviu tocar Moonlight no piano. Se ele estivesse certo, ela se daria muito bem com essa nova responsabilidade.

— E no caso — Novamente falou a professora Rhodes — Como também já havia dito, Josh Myers foi escalado para interpretar Raoul de Chagny... Por isso perguntei se está tudo bem para você em relação ao seu parceiro de cena.

Josh Myers? As coisas não paravam de piorar... Como Josh era da sua sala de aula e ela nem sequer notara ele antes? Que tipo de ser humano era ela?

Jennifer olhou em volta a procura dele, mas não estava ali, se perguntou se já havia se recuperado do acidente de carro em Escala Azul.

— Tudo bem?

— Sim — Disse Jennifer meio aturdida.

— Sabe que ele será seu par romantico, não é mesmo? Estou perguntando pois é você que terá que beija-lo, depois não irei querer ouvir nenhum tipo de reclamação.

Um garoto sentado ao lado de Jennifer levantou a mão. Era Júlios Johnson. Era da Inglaterra e tinha um forte sotaque britânico. Cabelos castanhos desgrenhados e um plano odontológico muito caro para seus dentes tão brancos.

— Professora, desculpe, mas... — Rhodes revirou os olhos — Quem será o Fantasma da Ópera.

A professora se mexeu antes de falar:

— Obviamente que não será você Sr Johnson. — Alguns alunos riram baixo. — Eu não concordei nem um pouco com a escolha para tal papel, mas... Como não é o meu dever, Scott Vitorino recebeu o personagem.

Jennifer afundou a cabeça na mesa.

Droga, droga, droga!Pensou Jennifer. Nada mais poderia piorar naquela manhã, não podia.

— A hora está passando, quando saírem peço que peguem as suas falas aqui na minha mesa — Falou a Sra Rhodes ao olhar o relógio de pulso — As falas estão por ordem alfabética então pelo amor de Deus, não baguncem.

Jennifer levantou a cabeça assistindo alguns alunos indo pegar a fala de seus personagens logo depois saindo da sala.

Sem muito animo Jennifer pegou o caderno e a caneta que provavelmente não funcionava mais e desceu em direção a mesa onde a Sra Rhodes se encontrava.

Olhou para os montes de folhas espalhadas pela mesa com nomes assinados em caneta azul no topo. Procurou pelo seu nome.

Lá estava... Com mais de trinta folhas grampeadas e as muitas falas de Christine Daaé, sua personagem, destacadas em amarelo.

Ia saindo quando a professora a chamou.

— Não, não — Ela pegou uma folha um script na mesa — Quero que entregue ao Sr Vitorino... Como de costume, não compareceu a aula hoje.

Então a folha foi dada a Jennifer.

— Porque eu tenho que entregar a ele? — Perguntou desanimada.

— Ainda acho que os dois participam juntos em algum tipo de gangue ou seita.

Ah, claro! Pensou Jennifer irônica.

Com a folha nas mão Jennifer saiu da sala sem dizer mais nada. Os corredores do prédio principal estavam cheios agora que eram 8:15.

— Não sabia desse lugar... — Lola falou sentada na grama.

— Quase ninguém sabe — Respondeu Scott.

Estavam em um tipo de parque... Ás suas costas o dormitório masculino e ao redor uma imensa floresta cheia de grandes pinheiros. O sol estava escondido entre as nuvens as deixando alaranjadas.

— Dizem que aqui foi onde o padre Miguel rezou todo um terço em nome de Henrique que morrera nesta Ilha antes mesmo dela se chamar Refúgio Místico...

— Como sabe disso? — Lola perguntou olhando para ele que estava de pé encarando os pinheiros.

— Eu apenas sei... — Sorriu para ela.

Lola se levantou encarando Scott.

— Você está diferente...

Ele a olhou.

— Me desculpe — Ele pediu baixo e sincero.

— Não precisa se desculpar... Se está triste com algo não...

— Não é por isso que peço desculpas — Ele a puxou pela cintura.

Ela estreitou os olhos.

— Do que está falando?

Ele suspirou.

— Disse que nos tornaríamos infinitos... — Ele tocou o queixo de Lola — Mas só você será infinita a partir de hoje.

Lola riu sem entender.

— Certo, você está realmente estranho...

Scott a soltou e deu quatro passos de distância.

Ela o olhou confusa.

— Me desculpe Lola, mas... Vou ter que mata-la agora.

Ele tinha certeza que ela queria dar um passo para trás... Mas vendo que não conseguia, Lola olhou para os pés que de forma alguma desgrudavam do solo mesmo que nada a impedisse disso. Com os olhos arregalados de pavor ela abriu a boca num grito silêncioso... Porém, sua voz havia a deixado também.

Scott virou as costas depois de encarar com cuidado cinco grandes pedras espalhadas pelo pequeno parque. Uma última olhada para o rosto de Lola Greymark... Ele deixou que as cinco pedras se erguessem do chão girando uma após a outra em torno da garota numa velocidade assustadora. E com a última visão de seu rosto assustado e cheio de lágrimas Scott se virou com os olhos fechados subindo a estreita escada de pedra escondida sob árvores.

As pedras se chocaram com uma força tão grande que se quebraram em pedaços e se resumiram a cinzas. O barulho fora alto e o sangue jorrara as suas costas, ele sabia.

Era um fato... Lola Greymark se tornara infinita.

Jennifer estava sentada sozinha no pátio principal encarando suas falas sem realmente as ler. Os pensamentos estavam mais distantes do que qualquer um poderia imaginar.

A distraindo um pouco, alguém se sentou do seu lado no banco de madeira... Era Josh Myers.

— Josh! — Ela o abraçou com força ouvindo ele soltar um ruído.

— Não esperava por essa — Ele falou com uma careta — Quando for ser carinhosa seja mais cuidadosa, não me curo rápido como um herói...

— Desculpe — Ela o soltou — É que, eu apenas estou feliz que esteja bem.

Josh deu um meio sorriso. O braço esquerdo estava engessado até a altura do cotovelo. Um curativo no pescoço e alguns pequenos cortes no rosto já cicatrizados. Apesar dos cortes, ainda tinha um rosto bonito... O cabelo castanho comprido ainda estava molhado e jogado de lado, arrumado provavelmente com as próprias mãos na pressa.

— Ah, tudo bem... — Ele falou — Olha, vim aqui te pedir desculpas.

Jennifer franziu o cenho.

— É sério — Ele continuou — Fui meio grosseiro com você. Só estava estressado, desculpe.

— Nã se desculpe... — Jennifer pediu — Olha só o seu estado! Eu não fiz nada para impedir...

— Você só quase se matou junto — Ele riu rouco.

Jennifer suspirou.

— Bom... — Ele disse — Deixando o assunto de lado... O que você está fazendo aqui sozinha?

Jennifer deu de ombros.

— Pensando apenas... — Ela se virou para ele — E, descobri hoje que você é da minha turma... Que vergonha.

Josh balançou a cabeça.

— Ser popular não é ser Deus, Jennifer — Ele falou num sorriso — Não é culpa sua não notar tudo e todos a sua volta.

— Esta tentando me animar? — Perguntou ela sorrindo.

— Não... Só estou sendo sincero... Como disse, você me pegou em um mau momento.

— Pensei que me odiasse — Falou

Josh se encostou nas costas do banco de madeira.

— Por causa do carro?

— Por causa do trote — Disse — E por causa do carro.

— Odiar é uma palavra muito forte — Disse Josh — Tão forte quanto amar... Posso sim ter guardado um pouquinho de raiva para com sua pessoa... Mas te odiar? Só porque você jogou água gelada em mim? Claro que não... Seria um cara idiota se odiasse... Afinal, fui para festa por vontade própria.

