Truque do Destino
13 XIII - Decisões
XIII – Decisões
Há uma sombra que segue todos os mundos, fria e intangível, uma constante ameaça de término e esquecimento. Não há caminho que ofereça fuga da Geada Branca. Nenhum poder que possa parar ou destruir essa face da Natureza, o destino que aguarda a todos nós no Fim dos Mundos.
(Trecho retirado das anotações de um estudioso Aen Elle)
Kaer Morhen
O dia amanhece frio e nublado, o cinza a dominar as pesadas nuvens sendo como um lembrete da batalha que aconteceu entre os muros da antiga fortaleza. Sangue e gelo ainda cobrem a grama e as pedras, mas no interior do lar dos witchers, o fogo queima brando e acolhedor, acompanhando os movimentos dos guerreiros que preparam o café da manhã. Enquanto Vesemir arruma a mesa para todos os presentes, Lambert tenta organizar o resto do salão da melhor forma possível. Na cozinha, Eskel e Geralt separam pães e frutas, mas o olhar do witcher de cabelos brancos é constantemente desviado para a jovem feiticeira que permanece sentada no parapeito da janela, o ombro enfaixado coberto pela negra camisa e os dedos acariciando as penas de um belo corvo. O Lobo Branco percebe o suave sorriso nos lábios da filha, que vez ou outra se movem brevemente, como se Ileanna conversasse com a negra ave. Contudo, mesmo com a imagem pacífica que observa, Geralt não consegue esquecer o duelo de Ileanna e Caranthir, as ondas de poder que ecoaram pela fortaleza e o gelo que deixou a imagem de uma árvore sobre a pedra.
— Ela é mais poderosa do que pensávamos. – Eskel diz em um cuidadoso sussurro ao perceber a direção do olhar e dos pensamentos do amigo.
O Lobo assente, concordando, o dourado olhar sendo focado nas frutas, mas a mente retornando para a noite anterior. Por mais sinceras que tenham sido as palavras ditas para tranquilizar os temores de Yennefer, Geralt não consegue impedir que as mesmas dúvidas e medos invadam a mente e o coração – as perguntas sobre a natureza e a intensidade do poder de Ileanna se fortalecendo sob o silêncio e a calmaria após a batalha. Mas o witcher também questiona sobre o preço do poder carregado pela filha. Lembranças de Ciri ultrapassando os próprios limites e perdendo o controle se misturam a memória da feiticeira de olhos dourados ajoelhada sobre a grama, tremendo com o ombro sangrando e gelo ao redor. O som de asas batendo captura a atenção do guerreiro, que vira o rosto a tempo de ver o belo corvo alçando voo para longe da fortaleza e a jovem feiticeira descansando o rosto sobre os joelhos dobrados. No fim, qual é o preço cobrado pelo poder de Ileanna, pela natureza de Truque do Destino?
Questionamentos similares preenchem o silêncio que envolve as feiticeiras. Reunidas em uma das torres de Kaer Morhen, as belas mulheres se arrumam em uma quietude que mascara as perguntas carregadas nos olhares que são rapidamente trocados e desviados. Yennefer sabe que a maior parte das perguntas de Triss e Keira dizem respeito a Ileanna e ao poder exibido pela filha, mas a dona dos olhos violetas prefere deixar a ausência de palavras se esticar o máximo possível, pois sabe que as respostas se encontram, em sua maioria, fora do alcance. Desde o final do confronto com a Caçada Selvagem, a poderosa feiticeira não consegue esquecer a imagem da filha ajoelhada e tremendo sob o peso do próprio poder – algo mais comumente encontrado em feiticeiras inexperientes, o que Yennefer sabe que Ileanna está longe de ser.
— Sabe... – Keira começa, escovando o curto cabelo louro – Podemos continuar com o jogo do silêncio ou podemos falar sobre o que todas nós estamos pensando.
— E o que isso seria? – Yennefer rebate colocando a escova sobre a penteadeira e fazendo com que uma fraca risada deixe os lábios de Triss.
— Não se faça de inocente, Yenna. – Keira responde, atraindo a atenção das írises violetas – Sua filha tem um poder que, eu suspeito, ultrapassa o de todas aqui presentes.
As palavras da feiticeira de cabelos louros fazem com que Yennefer se vire completamente para as companheiras, as írises violetas brilhando com a seriedade que tenta esconder as dúvidas sentidas. Ainda assim, a bela feiticeira não encontra argumentos para desfazer o argumento de Keira, o duelo de Ileanna e Caranthir tendo deixado claro que o nível de poder da feiticeira de olhos dourados se encontra muito acima do que todos haviam suspeitado. Por um momento, o violeta olhar é desviado para Triss e, nos olhos castanhos, Yennefer vê o reflexo das palavras de Keira, a mesma certeza sobre Ileanna. Respirando fundo, a feiticeira de olhos violetas se permite um segundo para imaginar o que Tissaia diria se conhecesse Ileanna, o pensamento fazendo com que um pequeno sorriso nasça nos lábios finos. Não há dúvida no poderoso coração de que Tissaia testaria Ileanna até descobrir os verdadeiros limites e a verdadeira natureza do poder da jovem com olhos de witcher. E então a treinaria para que nunca perdesse o controle.
Mas os Aen Elle fizeram isso também. O pensamento invade a mente e faz com que as írises violetas sejam desviadas para o chão. Avallac’h a treinou e ainda assim ela pareceu no limite do controle.
— Você sabia? – Triss questiona com cuidado, quebrando o silêncio e procurando pelo olhar violeta da companheira.
— Eu suspeitava que ela fosse poderosa. – Yennefer responde retribuindo o olhar da ruiva feiticeira – Mas não nesse nível. Desde o começo, Nenneke nos avisou de que Ileanna teria uma grande sensibilidade a magia, mas há algo no poder que ela carrega que vai muito além disso.
— E o que isso poderia ser? – Keira questiona com curiosidade.
Algo que a machuca. É o primeiro pensamento na mente da feiticeira de olhos violetas, permanecendo sem som em meio a tensão que apenas se intensifica. Algo que a coloca no limite. Por mais que queira discutir a natureza do poder de Ileanna – que saiba que é necessário –, medo e preocupação lutam no coração de Yennefer, aprisionando as palavras no silêncio e obrigando a mente a reprisar o que foi observado quando o calor da batalha foi substituído pelo gelo sobre as pedras. Questionamentos sobre o passado da filha, do treinamento recebido entre os Aen Elle lutam por espaço na mente da bela feiticeira. Quanto Avallac’h sabe realmente? Não apenas sobre Ciri, mas sobre Ileanna também? O Aen Saevherne poderia conhecer a profundidade das raízes da jovem feiticeira como um Truque do Destino, até onde a natureza da jovem de olhos dourados empurra o poder carregado?
Por um momento, sob o intenso silêncio, o violeta olhar observa as poderosas companheiras. Há perguntas, curiosidade e preocupação nos olhos de Keira e Triss, mas Yennefer sabe que, no momento, não existem respostas a serem dadas.
Silêncio, contudo, é a última coisa na mente da jovem que permanece sozinha no pátio da antiga fortaleza. Sob o acinzentado céu, a mente da Andorinha se encontra presa em uma tempestade, as ondas balançando e empurrando os pensamentos como navios sobre o mar e, como o vento a envolver tudo, as vozes de Geralt e Ileanna. Com os braços cruzados sobre os joelhos e servindo de apoio para o queixo, Ciri recorda o encontro com Inis, a Aen Elle da Ilha da Neblina, e as palavras ditas – mais uma vez, o fantasma de Lara mais presente do que qualquer aparição. A memória é seguida pelo duelo assistido, o ódio na voz de Caranthir dirigido a Avallac’h e a ausência de protesto por parte de Ileanna, ainda que a jovem feiticeira insistisse em proteger o antigo professor. E o que foi dito depois da batalha.
“A imagem que você tem de Avallac’h é bem diferente da que eu e Caranthir temos, Zireael”
“Não há nada em nenhum mundo mais importante para Avallac’h do que Lara”
Lara
Parece que, não importa para que direção Ciri siga, o fantasma de Lara Dorren segue. Até mesmo para Avallac’h. Toda proteção oferecida, todo treinamento compartilhado... Tudo foi para preservar o que resta do sangue de Lara? Respirando fundo, a Andorinha relembra a dinâmica entre o Aen Saevherne e Ileanna. Proteção e cautela. Respeito e desconfiança. Uma dança de opostos que, em um primeiro momento, não parece possuir sentido, mas... E se possuir? Ileanna conhece Avallac’h há mais tempo – assim como Caranthir – e não é a única a mostrar uma falta de confiança no Aen Elle. Geralt e Yennefer também. E se a feiticeira de olhos dourados está certa sobre a importância de Lara para o Aen Saevherne, então Ciri também deveria ter mais prudência na confiança que deposita em Avallac’h? Mesmo assim, seria outra decisão tomada sob o peso do fantasma de Lara.
“Seu passado, seu sangue são seus. A influência que eles terão sobre você também é sua escolha” A voz de Ileanna é como o sussurro da brisa, atraindo consigo as palavras do Lobo Branco. “O poder que você tem é seu e só você pode decidir o que fazer com ele e, mais do que isso, decidir quem você é”
— Minha decisão... – o múrmuro que deixa os lábios finos quase se perde sob o silêncio que domina o pátio.
Eu não quero me tornar Lara. O pensamento é forte na mente da Andorinha, fazendo com que os dedos se fechem com força nos braços e o coração bata mais rápido no peito.
“Ninguém espera que você se torne” A voz de Ileanna ecoa como um distante trovão que anuncia a aproximação da tempestade. “Você entende, Zireael? O passado não define o presente. Seu passado, seu sangue, seu poder não definem você”
— Eu defino quem eu sou... – as palavras, lentas e hesitantes escapam em meio a um trêmulo suspiro, o coração ainda batendo como se caçasse algo ainda fora do alcance, mas que, pouco a pouco, consegue ser vislumbrado – Eu sou... Quero ser...
As pálpebras se fecham com força sobre as verdes írises, a voz tremendo na garganta, presa e perdida sem saber em que palavras se transformar. Então, uma memória rouba o foco, na verdade, uma coleção de lembranças, como uma tapeçaria de tudo que é respeitado, admirado e, às vezes, até mesmo invejado. A imponência de Calanthe. A coragem de Geralt. O poder de Yennefer. A inteligência de Avallac’h. O orgulho de Ileanna. E, como um sussurro que finalmente consegue ser libertado de uma profunda e escura prisão, a resposta vem. Simples, mas completa, carregando tudo que é e tudo que pode ser.
— Eu quero ser mais.
Tir Ná Lia
Os primeiros raios de sol tocam a rosa deixada sobre a mesa, a ordem dada sendo repetida na mente como ondas que chamam o desejo que o coração insiste em esconder. Írises esverdeadas são desviadas das vermelhas pétalas para o papel abandonado sob a pena. Uma mensagem dentro de uma mensagem, um risco que Vridhiel se encontra cada vez mais perto de decidir correr, os dedos coçando com a vontade de escrever o recado desejado. Contudo, não é a pena ou o papel que a mão se ergue para alcançar, mas a cicatriz na face, a linha que quebra a beleza no jovem rosto. A mente se recorda do fogo e do sangue, do frio do resgate e do calor que foi oferecido em casa. Amizade e lealdade, preocupação e cuidado. E uma incapacidade de impedir o coração de desejar mais.
É um jogo perigoso o que eles jogam e Vridhiel sabe, mas a cada passo dado, a cada jogada realizada, o cavaleiro vermelho se sente puxado para um único lado, para uma presença guardada com carinho na memória e olhos dourados ainda mais belos do que a mente recorda. Lealdade é um ato raro, um que luta com e contra dever e responsabilidade, mas que, no final, grita mais alto e vive mais intensamente, mesmo quando deveria ter sido esquecida pelo Tempo. Com um profundo e pesado suspiro, a mão é abaixada e a cicatriz é deixada, os dedos a trocando pelo quase inexistente peso da pena. Quatro palavras sobre o papel, uma reafirmação e uma promessa. Uma decisão que o capitão dos cavaleiros vermelhos ora para não se arrepender.
Kaer Morhen
Sozinho no próprio quarto em uma das torres da fortaleza, Avallac’h consegue ouvir os sons que denunciam o despertar dos witchers e das feiticeiras, mas a mente do Aen Saevherne deixa que o barulho venha e vá sem realmente registrá-lo, a mente focada nas jovens que são os alvos da Caçada Selvagem e no duelo recém-travado com o antigo aluno. Testemunhar a violência e o ódio em Caranthir foi como uma visita ao passado, um eco de um embate travado quando a verdade foi descoberta. Mesmo com a passagem dos anos, a raiva ainda queima intensamente no peito do poderoso navegador, sem dúvida alimentada pelas palavras e pela violência oferecida pelo atual rei.
