Trowshers - Barreiras Da Mente
2 Nos tornamos perigosos
Notas iniciais
Nos tornamos perigosos
O gosto amargo de meu próprio sangue foi um dos piores gostos que senti. Talvez não pelo gosto propriamente dito, mas porque aquele amargo suco vermelho era provavelmente o fúnebre espetáculo final de meu organismo ainda vivo.
Pigarreei uma borrifada vermelha no assento da frente. Meu queixo ardia como se pusessem limão em uma ferida aberta nele. As coisas ao meu redor giravam retorcidas em meio a fumaça cinza, mas eu pude notar. A enorme viga metálica passara de raspão pelo meu queixo, e atravessava o assento da frente. Provavelmente junto da italiana de meia idade que sentava nele. Mas tudo estava confuso demais para mim. As coisas não tinham forma definidas, e a areia vinda do concreto destruído cobria-me da cabeça aos pés, trazendo uma insuportável sensação de sufoco, e sucessivos ataques de tosse.
Se aqueles seriam meus últimos minutos de vida, nunca havia me odiado tanto por ter tido esperança. O piloto havia recuperado no último instante o controle do avião. Era tarde demais para levantar voo novamente, mas a grande avenida parecia o suficiente para um pouso. Foi aí que resolvi ter esperança.
Até a asa direita do avião se chocar contra um prédio. A primeira classe era, sem dúvidas, o pior lugar para se estar. Foi sobre nós que o prédio desabou.
Procurei por Kayra, e aliviei-me quando notei que ela estava em melhor estado que eu. Em meio a fumaça, e abaixando a cabeça para se livrar do teto retorcido, ela vinha ao meu encontro com a mão no flanco.
Ouvia estrondos acima de nós. Provavelmente o prédio ainda não havia desmoronado por completo em cima do Boeing. Os sons, porém, pareciam tão abafados quanto os que se ouve em baixo d'água. Estava atordoado.
Uma explosão fez Kayra perder o equilíbrio, e se apoiar na cadeira à minha frente, franzindo o rosto de dor. Ela virou e olhou para a mulher trespassada pela viga metálica. Eu via os filetes fumegantes de cinza pairando sobre ela. Aquilo era verdadeiramente pavor, que transpassava através de seus olhos perplexos.
Ela virou para mim, e disse algo que não compreendi desesperada. Estava zonzo demais. Moribundo demais. Mas deduzi que ela dissera o que qualquer um diria: "Precisamos sair daqui!".
Jeff se arrastou entre o teto e o encosto de cadeira ao meu lado, e conseguiu se atirar no corredor, arfando pela dor do ombro ensanguentado. Eles estavam se esforçando. Estavam tão ruins quanto eu, e não queriam morrer. Kayra me sacudiu pelo ombro, e eu voltei a mim.
Hoje não, morte.
Com a ajuda dela, levantei me livrando da viga metálica acima de meu ombro. A dor no rosto era indescritível, mas meu queixo não estava quebrado. Eu saberia se estivesse.
Jeff estava á frente, andando curvado, enquanto o teto cedia aos escombros que caiam sobre ele. Kayra e eu usávamos um ao outro de apoio, e o seguíamos. Em instantes percebi para onde Jeff estava indo.
Um pouco mais à frente, a fumaça e o fogo surgiam de um buraco no avião. Os passageiros estavam mortos nos bancos. Pegos pela asfixia que tentava também nos matar. Tapando nossos rostos, prosseguimos, tentando ficar longe do fogo que tomava as cadeiras rapidamente.
Foi então que vi Jeff ser resgatado por um homem vestido com pesadas roupas pretas, e luvas e capacete verdes. Ele carregou Jeff, e passou rapidamente pelo buraco na carcaça, de onde alguns outros iguais a ele surgiram.
Quando vi o jato d'água apagar um dos focos de incêndio à nossa frente, fechei com força os olhos.
Bombeiros. Estamos salvos.
Kayra e eu fomos carregados logo em seguida. Foi naquele momento que percebi a verdadeira dimensão da destruição. Através da fumaça vi os bancos retorcidos, com seus ocupantes mortos, de olhos esbugalhados e expressões de terror nos rostos. O teto já muito baixo, devido os escombros. Estilhaços de vidro e ferro por toda parte terminavam por compor o cenário da primeira classe do voo quinhentos e noventa. Havia alguns poucos sobreviventes como nós, que foram rapidamente ouvidos pelos bombeiros.
Quando o bombeiro que me carregava saltou da abertura, vi que muitos passageiros já estavam do lado de fora, juntos de uma grande aglomeração de pessoas. Meus outros amigos estavam lá. Policiais, médicos, bombeiros, e a imprensa também, foi o que deduzi.
