Trowshers - Barreiras Da Mente
4 Meus pés tocam o asfalto
Notas iniciais
Tô de volta com mais um capítulo. As coisas vão começar a se desenrolar... Espero que gostem! :)
Comentem, mandei sinal psíquico, façam com que eu saiba que estão acompanhando a história, pela santa lasanha de domingo!
Quanto mais pessoas acompanhando, mais motivado estarei a escrever :P
É isso, até a próxima.
~John.
Meus pés tocam o asfalto
A escuridão não é a pior parte em estar de olhos fechados. A luz, ela sim faz falta. A falta dela corrói. Até mesmo a mente mais hiperativa uma hora entrega-se ao nada, na escuridão. É por isso que dormimos. Desde o começo, sabia que aquela talvez fosse minha sina.
Não sei ao certo quanto tempo se passou até ouvir aquilo. Mil anos? Era o que eu diria. Minha capacidade auditiva se tornara inútil simplesmente pelo fato do silêncio ter tomado conta daquele lugar. E o tempo era algo que há muito havia perdido a capacidade de acompanhar. Mas eu ainda podia ouvir – tinha quase certeza disso.
A porta rangeu longamente, junto de suaves passadas abafadas, como se a sola do que quer que pisasse naquele chão fosse de uma borracha excessivamente grossa. A sensação que tive em voltar a ouvir era como a que uma engrenagem sente se movendo depois de milênios. Foi como uma corda que me puxou de um abismo repleto de nada.
- Como está, minha criança? – perguntou uma voz grave, mas ao mesmo tempo suave, em inglês. Aquela voz era carregada de velhice, e já havia ouvido ela antes.
Ouvi mais passos, e depois um longo barulho de algo se abrindo. Ouvi o barulho de plástico, como o que se ouve ao abrir um pacote de biscoito. Certo, não achava que alguém viria ali me oferecer biscoito.
- Aqui está minha última ajuda, rapaz... – disse o homem. Queria muito poder ver à que ele se referia. – Essa substância foi fruto do meu trabalho no último mês. Vir aqui do jeito que as coisas estão é pedir para morrer... – ele tossiu. – Mas pouco importa, já vivi o bastante... Vocês devem viver.
Ouvi passadas, e o arrastar da abertura da janela que eu sabia que existia ali. O homem ficou um pouco em silêncio e depois riu.
- Vocês causaram um estrago, hein? – disse ele. – Metade dessa cidade agora é um grande deserto... – pausou a fala, suspirou e continuou. – Mas se eu estiver certo, vocês irão acordar. Isso que injetei em você fará com que sobreviva mesmo com essa máquina em mau funcionamento, ao menos por um tempo. Não poderá mais ouvir, como eu sei que pode agora, mas certamente não morrerá.
Ouvi mais passos, e depois pude ouvir a respiração do homem.
- Veja que fantástico... – disse ele. – É como se as coisas estivessem derretendo... Queria de verdade vê-los acordar...
Ele continuou falando, mas a partir dali, os sons não passavam de pulsações indistintas. Era como adormecer. Mas eu sabia que era algo mais profundo que isso. Mergulhei até o ponto em que meus pensamentos já não mais existiam.
...
Quando abri meus olhos tive a impressão de que iria ver o teto do meu quarto, e que aquilo apenas tinha sido uma noite de sono normal, um tanto conturbada.
Mas aquilo não era meu quarto.
Minha vista foi ficando menos turva, e eu pude identificar um forro branco empoeirado acima de mim. Virei um pouco os olhos, e pude olhar Jeff repleto de filetes fumegantes cor de salmão em torno do rosto. A cor que eu via quando as pessoas tinham expectativas. Como tinha saudade daquilo. Sua expressão era uma mistura de espanto e alegria. Seu rosto estava empoeirado e seu cabelo desgrenhado.
- Dave...? – ele murmurou.