Respirando fundo, o Aen Saevherne caminha até a porta, os passos lentos ainda pesados com as consequências deixadas pelo ritual dos witchers, a força encontrando ainda mais dificuldade para retornar após o confronto com o antigo aluno. A caminhada entre as paredes de pedra é feita de modo quase automático, a mente retornando para a Rosa e a Andorinha. A revelação de que Ileanna relembrou o passado nesse mundo, de quem é filha faz com que Avallac’h tenha a certeza de que o alcance da influência sobre a antiga aluna se encontra ainda mais enfraquecido e, com isso, a influência sobre Zireael. O Aen Elle sabe que, na presença de Ileanna, é a feiticeira o farol que Ciri segue – nenhuma outra voz, nenhuma outra presença pode competir com a da jovem de olhos dourados na mente da Andorinha.
Por isso Auberon a deixou como companhia para Zireael? Para guiá-la na direção que desejava? Mesmo com a posição desfrutada na corte do antigo rei, há segredos de Auberon que Avallac’h não conseguiu revelar ainda. Mas se o rei viu a força que Ileanna teria sobre Ciri, não há dúvida de que usaria isso para alcançar os próprios objetivos – intentos que o Aen Saevherne desconfia que são conhecidos apenas pela Rosa. Então, o único caminho que resta é observar para onde a feiticeira com olhos de witcher irá guiar a Andorinha, o que será dito e o que permanecerá em silêncio. Como os movimentos em um tabuleiro, cada jogada moldará a estratégia do Aen Saevherne, a trilha a ser seguida até que o antigo desejo do coração seja alcançado.
Quando o salão da fortaleza é alcançado, a mente do Aen Elle é atraída pelo som da aproximação das feiticeiras. Por um momento, o olhar aquamarine cruza com brilhantes írises violentas e, embora breve, o contato é o suficiente para que um aviso seja despertado na mente de Avallac’h. Com Geralt e Yennefer de volta nas vidas de Ciri e Ileanna, um muro de proteção de formou ao redor das jovens, não somente contra a Caçada Selvagem, mas contra qualquer um que queira usá-las e o poder que carregam.
Logo, o som de passos rápidos e altas conversas preenche o coração de Kaer Morhen, frutas e cálices passando de mão em mão em uma distribuição que parece se perder na própria ordem. Em um movimento preciso, Ileanna rouba uma maçã da mão do pai, os olhos dourados do witcher não sendo rápidos o suficiente para alcançar a filha antes que a jovem feiticeira busque refúgio com a mãe. O sorriso que estica os lábios de Yennefer, cheio de divertida satisfação, é o suficiente para fazer com que o Lobo Branco sorria também, o coração leve com o conhecimento de que a amada e a filha estão consigo novamente. Entretanto, o clima descontraído é interrompido pelo forte som de passos contra o chão de pedra, que não demoram a revelar a figura ofegante da Andorinha.
— Ciri? Está tudo bem? – Vesemir questiona, os dourados e atentos olhos observando o olhar quase febril da jovem de cabelo acinzentado.
A pergunta do líder dos witchers encontra reflexo nas faces de Geralt e Yennefer, que se afastam alguns passos da mesa, incertos da ajuda que pode ou não ser necessária à Andorinha. Sentado na ponta da mesa, Avallac’h observa Ciri com curiosidade no olhar aquamarine, a mente não distinguindo nenhum sinal de perigo ou preocupação na postura de Zireael. Aumentando a confusão sentida por todos, um sorriso nasce nos lábios de Ciri e uma intensa energia envolve as palavras que são ditas de modo rápido e quase sem fôlego:
— Quero treinar.
— Pensei que tivesse certeza de que era capaz de enfrentar a Caçada Selvagem. – Lambert comenta, sendo o primeiro a se recuperar do choque de confusão causado pela afirmação.
— Não quero treinar somente para derrotar a Caçada Selvagem. – Ciri responde, as palavras atraindo ainda mais a atenção das írises aquamarines – Quero treinar para conhecer e controlar meu poder, quero conseguir... Quero ter... Quero ser... – o olhar do Aen Saevherne acompanha o indeciso escolher das palavras e percebe quando as írises verdes da Andorinha se focam em uma jovem feiticeira de olhos dourados – Quero ser mais.
— Nós, com certeza, podemos ajudar com isso, criança. – Vesemir diz, compreensão e divertimento colorindo a voz.
Contudo, as palavras do witcher são como um distante sussurro para a mente do Aen Elle, cujo olhar observa o suave sorriso que nasce nos lábios de Ileanna, pintado com um orgulho e satisfação que encontram reflexo na face da Andorinha. Há mais do que um simples desejo por controle nas palavras de Ciri, um significado que é compartilhado como um segredo com a jovem feiticeira e aumenta a curiosidade do Aen Saevherne. Do outro lado da mesa, olhos dourados assistem enquanto witchers e feiticeiras discutem quais são os objetivos de Ciri e quais treinamentos seriam mais adequados, a mente preenchida pela satisfação de estar perto de cumprir uma ordem há muito tempo dada e um único pensamento que acompanha a rápida batida do coração.
Você finalmente decidiu.
Anos atrás
Tir Ná Lia
Espectros permanecem sobre a grama, trêmulos sob a lua, fantasmas do poder carregado pelos cavaleiros da Caçada Selvagem. Ao redor, soldados e nobres permanecem em silêncio, observando e aguardando o início do teste a ser realizado. De pé sob a frondosa copa de uma árvore, o rei assente para a jovem feiticeira, que se aproxima dos espectros com uma simples espada de prata nas mãos. Um profundo respirar escapa por entre os lábios de Ileanna, o dourado olhar observando os fantasmas invocados com cautela, a mente analisando e recordando cada tática já estudada e praticada.
— Adhart. – a voz de Avallac’h corta o silêncio, firme e imponente, chamando os espectros à ação.
Logo, o duelo se inicia. A jovem feiticeira se move sobre a grama com habilidade e agilidade, a espada bloqueando os golpes dos espectros tão bem quanto em um verdadeiro campo de batalha. Sob a lua, a lâmina brilha nua e resoluta, refletindo a firme determinação que se recusa a deixar as írises douradas. Cada movimento é acompanhado pelo insistente sussurro do poder dado pelo Destino, a tempestade oferecendo uma vantagem que é negada em cada controlado inspirar e expirar. Não, nessa luta não pode haver magia, nenhum chamado para o gelo ou para o sangue – nenhum momento para ser uma feiticeira, apenas uma soldada.
Írises aquamarines observam o embate com curiosidade, um pequeno sorriso esticando os lábios finos com o orgulho que o Aen Saevherne sente ao observar o modo resoluto como a aluna nega o próprio poder em prol de provar que o machucado recebido não a priva de lutar com uma espada. Para Avallac’h, que acompanhou de perto a recuperação de Ileanna, – cuidando que o ferimento causado por Eredin cicatrizaria de modo completo e saudável – a teimosia da jovem feiticeira sempre foi uma fonte de entretenimento. Talvez não tanto teimosia em sim, mas uma firme decisão de provar que é capaz de ser tudo e mais que o que rei pode esperar ou demandar. Uma vontade de servir em toda capacidade necessária. Faz muitos séculos desde Avallac’h viu uma lealdade tão forte para com o Rei dos Amieiros.
Ao lado do rei, Ge’els observa enquanto Ileanna desvia e atacada com a graça de uma dançarina com satisfação no olhar da cor do mel. É claro que a jovem feiticeira pode ser mais do que mais um acréscimo aos Cavaleiros Vermelhos ou um auxílio na preservação de Tir Ná Lia e do sangue do rei. Ileanna pode ser, por que não, uma verdadeira herdeira para Auberon. Se não para o sangue e o poder do soberano, para sua vontade, seu conhecimento, suas habilidades – seu coração. Por um momento, as írises claras são desviadas para o atento soberano, que observa o combate com clara satisfação. Mesmo se o tempo provar os Aen Saevherne como errados em suas previsões sobre a Andorinha, Ge’els pode ver que Auberon continuará vivendo em Ileanna.
Em silêncio, Auberon assiste ao armado combate com um pequeno sorriso nos lábios finos, o coração batendo intensamente com o orgulho sentido pela bela Rosa que se prova cada dia mais forte, mais poderosa, mais leal. Contra os espectros da Caçada, Ileanna se prova uma soldada habilidosa, ágil e inteligente em seus ataques – independente do profundo poder que carrega no sangue. Três espectros jazem derrotados, apenas mais dois permanecem e a jovem feiticeira é rápida ao desviar de um e, em um movimento fluído atacar e derrotar o segundo. O fantasma restante não demora a encontrar a lâmina de prata, caindo sobre a grama em uma muda queda. Uma vitória limpa e justa, mas que falha em fazer nascer alguma sombra de felicidade na face da jovem feiticeira.
O rei acompanha os ombros que tremem enquanto Ileanna tenta controlar a própria respiração, escondendo o cansaço causado pelo combate atrás das írises douradas que procuram pelo soberano com uma força que brilha sob a lua. Assentindo lentamente, Auberon chama a jovem feiticeira, que se aproxima com passos lentos, mas firmes, o dourado olhar não desviando das írises da cor de chumbo derretido. O Rei dos Amieiros toca a face molhada de suor, os dedos acariciando levemente a bochecha corada, os olhos procurando e encontrando a lealdade de ferro que Ileanna oferece e reafirma a cada novo teste, a cada nova demonstração de poder. Respirando fundo, a jovem feiticeira se ajoelha sem quebrar o toque do soberano, cujo sorriso se estica ainda mais, a satisfação e o orgulhos sentidos claros para todos os presentes.
— Minha bela rosa.
Presente
Skellige
Olhos azuis e gelados como a nevasca observam o calmo balançar das frias ondas em meio à neblina, a mente inquieta questionando, imaginando e procurando por uma solução em meio ao caos. Como um castelo de cartas, tudo parece ruir diante do Rei da Caçada e Eredin começa a se perguntar se seu reinado poderia ser realmente assim tão frágil. Primeiro, o modo suspeito como Ge’els começou a agir e a perda de Vridhiel. Depois, o retorno de Ileanna, a bela e leal Rosa de Auberon. E agora... A derrota de Imlerith nas mãos de meros witchers e o desaparecimento de Andir. O orgulhoso rei se encontra agora com apenas dois generais e um poderoso navegador.
Ou talvez apenas um general. Afinal, as perdas de Vridhiel e Andir ocorreram para Ge’els. Eredin não é capaz de deixar de imaginar se o vice-rei decidiu se voltar contra ele – contra um rei que nunca conquistou a mesma lealdade que o conselheiro sempre ofertou a Auberon. E, se Ge’els realmente decidiu assumir um lado próprio nesse tabuleiro de xadrez, quais poderiam ser os objetivos a serem alcançados? Quais jogadas o vice-rei ainda poderia estar guardando? O Rei da Caçada não é um tolo e sabe que o verdadeiro perigo do conselheiro reside na inteligência e no conhecimento adquirido e guardado. Segredos de Auberon, da Rosa e da Andorinha. O quanto o último rei escondeu, o quanto foi mantido em silêncio, compartilhado apenas com o agora vice-rei?
Um baixo e raivoso grunhido escapa por entre os lábios finos do soberano, as írises claras se tornando ainda mais frias e duras. Não importa no final. O poder da Andorinha será conquistado, a Rosa e a Raposa cairão, junto com qualquer um que tente impedir ou se atreva a trair o Rei da Caçada Selvagem.
Kaer Morhen
— Se o seu desejo é conhecer e controlar seu poder... – Avallac’h começa de modo lento e calculado, as írises aquamarines observando atentamente as reações da Andorinha – Tenho um treinamento que você pode tentar.
— Que treinamento? – Geralt questiona de imediato.
Há desconfiança na voz do Lobo Branco, uma que é descartada sem demora pelo Aen Saevherne. Sob a atenção de witchers e feiticeiras, o claro olhar busca as írises douradas da antiga aluna, um discreto sorriso esticando os lábios finos antes que a resposta seja dada.
— Com uma âncora.
