True King
2 1 - Dark wings dark words
Notas iniciais
Alguns anos depois...
Jon parou o golpe de sua oponente. O baque fora tão forte que sua espada tremeu, mas ele se manteve firme, empurrando as mãos para a esquerda e jogando a espada do inimigo para bem longe, caindo num tilintar.
― Venci de novo! ― Anunciou. Shiera Lassea lhe sorriu. Uma descendente direta de uma bastarda Targaryen, Shiera Seastar. Também era excessivamente bonita, conservando seus traços valirianos e um rosto aristocrático emoldurado por lindos cachos loiros, nos seus apenas 22 anos, sendo cinco anos mais velha que Jon. Shiera começara a treinar com Sor Arthur Dayne bem antes que o garoto.
Tinham muito em comum. Ambos tinham sangue Targaryen e haviam nascido em Westeros, mesmo nunca tendo conhecido aquele lugar de verdade. Tudo o que conheciam era a escuridão de Asshai, as pedras gordurosas e cinzentas e o constante barulho de navios.
― Não se gabe dos conhecimentos que eu lhe passei ― Disse Sor Arthur de longe, zombeteiro. Jon o considerava quase como um pai, Shiera o fazia também.
Lyanna havia encontrado Shiera na rua logo depois de chegar a Asshai, ela era uma órfã de seis anos, que estava quase morrendo. Ela era filha de uma sacerdotisa do deus R’hllor e por isso tinha um tipo estranho de poderes, ela via através do fogo. O futuro, o passado e o próprio presente. Sor Arthur no início ficara apreensivo quanto à garota, porém depois de um tempo insistiu para que Lyanna permitisse que ele cuidasse dela. E ele o fez, criou-a como a filha que nunca teve.
Quando Jon ficou velho o suficiente para treinar, Shiera já era uma ótima espadachim. Demoraram anos até Jon conseguir lutar de igual para igual com ela. No fim das contas, ela era por um bom tempo melhor que ele, no entanto sempre tentava ajuda-lo, tanto na luta quanto nos seus estranhos poderes com dragões — depois que estes surgiram.
Jon Targaryen estudava e treinava para ser um rei de um trono que nunca vira, mas desejava com fervor. Ele era filho de Lyanna e Raeghar Targaryen, e aquele era seu lugar de direito. Ele o conquistaria com fogo e sangue.
Guardou sua própria espada enquanto Shiera buscava a dela, preparando-se para voltar para casa. Despiu-se da armadura e esperou que a amiga retornasse.
― Você pode ter sido bom Sor Arthur, mas agora eu sou melhor que você ―Zombou, o encarando desafiadoramente.
― Ora, mas é claro que tem que se gabar, senão não seria filho do seu pai ― Disse o mais velho bagunçando os cabelos da filha, que agora já voltara.
― Não deve ser difícil ser convencido quando se é um Targaryen e se tem dois dragões ― Riu Shiera e arrumou os cabelos com as mãos.
Jon tinha dois dragões, que encontrara numa viagem as ruinas distantes de Asshai. Um deles era branco e enorme, mesmo sendo um pequeno filhote. Era grande e desengonçado como o próprio Jon, Shiera zombara. Havia outro vermelho como o fogo, pequeno e sorrateiro, este lhe lembrava alguém, mesmo que não soubesse quem era. E esse nem era o detalhe mais impressionante. Talvez por ser um Targaryen ou outra brincadeira dos Deuses, ele podia ouvir os pensamentos deles e controla-los. O maior ele tinha nomeado de Balerion, em homenagem a seu antepassado Aegon e o menor, Meraxes.
Jon e os outros andaram juntos por entre a cidade fria. A nevoa invadia a rua e o cheiro de maresia era forte. Asshai era uma cidade misteriosa, cheia de magia. O herdeiro Targaryen podia senti-la.
― Eu sinto o cheiro de torta de limão aqui de fora ― Jon riu quando se aproximou de casa. Entrou primeiro, deixando Shiera e Arthur para trás.
Morava numa casa grande e confortável, cinzenta como quase todas as outras casas da cidade portuária. Lyanna comprara aquilo quando fugira de Westeros, levando apenas o dinheiro que teria sido seu dote de noiva e um pouco do que seu irmão, Eddard Stark, havia dado a ela. Aquilo oferecia conforto a eles desde então, mesmo que Lyanna ainda trabalhasse fazendo poucos consertos e bordados para a região e Arthur treinasse alguns jovens.
