Trovoadas

1 Capítulo Único


Rohan tremeu por, quem sabe, a sexta vez naquela noite. Teve o sono interrompido pela chuva, e a sua tentativa de voltar a dormir foi totalmente em vão, embora soubesse que poderia simplesmente acordar Koichi — como ele mesmo dissera, não tinha problema em fazê-lo durante suas madrugadas de insônia. Havia preferido simplesmente se levantar e fazer hora, sabia que não dormiria, o que não era lá grande novidade também. Nesse tempo acordado, o mangaka poderia terminar umas boas páginas de manuscrito.

Estava a ponto de buscar algo para beber na cozinha, quando mais um forte trovão soou a fim de tirar sua paz. A lapiseira caiu da mão, na pequena escrivaninha do quarto de casal. E lá estava Rohan suando frio mais uma vez.

A realidade era que Rohan não aguentava-os, sendo os mais baixos que fossem. Odiava trovões desde seus quatro anos, e apenas naquele ano descobriu ser por conta do incidente na casa de Reimi Sugimoto. Não tinha reais lembranças da noite, porém, a criança que foi tinha aprendido a temer a chuva.

Se levantou da cadeira, engolindo o medo que sentia, parcialmente. Ao se esgueirar na batente da porta, começou a pensar em formas de descer as escadas rapidamente, antes que outro barulho alto o incomodasse. Observou as meias no pé, fazendo bico. Por algum motivo, tinha certeza que correr as escadas e o carpete da sala calçando-as não era uma boa ideia, mas o sono estava lhe impedindo de definir o porquê. Começou a abrir a porta, mas quando minimamente o fez, escutou os barulhos do outro lado do quarto.

— Rohan? — Koichi coçou os olhos, levantando o tronco, e atraindo totalmente a atenção de Kishibe. — Não consegue dormir?

Rohan concordou relutantemente, encostando a porta mais uma vez. Acendeu o abajur ao lado da cama, enquanto se sentava do seu respectivo lado. Esfregou a palma da mão direita contra o punho, suspirando alto.

— Odeio... esses barulhos. — Koichi olhou para a janela enquanto ele falava. — Não consigo mesmo dormir. Sinto muito se te acordei.

O mais baixo suspirou, engatinhando até o namorado, e apoiando a cabeça contra o seu ombro. O artista passou a olhá-lo, enquanto a mão dele começava a procurar a sua.

Fofo. Koichi era fofo.

Estralou o pescoço, soltando o ar que prendia, e voltando a olhá-lo. Tocou-lhe o rosto com carinho, selando os lábios com os seus, e deslizando os dedos pela face quente. Koichi parecia sempre ficar acanhado quando era o foco de sua atenção, e Rohan achava isso adorável.

Encostou a testa contra a dele, e simplesmente começou a rir. Koichi não fez nada de início, mas em seguida, estava rindo nervoso.

— Então, vai me contar qual o problema? -—O garoto levantou os olhos, ainda sem soltar a mão de Rohan.

O ar tinha ficado mais pesado, e Kishibe odiava isso. Aquela história toda. Aqueles acontecimentos todos. No fim, Rohan apenas almejava que pudesse viver feliz e normalmente ao lado do namorado, mas a palavra "normal" tinha se mostrado quem mais rejeitava Morioh, pelo que podia ver.

— Kira Yoshikage. — Virou o rosto, meio cansado. — Estava trovoando aquele dia. Estava trovoando tanto...

— Ei. — Koichi escondeu a mão na sua, sorrindo de lado. — Tá tudo bem, Rohan. Estamos seguros agora.

— Estamos

— Estamos.

Deixou o corpo cair para trás, soprando o cabelo que caia no rosto. Koichi deu uma risada baixa e divertida, cobrindo o corpo do artista, e abraçando o seu braço antes de cair no sono.

Bom. Rohan apenas sabia que deveria ter acordado Koichi mais cedo. Já nem escutava mais os trovões.

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