Quis falar, mas senti que teria de fazer um pouco mais de esforço que aquilo. Tentei levantar, e senti uma vertigem, que quase me levou a cair. – Calma... – disse Jeff, me segurando.
Pisquei com força algumas vezes, até recobrar o equilíbrio. Olhei ao redor. O quarto era repleto de máquinas estranhas empoeiradas. Havia uma janela de vidro à esquerda e uma porta azulada que estava aberta à direita. O lugar onde estava sentado era uma espécie de incubadora acolchoada com os contornos no meu formato. Tinha vários circuitos e pequenos cabos nas laterais. Havia uma tampa de vidro aberta para o lado. Como um sarcófago tecnológico.
- Que lugar é esse? – consegui perguntar, com dificuldade.
- Eu não sei. – ele respondeu, olhando ao redor. – Acordei minutos atrás.
Percebi que usávamos roupas azuis, como roupas que doentes usam em hospitais. Lembrei que talvez aquilo fosse um. Lembrei-me do coma, e de todo o resto, como uma torrente despejada em minha cabeça.
Observei com mais atenção ao redor.
As coisas estavam repletas de pequenas ondas. O chão, o teto, as máquinas. Como se algo muito quente tivesse derretido um pouco tudo aquilo. E eu duvidava muito que piso de porcelanato pudesse ser derretido daquele jeito.
Jeff seguiu meus olhos. – Assim estava meu quarto também. – ele disse. – Há algo de muito errado com a gente. Precisamos sair daqui.
Estava estupefato. Senti o calor de uma lágrima descer pelo meu rosto, sem saber ao certo a razão dela.
- Onde está Kayra? E os outros? – perguntei com ênfase, agarrando Jeff pelo braço.
- Calma, você é o primeiro eu vejo. Precisamos ir atrás dos outros. – ele se afastou, a fim de que eu me levantasse da incubadora.
Assenti e pus meus pés para fora. Eu estava excessivamente magro, assim como Jeff. Perguntava-me há quanto tempo estava desacordado. Coloquei meus pés no chão, e lutei para resistir à tontura. Minha mente estava cheia de perguntas. Perguntas demais. Mas no momento achei que fosse melhor me concentrar em achar os outros.
- Está tudo bem? – Jeff perguntou.
- Está sim. Vamos em frente.
Saímos pela porta, e nos deparamos com um corredor branco não muito largo, de piso empoeirado. O corredor seguia para esquerda, onde havia mais duas portas iguais à do lugar onde estávamos antes. À frente havia uma escada com corrimãos amarelos desgastados, que levavam a um andar inferior.
Prosseguimos em marcha lenta pelo corredor, apoiando-nos nas paredes. Jeff estava tão assustado quanto eu, e talvez com a mente igualmente tumultuada, com a expressão repleta tons escuros. Mas eu estava feliz por ter acordado. Tencionei entrar na porta a diante, mas estranhei ele ter continuado.
- Eu estava aí, vamos ver a outra. – ele disse.
Assenti e o segui.
Jeff empurrou lentamente a terceira porta, e o que vimos não foi a melhor das recepções. Após por a cabeça para dentro da sala, ele foi atingido com uma gavetada no ombro. — Ai! – gritou.
Entrei no quarto.
- Vocês? – murmurou Kayra, levando a mão à boca, em sinal de arrependimento e felicidade, e a gaveta caiu. Ela me abraçou. Não consegui dizer nada.
- Estou feliz em ver você também, Kayra. – resmungou Jeff. Ela me soltou, limpou sorrindo as lágrimas do rosto e abraçou-o. Filetes azuis dançavam por entre os dois. A cor da felicidade. Há muito não a via.
Kayra usava as mesmas roupas que nós. Ela estava excessivamente magra, e com o cabelo tão bagunçado que lembrava os fios emaranhados que se formavam atrás da televisão da república ano passado.
- Onde estamos? – ela balbuciou, ainda alegre.
Olhei ao redor. O quarto onde ela estava era exatamente como o que eu estava. Até mesmo as os detalhes ondulados em tudo ali presente. O que me deixava ainda mais confuso.
