Notas iniciais
Esse foi um sonho que eu tive após dormir desejando saber como seria estar morta. Apenas aconteceu. Ele poderia ser uma fanfic, mas optei por manter neutro e fazer um conto. Logo, qualquer semelhança não é mera coincidência.

Jake não imaginava que a vida aos 40 seria assim. Sentia-se com 20 anos a menos, mas o corpo todo doía. Ele não tinha nenhum problema de saúde, nenhuma marca, nenhuma cicatriz, mas sua mente padecia. Ele estava morrendo. Nada aparente, mas a alma já pendia para fora. Deu um beijo na testa da esposa, que ficou deitada no sofá lendo um livro e mandou uma carta para o irmão. Sem nada para levar, caminhou até o meio da floresta que raiava no jardim da frente e andou até cair.

Árvores altas giravam em vertigem, o coração batia forte e sem aviso, parou. Uma faísca amarela empurrava o peito, tentando sair. Jake não era matéria, Jake não era espírito. Fumaça disforme, sem corpo, sem forma, sem vontade própria. Tentou contemplar o corpo morto caído na grama, mas o vento foi levando o vulto para longe, se embrenhando no verde. O corpo foi ficando esquecido, brotando no chão. Um pequeno pé de trevos foi germinando no peito expandido, rosas e violetas cresceram dos orifícios faciais e em alguns minutos um grande jacarandá adulto vivia no torso. As raízes gigantes esconderam a carne, que virou adubo. Jake se estendeu ao céu, elevando até as nuvens. Tentava olhar para baixo, mas o ar denso não o deixava se concentrar. Era rápido e lento ao mesmo tempo. Voava alto, mas ainda havia muito acima. Viu as árvores passando rápido, cabanas, rios. Nada focava, as vozes das crianças nadando nos lagos vinham altas, mas não faziam sentido. As pequenas aldeias e reinados arcaicos ficavam para traz. Apenas seguiu, sem direção.

Após algum tempo indefinido, talvez semanas ou meses, talvez minutos ou segundos, encontrou um cardume de almas maduras. Eram verdes, azuis, vermelhas, brancas. Se misturavam e corriam. O vento levou Jake para perto.

- Olá.

- Olá – ressoou o coro.

- Você é levado pelo vento? – perguntou aquilo que parecia ser o líder.

- Sim.

- Você não evoluiu o bastante para controlar seus movimentos. Pena, gostaria que você viesse conosco.

Jake queria conversar mais, tirar algumas dúvidas, crescer, mas o vento o levou para longe. Ouviu a matina dizer “adeus” e “até breve”. Tentou acenar, mas não tinha mãos. A Terra já não era visível, tudo era azul e branco. Vagou solto. Viu o brilho morto das estrelas, mas não podia alcançá-las. O Sol não parecia tão brilhante, mas iluminava tudo, onde era noite também era dia. O trote dos cavalos chegou a ele, mas nenhum equino a vista. Voava no meio das nuvens e viu uma chaminé. Como se pudesse enxergar através do telhado, viu a esposa deitada no tapete, sendo aquecida pela lareira, o livro aberto ao lado. Sonhava e sorria. Jake ficou mais pesado e desceu até o sótão, podendo, de alguma maneira, ver o que acontecia a baixo, mas sem poder tomar alguma atitude, qualquer que fosse. A decoração rosa de veludo e pelúcia aquecia o ambiente, as crianças costumavam brincar lá em cima. Jake chorou. Não havia lágrimas, não havia olhos nem pálpebras, mas chorava. Era a mesma sensação, mas não havia físico. Tentou falar com ela, tocá-la, mas não conseguia passar do chão. Via tudo, ouvia o fogo estralar. Os passarinhos cantavam na janela, procurando minhocas e reforçando os ninhos. Queria beijá-la mais uma vez, mas o vento o levou de lá de dentro.

Passou pelos pastos, as vacas que ruminavam, os porcos que rolavam na lama gelada, os gansos que pescavam no lago cinzento, os castores que construiam a represa mais ao sul, o coelho que perdeu a sua toca devido a fúria do veado. A casa de madeira estava quieta. O vento parou e Jake despencou de lá de cima. Caiu no centro da sala rústica. A carta estava em cima da mesa, aberta e úmida, borrada. O irmão havia lido e estava em algum outro lugar. Ouvia-se um choro baixo, mas as lágrimas rolando o rosto do mais novo pareciam trovões. Jake sentiu-se andando sem pernas, procurou em cada quarto. Não encontrou ninguém. Olhou no porão, na cozinha, no celeiro, em todos os lugares. O caçula não estava lá. Apenas a tristeza. Os soluços.

- Eu te amo, nunca se esqueça! – Jake gritou sem voz.

O silêncio ecoava num estrondo forte sem som. As palavras invadiram a casa inteira, o jovem iria receber a sua mensagem de alguma maneira. O vento entrava pela janela, mas Jake estava muito pesado para ser levado. Sentou o corpo imaginário no chão frio, colocou as mãos que não existiam pousadas no colo que não estava lá e esperou um pouco. A lenha era cortada, as galochas cortavam o barro grosso. O suor escorria no rosto quente, os braços grossos carregavam a madeira pesada, cruzando a clareira onde os ratos e as fadas cantavam e dançavam em segredo entre os cogumelos vermelhos salpicados de neve ilusória. As folhas secas no chão eram pisadas gentilmente e tocadas pela tristeza presente em todos os lugares. A porta abriu rangendo e o mais novo finalmente entrou. Os robôs futurísticos e rudimentares desceram as escadas correndo e agarraram o jeans surrado. A mocinha mecânica saiu para colher flores campestres e o rapazote partiu em direção à cozinha para preparar deliciosas tortas de framboesa.

- Eu também te amo.

Em sua camisa xadrez ele parou em frente da carta e se sentiu abraçado. O mais velho o segurava forte. As lágrimas caiam e o vento bateu mais forte. Ele foi arrebatado até o alto. A manada estava de volta, voando para o oeste. Jake se deixou guiar para o lado contrário, mas o vento não o levava mais. Sorriu sem lábios e seguiu, correndo sem pernas, atrás do enxame colorido de pessoas sem corpos.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!