Jon entrou e sua mãe estava na sala. Conservava sua beleza jovial, ao auge de seus quase 33 anos. Permanecia tão teimosa e obstinada, uma Mulher Loba, com lhe servia o nome.
Porém agora chorava amargamente. Jon rapidamente se aproximou e tentou confortá-la, sem saber ao certo o que fazer. Arthur e Shiera permaneceram na porta, observando em silêncio.
― Chegaram corvos com notícias de Westeros. Robert Baratheon está morto e Joffrey Baratheon está sentado no trono de ferro.
― A morte do usurpador lhe faz chorar? ― Perguntou Arthur extremamente confuso. O homem nunca tinha gostado do Baratheon, gostara ainda menos depois que o outro matara Raeghar.
― Não ― Ela fungou, respirando fundo ― Joffrey mandou decapitar Ned por traição. Traição! Mesmo quando nós nos dispúnhamos a assumir a culpa dos problemas em Winterfell, ainda crianças, Ned jamais deixava, meu irmão era o homem mais honrando que já conheci. E veja só, morto por traição!
Jon sentiu a morte do tio também, mesmo que em menor escala. Havia o visto apenas uma vez, muitos anos antes. Abraçou a mãe, apertando seus ombros naquele momento de necessidade. Lyanna afastou-se dele depois de alguns minutos. O choro já havia passado substituído por uma expressão resoluta.
― Está na hora de irmos para Westeros para você tomar o que é seu e vingar sua família, Jon. Ser o rei que eu criei você para ser.
― Farei o que for preciso mãe ― Deu certeza a ela. Lyanna pode sorrir ao perceber que seu filho já não parecia mais a criança que ela criara. Ele se erguia alto como um rei, metade Stark e metade Targaryen.
Jon tinha se tornado um rapaz bonito e Lyanna o havia criado com tudo o que podia oferecer. Mesmo assim ele não era mimado e ela se orgulhava dele. Falava a língua comum de Westeros e Valiriano, lutava com maestria, era um bom homem e entendia sua responsabilidade em salvar o Reino que Robert deixara cair em decadência. Ele seria o melhor rei que Westeros já havia visto.
― Vamos para o Norte muito em breve, buscar apoio de seu primo e então formar outras alianças ― A Loba o olhou atentamente ― Está com medo? ― Jon assentiu ― Bom. Vamos jogar o jogo dos tronos e o medo pode tornar você um jogador sábio, assim como um fracasso. Eu estarei com você, meu pequeno Dragão, até que chegue a hora de deixa-lo voar sozinho.
A previsão soou amarga a seus olhos de mãe, mas Lyanna apenas acolheu o jovem.
Mais tarde, Jon subiu para o quarto levando Shiera a tiracolo. Não era incomum que ficassem sozinhos – Jon só a via como uma irmã e ela sequer ligava para a opinião de terceiros. Ele a amava de todo o coração.
Balerion e Meraxes dormiam ali, esticados em uma cama improvisada para eles. Jon acariciou as costas de Balerion e ele alongou-se ainda mais, mostrando seu tamanho assombroso. Meraxes abriu um olho quando Jon aproximou a mão, e mesmo sonolento se afastou do carinho.
― Bem, suponho que nunca mais nos veremos ―Shiera lamentou ― Quem poderei derrotar agora? ― Ela sempre soube que Jon teria de partir, mas não esperava que na hora fosse doer tanto ser deixada para trás ― Vai para um continente estranho e eu acabarei ficando aqui, pensando em estar com você e com meu pai, que com certeza seguirá o filho de Rhaegar.
Jon estava indo embora. Iria lutar uma guerra, disso a garota sabia. Se tornar rei enfim – quando teria tempo para rever uma filha de bastardos na escura e fria Asshai?
― Venha comigo. Não há nada para você aqui em Asshai. Seu pai, eu e minha mãe estaremos lá, o que há de fazer aqui? Poderá ser uma guerreira leal a mim. Lutar ao meu lado, como minha irmã ― Jon quase implorou para que ela dissesse que sim. Com certeza Lyanna não se oporia.