- Sabemos tanto quanto você. – respondi, com pesar. – Você está bem?
Ela demorou um pouco para responder, como se tivesse sido tomada por pensamentos distantes. – Acho que sim. – respondeu finalmente.
Jeff andou por entre o quarto, e examinou as pequenas ondulações que havia na incubadora. Eu examinei o lugar igualmente tenso.
- Eu sei, tudo aqui está muito estranho. – disse Kayra. – Reparem na janela, não há ninguém nas ruas além desse lugar. É como uma cidade fantasma. E acreditem, eu sei que estamos no Brasil.
Eu andei até a janela, abaixando a cabeça para desviar de uma máquina que havia no meio da passagem. – Estamos no Brasil sim. – disse. – Acho que talvez nós tenhamos passado pela mesma coisa.
Eles não responderam. Aproximaram-se, e observaram pela janela assim como eu. A Avenida Sul estava deserta, tomada por um silêncio cortante. Havia carros estacionados, sujos de poeira, semáforos inativos, folhas de papéis jogadas pelo chão. Como uma verdadeira cidade fantasma de filmes de faroeste. A terra vermelha espalhada pelo chão compunha um cenário decrepito, com cheiro de abandono. A rotatória à frente do lugar onde estávamos estava malcuidada, e as calçadas rachadas cercavam gramíneas secas, abandonadas. Ao redor, as flores murchas não haviam sido aparentemente tão resistentes quanto às árvores, que conservavam seu tímido tom esverdeado, mas que já beirava o marrom.
Ouvi um ronco abafado, como um murmúrio. Nós três nos entreolhamos.
- Acho que não como há um bom tempo. – disse Jeff. – Vamos atrás dos outros e de algo comestível.
Kayra e eu concordamos.
Saímos do quarto e partimos à procura dos nossos amigos. A escada levava a um corredor um pouco maior, no qual era possível ver quatro portas ao seu decorrer. À frente ele seguia para esquerda, onde provavelmente haveria mais portas.
Na primeira porta em que entramos, encontramos Willan acordado, tão atordoado quanto estávamos antes. Repleto de cinza e marrom-escuro. Antes daquilo tudo, Willan era o melhor aluno do grupo de intercambistas. Fora o primeiro a dominar o inglês entre nós, e resolvera quase toda a burocracia na república quando nos instalamos.
Ao contrário dos nossos quartos, o quarto de Willan não estava como sorvete derretido. Ao menos não muito. Tivemos de convencê-lo de que aquilo não era um sonho. Ele estava realmente perturbado com a situação, e tremia muito. Aquela era uma reação aceitável, dadas as circunstâncias. Perguntava-me se os demais estavam tendo reações piores.
Após o acalmarmos, prosseguimos juntos em busca dos outros.
Nas portas seguintes estavam Nicolas, Lunna e Rair. Lunna particularmente, pouco falou, o que me preocupou, pois as reações dos outros foram bem eufóricas, a pesar do corpo fraco que tínhamos.
Decidimos nos separar e explorar aquele lugar, enquanto procurávamos os outros de nós.
Kayra, Rair e eu andamos pelo andar debaixo. Vasculhamos quartos vazios, escritórios abandonados, e emaranhados de corredores. Aquela espécie de hospital estava inabitada exceto por mim e meus amigos. O piso branco predominava por toda parte, sujo com um manto de poeira que devia acumular-se há semanas ali.
Havia algumas macas abandonadas, e em um salão que apareceu depois de várias curvas entre corredores, achamos uma TV empoeirada. Ligamo-la, mas não havia nenhum canal ativo. Talvez não houvesse mais emissoras, e isso era assustador.
A direção que seguimos não parecia ter sido a certa no que se diz respeito à busca pelos outros. Mas pudemos ter ideia do lugar onde estávamos. Achamos alguns folhetos informativos que avisavam do fechamento do hospital por motivações científicas. Não me pareceu algo bem certo a se fazer, mas meu pai devia realmente ter feito o possível e o impossível para que saíssemos daquela situação.