Fui deixado em uma calçada ao lado de uma ambulância diferente das que existem no meu país, junto de Jeff e Kayra. Perguntei-me em que país estávamos. As pessoas tagarelavam, desesperadas. Estávamos relativamente longe do avião — diria um quarteirão, aproximadamente. Pude perceber que os policiais controlavam o perímetro, enquanto bombeiros traziam apressadamente vítimas para longe da área de risco.
Helicópteros iluminavam com seus fachos de lanternas o lugar, repleto de fumaça e destroços. O barulho das hélices era atordoante. A noite encobria o céu com seu véu preto, e nos rostos das pessoas que estavam ali eu via mais cinza. Apenas os bombeiros transbordavam uma cor diferente. Laranja. A cor da coragem. Descobri ali, que eles também estavam com medo. Mas os filetes alaranjados apareciam, porque eles agiam mesmo assim.
Um médico prestava os primeiros socorros a mim e aos outros. Encostou em meu queixo um grande pedaço de algodão molhado, fazendo meu ferimento arder mais ainda. Eu gritaria, mas estava sem forças. Ele me envolveu com faixas e esparadrapos logo em seguida.
Foi quando o prédio o qual havia sido atingido pelo avião desmoronou de vez. O estrondo tomou conta do lugar, e eu olhei, estupefato, toneladas de concreto sucumbirem. Aquilo era horrível demais. Havia bombeiros por perto, e provavelmente pessoas a serem resgatadas. Percebi o fio de lágrimas quentes descer pelo meu rosto sujo.
Virei para meus amigos, e eles estavam tão chocados quanto eu. Jeff acabava de receber as últimas ataduras, e Kayra já tinha seu abdômen completamente enfaixado, por baixo de sua blusa preta. Estava suja no rosto, e seu cabelo castanho-louro caía sobre sua testa.
– Ei... — murmurei.
Ela virou para mim.
– Nós vamos ficar bem... — disse, enquanto sentia uma fisgada de dor no queixo.
Ela assentiu, mas eu via o cansaço nos seus olhos. Foi então que ela caiu na calçada. Dura, como um urso atingido por um dardo tranquilizante.
Olhei perplexo demais para esboçar alguma reação. Entenda, eu achava que o pior havia passado.
Deus, como estava enganado.
Quando olhei para Jeff, ele estava com as mãos na cabeça, como se sofresse de uma enxaqueca horrível. Sacudi Kayra pelos ombros. Estava abrindo a boca, para expressar meu espanto e preocupação, quando senti aquilo.
Primeiro uma onda de choque percorrendo minha espinha, e eriçando os pelos da minha nuca. Veio seguida de um forte e agudo zumbido, que em segundos se tornou tão agudo quanto um apito para cães. Minha vista escureceu, e não consegui mais sentir meu próprio corpo. E o pior. A pior dor de cabeça que havia sentido.
Deixei-me levar pela escuridão que me envolvia. Estava sem dor alguma. Sentia como se flutuasse no limbo de um abismo sem fundo. Talvez não fosse tão ruim morrer daquele jeito. Minha consciência se perdeu.
* * *
Eu acordei.
Essa foi a parte assustadora.
Flutuava na escuridão sem sentir nada. Não conseguia abrir meus olhos, nem mexer músculo algum. Então estava morto. Nunca achei que aquela frase tivesse alguma utilidade, até aquele momento. “Penso, logo existo”. Eu não estava morto. Não podia estar. Minha consciência pairava vívida em meio àquela escuridão. Ao menos ela eu ainda tinha.
E foi assim por algum tempo. Talvez não tanto tempo quanto eu senti que foi, mas ainda sim, muito tempo.
Meus dias se passaram escuros. Era acompanhado apenas de um sutil zumbido, que não sei bem se não era apenas um produto da minha mente. Quando dormi pela primeira vez, não achava que fosse acordar. Mas eu acordei, no mesmo estado em que estava antes. Os dias eram longos, e terrivelmente monótonos. Mergulhados em escuridão. Temi que estivesse realmente morto, e aquilo fosse estar morto. Tinha apenas meus pensamentos. E pensava. Sobre tudo e sobre nada.
Quando ouvi o primeiro som, havia perdido a noção de tempo. Mas tinha certeza que aquilo era som. Uma tênue buzina de carro. Era baixa, como se viesse de um lugar distante demais. Não voltei a ouvir naquele dia, mas novamente cometi um erro que estava se tornando um hábito: tive esperança.
No outro dia foi real. Eu estava ouvindo.