Jennifer sorriu.

— Tive muita raiva de Liza por causa do trote no ano passado...

— Bem... Liza Johnson não é um amor de pessoa...

— Acredite — Falou Jennifer — Eu também não.

— Talvez... — Josh deu de ombros — Mas eu não acredito tanto nisso...

Jennifer virou o rosto para olha-lo... Estava sorrindo de forma amigável.

Um cara legal. Pensara ela.

— Ah... — Ele cruzou os braços — Como saí da enfermaria a pouco tempo... Sabe me dizer qual personagem ganhei na peça?

— Ah — Jennifer se ajeitou — Claro... Mas não sei com quem ficou as suas falas.

— Deve ter ficado com a minha irmã... Ela é da nossa turma também.

— Ah, então você tem uma irmã? — Jennifer perguntou curiosa.

— Sim, tenho uma irmã mais nova... Me da um trabalho e tanto.

— Quantos anos você tem?

Josh riu balançando a cabeça.

— Desde quando isso virou um Chat de internet? — Ele suspirou — Vinte e três... Velho demais para você?

Ela riu junto com ele.

— Minha irmã tem a sua idade. — Ele falou — Dezenove, não é?

Jennifer confirmou com a cabeça.

— Sabe... Talvez eu já tivesse terminado a faculdade se eu não tivesse sido preso em 2009.

Jennifer olhou para Josh... Agora ele olhava as pessoas passando há sua frente. Não sorria mais.

— Então... — Ela não sabia o que falar.

— Não se preocupe — Ele antecipou — Não vou roubar nada seu... Muito menos sua vida — Ele riu fraco — Fui preso por um engano...

— E que engano foi esse?

Josh sorriu balançando a cabeça, como se vivesse no passado agora.

— Desculpe — Falou ele olhando-a novamente — Mas... Não quero falar disso com você, espero que me entenda.

Jennifer encarou as mãos.

— Raoul de Chagny.

Josh a olhou confuso.

— É o seu personagem na peça... Parece que vamos nos falar muito pelo resto do ano. — Explicou Jennifer.

Josh sorriu se levantando.

— Bom saber, Jennifer. — Ela se levantou também. — Olha... Aquela ali é a minha irmã... Preciso falar com ela, dizer que não morri.

Ele apontou para uma garota de costas. Tinha cabelos tão lisos quanto os dele, castanhos também.

— Josh! — Ela chamou fazendo com que ele se virasse para olha-la. — Porque obedeceu Mike? Porque subiu no carro?

Josh fez uma careta seguida de um sorriso.

— Minha irmã me trás sérios problemas, como já disse...

Ele acenou com a cabeça e em seguida seguiu em direção a irmã.

Pegando o caderno e as folhas da peça do banco, Jennifer se virou para seguir seu caminho. Falou com algumas pessoas conhecidas pelo pátio.

Naquela manhã ás 8:45 o sol começava a aparecer, antes escondido pelas nuvens, agora mostrava e irradiava sua áurea dourada pelo céu azul. O vento seguia direção Leste como uma brisa fluída sempre trazendo o cheiro salgado do mar. Jennifer encarou a fonte de mármore... Deveria ter uns três metros de altura, mas a água provavelmente chegava a uns sete. Tocou na água parada no fundo da fonte... Ela tremeluziu bagunçando seu reflexo.

Demons – Imagine Dragons: http://www.youtube.com/watch?v=BxQNSgKGblI

When the days are cold

And the cards all fold

And the saints we see

Are all made of gold

–----xx-----

Quando os dias estão frios

E as cartas estão dadas

E os santos que vemos

São todos feitos de ouro

Era sempre assim... Seus pensamentos sempre se tornavam sombrios ao ficar sozinha. Josh a distraiu por um tempo, mas não tinha muito mais o que se fazer naquele dia. Juliet havia lido a carta, o que deveria estar pensando dela agora? Não sabia. Não sabia nem o que pensar de si mesma...

E estava assim algum tempo. Com algo a incomodando por dentro... Uma força maior, uma mistura de todas as coisas ruins que já havia vivenciado... E Jennifer se sentia culpada por tanta coisa, coisas que muitas vezes não tinham sido sua culpa. Ela havia perdido sua essência esse ano, sabia. Não conhecia mais as palavras certas para falar com as pessoas, não conseguia prestar atenção nos outros ao seu redor. Não conseguia mais entender o sentido da tão tortuosa e complicada vida.

Scott suspirou mais uma vez encostado na árvore cercada do pátio. Observava ela já havia algum tempo. Estava de costas para ele. Ele por sua vez com a cabeça apoiada no tronco da árvore fitou o céu por um tempo, procurava respostas... Riu de si mesmo por isso. Aquele reino não pertencia a ele... Jamais iria.

Cresceu vendo cenas... Famílias e amigos, amantes e inimigos. Scott cresceu se perguntando porque eles faziam aquilo tudo. Porque amavam tanto um ao outro sem motivo algum. Ele nunca descobriu a resposta, mas ele sempre desejou ser igual a eles. Ele preferia os tempos de criança onde ele via a tudo, mas não sabia de nada. Antes mesmo das trevas chegarem aos seus olhos.

When your dreams all fail

And the ones we hail

Are the worst of all

And the blood's run stale

–----xx-----

Quando seus sonhos fracassam

E aqueles que clamamos

São os piores de todos

E o sangue corre envelhecido



Já quis ter muitas coisas além do sangue que descia pela suas mãos todas as noites. Já desejou muito mais do que a vingança. Porém, ele nunca havia feito questão de tudo que sonhara e desejara durante os dezenove anos que tinha. Então... Porque? Porque aquilo tudo? Porque ele simplesmente não podia olhar para ela e fugir, esquecê-la ou ignora-la?

Ele sabia desde a primeira vez que a vira que ela seria só mais uma passando pelos seus olhos. Não se importou e até lutou para que ela o odiasse, mas ela era impulsiva demais para isso... Ela tinha algo que ele nunca vira antes. Ele sabia, ele via que ela não conseguia, não conseguia odiar... E, acima de tudo, ele sabia que do jeito dela ela tentava fazer as coisas darem certo, mas nunca conseguia exatamente.


— Jennifer... — Era Juliet mais uma vez

Jennifer fechou os olhos com força, não iria chorar ali, nem muito menos na frente de Juliet.

— Você já viu a Holly por aí? — Perguntou meio agitada.

— Não... Ela deve estar com... — Jennifer foi interrompida.

— Com o pessoal da festa? Não... Eu vi eles não tem muito tempo... Eles falaram que deixaram ela no pátio dos dormitórios ás duas da manhã... Eu estou preocupada.

Jennifer olhou para Juliet.

— Ninguém mais viu ela depois disso? — Perguntou.

Juliet balançou a cabeça.

— Fui em quase todos os quartos, ninguém a viu hoje...Você acha que ela pode ter sumido como os outros alunos?

— Não fala besteira! Talvez ela tenha saído do campus...

— Sem avisar? — Juliet encarou Jennifer — Ela nem levou as coisas dela... Quem é que sai sem maquiagem e uma escova para cabelo nesse furacão de ilha?

Jennifer olhou para o lado após suspirar... Scott a olhava do outro lado do pátio.

— Escuta... — Falou voltando a olhar Juliet — Eu tenho que ir para aula agora... Assim que sair a gente se encontra lá no dormitório... Caso ela não tenha voltado, vamos procurar por ela, prometo.

Juliet não muito satisfeita concordou saindo em direção a um grupo de pessoas.