O silêncio e o abandono do lugar, no entanto, era algo amedrontador. A cada virada de corredor sentia um arrepio na espinha, temendo achar algo inesperado. Um zumbi? Não me pareceu absurdo esperar um, visto o que eu passara.
Continuamos até encontrarmos a área da recepção do hospital, repleta de cadeiras de plástico amarelas, grudadas lado a lado por barras de ferro pretas. Havia um balcão à frente delas, repleto de papeis abandonados, e poeira. Havia três grandes monitores de LED nas paredes, que pareciam também inúteis.
Certamente Jeff e os outros também apareceriam ali, portanto decidimos esperar, sentados nas cadeiras.
Ficamos em silêncio, e aposto que como eu, Kayra e Rair deviam estar pensando em mil coisas. Formulando dezenas de teorias para o que teria acontecido conosco. Ainda não havíamos conversado sobre isso, e estava certo de que chegaríamos a alguma conclusão quando o fizéssemos.
Depois de algum tempo, como esperado, o outro grupo acabou aparecendo ali. Cinco ao todo, além de nós, que já os esperávamos. Traziam também pacotes de comida, como barras de cereal, biscoito integral, e também suco industrializado. Haviam encontrado em um depósito, disse Willan.
Depois de abraços entre nós, e finalmente termos matado a fome de meses, com toda aquela comida industrializada, sentamo-nos em silêncio tentando decidir o que fazer.
Por entre o rosto de todos, eu podia ver filetes de cinza, preto e marrom. Sabia da dúvida que pairava sobre eles. Faltavam quatro de nós.
Tomei coragem e fôlego, e falei de uma vez só o que ouvira. A nuvem preta que se formava com a junção da expressão de todos, contribuiu para minha própria tristeza.
Tristan, Júlio, Evelen e Carla estavam mortos.
Depois de mais silêncio, e alguns choros, finalmente comecei a ouvir o que os outros haviam passado.
Minha fala deu início a vários testemunhos. Descobri que assim como eu, eles haviam estado na mesma situação, mas alguns puderam além de ouvir, ver, como foi o caso de Jeff. Outros nem isso, como Lunna e Sofia.
No geral, apenas concluímos que estávamos sendo estudados por emitir radioatividade, e acabamos sendo abandonados tempos depois. Até Willian Trowsh voltar e salvar nossas vidas com uma estranha substância que diminuía nosso metabolismo.
- Precisamos sair daqui. — murmurou Kayra, quebrando o silêncio que havia se formado. Os rostos se viraram para ela.
- Você tá certa. — concordou Jeff. — Precisamos ir até além da área abandonada, e descobrir à que ponto a guerra levou o mundo.
Concordamos com certo receio. Sabíamos que o que encontraríamos fora dali talvez fosse ainda pior. Eu só conseguia pensar em encontrar meus pais outra vez. Desejava apenas que o Brasil houvesse se mantido longe da guerra.
Abrimos a grande porta de vidro e madeira que levava à frente do hospital, e saímos do edifício.
O crepúsculo já pintava de laranja o céu repleto de nuvens rajadas, e o sopro frio de uma brisa transpassou por entre nós.
Andamos pela avenida abandonada, os oito. Como um bando de fugitivos de um sanatório, vestidos com roupões encardidos.
Papeis dançavam voando por entre os carros abandonados e grudavam nos nossos pés. A terra vermelha dançava pelo asfalto, cortando levemente meu calcanhar, mas aquilo não me incomodava. Estava feliz por ter minhas sensações de volta. Feliz por estar vivo, e com a maioria de meus amigos.
Naquela noite andamos pela cidade fantasma como almas penadas. Mas éramos sobreviventes. Os sobreviventes do voo quinhentos e noventa e da Síndrome de Trownsh.
Fale com o autor