Trovões e Raios de Sol
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Naquele dia, senti algo florescer dentro de mim. Havia me apaixonado. Pensei que não conseguiria mais, depois de tudo que passei. Ver meus pais morrerem naquele acidente, em que apenas eu sobrevivi me fez trancar meu coração. Sorte por ter sobrevivido? Não consigo pensar assim. Preferia que eles tivessem sobrevivido, mesmo que eu morresse.
Passei o resto da tarde contando sobre minha vida à Beatriz. Não sei o porquê, mas com ela, eu conseguia conversar normalmente. Acho que sua personalidade me influencia. Quando contei que preferia ter morrido naquele dia, ela me pediu que esquecesse essa idéia. Disse que gostou de mim e que tinha certeza que eu era uma boa pessoa. Fiquei muito vermelha naquela hora e disse um “obrigada”.
- Ei, Mari. Minha mãe acabou de ligar. – Beatriz disse enquanto eu voltava do banheiro. — Ela falou que não vai voltar para casa hoje.
- Hm... Pode passar a noite aqui. A chuva provavelmente não vai parar tão cedo. – falei com a mesma frieza de sempre, mesmo que por dentro, eu queira ser uma boa amiga para ela.
- Obrigada. Posso te ajudar com qualquer coisa! – disse sorridente, como sempre. Seus lindos olhos cor de mel brilhavam. Sua pele, bem branca e macia, pedia para ser tocada. Sua boca, rosada e delicada, pedia para ser beijada. Mas eu não pude. Não tinha certeza de meus sentimentos. Acabei de conhecê-la e mal sabia algo sobre ela. Como poderia agir por puro instinto em uma hora como essa? Afinal, ambas éramos garotas.
- Que tal fazermos um cozido para a janta? – perguntei.
- Claro, eu te ajudo – respondeu sorrindo.
Voltamos à cozinha e começamos a cortar os legumes. Ficamos caladas algum tempo, até Beatriz resolver falar.
- Você já se apaixonou por algum amigo ou uma amiga?
- Como? – me fiz de desentendida. Será que ela descobriu que, talvez, eu goste dela? – Me desculpe, não entendi a pergunta.
- Eu te considero uma grande amiga. Sei que nos conhecemos hoje, mas sei também que quero ser sua amiga para sempre. Você pode ser sempre minha amiga? – me perguntou enquanto cortava a cenoura. – Ai! Acho que me cortei!
- Espere, vou pegar algo para colocar no seu dedo.
Saí correndo em direção ao meu quarto. Abri uma das gavetas de meu armário e de lá, retirei uma caixa com medicamentos e curativos.
- Venha cá. Está doendo? Eu desinfeto seu machucado. – falei preocupada. Na minha cabeça, ela era como uma boneca que quebrava facilmente, de tão delicada.
- Calma, não foi nada. Estou bem.
- Não! Deixe-me ver o seu... – Fui cortada com um beijo. Um beijo suave, e como pensei, seus lábios eram macios. – Mas o quê?
- Fique calada. Eu estou bem, sério – me disse com uma voz séria e calma, mas ao mesmo tempo doce. Novamente, começou a se aproximar de mim.
- Ei, espere. Está realmente tudo bem com você?
- Sim... E vai ficar melhor.
Voltamos a nos beijar, mas dessa vez, foram ficando intensos. Comecei a passar minha mão por todo o seu corpo. Ela soltava pequenos gemidos, quando fomos interrompidas por trovões e raios que caíam do céu. Parei o beijo e abracei-a.
- Não se preocupe. Estou aqui – falei já vermelha pela falta de ar.
- Eu sei. Obrigada.
Passamos o resto da noite abraçadas. Acabamos adormecendo ali mesmo, no sofá da sala. Ainda bem que não chegamos a colocar os legumes no fogo, caso contrário, iria ter um acidente aqui. Mas fora isso, foi a melhor noite de minha vida.
Logo amanheceu. Abro meus olhos e ela não estava lá. Teria sido tudo um sonho? Olho ao meu redor, com os olhos ainda embaçados pela falta de luz. Alguém caminhava em minha direção.
- Ei, Mari, acorde.
Sim, a escuridão, que antes me chamava, não estava lá. Memórias ruins ou o fato de eu ter que ir à escola não importava. Não via algo com que eu estava acostumada. Não era nenhuma lembrança de algum acontecimento ruim de minha vida. O quê eu via era totalmente diferente. Era mais como um raio de luz, que brilhava fortemente em meus olhos, mas era diferente. Ele não incomodava minha visão.
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