Jon não havia explicitamente convidado Shiera para partir junto porque achara que ela já entendera que iria de um jeito ou de outro. Mas, aparentemente, ela ainda não compreendera.
Shiera apenas balançou a cabeça.
― Eu não sei. Não parece bom. Tenho um mau pressentimento sobre Westeros e se pudesse, pediria que ficasse aqui onde posso proteger você ― Sorriu de modo triste.
― Agora é minha vez de proteger você, Shiera. Podemos não ter o mesmo sangue correndo em nossas veias, mas você é minha irmã e eu desejo mantê-la segura.
― Sim, vossa graça ― Curvou-se de modo sarcástico. Porém, a voz de Jon era realmente imponente demais, como um rei, para que ela ignorasse.
― É uma ordem. Venha comigo, me ajude a conquistar meu lugar de direito e então poderá voltar a Asshai se assim desejar, ou fazer parte da minha guarda.
A órfã de Asshai acomodou-se no abraço desengonçado de Jon, certa de que seguiria o irmão onde quer que ele fosse.
♦♦♦
Lady Sansa Stark estava em Porto Real, dormindo em sua cama. Seus sonhos eram permeados de dragões e lobos. Sempre havia um homem neles – cabelos negros e selvagens, porte alto e esguio, a fazia lembrar-se de seu pai. Sansa nunca conseguia ver seu rosto, porque ele sempre focava no Trono de Ferro. Ao seu lado havia um dragão e ele parecia mais majestoso que tudo o que já tinha visto.
Quando ela acordava, ainda naquele ninho de cobra, aquele sonho soava como uma previsão do futuro. Ou talvez Sansa estivesse profundamente enganada, como sempre.
Levantar-se da cama doeu. Ela observou o corpo machucado no espelho, esquadrinhando as manchas escuras e as pequenas cicatrizes descendo em seu tronco. Teve de pedir por fim que as criadas encontrassem um vestido que de fato as escondesse – tarefa que ela mesma não fora capaz de fazer.
Voltaram trazendo um vestido negro fechado e Sansa agradeceu aos Sete pela ironia. A cor negra cai muito bem numa filha enlutada.
Respirou fundo. O sol inundava o quarto e mesmo assim Sansa se sentia sufocada. Queria estar entre as ameias escuras de Winterfell agora, com o carinho do pai.
Porém, como o passarinho que era, piou as mesmas coisas de sempre para Cersei quando encontrara a Rainha naquela manhã, resplandecendo como o sol depois de um dia escuro. Tão bonita, mas ainda sim, escura.
Permaneceu cortês quando cruzou com Joffrey e Sandor Clegane no corredor. Continuou calada quando um dos mantos brancos a levou em direção à estaca onde a cabeça de seu pai estava colocada e foi obrigada a olhar. Foi forte quando Joffrey mandou que a batessem mais uma vez.
― Seu pai era um traidor ― O rei menino falou de novo e de novo.
― Meu pai era um traidor ― O passarinho entoava, rodeando o mal como se fosse uma luz no fim do túnel. Mentiras, mentiras. Sansa Stark é uma mentirosa.
Talvez Clegane estivesse certo. Sansa estava apena sobrevivendo. A cortesia era sua armadura e ela a vestia com perfeição. Cersei podia se julgar uma ótima atriz, mas Sansa fingia melhor.
Fingia não temer, fingia não sentir. Mas sentia – falta de sua família, de seu pai, de sua inocência já de fato perdida. Falta de Lady e de Winterfell, mesmo que aquele lugar talvez nunca voltasse a ser seu lar porque Sansa já não era mais a mesma.
Aguentou mais um dia, permaneceu forte. Agira como uma verdadeira rainha loba, resistente e gentil. Sorrira tanto que seu rosto doía e estava tão cansada que poderia deitar e dormir todo o inverno, como em uma canção que ouvia ainda criança, despertando na primavera onde tudo estaria bem e o tempo frio não passara de nada além de um sonho.
Seu corpo doía e sua alma estava em frangalhos. Onde estava seu príncipe dourado das canções, sua parte boba e tola exclamava o tempo inteiro, que ainda não a salvara daquele mundo cruel?
Deitada novamente na cama, Lady Sansa pensa no homem de seus sonhos e torce para que naquela noite ele venha visita-la de novo.
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