Curiosidade e confusão ondulam pelo salão, mas é uma cautelosa descrença que nasce nos olhos de Ileanna. Tendo passado pelo treinamento sugerido, a jovem feiticeira sabe o quão efetivo – e desgastante – tal exercício pode ser. Lembranças de noites passadas sob a lua despertam na mente de Ileanna, recordações de palavras sussurradas, encorajamentos e orientações, do toque frio da tempestade que trazia gelo para as veias e ameaçava paralisar o coração, do gosto de sangue na língua, as tentativas de controle exigindo mais do que o corpo e a mente conseguiam oferecer.
— Que tipo de treinamento é esse? – Ciri questiona, percebendo o olhar que é trocado entre Avallac’h e Ileanna.
— É difícil. – o Aen Saevherne responde – Mas ele a coloca em contato direto com seu poder. Não há caminho melhor para adquirir controle.
— E por que você o está sugerindo agora? – Yennefer pergunta, atraindo a atenção do claro olhar, a mesma desconfiança ouvida na voz de Geralt acompanhando as palavras da feiticeira – Por que não enquanto estava fugindo com Ciri?
— Porque esse treinamento exige um lugar seguro para ser praticado. – o Aen Elle responde com calma e naturalidade – Algo que não conseguiríamos em fuga, mas que Zireael encontra aqui, em Kaer Morhen. – as írises aquamarines retornam para a antiga aluna – Você deveria estar presente, se Ciri aceitar tentar. – o sorriso retorna aos lábios finos – Afinal, você foi treinada assim.
Ileanna assente e Avallac’h tem a certeza de que o último golpe foi dado, não dando oportunidade de Zireael recusar a proposta – a vontade da Andorinha de se igualar a Rosa a impedindo de desperdiçar qualquer chance de tentar algo em que a mais velha tenha excedido e oferecendo ao Aen Saevherne um vislumbre dos verdadeiros desejos de Ciri e da extensão da conexão que Zireael compartilha com Ileanna.
Tir Ná Lia
O baixo e calmo relinchar dos cavalos quebra o silêncio que envolve os jovens cavaleiros, as mentes flutuando entre pensamentos e lembranças, o coração batendo com a ansiedade que precede o cumprimento de uma ordem e a execução de mais uma jogada em um jogo que parece se complicar a cada turno. Na ausência de som, a mente de Andir tenta se manter afastada das lembranças que a conversa com o vice-rei despertou, a perda da irmã ainda presente como um machucado que as histórias surgidas após o desaparecimento de Inis não permitem cicatrizar. Uma vez, uma princesa fugiu por amor e foi marcada como uma traidora por aqueles que um dia juraram servi-la. Agora, uma feiticeira foge por lealdade, a marca de traição dada por um novo rei que pode esconder uma traição ainda mais profunda. Um discreto suspiro escapa por entre os lábios do navegador ao montar no próprio cavalo. Andir não deseja a morte de Ileanna, mas o jovem Aen Elle viu esse jogo antes e encontra dificuldade em vislumbrar um término diferente para a Rosa de Auberon.
Já montado, Faolin aguarda os companheiros sob uma tensa curiosidade. O navegador sabe que a presença de Andir se deve mais às suspeitas levantadas por Ge’els do que por lealdade à Ileanna e que o companheiro sofre com as lembranças que parecem ecoar no que é vivido pela Rosa de Auberon – o fantasma de Inis ainda presente na mente e no coração do poderoso navegador. Por um momento, o olhar azul é dirigido ao silencioso capitão e as sombras na face de Vridhiel são facilmente reconhecidas por Faolin, as marcas da luta interna entre o dever para com o trono e Tir Ná Lia e os sentimentos que são nutridos pela antiga comandante. Respirando fundo, o navegador segura com mais firmeza as rédeas e o longo cajado, o coração procurando equilíbrio apesar da precária posição que ocupam nesse tabuleiro cujo jogo é jogado por reis, generais e feiticeiras.
— Prontos? – Vridhiel questiona de modo rápido e firme, uma mão segurando firmemente as rédeas do cavalo enquanto a outra carrega a delicada rosa a ser oferecida.
Diante do assentir dos companheiros, o jovem capitão começa a cavalgar em direção à saída da cidade, mas a cada metro ultrapassado, a mente do cavaleiro vermelho se volta cada vez mais para a mensagem que permanece escondida na armadura, aguardando o momento e a coragem de ser entregue. Uma decisão pessoal em meio ao cumprimento de um dever. Se o tempo trouxer consequências por escolher a Rosa, então Vridhiel pagará o preço, sozinho. Mas ele o fará com o coração tranquilo e sem arrependimento.
Kaer Morhen
Após o término do café da manhã, todos se encaminham para o pátio interno da fortaleza, onde a árvore de gelo permanece pintada na pedra como um lembrete da batalha travada contra a Caçada Selvagem. Ciri exibe um entusiasmo que não é compartilhado, witchers e feiticeiras preferindo uma aproximação cautelosa, observando para descobrir se poderá existir algum objetivo oculto na sugestão de Avallac’h. O Lobo Branco tenta conter a ansiedade sentida com os braços cruzados no peito, a postura reta e rígida permitindo a aproximação apenas da feiticeira de olhos violetas.
— Não gosto disso. – Geralt comenta em um sussurro.
— Nem eu. – Yennefer assente em concordância – Mas vamos ver, se Avallac’h tentar algo, nós o impedimos.
O witcher concorda, as írises douradas seguindo para o centro do pátio, onde o Aen Saevherne guia Ciri sob o atento olhar de Ileanna. Por um momento, a inquieta desconfiança é deixada de lado e o guerreiro recorda as palavras ditas por Avallac’h. “Afinal, você foi treinada assim” Curiosidade nasce no coração de Geralt em saber exatamente como a filha treinou entre os Aen Elle, mas a tensão que o dourado olhar pode reconhecer na jovem feiticeira traz a desconfiança de volta, pois aumenta a certeza sentida de que o treinamento oferecido é mais difícil do que o Aen Saevherne deixou transparecer.
— Primeiro, você precisa escolher uma âncora. – a voz de Avallac’h ecoa pelo pátio, forte e imponente – Alguém que você confie.
— Deve ser alguém em quem você confie completamente. – Ileanna complementa, atraindo a atenção dos olhos verdes da Andorinha – Não deve haver nenhuma dúvida na sua mente ou no seu coração acerca dessa pessoa.
Ciri assente e a jovem feiticeira pode ver a pergunta que nasce na face transparente de Zireael. Quem você escolheu como âncora? E mesmo que Ileanna não perceba, o mesmo questionamento nasce nos witchers e nas feiticeiras, principalmente no Lobo Branco e na bela feiticeira de olhos violetas.
— Escolha, Ciri. – Vesemir diz conquistando a atenção das írises verdes – Quem você quiser.
Para a Andorinha, a escolha é simples e natural, o verde olhar caindo sobre o witcher de cabelos brancos e a mente recordando todos os momentos em que o guerreiro a ajudou e a salvou, a protegendo e a procurando mesmo contra todas as probabilidades. Sorrindo e sentindo o coração se expandir com carinho e amor, com a segurança sempre sentida com o Lobo Branco, Ciri responde sem hesitar:
— Geralt.
Ouvindo o próprio nome, o witcher não pode impedir que os lábios se estiquem um sorriso pintado com felicidade e se aproxima da filha da mais nova. Por um momento, as írises douradas do guerreiro cruzam com o olhar aquamarine do Aen Saevherne e, no olhar de Avallac’h, Geralt vê a satisfação causada pela confirmação de uma suspeita, o Aen Elle já tendo adivinhado quem seria a escolha da Andorinha. Respirando fundo e voltando a focar o dourado olhar em Ciri, o witcher deixa que os lábios se estiquem em um sorriso de apoio à filha mais nova, o coração batendo rápido e forte no peito, ansioso e incerto sobre o treinamento oferecido, mas ao mesmo tempo feliz ao ver a energia que pulsa em Ciri, resultado da alegria de ter escolhido um caminho para seguir. O witcher assente, concordando com a papel de âncora e o verde olhar da Andorinha retorna para o Aen Saevherne esperando novas instruções.
— Deixe seu poder fluir, Zireael. – Avallac’h diz, as írises aquamarines observando atentamente a resolução que nasce na face da Andorinha – Deixe que se manifeste e tente colocá-lo sob seu comando. Geralt é sua âncora, então retire da presença dele o foco necessário.
Ciri assente, o brilhante olhar se voltando para o Lobo Branco e se concentrando nas írises douradas. Respirando fundo, a Andorinha permite que o próprio poder desperte, a conhecida – e por muito tempo temida – energia tremendo lentamente sob a pele. Pouco a pouco, o ar do pátio se torna eletrificado, pesando nos pulmões de witchers e feiticeiras. A pouco passos de distância, o violeta olhar de Yennefer pula entre as filhas em uma atenta curiosidade. Ao mesmo tempo em que a poderosa feiticeira sente a crescente manifestação do poder de Ciri, a mente questiona e imagina como Ileanna se comportou na mesma situação, como o poder da filha mais velha se mostrou durante o treinamento. E, mais do que qualquer outra questão, Yennefer se pergunta quem ocupou o lugar de Geralt para a feiticeira de olhos dourados. Quem era e ainda é a âncora de Ileanna.
Para a feiticeira com olhos de witcher, a situação observada é, simultaneamente, familiar e estranha. Ileanna sabe o que é estar no lugar de Zireael, se concentrar na presença de outro enquanto o próprio poder desperta e pede, demanda, controle. Ainda assim, estar de fora, capaz apenas de observar, é desconhecido e inquietante. O poder da Andorinha sussurra cada vez mais alto no vento, um hesitante chamado que ameaça despertar a tempestade no sangue da jovem feiticeira. Ciri está dando o primeiro passo no controle do próprio poder, da herança de Lara Dorren, e da chance de escolher quem se tornar, que caminho trilhar. O sangue de Auberon começa a despertar para seu completo potencial, mas o rei não pode assistir o início da realização da visão tida e o pensamento dói no coração da Rosa, um discreto e profundo suspiro escapando por entre os lábios vermelhos. A última missão deixada em aberto está terminando e o sabor de conclusão é cada vez mais agridoce para Ileanna.
O peso do próprio poder é como uma pressão sobre Ciri, uma que se entrelaça nos músculos e nas veias, bombeado lado a lado com o sangue e envolvendo o coração em um abraço que ameaça sufocar os pulmões em um toque que arranha com cada inspirar. Com as írises verdes focadas no dourado olhar de Geralt, Zireael tenta controlar a respiração e afastar a mente da pressão cada vez mais intensa, impondo a vontade sobre a força da herança de Lara, tentando pegar emprestado toda força observada e admirada no witcher de cabelos brancos. Mas tudo se torna demais, a pressão grita, o coração luta para bater, os pulmões se agarram ao ar que conseguem capturar e, em um instante, tudo se quebra como vidro, uma onda de energia se espalhando pelo pátio enquanto a Andorinha cai de joelhos sobre a neve.
— Ciri! – Geralt chama de imediato, correndo até a filha mais nova e a segurando pelos braços. Sob os dedos, o witcher sente os tremores que dominam os músculos de Ciri, a respiração descompassada chegando até os ouvidos sensíveis como arfadas desesperadas de alguém que quase se afogou.
— Tente novamente. – Avallac’h diz com simplicidade, o calmo e aquamarine olhar vendo os mesmos resultados observados no início do treinamento de Ileanna. Percebendo a indignação que nasce no dourado olhar que é dirigido a si, o Aen Saevherne continua – Esse não é um treinamento fácil, Geralt, e se Ciri realmente deseja controlar o próprio poder, ela deve aprender a não o temer.
— Eu não... O temo. – Ciri responde devagar, a respiração voltando lentamente ao ritmo normal.
— Sim, você teme. – Ileanna diz, as írises douradas mostrando o reconhecimento do que a Andorinha está sentindo – E você não vai controlá-lo se o temer.
Com um pouco de dificuldade, Ciri ergue o verde olhar para a mais velha. Olhar nas verdes írises é como olhar em um espelho para Ileanna, as sombras de confusão e medo familiares demais para a feiticeira de olhos dourados. Com Zireael, a Rosa sente o despertar das lembranças de noites sob a lua, da voz de Avallac’h com distantes instruções, de olhos da cor do chumbo derretido calmos e confiantes no papel de âncora para um farol a tentar controlar uma tempestade. Respirando fundo, a jovem feiticeira arrisca um rápido olhar para o pai, encontrando nas írises de mesma cor a incerteza acerca do treinamento oferecido, da necessidade de Ciri sofrer para controlar o próprio poder. E uma nova questão nasce na mente de Ileanna. O último pedaço do quebra-cabeça, o único segredo ainda mantido, mesmo com a recuperação das lembranças perdidas. Anos atrás, tal segredo seria compartilhado com a Andorinha quando a hora chegasse e agora? Agora, que o rei jaz morto, mas a Caçada retorna e Zireael tenta voar para o próprio destino? Agora e aqui, entre família e amigos, com somente a sombra do dever, o segredo deveria ser revelado? Talvez sim. Todas as cartas na mesa e nada mais escondido.