Logo em seguida Jennifer foi em direção a ele. Que permaneceu imóvel numa postura perfeita ao lado de uma árvore.

— Sentiu saudades? — Ele perguntou lentamente.

Jennifer riu sem vontade.

— Acho que você nem teve tempo para isso, não é? — Perguntou ela — Onde está sua nova vítima?

Scott se endireitou meio desconfortável.

— Do que está falando?

— Não seja fingido... — Jennifer abaixou a cabeça — Apenas me responda uma coisa...

Scott a encarou com firmeza.

— Ontem a tarde... Antes de me beijar — Ela olhou para ele, a voz saindo fraca — Quando você disse tudo aquilo... Era verdade ou...

Ela não terminou a frase.

Scott uniu as sobrancelhas como sendo doloroso olhar para ela. Ele suspirou pegando o rosto de Jennifer com as duas mãos fazendo com que ela olhasse bem para ele.

Antes de poder falar qualquer coisa sentiu um peso em seu ombro. E, um frio gélido passou por todo seu corpo como se o dilacerasse por dentro. Scott suspirou virando o rosto de lado encontrando seu pai. A expressão séria encarava não a ele e sim a Jennifer, mas é claro que ela não podia vê-lo.

Scott fechou os olhos com força antes de voltar a olhar para Jennifer.

— Aquilo foi um assunto momentâneo — Scott falou olhando para ela. Sendo quem tinha que ser. Forçando e lutando para sua voz sair o mais precisa e concreta possível — Você poderia morrer que eu jamais me importaria...

Ele soltou o rosto dela encarando-a de forma séria enquanto ela se afastava com os olhos marejados e com uma expressão distante.

—Que pena — Jennifer jogou o papel da peça contra o peito de Scott com força — Vai ter que fingir o contrário até o final do espetáculo.

Em seguida ela saiu sem dizer mais nada.

I want to hide the truth

I want to shelter you

But with the beast inside

There's nowhere we can hide

–----xx-----

Eu quero esconder a verdade

Eu quero abrigar você

Mas com a besta dentro

Não há onde possamos nos esconder

— Bela frase de efeito — Falou William sorrindo — Mas o dia não terminou... Espero que não se esqueça dos seus deveres principais.

Em seguida seu pai se dissipou em fumaça. Sumindo.

Scott permaneceu a olhar para Jennifer que se afastava cada vez mais. Ele olhou para a folha que ela o entregara... Era o roteiro com todas as falas do Fantasma Da Ópera... Ele havia conseguido o papel principal e como dizia na primeira folha ela também. Ele segurou a folha com tanta força que quase a rasgou. Com a respiração pesada ele fechou os olhos com força logo depois que uma lágrima desceu solitária pelo seu rosto.

Limpando as lágrimas do rosto e xingando a si mesma mentalmente por tal feito, Jennifer seguiu diretamente para o prédio principal para a sua segunda aula do dia que incrivelmente também era com a Sra Rhodes, porém agora ela daria a própria aula... Uma aula chata e teórica. Perfeito para distrair Jennifer.

Na sala só haviam alguns poucos alunos espalhados aleatoriamente pela sala. Entre estes estava Josh que acenou para Jennifer assim que ela entrou.

Ela seguiu até ele sentando-se na carteira a seu lado.

— Jennifer... Essa aqui é a irmã problemática de quem eu falei — Josh se apressou em dizer apontando para uma garota ao seu lado. — Samantha, esta como você já deve saber é...

— Jennifer Green — Respondeu a garota sorrindo com a mão extendida para Jennifer. Samantha apesar de ser muito parecida com o irmão mais velho parecia uma boneca, não deveria ter mais do que 1,60 de altura. Os cabelos eram mais escuros do que os do irmão. Lisos em cima e com pequenas ondulações nas pontas. Tinha olhos grandes e castanhos numa expressão amigável... Jennifer por vez se perguntou se toda a família Myers seria encantadora como os dois irmãos a sua frente.

Jennifer apertou a mão de Samantha com um sorriso simples, não por falta de interesse, mas por simplesmente estar em um mal momento, um momento que Josh não pode deixar passar.

— Ok Samantha — Josh virou-se para a irmã ao seu lado — Já pode cuidar da própria vida.

Samantha empurrou Josh revirando os olhos.

— É um prazer conhece-la Jennifer. — Falou antes de se virar para falar com uma garota do outro lado.

Josh se revirou na cadeira para poder ficar de frente para Jennifer.

— Você está legal? — Perguntou.

Jennifer balançou a cabeça.

— É... Essa foi uma pergunta meio idiota. — Josh deu de ombros. — Mas olha... Se quiser conversar com alguém... Ou se não quiser conversar... Pode contar comigo. Sou bom ouvinte e, quando abro a boca para falar é meio difícil parar.

Jennifer sorriu.

— Obrigada...

A professora Rhodes entrou na sala deixando a porta-dupla aberta antes de seguir para sua mesa. Não falou nada com ninguém.

— Fico mal humorado só de olhar — Disse Josh

— Com uma mulher mal amada que nem essa quem não fica?

Josh riu.

— É... Isso também se aplica a Sra Rhodes, mas me refiro a ele — Josh apontou com o queixo.

Jennifer olhou para trás... Josh falava de Scott que havia se sentado a duas fileiras atrás deles.

Ele olhou para Jennifer com a expressão neutra antes de abrir o caderno.

— É... — Falou ela. — Ele é outro mau amado.

Sem demorar muito, a professora deu início a aula. Jennifer se esforçava para prestar atenção e agradecia muito por Josh e Samantha estarem a distraindo do dia tão miserável de hoje.

— Então... Resumindo o que eu disse — Falou a professora — O Fantasma da Ópera é um famoso musical de 1986... Conhecido pelas canções sombrias e delicadas que se encaixavam perfeitamente com o seu cenário majestoso. A história se trata de um Romance que ao meu ver é muito mais interessante do que Romeu e Julieta. O Fantasma da Ópera mistura fantasia com realidade, por isso, digo a vocês que este ano terão de se esforçar imensamente para deixar o espetáculo atrativo.

— Professora — Um aluno levantou a mão no canto da sala — Sobre a redação... Tem algum meio mais específico para nos aprofundarmos mais nos nossos personagens?

— Sr Patrick — A professora o olhou — Como já disse antes... Vocês tem em mãos o roteiro completo do musical. Acredito que não há forma melhor de entender o seu personagem do que lendo todo o roteiro... Mas como vocês jovens gostam de tudo mais fácil, eu os indico os filmes... O mais apropriado seria o filme de mesmo nome de 2004 com o ator Gerard Butler e a atriz Emmy Rossum.

Alguns alunos anotavam quase tudo o que Rhodes falava, Jennifer nem sequer abrira o caderno. Não tinha muito mais que precisaria saber sobra a peça.

— Mas que fique bem claro que as redações da Srta Green do Sr Myers e do Sr Vitorino serão as mais esperadas. Estes três personagens são os mais simples de exemplificar, então espero não me decepcionar com nenhum dos três.

— Ótimo — Resmungou Josh ao lado de Jennifer — Ou ela nos ama muito, ou simplesmente nos odeia.

— Se você for um homem sábio saberá que a segunda opção é a correta.

Jennifer permaneceu a ouvir a professora pelo resto da aula.

Scott foi o primeiro a sair da sala, antes mesmo da professora. Não olhou para Jennifer e nem para ninguém. Atravessando a porta ele se deparou com uma multidão aglomerada no corredor. Desviando apressado ele finalmente saiu do prédio.

— Hey!

Scott suspirou já sabendo quem deveria ser. Virou-se para trás onde a porta dupla de entrada e saída do prédio estava aberta para montes de pessoas irem e votarem.