Nunca havia ficado tão feliz com um ranger de porta. Era um som áspero e forte. Um rangido duradouro, e lá no fundo metálico, mas que quase ninguém dá atenção. Bom, eu dei. Choraria, se sentisse meus olhos. Depois do ranger da porta, ouvi passos. Como tinha saudade de passos. Chaves balançaram, tintilando com harmonia, enquanto notava o som do vento, colidindo contra obstáculos. Vidro. Concreto. Mais passos, acompanhado do tintilar metálico de chaves. Ouvi o roçar de uma abertura metálica, daquelas típicas de janelas de vidro. Sim, era aquilo. Podia identificar cada som, com enorme contentamento. Dei-me conta de como sentia falta de ouvir aqueles sons. Em algum momento da minha vida já os ouvira, mas não dava tanta importância quanto agora dava. Os sons sempre estiveram lá, mas só dei importância a eles quando os perdi.
Depois da janela, ouvi passos novamente, e depois o som metálico do ferro arranhando o acrílico. Ouvi o som que o pano faz ao se dobrar. Alguém sentava em uma cadeira. Podia ouvir sua respiração, seu calçado mexer, e as chaves tintilarem. A porta abriu novamente.
– Senhora Tereza Falk? – perguntou uma voz feminina suave e polida de grande formalidade. Estava ouvindo uma voz humana. Não estava morto. E nem de longe aquilo era o melhor de ter ouvido aquela voz. A pessoa a quem se referia a mulher que falou, era minha mãe.
– Sim...? – ouvi minha mãe responder. Parecia despertada de um devaneio. Aquela linda voz rouca nunca me deixara tão feliz. Era minha mãe, sentada ao meu lado.
– Você tem... Duas horas... – disse a mulher, relutante.
Ouvi um suspiro vindo de minha mãe.
– Por que tudo isso? – ela disse, depois de algum tempo. – Por que ninguém explica nada? Por que tenho que simplesmente ficar longe do meu filho?
Senti falta de sentir meu coração. Sabia que eu o sentiria pesado ao ouvir aquilo.
– Senhora Tereza, entenda, fazemos isso para seu bem... – a mulher falou. Senti um manto de pena, cobrindo aquela voz. – Três médicos faleceram no último mês, e a última coisa que queremos é ver os pais desses jovens morrerem assim.
Minha mãe fungou. Estava chorando. – Eu entendo. Não é culpa sua. – engoliu o choro, e continuou melancólica. – Eles são perigosos do jeito que estão, não é mesmo?
– Sim.
– Você acha que existe alguma chance, minha filha?
A mulher ficou um pouco em silêncio. Ouvi o barulho de papeis. – O nome do seu filho é David, não é mesmo? – pausou a fala. – Ele tem apresentado um bom estado clínico. Precisamos ser otimistas, senhora.
Depois de um tempo minha mãe respondeu:
– Você tem razão. Meu filho é forte como o pai. Ele vai sair dessa.
Meu pai. Fora ele a conseguir colocar eu e meus amigos no Boeing para o Brasil de volta. Deveria estar louco pelo que acontecera. Aquele lugar estava tranquilo, então eu provavelmente estava no meu país. O avião certamente não caíra no Brasil, mas meu pai no momento era uma das pessoas mais importantes do mundo, e possivelmente nos trouxera de volta. Senti-me aliviado com a ideia de ele estar no controle da situação.
Bom, aparentemente, aquilo era alguma espécie de coma. Tentava conseguir respostas no diálogo.
– Certamente, senhora. O senhor presidente contatou os melhores cientistas para estudarem esse caso.
– Isso é... Muito bom... Charles é realmente muito influente.
– Sim. Esse país deve muito a ele também. Os cientistas descobrirão o porquê disso, senhora. – ouvi novamente o som de papeis. – Agora, se me dá licença, irei ver os outros.
– Ah, sim. Pode ir, minha filha.
Ouvi o som da porta rangendo, e se fechando. Minha mãe ficou um tempo sem emitir som algum. Ouvia apenas o som distante do trânsito, e o vento balançando folhas de árvores. O mundo lá fora poderia estar sendo destruído, mas felizmente, aquele era um dos "países limpos". Não ameaçava, nem era ameaçado por nenhum outro.
– Você vai ficar bem, não é mesmo, filho? – ouvi-a dizer, finalmente. Imaginava que talvez ela estivesse acariciando meu rosto. – Todos os outros morreram por causa da bomba, mas vocês não... Isso não é por acaso, não é mesmo? – pausou a fala. – Eu sei que não...
Notas finais
- Nota do autor -
Pessoal, desculpem o quase "abandono" da história. Nos últimos dias tenho tido pouquíssimo tempo, que está sendo dividido entre o vestibular, outro livro que escrevo, e outras coisas muito importantes. Mas estou voltando. Essa história clama por ser escrita, e acho que não vou sossegar enquanto não terminar. Obrigado pela paciência. :)
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