— Talvez... – a jovem feiticeira começa, o dourado olhar retornando para a Andorinha ajoelhada – Talvez uma demonstração a ajude a compreender.
— Ileanna. – o chamado de Avallac’h é rápido e firme, um aviso e um questionamento.
— Se vir como eu faço, talvez se torne mais fácil para ela. – é a simples resposta ofertada, o desafio que nasce no dourado olhar silenciando qualquer outro protesto por parte do Aen Saevherne.
Não há verdadeira discordância por parte de Avallac’h com Ileanna mostrando o verdadeiro poder, revelando o presente dado a ela pela natureza como um Truque do Destino e o motivo que a faz tão importante para os Aen Elle. Na verdade, o poderoso feiticeiro se encontra curioso em observar as reações dos witchers e das feiticeiras – e principalmente de Zireael – ao verem o verdadeiro poder da Rosa de Auberon. Sem nenhuma outra palavra, o Aen Saevherne assente para a antiga aluna, uma concordância que não é pedida e uma permissão que não é esperada.
Respirando fundo, Ileanna se aproxima de Ciri, a mão direita estendida em uma oferta de ajuda que não é recusada. Curiosidade brilha no verde olhar da Andorinha, que cai sob o feitiço da presença da mais velha com facilidade, todo o foco antes oferecido a Geralt sendo transferido para a jovem com olhos de witcher. Percebendo a mudança e confiando na filha mais velha, o witcher se afasta alguns passos, o atento olhar permanecendo nas jovens, a mente e o coração intrigados com o que Ileanna pode mostrar, a verdadeira face do poder da jovem feiticeira.
— Seu poder é seu, Zireael. – Ileanna começa, os dedos soltando a mão da mais nova para afastar alguns fios acinzentados de perto dos olhos verdes – Por mais que seja uma herança de Lara, pertence apenas a você e está entrelaçado apenas a sua vontade. – respirando fundo, a jovem feiticeira se afasta alguns passos, as írises douradas ainda completamente focadas nos olhos de Ciri – Comigo, é diferente.
A afirmação intriga todos os presentes e, sem pensar, Yennefer dá um passo em direção às filhas, a mente ainda mais alerta e o coração inquieto e apreensivo no peito. Confusa, Ciri tenta questionar, mas as palavras morrem antes de ganharem voz quando as írises verdes observam o modo como Ileanna movimenta as mãos, quase como se estivesse chamando a neve esquecida no chão. Rapidamente, o ar se torna mais frio, o gelado toque da brisa ameaçando congelar a todos que encontra de dentro para fora. É como o gélido sussurro que acompanha a chegada da Caçada Selvagem, mas com algo a mais, um suave tremor que se intensifica a cada segundo, como o distante e baixo murmurar dos trovões que se torna mais alto quanto mais a tempestade se aproxima. Uma tempestade que Ciri reconhece como a forma mais natural do poder de Ileanna.
— Eu sou, como você sabe, um Truque do Destino. – a jovem feiticeira continua, as palavras soando como ecos de algo que nunca foi, uma conversa que deveria ter acontecido anos atrás – E essa minha natureza me presenteou como uma alta sensibilidade para magia. – pequenos flocos de neve surgem entre os dedos da jovem com olhos de witcher, dançando lenta, quase distraidamente – Isso fez de mim uma poderosa feiticeira, mas não foi tudo que o Destino me deu. – deixando a mão aberta com a palma para cima, Ileanna permite que os flocos de neve caiam sobre o chão em uma branca e suave chuva que segue em direção a uma das árvores do pátio – Minha sensibilidade, minha inclinação natural para a magia não foi o que me fez importante para os Aen Elle, não foi o que me colocou entre os Cavaleiros Vermelhos.
A curiosidade se intensifica no verde olhar da Andorinha e em todos que escutam a jovem feiticeira. Salvo dos olhares que se encontram concentrados em Ciri e em Ileanna, Avallac’h permite que um pequeno sorriso adorne os lábios finos, a calma nas palavras da antiga aluna ecoando a confiança e o orgulho sentidos sobre as próprias escolhas que sempre acompanharam a jovem feiticeira.
— O que realmente me fez valiosa foi o que a mistura em meu sangue me tornou. – Ileanna diz, os dedos conduzindo a neve pelo tronco da árvore, envolvendo sem hesitação cada galho e folha – Meu sangue me conectou à Geada Branca, Zireael. – a surpresa que nasce nas verdes írises encontra reflexo em diferentes olhares – Sou um farol para a Geada. Eu caminho com ela, por isso nenhum caminho permanece fechado para mim. Eu luto com ela, por isso sou temida. E, se eu desejar,... – Ileanna fecha a mão e, em um instante, a árvore de gelo se quebra como se fosse feita do mais frágil vidro – Eu posso destruir com ela.
A destruição da árvore ecoa como uma onda de choque pelo pátio de Kaer Morhen, witchers e feiticeiras deixados sem fala pela demonstração de poder da jovem feiticeira e pela revelação feita. Por mais que compreendessem que a mistura dos sangues pudesse trazer consequências para a filha, Geralt e Yennefer nunca imaginaram que tal consequência poderia ser uma conexão tão profunda e intensa com a Geada Branca. Ignorado, o sorriso nos lábios de Avallac’h se intensifica, sendo tingido com o orgulho sentido com o controle mostrado por Ileanna. Uma habilidosa navegadora, uma poderosa feiticeira... É impossível para o Aen Saevherne, como um Aen Elle, esquecer a força da Rosa de Auberon. Mas, como um professor para a jovem feiticeira, Avallac’h também percebe que algo mudou no poder de Ileanna, algo que o deixou mais afiado, mais intenso na ameaça que carrega, no eco da Geada Branca.
— Mas eu pago um preço, Zireael. – Ileanna retoma, abaixando as mãos e, com isso, diminuindo pouco a pouco o frio no ar, o gelo que cai sobre o corpo como presas a arranharem a pele. Com um pequeno sorriso nos lábios vermelhos, a jovem feiticeira volta a se aproximar da Andorinha – Eu sempre corro o risco de me perder para o frio e a neve. Se eu perder o controle, a Geada vai me consumir. Eu treinei e eu luto para que a minha vontade se sobreponha a da Tempestade. – as írises douradas percebem quando o verde olhar é rapidamente dirigido para as marcas de gelo deixadas sobre a pedra após um duelo – É mais difícil quando estou cansada ou machucada. A Geada sussurra mais forte e minha vontade tem que ser ainda mais poderosa. Mas você... – um toque gelado pousa sobre a face da Andorinha – Não há outra vontade envolvida a não ser a sua. Então, não tema o poder que há em você, Zireael. Sua vontade e mais nada o comanda.
Apesar do pedido feito, o toque que pousa sobre a pele da Andorinha sente a trêmula hesitação que é sentida pela mais nova, as revelações feitas pela mais velha ecoando como uma chuva na mente da Andorinha. Ciri sempre soube que havia algo além do que era mostrado no poder de Ileanna, na tempestade que podia sentir sob a pele da jovem de olhos dourados, mas saber que é a própria Geada Branca... E ver a calma com que Ileanna fala e mostra o poder que carrega... Por mais que tente impedir, Ciri sente a antiga inveja despertando no coração, mordendo com o desejo de ter o que a mais velha possui: a confiança, o poder, a imponência e a forte presença, a certeza do que caminho que trilha e por quê...
Por um momento, sob as sombras do céu que volta a nublar, a Andorinha vê o fantasma do Rei dos Amieiros e percebe a extensão da influência exercida por Auberon em Ileanna. Treinada e educada pelo soberano, a jovem feiticeira reflete tudo que foi aprendido e, sem que fosse percebido, assimilado. A serenidade e a calma no claro olhar, mostrando confiança no próprio poder e conhecimento, a presença que impõe e ao mesmo tempo convida, intimidando apenas quando necessário. Há muito de Auberon em Ileanna e, em um momento de clareza, Ciri reconhece a resposta para a dúvida tida no início do treinamento, sobre a identidade da âncora da jovem feiticeira.
— Era Auberon. – Ciri diz, despertando a curiosidade dos observadores – Ele era sua âncora.
— Ele ainda é. – Ileanna responde com simplicidade – O que ele me ensinou, como ele me treinou, tudo isso ainda me acompanha. – por um breve momento, a voz da feiticeira de olhos dourados parece falhar, um fraco eco do peso que acompanha as palavras ditas, das lembranças que ainda são preciosas para o coração. – Eu não o esqueci.
Você ainda o serve. O pensamento é imediato para Yennefer ao ouvir as palavras da filha mais velha. Mesmo não conhecendo tudo que foi vivido em Tir Ná Lia por Ileanna, a lealdade ofertada pela jovem feiticeira ao Rei dos Amieiros é clara para qualquer um, sobrevivendo a morte do soberano e sendo carregada sem questionamento ou dúvida. Ciri, por sua vez, tem a atenção roubada pela simplicidade e a aceitação com que Ileanna carrega o fantasma de Auberon, o peso de quem o Rei dos Amieiros foi nunca incomodando ou pesando sobre a feiticeira com olhos de witcher. Pelo contrário, as lembranças do soberano são carregadas com cuidado e carinho, sendo reconhecidas como parte do que – de quem— Ileanna é sem medo ou ressentimento.
— Por que... – a Andorinha começa, o eco de uma antiga questão renascendo na mente – Por que você é tão leal a Auberon, aos Aen Elle?
A pergunta, apesar de simples, captura a atenção de todos como um poderoso feitiço, diferentes olhares sendo focados na feiticeira com olhos de witcher, que permite que um pequeno sorriso estique os lábios vermelhos. Avallac’h também tem o foco desviado para a antiga aluna, a curiosidade acerca da resposta despertando na mente.
— Por que você é leal aos witchers, Zireael? – Ileanna rebate, as írises douradas observando a surpresa que nasce no verde olhar da mais nova – Seria um resultado de toda ajuda que eles sempre te ofereceram? Da proteção com a qual eles a rodeiam? De ter encontrado um lugar onde você é aceita e se sente segura? – a jovem feiticeira mantém o tom de voz calmo e suave, sem sombras de raiva ou repreendimento, mas ainda assim Ciri não consegue encontrar a força e a vontade para contestar, sentindo no coração o eco da verdade em cada pergunta feita – Se esse é o caso para você, por que seria diferente para mim? Por que deveria ser? Por causa da visão que esse mundo tem dos Aen Elle, da Caçada Selvagem? – Ileanna ergue a mão, tocando a face da Andorinha com a suavidade da brisa – Nada é preto e branco, Zireael. Eu ofereci minha lealdade livremente e a mantenho de vontade própria. Eu não me arrependo do meu passado nem do que me tornou. – um discreto suspiro escapa por entre os lábios vermelhos – Agora, você tem que conquistar seu passado, dominar a herança que carrega, para então escolher qual futuro quer ter, quanto mais você quer ser.
Oferecendo um suave sorriso, Ileanna se aproxima o suficiente para beijar a testa da Andorinha, o movimento despertando como resposta um abraço por parte de Zireael que é prontamente aceito e respondido. Tão perto, Ciri sente o suave eco do poder sob a pele da mais velha, o sussurro da tempestade, da voz da Geada Branca que chama e convida para caminhar pelos Caminhos dos Mundos. Entretanto, não é o convite que faz com que o abraço oferecido se torne mais firme e insistente, é o desejo que bate junto ao coração de encontrar a certeza acerca de si mesma, a convicção que Ileanna parece carregar tão naturalmente.
A poucos passos de distância, Geralt e Yennefer observam as filhas com a sensação de que a conexão que une Ciri e Ileanna é mais profunda e complexa do que um primeiro olhar pode deixar suspeitar. Não é apenas o poder de ambas que se complementam, mas também os caminhos trilhados. A jovem feiticeira está a alguns passos à frente da Andorinha, mas, sem pressa, a chama para terminar a caminhada, para descobrir os passos que faltam e encontrar o destino que é desejado. Pensamentos similares dançam na mente do Aen Saevherne, que percebe a continuação do que foi iniciado em Tir Ná Lia anos atrás com a simples ordem de que Ileanna servisse de companhia para Zireael. Agora, Avallac’h tem a certeza de que não era apenas companhia que Auberon desejava oferecer a Andorinha, mas também um vislumbre do que poderia ser conquistado, do caminho que Ciri poderia andar na conquista e domínio do próprio poder.