Lá estava... Era Freddie. Scott ficou surpreso em não vê-lo pendurado em Juliet como de costume. Tinha quase certeza de que a garota o estava enrolando... Porém, alguém tolo como ele não notaria até que ela falasse explicitamente.

— Você anda muito rápido — Freddie respirou ofegante.

Scott olhou além de Freddie... Para a porta.

— Escuta — Falou sério — Eu estou com pressa... O que você quer afinal?

Freddie balançou a cabeça.

— Tudo bem... — Ele olhou o visor do celular — Droga! Eu quem estou com pressa agora... Mas — Ele guardou o celular no bolso e olhou para Scott — É a Juliet...

Scott riu baixo.

— Claro que é.

— Ela quer saber se você viu a Holly hoje — Ele ignorou o comentário de Scott.

Scott estreitou os olhos.

— Ela não aparece desde ontem a noite...

— Porque acha que eu saberia onde ela está? — Perguntou Scott.

Freddie deu de ombros.

— Relaxa cara... Só perguntei se você a viu... Mas pelo visto não.

— Não... Eu não vi.

Freddie ia dizer algo quando alguém tocou seu ombro.

— Acharam ela? — Era Jennifer.

Fredie balançou a cabeça negando.

Scott depois de olhar para Jennifer que o ignorava ele virou-se para Freddie.

— Espero que encontrem ela... Mas agora eu tenho que ir... Já me atrasou o suficiente.

Jennifer então levantou os olhos para vê-lo dar as costas. Não queria mais olha-lo, não iria suportar.

— Olha Jenny... Agora é a minha aula. Estou atrasado dez minutos — Falou Freddie passando a mão pelos cachos dourados. — Vou deixar a busca com você agora... Logo mais a Juliet aparece, espero que com boas notícias.

Freddie beijou o rosto de Jennifer e saiu apressado pela porta do prédio.

No matter what we breed

We still are made of greed

This is my kingdom come

This is my kingdom come

–----xx-----

Não importa o que alimentamos

Ainda somos feitos de cobiça

Esse é o meu reinado vindo

Esse é o meu reinado vindo

No caminho para o dormitório Scott não olhou para mais ninguém como também não ouviu mais nada ao seu redor. Apenas um nervosismo que o incomodava enquanto subia apressado a escada de madeira do prédio masculino.

Ao abrir a porta, mesmo já esperando por isso não pode deixar de ficar surpreso.

Seu pai estava lá folheando uma revista qualquer encontrada no criado mudo, completamente entediado. Johnathan, seu irmão, também estava lá... Olhando pela janela. A última vez que Scott o vira ele estava em sua cama, e tinha trago a pluma dos mortos para que ele pudesse encontrar William Vitorino.

Mas não fora isso que o deixara realmente surpreso. O que o deixou incomodado foi ter visto Holly Miller ao pé da cama olhando para ele com cautela com olhos verdes brilhantes.

Scott fechou a porta atrás de si com força.

— O que é isso?

Seu pai jogou a revista de lado e Johnathan se virou para ver o irmão.

— Reunião em família! — Falou ele abrindo os braços — Feliz em me ver maninho?

— O que ela está fazendo aqui? — Scott perguntou ignorando o irmão.

William suspirou ao se levantar.

— Desde que chegou nesta ilha você deixou muito a desejar — Falou seu pai dando voltas pelo quarto — Quero voltar a confiar em você, Scott. Nada melhor do que vê-lo matando a melhor amiga de Jennifer Green.

Scott olhou para Holly aturdido. Ela não falava nada e nem estava presa... Obviamente seu pai a estava controlando... Do mesmo jeito que ele fizera com Lola Greymark. E agora ele via o quanto aquilo parecia ruim agora.

— Não posso mata-la aqui... — Scott olhou para o pai tentando parecer calmo.

Johnathan riu se apoiando na parede.

— Não pode... Ou não quer? Conhece essa frase né?

Scott olhou para Johnathan. Apesar de ser seu irmão, não tinha nenhuma semelhança visível... Os cabelos apesar de serem lisos eram castanhos avermelhados. Uma expressão séria e desafiadora. Os olhos eram grandes e azuis como os de William. Scott acreditava que se Johnathan era como o pai, ele havia puxado a mãe.

— Fique quieto Johnny. — Pediu William voltando a encarar Scott.

Johnathan revirou os olhos e se jogou na cama de Freddie.

— Não posso mata-la no dormitório mais pes... — Scott foi interrompido.

— Basta! — William foi direto — Não invente desculpas inúteis. Seu irmão não herdou os poderes que você tem... Aposto que se ele tivesse eu já teria voltado para o mundo dos vivos em minha forma real... Você pode matá-la. Você pode fazer o que quiser sem que ninguém suspeite de você... E então? De qual lado você está?

Scott passou as mãos pelo rosto e voltou para encarar Holly que mesmo quieta e calada estava visivelmente assustada.

— Não quero que use qualquer truque, Scott. — William falou chamando a atenção de Johnathan que logo se levantou da cama.

— Você quer que ele use um...

Johnathan deixou a frase no ar.

— Quero que você use o melhor de todos — Continuou seu pai

Scott já sabia o que viria pela frente. Mas foi quando seu pai falou que ele se viu perdido e completamente triste pelo que viria para Holly.

— Quero que você use um dos truques mortais.

Os olhos de Johnathan brilharam quando ele encarou Scott novamente.

William caminhou para perto de Holly, a olhando como uma pessoa olha um inseto.

— Os truques mortais... — Falou ele — A carta escondida na manga de pouquíssimos mágicos. Querida Holly... Seja bem vinda ao maior espetáculo da sua vida. — William se agachou ao lado dela — Apesar de sermos conhecidos como ilusionistas o que você verá... Ou melhor, o que você sentirá não será nada ilusório... Quer fazer alguma pergunta?

William estalou os dedos. Holly respirou pesadamente como se algo estivesse preso em sua garganta. Ela ignorou William e olhou miseravelmente para Scott.

— Todo esse tempo... — ela sacudiu a cabeça com lágrimas nos olhos — Não vou pedir para que me deixe ir. Sei que não vai fazer isso... Mas eu quero que saiba que um dia você vai sofrer tanto quanto você já fez os outros sofrerem. E seja lá onde eu estiver... Eu vou estar gostando.

— Holly eu não — Scott se aproximou, mas seu pai fez sinal para que ele se afastasse.

— Sabe o que é um truque mortal, Holly? — William perguntou ao lado dela

Ela olhava para o chão com as mãos fechadas e trêmulas. Irritada, com medo.

— O truque da dor. — Falou William mesmo assim — O truque mortal representa todo um show de uma só vez... Mas não um comum, isso não. Você não verá um coelho saindo de uma cartola, verá o seu sangue. — Ele falava com ela com um pequeno sorriso no rosto — Não sentirá cócegas nem arrepios, sentirá dor. Não sumirá ou ficará invisível... Irá morrer.

William riu e se levantou. Afastando-se de Holly ele pediu para que Scott seguisse para ela.

— Pensei que ele não conseguia fazer um desses — Falou Johnathan ao lado de William — Não é este o truque que só se aprende depois que se foge do inferno?

William pôs as mãos no bolso.

— Quando Scott tinha dezesseis anos — Falou ele — Eu o matei mutilado acertando todos os seus trinta e seis pontos vitais com facas afiadas...

Scott se ajoelhou de frente a Holly.

— Estava certo pai — Scott falou sem olha-lo — Naquele dia eu acabei no inferno... Como todo Vitorino está destinado... E sim... Só se tem poder suficiente para um truque desses... Se a pessoa conseguir fugir do inferno...

