Troublemakers
3 Capítulo 3: Jeferson
Hoje ele está mais lindo do que nunca. Mesmo estando meio tonto, consigo ouvir cada uma de suas risadas e ver o brilho do seu sorriso, o que me faz perder o pouco de juízo que ainda me resta.
A festa já está rolando há horas, e muita gente já está chapada (graças ao meu estoque pessoal) ou completamente bêbada, incluindo Arthur. Ele conversa comigo sobre coisas loucas e sem sentido, mas, ainda assim, eu me fascino. Cada palavra sua é como se fosse uma melodia, e eu presto atenção em tudo, rindo junto com ele até que a conversa se esvai e ficamos em silêncio.
Eu o olho, e não consigo evitar pensar no quanto gosto dele. No fundo, sei que é complicado, sei que ele está com a Elena, que somos amigos, mas mesmo assim… Eu gosto dele.
Sinto o calor da minha mão tremendo, mas continuo, aproximando-me de seu rosto lentamente. E, sem conseguir resistir, o beijo. Para minha surpresa, ele corresponde, e o gosto de vodka invade minha boca.
Aos poucos, passo a mão em seus cabelos e acaricio seu rosto, mas, de repente, tudo muda. Ele me empurra, e com um movimento rápido, sinto o impacto de um soco não muito forte, mas suficiente para me fazer recuar. Ele corre para longe, e, enquanto se afasta, vejo uma lágrima escorrer de seus olhos.
~ Sonho off ~
Sempre achei que não havia nada pior do que acordar cedo e ir para aquela prisão chamada Colégio Dinastia de Honra, mas depois do fora que tomei de Arthur, percebi que existia sim algo pior: acordar cedo, ir para a escola e ter que olhar para a pessoa de quem você gosta e sentir que está tão distante de você.
O dia seria um martírio. Acordei, desajeitado, como sempre. Procurei nas últimas gavetas do meu guarda-roupa um baseado, o acendi e fui me arrumar, ouvindo rock pesado, como se isso pudesse me dar algum tipo de ânimo.
Passei pela cozinha e encontrei meu irmão mais velho, Fernando, e seu amigo Cauã, ensaiando animados uma nova música para nossa banda. Fernando foi quem teve a ideia de formar a banda, mesmo eu sendo o compositor das músicas e cantando melhor, ele acabou virando o vocalista, e, meio que forçado, me convenci a ser o guitarrista. Cauã, o baterista, completou a formação.
Batizamos a banda de Apocalipse, porque, bom, nossa pegada era totalmente rock, e até que éramos bons, na medida do possível. Ver Fernando e Cauã ali, empolgados com os ensaios, me distraiu um pouco da bagunça em que estava minha cabeça. Mas, mesmo assim, o pensamento em Arthur estava ali, na minha mente, me consumindo.
Peguei minha mochila e saí de casa, mais uma vez atrasado. Queria ver Arthur, mas também temia muito o que isso poderia significar. Ele estava com Elena, mas por alguns segundos correspondeu ao meu beijo. Não sabia mais o que pensar sobre isso. Eu gostava de Arthur, e isso me complicava cada vez mais.
Passei pela rua principal do bairro e percebi que os sons do lugar estavam mais distantes do que nunca. Estava tentando não pensar demais sobre o que aconteceu na festa, mas a verdade era que nada fazia mais sentido desde aquele beijo. Algo na forma como ele me olhou, seus olhos me diziam que ele sentia algo, algo que eu queria entender.
Cheguei no ponto de ônibus e avistei Vivy, que estava com os fones de ouvido e cara de quem não queria conversar com ninguém. Eu respirei fundo e fui até ela.
– Oi, Vivy! Como você tá? – perguntei tentando soar casual.
Ela olhou para mim sem tirar os fones, mas tirou-os logo em seguida.
– Ah, eu tô bem. E você? Tá em paz? – respondeu com um tom que parecia uma piada, mas eu sabia que ela estava se referindo ao que aconteceu na festa.
– Eu… Eu não sei, viu? – confessei. – Tô meio perdido, na real.
– Com o quê? Com a Elena ou com o Arthur? – ela perguntou, sem rodeios, me olhando de uma forma que parecia mais uma acusação do que uma pergunta.
Fiquei em silêncio por um momento, sem saber como responder. O que eu deveria dizer? A verdade? Que eu estava completamente confuso sobre o que estava sentindo? Não sabia nem por onde começar. Então, olhei para Vivy, que parecia mais calma do que eu, como sempre. Ela tinha esse jeito de quem sempre sabia o que fazer, mesmo quando não sabia. E era assim que eu a admirava, mas ao mesmo tempo me sentia completamente perdido.
– Eu… Eu gosto do Arthur, Vivy. – falei, sem pensar muito, mas com o peso de quem finalmente disse a verdade. – E sei que é errado, porque ele é meu melhor amigo e, além disso, tá com a Elena, mas não consigo ignorar o que sinto.
Ela me olhou com um sorriso suave, e eu pude ver que ela entendia. Não precisava de muitas palavras com Vivy, ela sempre tinha o poder de entender sem questionar, sem julgar.
Cara, você não precisa de permissão de ninguém para sentir o que sente, mas se tá tão complicado assim, talvez seja hora de conversar com ele. Não adianta se torturar com essa dúvida, não é? – ela disse, com a voz tranquila, mas firme. – Só toma cuidado, Jeferson, porque no final pode ser mais doloroso do que você imagina.