Um farol, realmente. O Aen Elle pensa, um pequeno sorriso esticando os lábios finos. Não apenas para a Geada Branca como também para o último vestígio do sangue de Lara.
Anos atrás
Tir Ná Lia
A música voa sob a lua, envolvendo os dançarinos que deslizam pelo jardim em elegantes movimentos. Ao lado do rei, írises aquamarines acompanham atentamente a dança de uma bela elfa. Cabelos longos, brilhando em prata sob o luar, destacam o sorriso que é oferecido ao companheiro a cada passo e giro e o intenso e verde olhar. A beleza da princesa é conhecida por todos os Aen Elle, mas foram a mente e o coração do poderoso Aen Saevherne que se tornaram reféns de cada sorriso e palavra dita, dos olhos que carregam a serenidade do rei e revelam a compaixão existente no coração da bela princesa. Muitos desejariam poder conquistar o lugar ao lado de Lara, mas Avallac’h sabe que tal lugar já carrega o próprio nome.
Respirando fundo, o Aen Saevherne desvia o olhar brevemente para o rei sentado no trono improvisado entre as árvores do jardim. Para Auberon, nenhuma vontade é mais importante do que a de Lara e qualquer promessa pode ser desfeita se for o desejo da bela princesa. Então, Avallac’h sabe que deve trabalhar para que nenhum outro pretendente roube a atenção ou o interesse de Lara. Mas que Aen Elle poderia competir com um poderoso Aen Saevherne, um conselheiro do Rei dos Amieiros? Não há ninguém na corte ou na Caçada, nenhuma ameaça além do livre coração da bela princesa que deixa o companheiro para convidar o pai para dançar.
Há muitas incógnitas no futuro, sombras que mesmo um poderoso Aen Saevherne é incapaz de desfazer, mas Avallac’h sabe, com toda força do coração, que se encontra cativado demais para ser libertado de Lara.
Presente
Kaer Morhen
Ciri continua a treinar até que os fracos raios de sol comecem a se dissipar em meio as cinzentas nuvens, a evolução no controle sobre o próprio poder lenta, mas presente, a demonstração feita por Ileanna servindo como inspiração para as tentativas seguintes. E, com o término do treinamento, as feiticeiras, com exceção da jovem com olhos de witcher, retornam para o interior da fortaleza enquanto os witchers, Ileanna e Avallac’h permanecem no pátio, conversando e comendo, mantendo companhia para a Andorinha que descansa e recupera a energia. Atento, Vesemir observa como, na ausência de aulas e instruções, é para Ileanna que Ciri se volta, a mais nova nunca se encontrando muito distante da feiticeira de olhos dourados. O veterano witcher não consegue deixar de sentir satisfação ao perceber que é Ileanna e não Avallac’h quem possui um poder de influência maior sobre Ciri. O líder dos Lobos prefere não imaginar para quais objetivos o Aen Elle poderia guiar a Andorinha.
Para Avallac’h, tal observação é como um contínuo retorno ao passado. Entretanto, o Aen Saevherne também percebe que, quanto mais o desejo de Ciri de se tornar mais se fortalece, a única influência que não enfraquece é a de Ileanna, a jovem feiticeira sendo o destino que a Andorinha deseja alcançar. O pensamento faz com que o Aen Elle se recorde da demonstração de poder feita pela antiga aluna, a presença da Geada Branca tão livre e intensa na Rosa de Auberon quanto a memória se recorda, mas um detalhe observado se destaca na mente de Avallac’h, ganhando liberdade na forma de um comentário que captura a atenção de diferentes olhos dourados:
— Seu poder mudou, Ileanna.
Curiosidade e suspeita nascem nos olhos dos witchers, a primeira sendo encontrada também nas írises verdes da Andorinha. A jovem feiticeira, por sua vez, apenas retribui o olhar do professor com calma e serenidade, um pequeno sorriso nascendo nos lábios vermelhos.
— Mudou como? – a Rosa questiona e algo na voz da filha faz com que o olhar de Geralt se volte mais atentamente para Ileanna. O suave sorriso nos lábios finos parece indicar que a feiticeira de olhos dourados já sabe sobre o que o antigo professor se refere, mas ainda assim preferindo questionar antes de concordar ou discordar.
— Seu poder sempre se assimilou a um sussurro, a um toque que envolve em uma fria tempestade e enfeitiça suas vítimas até congelá-las. – Avallac’h responde, as írises aquamarines observando a intrigada satisfação que nasce nos olhos dourados da jovem feiticeira – Mas agora ele está mais afiado, como uma mordida, como dentes arranhando a pele.
As observações do Aen Elle somente fortalecem o sorriso nos lábios vermelhos, a mente da jovem feiticeira viajando por um momento para um lugar deixado para trás, sob a lua e as sombras, a lembrança de presas e sangue, do som de corvos aquecendo o coração com o carinho encontrado nesse mundo após escapar das garras da Morte. A ausência de uma resposta por parte de Ileanna apenas intriga ainda mais os witchers e a Andorinha, que imaginam o que pode ter causado a mudança percebida por Avallac’h e o quanto a jovem feiticeira está ciente desse fato. O Aen Saevherne, conhecendo a antiga aluna, tem no silêncio e no sorriso de Ileanna a certeza de que a Rosa de Auberon percebeu a mudança no próprio poder, mas não possui a intenção de revelar a origem de tal alteração.
— Todo nós mudamos, Avallac’h. – Ileanna responde com simplicidade, fazendo com que um pequeno sorriso de reconhecimento nasça nos lábios finos do Aen Elle, que tem a confirmação das intenções percebidas na antiga aluna – ou falta delas.
O alto estalar de um portal sendo aberto captura a atenção de todos e quebra a questionadora atmosfera, os witchers imediatamente se colocando de pé, as espadas firmes nas mãos enluvadas. Mais cautelosos, Avallac’h e Ileanna se colocam mais próximos de Ciri, as mentes logo reconhecendo os três cavaleiros que passam pelo portal, os rostos jovens e belos expostos na ausência das máscaras típicas dos cavaleiros vermelhos. A jovem feiticeira é a primeira a se manifestar, indicando que os witchers esperem e se aproximando lentamente dos recém-chegados. A resposta dos cavaleiros é o rápido ajoelhar, a falta de hesitação no movimento surpreendendo tanto a feiticeira de olhos dourados quanto os witchers que observam em tenso silêncio.
— Vridhiel. Faolin. Andir. – Ileanna cumprimenta em um suave tom de voz, o coração batendo rápida e fortemente no peito ante a demonstração de um respeito e lealdade que por tanto tempo foram tidos como perdidos.
— Minha Dama. – Vridhiel responde levantando o rosto, as verdes írises se focando no dourado olhar – Trazemos uma mensagem do vice-rei. – com as palavras, o jovem soldado ergue a mão direita, a rosa dada por Ge’els sendo oferecida à jovem feiticeira.
— Qual mensagem? – Ileanna questiona, os dedos se fechando sobre o caule da vermelha rosa, mas sem a libertar do toque do capitão dos cavaleiros.
— Seu jardim aguarda seu retorno, Rosa de Auberon. – Vridhiel responde sem hesitar, os dedos cobertos pela manopla deixando a bela flor. Entretanto, o verde olhar permanece fixo na face da bela feiticeira, o poderoso coração batendo intensamente no peito escondido pela armadura e os dedos da mão esquerda tremendo levemente ao redor do pergaminho que mantêm escondido.
Um suave sorriso nasce nos lábios de Ileanna com a mensagem, a resposta que não era esperada e um convite que não é mal-recebido. Ainda afastados, os witchers observam a pequena conversa sem conseguirem decidir como agir. É claro que os cavaleiros vermelhos não desejam atacar Ileanna, a demonstração de respeito podendo ser percebida como verdadeira. Entretanto, a mensagem entregue intriga os guerreiros, que percebem o convite implícito, mas não confiam que possa ser algo completamente seguro para a jovem feiticeira aceitar. Alheio a desconfiança dos witchers, Avallac’h permite que um baixo e breve riso escape por entre os lábios, o som sendo percebido apenas por Ciri, que olha com curiosidade para o Aen Saevherne.
— Os soldados dela... – Avallac’h responde ao inquisitivo olhar – Ainda são dela.
Eles são leais. É o único pensamento na mente da Andorinha enquanto as verdes írises retornam para os cavaleiros vermelhos, que se colocam de pé diante da feiticeira com olhos de witcher. Ela é leal a eles e eles são leais a ela. Um dar e receber, uma troca que favorece as duas partes, fortalecendo a conexão que as une – uma conexão de amizade, de lealdade, de confiança. Por um momento, Ciri sente que compreende um pouco mais Ileanna e a relação que a jovem feiticeira mantém com os Aen Elle. Apesar das lembranças e das ideias guardadas e carregadas sobre os Aen Elle e os Cavaleiros Vermelhos, nesse momento, a Andorinha vê apenas soldados. Jovens treinados para lutar, para proteger e defender – ao próprio mundo e uns aos outros. Amigos.
— Obrigada. – Ileanna diz, o dourado olhar passando pelos três cavaleiros, terminando e permanecendo em Vridhiel.
O capitão assente em resposta ao agradecimento e se levanta junto com os companheiros, o coração batendo com toda força contra o peito e a mão esquerda pesando com o bilhete que ainda não foi entregue, a mensagem que permanece em silêncio, mas que, quando for revelada, selará o caminho e o destino de Vridhiel até o final do jogo. Por um momento, algo brilha nas írises douradas da jovem feiticeira e o cavaleiro vermelho tem a sensação de que Ileanna sabe – ou pelo menos suspeita – que nem tudo foi dito ainda, que algo permanece oculto. Contudo, logo o dourado olhar é desviado para Andir, adquirindo um brilho de compreensão e compaixão.
— Andir. – Ileanna começa, a voz mudando para a língua dos Aen Elle e capturando a atenção do navegador – Acredito que deva saber que Inis descansa em paz agora.
— O quê?!— a palavra não é mais do que um incrédulo sussurro, confusão e surpresa nascendo no acinzentado olhar, as implicações do que foi dito pela Rosa de Auberon fazendo com o que o coração bata desesperadamente no peito, tentando conter o desejo de fugir e encontrar a Ilha da Neblina, ter a certeza da verdade das palavras da jovem feiticeira.
— O vatth’ger de cabelos brancos. Ele achou Inis e a ajudou a encontrar paz.
Imediatamente, as írises azuis acinzentadas são dirigidas para Geralt, que sente o peso e o poder do olhar de Andir. Ileanna assente para o navegador, dando permissão antes que essa possa ser pedida. Respirando fundo e sentindo os músculos tremerem sob a pele, o navegador se afasta dos companheiros, seguindo um rápido caminho até os witchers. Com o foco de atenção sendo mudado para a caminhada de Andir, Vridhiel aproveita e dá mais um passo em direção à Ileanna, a mão esquerda discretamente depositando o bilhete entre os dedos da feiticeira. A Rosa apenas abaixa a cabeça levemente, o olhar ainda na direção tomada pelo navegador, mas os dedos segurando firmemente e escondendo o papel recebido. Próximo o suficiente para observar a troca, Faolin apenas sorri, nem um pouco surpreso com a atitude do capitão.
Enquanto isso, os witchers assistem a aproximação do cavaleiro vermelho com cautelosa curiosidade, nada na postura de Andir indicando um possível ataque, mas os toques que seguram as espadas não vacilam ou enfraquecem. O navegador segue sem pausa até parar frente a frente com Geralt. Com a diminuição da distância, a atenção do Lobo Branco logo é capturada pelos olhos do cavaleiro vermelho. Írises azuis tingidas com sombras de cinza, como o mar coberto pela névoa sob a lua. Um olhar intenso e poderoso que, de alguma forma, parece familiar ao guerreiro.
— Sou Andir, um navegador da Caçada Selvagem. – o Aen Elle diz devagar, a troca de idioma parecendo não vir com muita facilidade. E é o nome dito que ativa a memória de Geralt.
— O irmão de Inis. – o witcher diz, surpreendendo o cavaleiro, que não esperava ter o nome reconhecido.