— Estou impressionado irmãozinho — Johnathan assoviou.

— Foram trinta e dois dias vendo coisas que ninguém ousou ver. Sentindo dores que ninguém achava possível de se ter... Morrendo mais de duzentas vezes de formas diferentes no mesmo dia de forma dolorosa... Consegui escapar de lá... Por isso além de ter total domínio do fogo, também tenho o poder necessário para tornar o truque mortal real.

When you feel my heat

Look into my eyes

It's where my demons hide

It's where my demons hide

–----xx-----

Quando você sentir meu calor

Olhe dentro dos meus olhos

É onde meus demônios se escondem

É onde meus demônios se escondem

Scott levantou o rosto de Holly com a mão fazendo com que ela o encarasse.

Holly tinha olhos brilhantes e tristes, mas com o pensamento do próprio inferno em sua mente Scott não conseguia enxergar piedade nem a Deus. Afinal... Quem era Deus? Ele nunca o sentira olhar por ele.

Scott puxou a corrente de prata de dentro da blusa. O pingente circular brilhou agitado ao ser revelado. Ele retirou do pescoço e o pôs em Holly... Assim que fez contato, o pingente com o V no centro a queimou a fazendo gritar.

— Não há perigo de alguém ouvir? — Johnathan olhou para a porta.

— Estou protegendo o quarto — Falou William — Ninguém pode ouvir ou entrar.

Scott se apressou de forma rude a fechar os olhos de Holly com as mãos enquanto ela ainda gritava pela prata que queimava seu pescoço.

Sangue escorreu por debaixo da mão dele, mas eram dos olhos de Holly que caíam. Logo ela estaria cega... Ele sentia suas veias queimarem por todo o seu corpo enquanto pressionava a mão contra o rosto de Holly, a fazendo ter ilusões, porém, tão verdadeiras quanto o sangue da própria. Afinal, esse era o poder de um dos truques mortais. Cegar a vítima a fazendo enxergar apenas os seus maiores medos, até mesmo aqueles vistos apenas em pesadelos, onde nada faz sentido. Porém, tudo o que ela visse ou temesse aconteceria a ela fazendo com que todo seu interior se contraia em dor.

Don't get to close

It's dark inside

It's where my demons hide

It's where my demons hide

–----xx-----

Não se aproxime muito

É escuro por dentro

É onde meus demônios se escondem

É onde meus demônios se escondem

Ela gritava segurando as mãos de Scott, tentando afasta-lo, mas não conseguia. Scott estava cego também... Cego de raiva, ódio e vingança. Os olhos escuros encarando Holly gritar e se sacudir de dor, mas os mesmos olhos negros e perversos do Vitorino estavam ainda mais centrados no passado onde ele por vezes foi torturado e por vezes viveu escondendo um monstro dentro de si.

Foram dezenove anos vivendo pela morte. Lutando contra vidas e enterrando a própria alma em poças de diferentes sangues. Dezenove anos desafiando a maldade dos próprios demônios.

Quando Holly parou de gritar as mãos caíram ao chão de imediato. Scott a observou por um tempo antes de retirar as mãos completamente sujas de sangue dos olhos dela.

Não havia mais vida nos olhos de Holly Miller. No lugar de seus olhos havia apenas a escuridão negra como a de um poço. O corpo caiu ao lado da cama completamente vazio agora, Scott sabia.

Olhando agora ele podia ver os cortes por todo o corpo morto. Cortes superficiais e cortes profundos, grandes e pequenos. A roupa antes limpa dela se via agora completamente ensanguentada. Assim como as mãos de Scott. Scott jogou a cabeça para baixo cansado demais para se levantar.

Barulhos no chão de madeira ecoaram pelo quarto enquanto William e Johnathan se aproximaram de Scott.

Ninguém falou nada por um bom tempo. Estavam todos três encarando o corpo no chão...

— Escolheu o caminho certo — Falou William por fim — Quando eu estiver finalmente de volta... Você será recompensado, meu filho. Nossa família ira se erguer dos mortos para que todos ouçam a nossa voz.

Scott balançou a cabeça.

— Agora — William falou — A alma dela ainda está no corpo... Posso sentir... Já sabe para onde enviar não é mesmo?

Scott com dificuldade levantou os braços sentindo um formigamento passar por todo o corpo. Ele virou o corpo de Holly até que ela ficasse com o rosto virado para o teto. E com as mãos sujas de sangue ele traçou um desenho pequeno no pescoço de Holly, algo como uma lança mirada para a lua minguante. Com as mãos segurou firme os dois pulsos da garota e sentiu o cheiro da fumaça assim que as chamas começaram a se espalhar por seus braços e se alastrar por todo o corpo. Quando tudo acabou o que sobrou foi apenas o sangue e a corrente de prata Vitorino no piso de madeira.

Scott agarrou a corrente e cambaleando se levantou do chão.

Antes de entrar no banheiro virou-se para Johnathan.

— Já que está olhando... Limpe essa bagunça antes que alguém veja.

Johnathan sorriu para o irmão, ficando sozinho no quarto depois que ele entrou no banheiro e seu pai desaparecera de volta para o mundo dos mortos.

Era 20:15. Jennifer e Juliet haviam feito um acordo de não brigarem enquanto procuravam por Holly aos arredores da universidade local. Josh e Freddie as acompanhavam. Ligavam uma vez ou outra para o celular da Holly, mas sempre era a mesma coisa.

— Deve ter descarregado — Dizia Juliet.

— Isso é inútil... — Jennifer falou olhando para todos os lados da rua. — É um em um milhão achar ela sem ter a menor noção de onde ela possa estar...

Os meninos iam logo atrás olhando pelas plantações, árvores e qualquer outra parte mais escura.

— Um em um milhão não significa impossível — Juliet virou a lanterna para a esquerda no meio da estrada deserta.

— É quase isso.

Juliet abaixou a lanterna irritada quando a luz oscilou se apagando em seguida. Com a respiração fraca virou-se para olhar Jennifer se sentindo menor do que uma formiga.

— O que quer dizer com isso?

When the curtain's call

Is the last of all

When the lights fade out

All the sinners crawl

–----xx-----

Quando o fim chama

É termino de tudo

quando as luzes se apagam

todos os pecadores rastejarão

Jennifer virou o rosto para o céu estrelado enquanto sentia a lágrima descer quente pelo rosto.

— Acho que perdemos a Holly.

Juliet olhou Jennifer por um momento antes de se virar para a lanterna e começar a bater nela.

— Droga de lanterna! Funciona! Funciona!

Jennifer virou para Juliet. Queria dizer a ela que estava tudo bem... Que Holly logo iria aparecer com aquele brilho natural que ela tinha. Que iria as fazer rir com um comentário bobo se precisasse. Acima de tudo, Jennifer queria acreditar que encontrariam novamente a mesma garota que quase as matara no primeiro dia em Refúgio Místico por ter se atrapalhado com o carro... Queria acreditar que Holly estaria por perto para abraça-la de novo e dizer que sempre estaria lá quando elas precisassem, mas não era assim.

Queria ser otimista, mas com tantas pessoas desaparecidas no Campus era difícil acreditar que Holly estivesse bem...

Juliet havia jogado a lanterna com força do outro lado da estrada. Estava jogada de joelhos no asfalto praguejando ao vento.

— Holly sua idiota! Eu preciso de você! Onde você está, Holly? Hein?