Eu concordei com a cabeça, mas não sabia se estava pronto para isso. O que eu mais temia era a reação de Arthur. E se ele não soubesse como lidar com o que eu estava sentindo? E se a nossa amizade de anos desmoronasse por causa disso?
Cheguei junto de Vivy e do próprio Arthur para a segunda aula e, entre a troca de professores, vi minha chance de trazer o assunto da festa à tona.
– O que vocês acharam da festa da Pamela? – perguntei, corando. – Ou melhor, o que vocês lembram da festa?
Fiquei ansioso demais para ouvir a resposta de Arthur.
– Também não me lembro de muita coisa, bebi muito, sabe? – respondeu Arthur, me deixando completamente desolado. Mas antes de poder falar mais, nossa professora entrou na sala e cortou todas as conversas na hora. Apenas pude lançar um último olhar triste para Arthur e me calei, sentindo sono e os efeitos do baseado de mais cedo.
Quando as aulas terminaram, Vivy e eu nos despedimos do resto do pessoal e fomos para o Clube de Artes, onde só consegui desenhar céus nublados e chuvosos. Senti que meu humor começava a melhorar aos poucos e que talvez conseguiria escrever uma ou duas letras de música mais tarde. Mas notei alguém me chamando para fora da sala, era ela, Elena.
– Achei que você estaria no Clube de Teatro, aconteceu alguma coisa? – perguntei, um pouco preocupado.
A expressão tranquila de Elena mudou na hora e ela adotou uma postura mais séria:
– Aconteceu sim, aconteceu que você é um falso talarico! – ela respondeu com frieza na voz.
Eu entrei em pânico, podia jurar que Elena não estava mais na festa quando beijei Arthur e que as poucas pessoas que restavam estavam completamente alheias ao que estava acontecendo, principalmente devido ao álcool que correu solto.
– O o o quê? – eu gaguejei em choque.
– Não se faça de desentendido, você não vai me enganar mais e te quero bem longe de mim e do Arthur, que você, gostando ou não, É E SEMPRE SERÁ O MEU NAMORADO! – disse Elena, com raiva na voz.
Não pude nem dizer nada para me defender ou sequer pedir desculpas. Antes mesmo de conseguir formular uma explicação, Elena já havia deixado o Clube de Artes, pisando forte e determinada a não conversar mais comigo. Definitivamente, meu dia podia sim ficar pior: primeiro o Arthur, e agora a Elena.
Fiquei petrificado com o que Elena me disse. A acusação dela ecoava na minha cabeça, como uma música ruim tocada no máximo volume. "Falso talarico… te quero bem longe de mim e do Arthur". Ela sabia. Ela havia visto. E o pior de tudo era que ela tinha razão: eu era culpado. Não queria ser, mas era.
Voltei para casa desolado, sentindo um peso como se estivesse carregando o mundo nas costas. Cada passo que dei no caminho de volta parecia mais lento, mais arrastado. Minha mente estava em pane.
Assim que entrei no meu quarto, joguei minha mochila no chão e me sentei na cama, encarando o nada. Tentei pensar em algo para me distrair, mas a imagem de Arthur, o jeito como ele correspondeu, e a lágrima que vi escorrer no rosto dele não saíam da minha cabeça. Queria ligar para ele. Queria muito, mas a coragem simplesmente não veio. O que eu ia dizer? "Oi, Arthur. Desculpa ter te beijado na festa, mesmo sabendo que você está com a Elena"? Era ridículo até na minha cabeça.
Passei os dedos pelos cabelos, frustrado, e encarei o celular sobre a mesa. A tela escura parecia me desafiar, me encarando de volta. Peguei o aparelho e desbloqueei, abrindo a lista de contatos. O nome "Arthur" estava lá, tão perto, mas tão fora do meu alcance.
Não, não hoje. Não consigo.
Deitei na cama e peguei o violão que ficava encostado no canto. Era meu refúgio, minha fuga sempre que o mundo parecia demais. Comecei a tocar acordes aleatórios, mas nada parecia bom e nem certo. Até a música, que costumava ser meu escape, parecia vazia.
Fernando entrou no quarto alguns minutos depois, sem bater, como sempre.
— Cara, você tá bem? Aconteceu alguma coisa? — ele perguntou, meio confuso, mas com aquele tom despreocupado dele que sempre irritava.
— Tô suave, mano — respondi baixo, sem energia para manter uma conversa.
— Tem ensaio daqui a pouco, não esquece — ele avisou, saindo e deixando a porta aberta.
Olhei para o relógio e percebi que já era final de tarde. A sensação de vazio não passou, apenas ficou mais densa, como se eu estivesse me afundando em areia movediça.
Talvez Vivy estivesse certa quando me aconselhou a falar com Arthur, mas... Como? Como eu faria isso sem estragar tudo de vez? Sem destruir nossa amizade e me destruir junto?
Respirei fundo, tentando me convencer de que era só um momento ruim e que amanhã seria diferente. Fechei os olhos e fiquei em silêncio. Às vezes, o silêncio é a única coisa que a gente tem.
Naquela noite, não escrevi nenhuma música, nem desenhei nada. Só fiquei ali, parado, sentindo cada batida do meu coração me lembrar de que eu estava perdido.
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