— Você encontrou minha irmã. – Andir retoma e o eco de dor na voz do cavaleiro vermelho faz com que Geralt se recorde do que foi dito por Ileanna, o quanto o navegador é assombrado pelas histórias sobre a irmã. Frente a frente com o Aen Elle e vendo as sombras que se intensificam no acinzentado olhar, o Lobo Branco pode perceber o quão acertada foram as palavras da filha. O peso das lembranças acerca da irmã é como um fantasma nas írises do jovem navegador.
— Ela descansa em paz agora. – Geralt diz com suavidade e, quando Andir assente, o witcher pode ver o esforço que o jovem Aen Elle faz para não chorar, o olhar azul acinzentado se tornando ainda mais brilhante com as lágrimas contidas.
A imagem faz com que Andir pareça estranhamente humano para Geralt, que se recorda dos comentários feitos por Ileanna sobre os Aen Elle – a falta de medo de Eredin e da Caçada por vê-los como soldados, a lealdade oferecida e mantida por tê-los como fonte de proteção, de ajuda, de amizade. Com Andir e até mesmo com os cavaleiros que permanecem afastados com a jovem feiticeira, o Lobo Branco pode ver o que nunca encontrou nas interações com Avallac’h: a certeza de que os Aen Elle não são muito diferentes dos humanos, dos Aen Seidhe ou de qualquer outro habitante desse mundo.
— Compreendo que um vatth’ger trabalha por uma recompensa. – Andir diz reconquistando a atenção do witcher – Você requer uma recompensa por esse trabalho?
— Não. – Geralt responde sem hesitar – Inis me ajudou, foi recompensa suficiente ser capaz de ajudá-la também.
— Obrigado. – Andir diz e, com uma rápida reverência, se afasta, retornando para onde os companheiros se encontram.
Geralt acompanha o caminho do navegador, que é recepcionado com toques de compreensão e consolo. Nesse momento, observando a filha tocar o rosto do navegador em um carinho que conforta e apoia, o Lobo Branco vê a névoa das lendas e dos contos da Caçada Selvagem ser lentamente dissipada, revelando soldados não muito diferentes daqueles encontrados em qualquer exército desse mundo – indivíduos com suas próprias histórias e vivências, com seus próprios ferimentos e cicatrizes, sonhos e pesadelos, lembranças e fantasmas. A imagem apenas intensifica a certeza no coração do witcher de que os Aen Elle não são tão diferentes assim.
Anos atrás
Tir Ná Lia
A música se entrelaça às vozes no jardim do palácio, conversas se misturando e se sobrepondo à melodia que acompanha os dançarinos sob a lua. Sentado em um simbólico trono, Auberon observa os nobres e os soldados que aproveitam o baile noturno, a visão de um jovem comandante atraindo a atenção do soberano. Escondendo o pequeno sorriso em um gole de vinho, o Rei dos Amieiros assiste enquanto Vridhiel, vestido em preto e verde, se aproxima lentamente do ponto onde Ileanna conversa com Faolin. A hesitação presente no cavaleiro vermelho tenta ser escondida, mas ainda é perceptível para as írises da cor do chumbo derretido, assim como o anseio que brilha nas írises verdes iluminadas pelo luar.
Respirando fundo, Vridhiel chega ao destino, a mão direita oferecida em um convite para dançar que é prontamente aceito. Auberon percebe o rápido olhar que é trocado entre o comandante e o navegador, o divertimento nos olhos azuis de Faolin denunciando o conhecimento acerca das intenções por trás da atitude do companheiro. O olhar do soberano acompanha o casal até a companhia dos dançarinos, Vridhiel envolvendo e guiando Ileanna com movimentos suaves e respeitosos, os passos seguindo a melodia sem esforço. Um tentativo sorriso nasce nos lábios do cavaleiro, sendo retribuído de modo mais aberto e confiante pela feiticeira.
Ileanna ergue uma das mãos, os dedos tocando a cicatriz recente que marca a face de Vridhiel. Cor nasce na face do jovem cavaleiro, que abaixa o rosto em embaraço ao responder a algo perguntado pela bela feiticeira. Satisfação floresce no peito do Rei dos Amieiros ao perceber que sua Rosa se encontra bem protegida no jardim de seus soldados.
Presente
Kaer Morhen
Eu irei quando puder.
A resposta dada por Ileanna aos cavaleiros vermelhos ecoa na mente do Lobo Branco, as írises douradas observando as filhas descansarem próximas à lareira. Após a partida de Vridhiel e dos navegadores, uma fina garoa voltou a cair sobre Kaer Morhen, obrigando os witchers a retornarem para dentro da fortaleza. Ileanna permanece sentada próxima ao fogo, os dedos brincando distraidamente com o cabelo de Ciri, que repousa sobre as coxas da mais velha, os olhos fechados e o corpo tentando se recuperar do esforço exigido pelo treinamento. Por mais que tente, Geralt não consegue deixar de se preocupar com o convite feito e, de certo modo, aceito.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Por que o vice-rei dos Aen Elle faria tal convite se não para completar uma armadilha? O que garante que Ge’els não terminará entregando Ileanna para Eredin? Entretanto, nem a jovem feiticeira nem Avallac’h demonstraram algum tipo de preocupação ou receio com relação à mensagem entregue. Respirando fundo, o witcher deixa que os pensamentos sigam para além do encontro recente com os cavaleiros vermelhos, indo para a demonstração de poder assistida, para o que foi explicado para Ciri. Geralt nunca pensou que a filha pudesse ter uma conexão tão profunda e próxima com a Geada Branca. Ou mesmo com os Aen Elle.
Mesmo que as conversas tidas em Ard Skellige tenham mostrado a proximidade das relações mantidas com os Aen Elle, é diferente para o witcher observar as nuances que as colorem, especialmente a que diz respeito ao Rei dos Amieiros. Se a demonstração de poder de Ileanna deixou algo claro foi o quão fundo vão as raízes da influência do rei sobre a jovem feiticeira. Ter o antigo rei como a âncora para o próprio controle mostra o quanto Ileanna carrega a presença e a memória do soberano, o quão perto o fantasma de Auberon permanece do coração da jovem de olhos dourados. E o mesmo pode ser dito dos cavaleiros vermelhos, pelo menos aqueles que se mostraram no pátio de Kaer Morhen.
O witcher se recorda do nublado brilho nos olhos acinzentados de Andir, das lágrimas que o soldado lutava tão bravamente para não derramar. Naquele momento, ele não era um cavaleiro vermelho, um soldado ou navegador, mas apenas um jovem assombrado pela morte da irmã. Sob as sombras das chamas que dançam na lareira, a mente do Lobo Branco desperta a lembrança do consolo oferecido a Andir, a mão de Ileanna que pousou carinhosamente na face que, definitivamente, estava marcada pelas lágrimas, a derrota uma certeza desde o início da batalha. As mãos dos outros soldados – Vridhiel e Faolin – sobre os ombros cobertos pela armadura. Conforto oferecido livre e sinceramente, nascido de respeito e amizade.
Não muito diferente daquele oferecido entre os membros da Escola do Lobo através das décadas. Um pesado suspiro escapa por entre os lábios de Geralt, o dourado olhar desviando por um momento para a entrada do salão, a porta entreaberta permitindo a invasão da fria brisa e de algumas gotas d’água. Por tanto tempo, a Caçada Selvagem permaneceu como um conto de terror entre humanos, elfos e anões igualmente, uma história para alertar para os perigos escondidos nas sombras entre mundos. Contudo, agora o misticismo começa a enfraquecer para o witcher e a verdade se torna cada vez mais clara. Não há nada de extraordinário ou sobrenatural sobre os Cavaleiros Vermelhos – eles são apenas humanos, por assim dizer.
— Você realmente pretende aceitar o convite? – Geralt questiona, o olhar retornando para a filha mais velha e encontrando apenas curiosidade nas írises douradas.
— Por que não? – Ileanna rebate – Seria bom saber qual é a posição de Ge’els no meio de tudo isso, qual lado do tabuleiro ele apoia, se há um. – percebendo a hesitante preocupação nos olhos do pai, a jovem feiticeira completa – Ge’els poderia ter me atacado ou me entregado para Eredin há muito tempo. Se ele não o fez até agora, é porque há algo mais que ele deseja conseguir ou descobrir.
— Isso é verdade. – Avallac’h concorda, os passos lentos ecoando ao entrar no salão – Ge’els não é um tolo e não age sem uma estratégia.
Como você. É o pensamento imediato na mente do witcher. A desconfiança sentida com relação ao Aen Saevherne apenas se intensifica sob o peso do convite de Ge’els. Por mais que testemunhe as provas de que a convivência de Ileanna entre os Aen Elle tenha sido pacífica, o Lobo Branco não consegue se desfazer do medo trazido pelo conhecimento da acusação de traição que a filha mais velha carrega. Ciri e Ileanna são alvos da Caçada Selvagem, não importa se alguns soldados aparentam permanecerem amigáveis.
— Estratégia é exatamente o que devemos ter agora. – a voz de Yennefer atrai a atenção de todos, despertando Ciri do suave cochilo e levando o verde olhar para a feiticeira que se aproxima.
— O que você sugere, Yen? – Geralt questiona com curiosidade, os braços sendo cruzados sobre o peito.
— Nós tivemos provas de que a maior vantagem da Caçada Selvagem é a magia que eles carregam. – a poderosa feiticeira começa, a lembrança do poder demonstrado por Caranthir ainda fresca na mente de todos – O que significa que nós devemos fortalecer nossa magia. – Yennefer respira fundo, o violeta olhar desviando brevemente para as filhas antes de retornar para o amado – Nós decidimos chamar a Estada.
— Nós?! – o witcher questiona com incredulidade colorindo a voz – Quem é “nós”? E você realmente acha que isso é uma boa ideia?
— Conversei com Keira e Triss e elas estão de acordo. – Yennefer responde com um suave sorriso esticando os lábios finos – Elas irão partir para Novigrad procurar por pistas de Philippa e Margarita. Vou para Vizima negociar um acordo de anistia com Emhyr e descobrir sobre Fringilla.
— Você está colocando muita fé na misericórdia de Emhyr. – o guerreiro diz e a descrença sentida ecoa nas palavras ditas.
— Acredito que, pela segurança da filha, – as írises violetas desviam rapidamente para Ciri – Emhyr esteja disposta a deixar velhas feridas cicatrizarem. – a bela feiticeira ergue uma das mãos, deixando que os dedos repousem sobre os braços cruzados do witcher – Vocês podem nos encontrar em Novigrad. Sei que não gosta de portais e irá preferir ir pelo caminho tradicional. – a provocação pinta as últimas palavras de Yennefer.
— Com certeza. – Geralt concorda, assentindo e descruzando os braços, uma das mãos repousando sobre a cintura da feiticeira.
Tir Ná Lia
A lua brilha, alta e cheia, sobre a capital, a luz derramando um suave cobertor sobre a silenciosa cidade, guardando sonhos e lembranças, pensamentos que insistem em sussurrar, mantendo a mente desperta mesmo com o avançar da noite. Sentado no parapeito da janela do próprio quarto, Vridhiel sente a noturna brisa beijando a pele em uma suave carícia que traz consigo o perfume das cachoeiras que contornam o palácio. As pálpebras se fecham sobre os olhos verdes e um profundo respirar escapa por entre os lábios finos, o jovem soldado deixando que o corpo seja envolvido pelo abraço da noite na ausência do peso da armadura. Por um momento, o coração deseja que o vento seja capaz de levar a mente para longe, afastada do jogo que é jogado sem escolha, da decisão que foi tomada sem arrependimento.
Cruzando os braços sobre o peito coberto pela simples camisa, Vridhiel abre os olhos, observando a luz das tochas dançarem na vastidão do Palácio do Amanhecer. Por mais que a mente tente fugir, que os pensamentos tentem se disfarçar e se transformar, as palavras escritas e entregues permanecem como uma tatuagem a assombrar o jovem capitão, sendo murmuradas em cada batida do forte coração. Quando o jogo terminar e a final jogada for feita, ele estará onde prometeu, lutando – se aceito. As verdes írises são erguidas para a lua, mas há apenas gelo na mente do cavaleiro vermelho. Gelo, neve e olhos dourados com pupilas verticais.
Minha lealdade é sua.