So they dug your grave

And the masquerade

Will come calling out

At the mess you made

–----xx-----

Então eles cavaram a sua sepultura

E o baile de máscaras

Chegará anunciando

A bagunça que você fez

Jennifer se sentou no asfalto frio ao lado de Juliet. Não se preocupava mais em impedir as lágrimas... Era por Holly que ela estava chorando, e ela sabia que Holly merecia muito mais do que suas lágrimas. Era como uma penitência eterna. Um castigo atirado para elas. E, não só Jennifer como Juliet se sentiam pessoas horríveis por isso... O último contato com Holly não havia sido um dos melhores e, Jennifer chegava a se perguntar se Holly, onde quer que estivesse a perdoaria por ter sido tão ausente e tão incompreensível durante todo esse tempo.

— Sabe — Juliet falou tão baixo que Jennifer quase não pode ouvir — A caminho da festa da fogueira... Depois que encontramos você ontem de manhã... Holly disse uma coisa.

Jennifer olhava para a frente, sem ponto fixo... Sem realmente estar olhando enquanto mais lágrimas caiam sob o choro silencioso. Aquele choro mais doloroso.

— Ela disse que admirava a nós duas... — Juliet hesitou sem conseguir falar. Impedida por lágrimas e soluços enquanto se lembrava da amiga — Disse que via o quanto a nossa amizade era verdadeira e o quanto ela iria longe... Pediu para que deixássemos os desentendimentos de lado. Disse que poderíamos acabar nos arrependendo uma hora...

— A vida é muito curta para guardamos rancor de pessoas importantes — Jennifer falou junto de Juliet. Era o que Holly sempre falava em situações difíceis. Sempre fora assim, desde que a conheceram. Sempre foi boa com as palavras, sempre deu ótimos conselhos e sempre esteve presente como ouvinte também.

Era Holly Miller, uma das pessoas que quando você via você logo falava... Esta pessoa pode mudar o mundo.

— E... — Jennifer respirou fundo antes de perguntar — O que você disse para ela depois?

Juliet se desmanchou em lágrimas. Abafava o choro com as mãos e Jennifer chorou junto com ela... Então, quando Juliet abaixou as mãos, ela falou:

— Eu mandei ela calar a boca, Jennifer... Mandei a Holly calar a maldita boca...

Juliet limpou o rosto. A voz fraca falhava.

— Eu não odeio a Holly, nunca odiei — Juliet continuou — Eu sempre quis o bem dela, mas eu estava tão irritada com você que eu...

Juliet voltou a chorar.

— Espero que ela saiba disso... — Jennifer falou — Espero que ela saiba o quanto amamos ela. E, quer saber? Apesar de termos sido tão idiotas... Duvido que ela esteja chateada com a gente... Afinal, estamos falando da Holly, Juliet. Holly sempre viu o lado bom nas pessoas... Holly era como uma criança que amava de forma incondicional... Holly nunca esperava nada em troca, ela só queria fazer o bem. Fazer os outros se sentirem bem. Holly era a nossa luz... E, eu espero com todo o coração que essa luz não tenha se apagado.

Juliet ia dizer algo, mas foi interrompida com a chegada dos rapazes.

— Encontramos algo! — Era a voz de Josh.

As meninas se levantaram e olharam para a estrada... Lá no final se encontravam Freddie e Josh acenando.

— O que foi? — Jennifer perguntou assim que os alcançaram.

Josh entregou algo escuro para ela... Um celular.

— Esse é o celular da Holly — Falou Jennifer olhando de Josh para Freddie — Onde encontraram?

— Estávamos perto da universidade quando Mike apareceu — Falou Freddie.

Mike... Jennifer estremeceu só de ouvir seu nome. Ele tentara matar ela no dia anterior.

— O encontrei na enfermaria hoje de manha... Aí perguntei a ele se ele tinha visto Holly, disse que não... Mas agora pouco ele veio trazendo o celular. Achou no pátio dos dormitórios enquanto chutava algumas folhas secas do chão... Pediu para olharmos as chamadas efetuadas...

Jennifer em desespero começou a procurar a lista de chamadas no celular. Lá estava... trinta e duas chamadas perdidas de Juliet, Sete chamadas perdidas de Tina O'brien... Mas lá estava... Nas ligações efetuadas... A última ligação que Holly fizera havia sido para Scott Vitorino ás 7:00 da manhã daquele dia.

— Como ela tem o número do Scott? — Jennifer perguntou

Juliet se remexeu

— Eu peguei o número dele no dia da festa de máscaras... Passei para Holly para ela me ajudar com ele... Você sabe para que...

Freddie pareceu incomodado com a conversa.

— Não importa — Falou Jennifer — Aquele idiota sabia dela e não disse nada... Vou procurar por ele...

— A gente vai com você — Josh falou a acompanhando pela estrada.

— Não — Respondeu — Com ele eu lido sozinha... Depois a gente se fala. Eu ligo para vocês...

— Quando tudo parecer ruim — Scott falou para si mesmo — Vá para as trevas... Lá é tão escuro que você não verá a maldade ao seu redor.

Foi uma das tantas coisas que seu pai o disse. Ele agora estava sentado na cama. Havia tomado um banho gelado. E pelo restante da tarde ficou sozinho no quarto pensando em tudo o que havia feito... E ficou surpreso em saber que durante todo esse tempo foram os sonhos em que ele morria que haviam sido os melhores de todos. Ficou surpreso em não conseguir lembrar de quem era... Dos amigos que um dia teve.

Muitas palavras flutuavam mortas sem seus significados em sua mente. A palavra mãe por exemplo... O que significava isso? Quer dizer, para ele significava algo sim... Significava vazio e dor. Mãe: Um nome dado a um fantasma. Ou talvez quem sabe … Mãe: Algo que não existe ou nunca existiu.

Scott suspirou sendo retirado de seus pensamentos quando a porta do quarto se abriu com brutalidade. Se virou para trás para só então ver Jennifer... Não uma ilusão ou um pensamento vívido. Jennifer, pessoa, real...

— Não ensinaram a bater na porta? — Scott voltou a dar as costas para ela.

Jennifer cruzou todo o quarto sem se importar com os pensamentos e lembranças que começavam a surgir em sua cabeça ao ver Scott. Quando parou de frente para ele ela jogou o celular.

— O que é isso? — Ele perguntou examinando o celular de Holly.

— Ela ligou para você... — Falou Jennifer — Você disse que não sabia nada sobre ela.

— Não — Scott se levantou encarando Jennifer — Disse que não tinha visto ela hoje... O que é claramente diferente.

— Eu sei que você sabe algo sobre ela. — Falou Jennifer — O que sabe? Onde ela está?

Scott se virou seguindo em direção a porta.

— Onde está o seu celular? — Jennifer perguntou.

— Eu não atendi a chamada.

— Talvez ela tenha deixado algum recado... Cadê o celular?

Os olhos de Scott brilharam... Um recado? Ele não havia pensado nisso.

Scott seguiu com o olhar até a cômoda ao lado da cama. Era lá que estava o celular.

Ele avançou para pega-lo, mas Jennifer foi mais rápida e também estava mais perto.

— Devolva meu celular.

Jennifer o ignorou dando as costas e procurando o tal recado.

— Jennifer me devolva a droga do celular! — Ele gritou com ela.

Quando ela se virou para ele novamente ele pensou que ela estaria devolvendo o celular... Mas não. Ela estendeu a mão para que ele pudesse ouvir a mensagem também no viva-voz.

Um silêncio ruim se formou no quarto deixando espaço para o recado de Holly soar livremente.