Em outra janela, írises acinzentadas brilham sob o luar enquanto os dedos finos brincam com o pingente em forma de lágrima, a mente perdida em antigas memórias. A brisa assopra, fria e suavemente, como um sussurro distante no ouvido do navegador, como o longínquo chamado de um fantasma. As pálpebras se fecham com força sobre os olhos azuis acinzentados e Andir inclina o corpo sobre a cadeira, os joelhos apoiando os cotovelos para que a cabeça possa repousar sobre as mãos abertas. O jovem cavaleiro respira fundo, mas o ar treme ao deixar os lábios, os ombros logo tremendo com os soluços do choro que tenta ser contido.
Em meio à tempestade das recordações, Andir vê a irmã sorrindo, bela e orgulhosa, ao lado de Lara. Contudo, a memória logo dá lugar a outra, de Inis mostrando o poder que sempre dominou com habilidade, lutando e protegendo Tir Ná Lia. A lembrança de Inis é como um ferimento que volta a sangrar no peito do poderoso navegador, cada lágrima derramada uma gota de sangue que ecoa a dor sentida quando o desaparecimento da irmã e do marido foi relatado. Cada soluço que balança o corpo liberta a angústia sentida cada vez que a história da Senhora da Ilha foi ouvida, o peso de não conhecer o verdadeiro destino encontrado por Inis.
E, agora, que o vatth’ger afirmou que a irmã finalmente encontrou paz, Andir pode se permitir lamentar, sentir o luto. As lágrimas escapam dos olhos fechados, molhando a face bela e escorrendo pelos dedos que arranham a pele em uma vã tentativa de segurar a dor sentida. A mão direita deixa o rosto, segurando o pescoço, os dedos se entrelaçando a corrente da âncora carregada. O que adianta ter treinado tanto, ter se tornando um dos mais poderosos navegadores da Caçada Selvagem, se Andir não pode escapar do próprio coração?
Olhos azuis observam as belas quedas d’água, o som das cachoeiras preenchendo o silêncio do Palácio do Amanhecer e a mente do jovem navegador. Envolvido pelo abraço da noite, Faolin se permite recordar a última visita ao mundo dos Aen Seidhe para entregar uma mensagem. Ou duas, no caso de Vridhiel. Um pequeno sorriso nasce nos lábios do cavaleiro vermelho ao recordar o que o capitão fez. Quanto mais o tempo passa e o jogo progride, mais Faolin sente que eles terão difíceis decisões a tomar, escolhas a fazer.
Um jogo iniciado por traição. Ou lealdade. O quanto vale a palavra do rei agora? E qual rei deve ser seguido? O que cavalga com os cavaleiros vermelhos? O que ativamente governa na capital? Ou aquele que queimou na pira sob uma tempestade gelo e neve e cuja lembrança permanece na Rosa deixada? Um suspiro escapa por entre os lábios do navegador. A lealdade de Ileanna não é questionada pelo coração, mas em um tabuleiro com tantos lados, em que eles são apenas peças a serem movidas e um convite é mantido aberto, onde permanecer?
Estrada para Novigrad
O caminho para a Cidade Livre é feito sob um calmo e confortável silêncio, o sol lutando para brilhar entre as cinzentas nuvens que insistem em cobrir o céu. Se movendo com o tranquilo trotar de Plotka, Geralt observa as filhas cavalgando um pouco à frente. Ambas permanecem com as faces parcialmente ocultas pelos capuzes, mas ainda assim o witcher consegue observar as diferenças nas posturas das jovens. Ciri mantém um discreto e satisfeito sorriso nos lábios e uma leveza parece envolver a Andorinha, como se a decisão tomada de se tornar mais tivesse retirado um peso carregado nos ombros de Zireael.
Ileanna é diferente, mantendo um ar mais concentrado e sério, e Geralt não pode deixar de sentir uma pontada de orgulho ao perceber que a filha mais velha observa cada parte do caminho tomado, a mente constantemente atenta para possíveis perigos e confrontos. Contudo, é a presença que cavalga ao lado que mais intriga e inquieta a mente do Lobo Branco. As consequências do Teste das Ervas ainda podem ser vistas na face de Avallac’h, que treme com desconforto em alguns rápidos momentos, mas as írises aquamarines permanecem atentas às jovens, o claro olhar não deixando transparecer o conteúdo ou a natureza dos pensamentos e objetivos do Aen Saevherne.
O vento sopra fio e intenso, o gelado sussurro despertando a lembrança de uma Aen Elle na mente do witcher. O aviso e o pedido de Inis ainda pesam no coração de Geralt, que deseja manter Avallac’h o mais distante possível das filhas. É uma pena, para o witcher, que eles precisem do conhecimento e do poder do Aen Saevherne para a segurança de Ciri e Ileanna. Entretanto, os pensamentos envoltos por desconfiança não impedem que o witcher perceba quando Avallac’h se torna mais atento, o aquamarine olhar desviando das jovens para seguir uma sombra que se aproxima por entre as árvores.
Com um rápido movimento para aumentar a velocidade de Plotka, Geralt cavalga à frente, ultrapassando as filhas e ficando como uma barreira entre o grupo e a jovem elfa que caminha com passos lentos e desconfiados. Embora esteja alerta para qualquer ameaça por parte da desconhecida, algo nas roupas manchadas da elfa parece familiar para o witcher, despertando lembranças de paredes de pedra e da sombra das asas de um dragão.
— Gwynbleidd. – a desconhecida cumprimenta com um leve aceno de cabeça e um pequeno sorriso nasce nos lábios do witcher.
— Você é uma Scoia’tael. – o witcher diz, atraindo a curiosidade dos acompanhantes – Do grupo de Iorveth.
— Sou Melian. – a jovem se apresenta – Iorveth viu sua aproximação e o convida para conversar, Gwynbleidd.
Geralt assente, aceitando o convite, e desmonta de Plotka, uma das mãos ainda segurando as rédeas enquanto o witcher se volta para os outros, indicando que é seguro seguir Melian. As írises douradas assistem Ciri desmontar da negra égua, mas a aprimorada audição rouba a atenção para a breve conversa entre Ileanna e Avallac’h.
— Aen Seidhe.— há algo na voz do Aen Saevherne que Geralt não consegue distinguir com precisão. Algo que fica entre o desprezo e o desacordo.
— É o mundo deles, Avallac’h. – a jovem feiticeira rebate com divertimento na voz, como se não fosse a primeira vez que essa resposta é dada.
Os quatro acompanham Melian, deixando a estrada e entrando em meio à floresta, os cavalos logo sendo deixados sob os cuidados de dois guardas, os postos de vigia ocultos pelas sombras das amplas copas. A cada passo dado em direção ao coração da floresta, mais o grupo consegue perceber o modo como o acampamento dos Scoia’tael se mistura às cores naturais das árvores, mesclando tendas à vegetação natural como uma tela, a movimentação dos Aen Seidhe se tornando uma complementação do próprio respirar da natureza. Por um momento, Geralt não consegue se impedir de recordar de Flotsam. E de Cedric morto sob uma árvore tão bela quanto as que os rodeiam agora.
— Gwynbleidd! – uma alta voz chama, atraindo a atenção do witcher para um jovem elfo, o conhecido lenço vermelho ainda puxado sobre o olho direito — Caed'mil!— o foco do Scoia’tael desvia do Lobo Branco para aqueles que o acompanham, permanecendo um momento a mais no Aen Saevherne antes de retornar para olhos dourados, um pouco de provocação colorindo a voz – Você viaja em companhia diferente dessa vez.
— Iorveth. – Geralt responde em cumprimento, a mão se fechando sobre o antebraço do elfo, o soltando depois de um momento para poder apresentar os companheiros – Essas são minhas filhas, Ciri e Ileanna. – o witcher sorri ao perceber o desconfiado arquear da sobrancelha do elfo, que não diz nada, apenas retribui a mesura oferecida pelas jovens – E esse é Avallac’h, um Aen Saevherne dos Aen Elle.
Um curto aceno da cabeça é todo cumprimento que Iorveth oferta e recebe em retorno, a silenciosa tensão entre os elfos sendo sentida claramente pelos outros, causando curiosidade em Geralt e Ciri e divertido reconhecimento em Ileanna.
— Venha, Geralt. – o líder dos Scoia’tael diz – Vamos conversar. Suas filhas são bem-vindas no nosso acampamento e podem ficar à vontade.
Com um sorriso para as filhas, Geralt segue Iorveth até um espaço afastado da movimentação do acampamento. Os dois guerreiros são observados em silêncio, a curiosidade brilhando nas írises verdes da Andorinha enquanto Ileanna alterna entre a direção tomada pelo pai e o Aen Saevherne, cuja face se torna mais rígida, as linhas de expressão falhando em ocultar o desconforto sentido.
— Não poderia esperar mais de um Aen Seidhe. — Avallac’h comenta, mudando para o idioma dos Aen Elle quando Geralt e Iorveth se encontram longe o suficiente para não ouvir.
— Deixe as tensões entre Aen Elle e Aen Seidhe de lado.— Ileanna responde, segurando o punho de Ciri e seguindo em direção aos elfos sentados ao redor de uma fogueira – Esse é o mundo deles. Assim as como as regras.
Avallac’h não se opõe ao distanciamento das jovens, as írises aquamarines dançando entre os elfos que constituem o movimento do acampamento. Embora escuras, as roupas dos Aen Seidhe não escondem a realidade de uma vida em constante movimento, principalmente entre a terra e as árvores, carregando manchas e remendos como uma tapeçaria de vivências. Alguns permanecem no chão, sentados ao redor de pequenas fogueiras enquanto outros patrulham a região tanto pelo solo quando por entre os altos galhos das árvores. O Aen Saevherne se afasta um pouco, o capuz sendo puxado mais próximo ao rosto enquanto Avallac’h tenta mascarar o desconforto sentido ao estar entre os Aen Seidhe, tão diferente dos Aen Elle.
Estar entre os elfos desse mundo ou entre os humanos, Avallac’h não consegue decidir qual opção é pior. Por mais poderosos e habilidosos que os humanos podem se mostrar – principalmente com seus feiticeiros e witchers –, eles ainda carregam o fantasma que assombra o coração do Aen Saevherne, a memória de Cregennan de Lod. E os Aen Seidhe... Tanto do que eles poderiam ter se tornado foi perdido em batalhas contra os humanos, em discussões e preconceitos, em egoístas ambições de líderes que não souberam cuidar do próprio povo. Não há nada mais que os conecte ao Povo dos Amieiros.
O aquamarine olhar deixa abandona a observação dos Aen Seidhe em prol das jovens que caminham calmamente pela floresta, lado a lado, conversando. Tudo que esse mundo carrega de interesse para a Raposa é a Andorinha, o último vestígio de Lara ainda a existir. Por um momento, o Aen Saevherne permite que a mente viaje no tempo e, sob as sombras das nuvens, Avallac’h pode ver a bela princesa caminhando entre as árvores, os braços envoltos no braço do pai em um passeio muitas vezes assistido em Tir Ná Lia. Mas com um sopro do vento, a visão se desfaz, deixando apenas o frio impiedoso do que foi perdido e os fragmentos que permanecem. Ileanna e Cirilla.
Não há dúvida na mente do Aen Saevherne de que, se Ciri é a herdeira da Gaivota, Ileanna é a herdeira do Rei dos Amieiros. O que Auberon foi, os objetivos e sonhos que o rei tinha para a própria família permanecem vivos na lealdade que Ileanna ainda carrega. Assim como a proteção com que o rei sempre rodeou Lara encontra eco na constante companhia que a jovem feiticeira é para Zireael. A influência de Ileanna é a mais forte sobre Ciri, superando até mesmo a de Geralt ou Yennefer. Uma influência que guia para o caminho previsto pelo antigo soberano. E para longe do que foi desejado e planejado por Avallac’h. Caranthir e Ileanna foram os primeiros passos, mas o controle sobre os antigos alunos foi perdido – para Eredin e Auberon. E, se Avallac’h pretende preservar o que restou de Lara, então terá que quebrar a influência da Rosa de Auberon.
Ele não pode desistir agora. Há muito o coração do Aen Saevherne caiu vítima da Gaivota.
— Notei que Avallac’h não foi incluído nas suas boas-vindas. – o witcher comenta, os passos ecoando sobre as folhas secas e os lábios finos se esticando em uma exibição da provocação que pinta a voz.
— Não gosto ou confio nos Aen Elle. – Iorveth responde apoiando as costas no tronco de uma antiga e frondosa árvore – Você deveria fazer o mesmo.
— Por quê? – Geralt questiona cruzando os braços sobre o peito e deixando que uma sombra de seriedade caia sobre os olhos dourados, o coração batendo com o eco do aviso de Inis.