Scott — Jennifer ouviu a voz de Holly — É a Holly, amiga da Juliet e da Jennifer... Estou ligando porque acabei de encontrar o seu irmão. Ele me disse que quer falar com você, mas não está o encontrando... Não tinha o seu número então estou aqui ligando. Ele acabou de me dizer que é para você ir para o dormitório... Ele vai te esperar lá... Tchauzinho.

Jennifer abaixou o celular insatisfeita.

— Não sabia que tinha um irmão.

Scott suspirou

— Talvez eu não queira que você descubra sobre a minha vida... — Ele tomou o celular da mão dela.

— Tem certeza que não sabe mais nada sobre a Holly?

Scott balançou a cabeça sem poder mentir em voz alta.

Don't want to let you down

But i am hell bound

Though this is all for you

Don't want to hide the truth

–----xx-----

Não quero te deixar triste

Mas eu sou destinado ao inferno

Embora tudo seja pra você

Não quero esconder a verdade

— Jennifer — Ele a chamou assim que ela alcançou a porta — Fique longe de mim... Não sou a pessoa certa para você... Nem você é para mim.

Jennifer sacudiu a cabeça soltando a maçaneta.

— Se sabia disso... Porque deixou acontecer?

Scott riu sem animo.

— Já beijei muitas garotas antes de você... Pensei que entenderia que não sou nenhum príncipe encantado. Pensei que sabia que depois daquilo não haveria mais nada... Não existe relação onde não há sentimentos.

Jennifer foi até ele.

No matter what we breed

We still are made of greed

This is my kingdom come

This is my kingdom come

–----xx-----

Não importa o que alimentamos

Ainda somos feitos de cobiça

Esse é o meu reinado vindo

Esse é o meu reinado vindo

— Não acredito em você — Falou olhando para ele — Não acredito que não tenha sentimentos por mim... Sei que tem.

— Como tem tanta certeza? — Ele perguntou para ela.

— Porque … — Ela olhou para a cama — Hoje eu descobri que sou como você. Cheia de segredos... Até para as pessoas mais próximas de mim... — Ela voltou a olha-lo — Sou fria com as pessoas. Sou muitas vezes egoísta e de poucas palavras...

Ele permaneceu a encarando... Sentindo estar mais perto do que deveria. Ouvindo mais do que queria. Entendendo mais do que podia.

— Mas sabe... Tenho segredos porque eles são sérios, e, acho que quase ninguém seria capaz de entender... Sou fria com as pessoas porque fui criada assim... Sem afeto familiar. Sou muitas vezes egoístas porque já perdi tantas coisas que tenho medo de perder as únicas que me sobraram... Não sou de falar muito, porque quando havia uma discussão na minha casa eu nunca podia argumentar.... E... Mesmo sendo quem sou, eu me apaixonei por você... Então, eu não acredito em você quando você fala que não sente nada por mim...

Scott a encarou sem ter o que dizer... Ele queria poder contar tudo a ela... Mas como ela mesma disse, ninguém entenderia o seu segredo.

Ela por sua vez ficou na ponta dos pés para que pudesse beija-lo de leve, apenas pressionando os lábios contra os deles antes de voltar para sua altura normal.

Ele fechou os olhos com força antes de olhá-la novamente.

— Eu te odeio — Falou para ela — Odeio a sua teimosia, odeio como é persistente e te odeio por ser tão difícil ignora-la quando que na verdade já ignorei tanta gente.

Com uma mão ele a puxou pela cintura e com a outra ele aproximou o rosto dela ao dele. Ele a olhou bem nos olhos e ela fazia o mesmo.

When you feel my heat

Look into my eyes

It's where my demons hide

It's where my demons hide

–----xx-----

Quando você sentir meu calor

Olhe dentro dos meus olhos

É onde meus demônios se escondem

É onde meus demônios se escondem

— O que você esconde Jennifer? — Ele a perguntou sem soltá-la.

— O que você esconde?

— Se você soubesse da verdade aposto que fugiria de mim... — Ele disse quase num sussurro.

— Passei a minha vida inteira fugindo... Acho que já cansei disso. — Ela respondeu.

Ele a fitou por mais um tempo antes de dizer:

— Não tem medo do que eu possa ser? Não se importa em não saber?

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— Não tenho muitas coisas a mais para perder.

Ele a beijou. Caindo na tentação novamente... A beijou de forma feroz, como se tivesse medo de perdê-la. Como se o mundo fosse ser destruído em segundos. Pelo menos naquele momento ele pôde esquecer quem era... Esquecer tudo o que um dia já havia feito. Ele apenas queria tê-la... Como nunca quis ter ninguém.

Don't get to close

It's dark inside

It's where my demons hide

It's where my demons hide

–----xx-----

Não se aproxime muito

É escuro por dentro

É onde meus demônios se escondem

É onde meus demônios se escondem

E ela se rendeu a ele novamente. Como se ele fosse o único remédio para curar toda a dor. Era como todos falavam que era uma paixão... Intensa e o ponto principal de toda uma história. Ela deixou que ele a pegasse e deixou que ele a beijasse. Ele era frio, mas agradável como mais ninguém era para ela. Ele a abraçava de forma firme, juntando seu corpo ao dele. Ele cheirava a couro misturado com algum perfume intenso e agradável. Provavelmente havia bebido, pois ele trazia na boca o gosto gélido e amargo do Whisky. Porém, isso não a incomodava, era apenas ainda mais convidativo.

Scott jogou Jennifer contra a parede mais próxima sem separar o beijo. Ela o segurou, bagunçando seus cabelos negros enquanto ele beijava seu pescoço, a deixando inerte... Fazendo com que ela se desligasse do mundo. Ele pousou a mão na blusa de Jennifer a encarando de forma firme e com um olhar enigmático cheio de desejo e luxúria, ela podia ver.

E, ela gostou de saber que ele não era como os outros com quem havia dormido... Todos se preocupavam demais em saber se ela queria ou se ela estava de acordo ou até mesmo se ela já tinha feito ou não isso. Mas Scott não se preocupou nem um pouco em rasgar literalmente sua blusa antes de deitá-la na cama e continuar a beijá-la.

They say it's what you make

I say it's up to fate

It's woven in my soul

I need to let you go

–----xx-----

Dizem que é o que você faz

Eu digo que depende da fé

Está enrolada na minha alma

Tenho que deixar você ir

— Você tem medo de mim? — Ele perguntou separando o beijo um pouco sem ar.

Jennifer negou com a cabeça.

— Deveria ter — Ele falou passando a ponta do dedo pelo corpo dela. Arrancando um suspiro e até mesmo um tremor.

Your eyes, they shine so bright

I want to save their light

I can't escape this now

Unless you show me how

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Seus olhos, eles brilham tanto

Quero guardar a luz deles

Não posso fugir agora

A menos que você me mostre como

— Eu queria ser como você — Ele falou acariciando o rosto de Jennifer.

— Não pode ser verdade. — Ela disse segurando o pulso dele.

— Eu queria poder ser tão bom quanto você é...

— Não sou uma pessoa boa — Falou Jennifer.

— Então... — Ele a olhou nos olhos — Como você me faz querer ser uma?

Jennifer deu um sorriso fraco antes de puxá-lo para si novamente.

— Ela já deveria ter ligado — Resmungou Juliet jogada de qualquer forma no sofá da biblioteca.

Freddie e Josh estavam no sofá da frente esperando a ligação de Jennifer com Juliet.

— Talvez ela esteja conseguindo respostas... — Sugeriu Freddie.

— Com Scott? — Josh perguntou — Duvido muito... Na verdade, não vou muito com a cara daquele ali.

Juliet se levantou num salto.

— Então vamos até lá saber o que tá rolando... Nasci de sete meses, não sei esperar.

Os rapazes deram de ombros e acompanharam Juliet pelo campus noturno. Um vento frio corria sacudindo as folhas das árvores. As pessoas usavam os celulares, outras conversavam e algumas faziam trabalhos sentados nas mesas de pedra espelhadas pelo pátio.

Já dentro do dormitório masculino Freddie foi o primeiro a falar:

— Deixa que eu entro... Afinal o quarto também é meu, ele não curte muito que outros entrem aqui sem serem convidados.

— Tanto faz... — Juliet falou — Só vê se eles estão aí e tenta saber sobre a Holly.

Freddie entrou no quarto deixando que a porta se fechasse sozinha.

Juliet e Freddie ficaram a sós no corredor.

— E você? — Juliet perguntou fazendo Josh erguer as sobrancelhas. — Qual o seu lance com a Jennifer?

— Ah — Josh sorriu — Não é nada... Acabamos de nos entender... Acho ela uma pessoa legal, não sei.

Juliet balançou a cabeça.

— Acho que para o seu bem... Você deve pegar leve com ela se não quiser sair magoado.

— O que? Do que está falando.

— Da pra ver que está interessado nela... É só um aviso de minha boa pessoa.

Josh se encostou na parede dando de ombros. Logo Freddie saiu do quarto... Uma expressão estranha que Juliet nem Josh conseguiam identificar.

— O que foi? — Juliet seguiu até ele — É a Holly? Ela está bem?

Juliet foi entrando no quarto sem se preocupar com os avisos de Freddie para que esperasse.

Porém, não era Holly... No quarto só havia um Scott com os cabelos completamente bagunçados e a blusa desabotoada e... Jennifer, enrolada no lençol de uma cama.

— Não da para acreditar... — Falou Juliet — A gente esperando notícias e você aí...

Scott ajeitou a roupa enquanto Jennifer se preocupava em falar.

— Escuta... Eu não...

— Tá certo, tá certo.... Mas e então? Sabe algo sobre a Holly? — Perguntou Juliet

Jennifer balançou a cabeça.

— Ela deixou uma mensagem no celular do Scott, mas não era nada demais...

— E você foi comemorar esta descoberta insignificante com ele?

— Juliet — Freddie a repreendeu.

Jennifer abaixou a cabeça.

— Escuta — Scott falou finalmente — Meu quarto não é um programa de TV... Seria muito bom que fossem embora.

Juliet riu sem vontade e saiu junto de Freddie que fechou a porta logo depois de sair também.

— Droga — Jennifer praguejou contra o travesseiro.

Scott passou a mão pelos cabelos.

— Pode dormir aqui se quiser... — Falou ele sentando ao lado dela na cama — As coisas não vão estar legais lá no quarto de vocês.

— Mas esse é o dormitório masculino... — Falou ela.

Scott sorriu para ela.

— Não se preocupe... Eles não vem revistar o quarto desde a primeira semana de aula — Ele apontou para a cama no final do quarto — Aquela cama está vazia... Pode dormir ali.

— É o jeito — Falou ela pondo uma mecha do cabelo atrás da orelha.

Era quase meia-noite quando Jennifer finalmente havia pegado no sono... Freddie já estava dormindo a um bom tempo... Não demorou muito depois que saiu com Juliet, havia voltado irritado. Pelo jeito alguém havia falado explicitamente com ele.

Scott não dormia. Ele estava curioso, curioso para saber se seu truque havia funcionado... Voltaria logo... Ninguém notaria sua ausência no quarto.

Jogando a pluma no espelho um clarão azulado rompeu iluminando o quarto. Ele atravessou para o mundo dos mortos... Logo voltaria...

Don't get too close

It's dark inside

It's where my demons hide

It's where my demons hide

–----xx-----

Não se aproxime muito

É escuro aqui dentro

É onde meus demônios se escondem

É onde meus demônios se escondem

Jennifer estava tendo um pesadelo horrível onde todos haviam desaparecido e ela se encontrava sozinha no escuro... Mas havia uma luz lutando em seu subconsciente a acordando daquele tão terrível mundo dos sonhos.

Abriu os olhos com dificuldade lutando contra algo que os queimava... Uma luz. Uma luz pálida no meio do quarto. Se lembrara imediatamente do ocorrido da noite. Estava no quarto de Scott e também vestia uma blusa dele já que ele havia rasgado a dela.

Jennifer deitou na cama esfregando os olhos. Seus olhos foram fixados direto na luz pálida do quarto. Era fraca e oscilava. Vinha do espelho de corpo inteiro ao lado da cama de Scott, que por sinal, não estava ali.... Mas o problema todo era esse... Até onde Jennifer se lembrava, aquilo era um espelho e não um quadro.

Ela olhava para ele e via uma grama escura e um céu noturno cheio de nuvens cinzentas... Mas, as nuvens se mexiam... Estaria ela sonhando ainda?

Se levantou cautelosa tocando o chão de madeira fria... Seguiu em direção ao espelho, já bem próxima que ela pode ver de onde irradiava a tal luz... Era uma pluma que flutuava... Tinha um tom meio azul luminoso.

Se achando meio idiota... Jennifer esticou a mão para tocar na pluma e então a surpresa tocou seus olhos quando sua mão atravessou o espelho... Ela agarrou a pluma e a puxou para si com o rosto franzido de duvida e curiosidade. O espelho se embaçou depois que puxara a pluma e então as nuvens sumiram, o gramado sumiu... Agora ela via a si própria num espelho comum com uma pena sem graça nas mãos.

Olhou para a pluma mais uma vez, analisando cada parte dela... Talvez ela tivesse sofrido de algum transtorno emocional e alucinações começaram a acontecer... Talvez ela estivesse estressada demais e por isso estivesse vendo coisas fora do comum.

Persistente e ainda sim muito curioso, Jennifer tentou fazer o com que a pluma voltasse para o

mesmo lugar... Estava dentro do espelho, não é mesmo?

Jennifer esticou a mão contra o espelho vendo ele oscilar oleosamente enquanto sentia um frio na mão. Soltou a pluma em qualquer que fosse o outro lado e voltou a ver o mesmo céu e a mesma grama novamente.

Não sabia muito bem o que estava fazendo quando entrou no espelho como uma louca. Acima de tudo não sabia o que achar depois que sentiu a grama em seus pés e o vento em seu corpo frio e cortante. O céu era negro e perverso e ela se sentia pequena e indefesa naquele lugar, assustada e perdida... Mas não seria o caminho de volta que ela faria... Como ela mesma disse... Estava cansada de fugir.

Don't get too close

It's dark inside

It's where my demons hide

It's where my demons hide

–----xx-----

Não se aproxime muito

É escuro aqui dentro

É onde meus demônios se escondem

É onde meus demônios se escondem

Notas finais
E entãaao? Gostaram? Riram, choraram? Vamos ao que interessa... Pergunto a vocês, leitores, o que vocês querem ver a mais no capítulo, abaixo deixo as opções de voto, o mais pedido será incluído com a história do próximo capítulo ou será o capítulo. 1 - Saber todo o conteúdo da carta de Jennifer que Juliet leu. 2- Saber a história de Josh e porque ele foi preso 3 - Ter um capítulo em homenagem a Holly... Mostrando sua história, seu passado e revelando momentos da universidade não presentes até então. E por último e não menos importante... Descobrir o que ela viu durante o Truque Mortal que Scott usou nela. 4- e como última opção... Ter um capítulo inteiro mostrando Scott aos 16 anos no período em que esteve no inferno. Se acontecer um empate, as duas coisas estarão no capítulo. Mas vamos lá, escolham o que preferir e teremos no próximo capítulo. Até mais. XOXO