— Alguns Aen Seidhe ainda se agarram à ideia de que os Aen Elle virão para nos resgatar e nos levar para o mundo deles. – desprezo pesa na voz de Iorveth – Mas eu não acredito. Eles possuem o próprio mundo agora e, com isso, os próprios objetivos e ambições. – o olhar do Scoia’tael se desvia para a figura parada sozinha sob a copa de uma baixa árvore – E Aen Saevherne são mais traiçoeiros do que os seus feiticeiros humanos.
As palavras de Iorveth servem apenas para alimentar o fogo da desconfiança no peito do witcher.
Tir Ná Lia
Írises da cor do mel observam as sombras noturnas que envolvem a cidade em um silencioso abraço, a mente caminhando pelos labirintos da memória, revivendo os segredos compartilhados sob a segurança da noite. Ge’els se recorda de quando encontrou o antigo rei exatamente onde ele se encontra agora, sob a larga copa da árvore central do principal jardim do palácio, o sereno olhar observando a cidade adormecida, mas a mente atenta à presença do conselheiro.
— Seus pensamentos são altos, Ge’els. Dê voz à eles.
— A última incursão, meu rei. As criaturas daquele mundo ofereceram uma grande resistência aos nossos soldados.
— Sim, mas não o suficiente para derrotá-los. – os olhos da cor de chumbo derretido se voltaram para Ge’els – Mas não é isso que ocupa sua mente, correto?
— Ileanna, meu senhor. – Ge’els respondeu, sabendo que não teria como mentir para o rei – De acordo com Eredin e Caranthir, ela mostrou um grande controle dos portais, estabilizando o caminho de volta para casa.
— Quanto mais o tempo passa, mais Ileanna adquire controle sobre o poder que o Destino a presenteou. – um pequeno sorriso nasceu nos lábios do soberano – Seja honesto, Ge’els, e me diga o que realmente o que intriga.
— O que Ileanna é?
— Para...?
— Você. – o conselheiro completou, vendo o sorriso se fortalecer na face do rei.
— Ela é o farol que guiará meu sangue ao seu verdadeiro potencial, que ensinará a Andorinha que virá a voar no Caminho dos Mundos. Ela preservará o que minha filha foi e o que o meu sangue pode se tornar.
— Isso é tudo, meu rei? Ileanna é apenas um farol, um meio de preservar o sangue de Lara?
— Ela é minha Rosa, Ge’els.
E nos olhos do rei, Ge’els pode ver tudo que aquela única palavra sempre carregou na voz de Auberon. O respeito, a admiração, a confiança, a lealdade. E o carinho. Ninguém poderia ocupar o lugar de Lara no coração do soberano, mas Ileanna chegou perto. A jovem feiticeira conquistou o Rei dos Amieiros desde a primeira noite, quando foi apresentada por Avallac’h. Em um primeiro momento curiosa, depois a curiosidade se transformou em confiança e, por fim, lealdade. Uma lealmente oferecida e mantida livremente de ambos os lados. Ao mesmo tempo em que era protegida pelo rei, Ileanna não hesitaria em protegê-lo – mesmo sob o peso de uma acusação de traição.
E, agora, a Rosa caminha com a Andorinha, o último fragmento do sangue de Lara. Ileanna guia Ciri como o farol que Auberon desejava que se tornasse, ainda servindo o rei, mesmo depois de morto. A vontade, a memória de Auberon ainda vive em sua protegida. Ciri pode ter o sangue, mas Ileanna carrega a vida.
Ileanna é a Rosa de Auberon. E sempre será.
Acampamento Scoia’tael
As sombras que carregam a ameaça da chuva se intensificam no firmamento, o vento frio soprando suavemente e arrepiando a pele. Entre os Aen Seidhe, a busca pelo calor das fogueiras se intensifica, a música nascendo como um modo de espantar o frio e aquecer as mentes e os corações. Uma bela elfa começa a dedilhar o alaúde, a luz das chamas encontrando reflexo no longo cabelo vermelho. Outro elfo, com o curto cabelo negro caindo levemente sobre os olhos castanhos, começa a acompanhar a suave melodia, a voz se transformando no cantar de uma antiga e conhecida história.
Sob a lua, sua beleza brilha como as estrelas
Princesa dos Amieiros, venha dançar comigo
Deixe a noite guardar nossos corações
Lara. O nome nasce como a luz de um relâmpago na mente da Andorinha, o coração tremendo sob o peso do nome da Gaivota. As írises verdes observam a fogueira, o movimento das chamas quase como a dança da música, um feitiço para trazer a memória da princesa de volta. Respirando fundo, Ciri se recorda da própria decisão e das orientações dadas por Avallac’h e Ileanna durante o recente treinamento. Sem medo. O fantasma de Lara Dorren pode influenciá-la somente na intensidade que Ciri permitir e a Andorinha não deseja mais temer a sombra da Gaivota, o sangue e o poder compartilhados através do tempo. Então, Ciri ouve a canção, deixando que a imagem de Geralt seja a âncora a afastar o temor do passado tão distante.
Para você, eu me ajoelho
E meu amor ofereço
Como uma ponte entre nossos mundos
Você aceita minha mão?
É claro que a canção foi escrita sob o ponto de vista de Cregennan de Lod, apaixonado pela bela princesa dos Aen Elle. A percepção faz com que um pequeno sorriso nasça nos lábios da jovem feiticeira, os olhos dourados sendo dirigidos para o Aen Saevherne que permanece entre as sombras. Não há ninguém que seja mais assombrado pelo fantasma de Lara do que Avallac’h, a ferida causada pela escolha da princesa não tendo cicatrizado com a passagem do tempo. Mas as palavras cantadas despertam uma lembrança mais recente no coração da Rosa de Auberon. Um soldado ajoelhado e uma mensagem entregue em segredo. Uma promessa que aquece o coração com o conhecimento de que nem tudo foi perdido, com a perspectiva de que o que um dia foi – ou poderia ter sido – ainda tem a chance de ser.
Minha lealdade é sua.
Princesa de prata e esmeralda
Meu coração por você bate
Você me tem compelido
Como o mais doce dos feitiços
Protegido pelas sombras, o Aen Saevherne mantém os braços cruzados sobre o peito e o capuz puxado sobre o rosto, a mente tentando ignorar as lembranças desenterradas pela canção dos Aen Seidhe. Nenhuma música escrita pelos elfos desse mundo poderia descrever a verdadeira beleza de Lara, a força do coração e da vontade da filha de Auberon. As pálpebras se fecham sobre as írises aquamarines e o coração treme com o sussurro dos fantasmas do passado, com o eco da promessa quebrada.
É a escolha da minha filha, Avallac’h. Você irá aceitar.
Mas como aceitar quando o coração já se encontrava entrelaçado na própria existência da bela princesa, marcado pela beleza dos intensos olhos verdes e do sorriso sempre sincero? Como esquecer quando cada pensamento retorna para a Gaivota, voando em busca da sombra das asas de prata, de um eco da voz que assombra a mente? Como perdoar aquele que roubou o que foi prometido ou o mundo que abrigou tal furto? Para a Raposa, não há escapatória do feitiço de Lara Dorren, cada passo e decisão tomada sob o fantasma que é perseguido, sob o peso do amor que não morreu.
À você, eu prometo
Um amor eterno
Minha princesa, venha voar comigo
Para onde nossa felicidade nos espera
— O que você sabe sobre ela? – Geralt questiona, as írises douradas percebendo a curiosa confusão que nasce no olhar do líder dos Scoia’tael – Sobre Lara Dorren.
— O mesmo que todo Aen Seidhe. – Iorveth responde, dando de ombros e tomando um gole de vodca, a garrafa logo sendo passada para o witcher – Ela era a filha do Rei dos Amieiros e se apaixonou por um feiticeiro humano, Cregennan de Lod. O amor deles gerou muita tensão e conflito entre as duas raças e, quando ela morreu, o rei deixou esse mundo junto com os Aen Elle.
Geralt assente, o dourado olhar caindo sobre o Aen Saevherne parado em meio às sombras.
— É só uma história, Gwynbleidd.
— Algumas histórias carregam um pouco de verdade. – o witcher rebate com um pequeno sorriso, a clara provocação colorindo a voz.
— E como a história de Lara Dorren e Cregennan de Lod poderia ajudá-lo contra a Caçada Selvagem?
— Não é a Caçada que me preocupa.
Iorveth segue a direção do dourado olhar, distinguindo a forma do Aen Saevherne sob o refúgio das árvores.
— Eu aprendi que é sábio manter os inimigos por perto. – o líder dos Scoia’tael diz, a seriedade pesando na voz com as lembranças os combates já enfrentados – É mais fácil de vê-los prontos para colocar uma adaga nas nossas costas. – o witcher assente, aceitando o conselho, e o Aen Seidhe continua – Você nos ajudou em Flotsam e Vergen, Geralt. Se precisar na nossa ajuda dessa vez, a terá.
— Obrigado, Iorveth. – o Lobo Branco agradece com sinceridade, a mente imaginando como seria um duelo entre o Aen Elle e o Aen Seidhe.
Kaer Morhen
Olhos azuis, parcialmente ocultos nas sombras do negro capuz observam os witchers que organizam o pátio da antiga fortaleza, agrupando pedras quebradas durante as lutas e o limpando o gelo deixado pelo duelo entre dois navegadores. Silencioso, o jovem feiticeiro procura por pistas daquelas que foi ordenado procurar, mas há apenas ecos das presenças da Rosa e da Andorinha, indicando que ambas há muito deixaram o lar dos witchers. Respirando fundo, Caranthir deixa que o atento olhar caia sobre a árvore de gelo pintada contra a pedra.
A intensidade do poder de Ileanna não é desconhecida, tendo sido sentida em muitos treinos, duelos e batalhas travadas lado a lado. Entretanto, não será o suficiente para proteger Zireael. Ou Avallac’h. A lembrança do antigo professor ajoelhado e derrotado faz com que um nó de raiva nasça no peito do poderoso navegador. Tão perto. Se a Rosa não tivesse intervindo, a vida da Raposa teria terminado nas mãos de Caranthir, da criança que ele criou e moldou para preservar o poder e o fantasma da Gaivota. O mesmo objetivo que ele tentou alcançar com Ileanna, mas perdeu. Agora, Avallac’h tem apenas o desprezo e o ódio de Caranthir e a silenciosa desconfiança da Rosa de Auberon. Apesar da tentativa de proteção do antigo professor, não houve palavras de defesa por parte de Ileanna. A jovem feiticeira sabia a verdade presente na voz do navegador.
Deixando os witchers sem permitir que o percebam, Caranthir caminha para longe de Kaer Morhen, a mente seguindo o eco dos alvos de Eredin. As mortes de Ciri e Ileanna não são um objetivo pessoal para o poderoso navegador, mas o fim da vida de Avallac’h é algo que Caranthir se nega a deixar de alcançar.
Entrada de Novigrad
Os cavalos se aproximam lentamente da entrada da Cidade Livre, írises verdes e douradas logo sendo atraídas para os corpos amarrados e colocados em exibição como uma cruel e constante ameaça. Mesmo com o efeito do fogo que os consumiu, é fácil reconhecer as características peculiares das vítimas – a baixa estatura, as orelhas mais pontudas – Todos não-humanos, condenados pela retórica do Fogo Eterno. Geralt sente um gosto amargo na boca e o estômago se revirar diante do exemplo do que a cidade está se transformando, o alívio e a satisfação de ter ajudado os feiticeiros a escaparem se transformando em uma diminuta luz em face das sombras que parecem dominar Novigrad cada vez mais.
— É melhor tomarmos cuidado e sermos discretos. – o witcher comenta em um baixo tom de voz.
— A cidade foi realmente reduzida a isso? – Ciri questiona com descrença na voz, os olhos verdes retornando rapidamente para os corpos expostos.
— Infelizmente, sim. O Fogo Eterno e os Caçadores de Bruxas detêm o poder da Cidade Livre. – ironia colore as palavras de Geralt, o dourado olhar observando os caçadores que caminham entre os soldados.
— Para onde estamos indo? – Ileanna pergunta tentando desviar o foco da conversa.
— O Camaleão. É o cabaré de um amigo. – o witcher responde, percebendo a curiosidade que nasce no olhar na filha, mas desviando a atenção para Ciri ao completar – Pertence ao Dandelion.
Ciri sorri, ansiosa para rever Dandelion. Ileanna assente, guardando a própria curiosidade. Em silêncio, Avallac’h apenas observa, a mente considerando as próximas jogadas a serem feitas.
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