Troublemaker
21 Surpresas dos Irmãos
Notas iniciais
Apesar de ainda estar cedo, uma parte da arquibancada já estava sendo preenchida pelo pessoal de ambas as escolas, e momentos depois o ônibus do time da Lamia Scale já havia chegado, então todos estavam ali.
Inclusive o Lyon.
Surpreendendo-me, ele veio sorridente ao meu lado me cumprimentar, e apesar de eu achar suspeito, apenas apertei sua mão de volta.
— Faz algum tempo que não te vejo, Natsu-san.
— Faz algum tempo que você não dá as caras, Lyon. – Devolvi, dando de ombros.
— Ah, você sabe… Esse lugar não é pra mim, Magnólia não faz meu tipo. – E deu uma piscadela. E sem receber uma resposta minha além da indiferença, não contentou-se em ficar calado e ir embora. – Fiquei sabendo que Juvia veio morar com a Ur.
— Sim, ela veio. – Simplesmente respondi, torcendo para que ele me deixasse em paz logo.
— Gray já criou coragem e deixou de ser um bundão com ela? – Ele sorriu maliciosamente, fazendo eu entender porque muitas vezes Gray sentia vontade de socá-lo só de olhar para sua cara.
— Bom, ele desistiu completamente depois de você ter feito seu papel de babaca. – Falei, e ele gargalhou, achando graça em sabe-se lá o quê.
— Então ele não gostava mesmo dela, ou não teria desistido fácil. – E então suspirou, observando seu time se aquecendo na outra metade da quadra. – É bom assim, princesas como a Juvia precisam de príncipes ao seu lado, não de plebeus.
E sem dizer mais nada, ele se dirigiu até onde seus amigos estavam e me deixou ali, desejando poder quebrar pelo menos uma de suas pernas.
Continuei jogando a bola na cesta algumas vezes, e de pouco em pouco o pessoal do meu time chegava.
— Natsu-san. – Escutei alguém me chamar animadamente, e tive o desprazer de observar Loke sorridente, andando em minha direção.
— Loke. – O cumprimentei de volta sem o menor ânimo.
Ele veio ao meu lado, dando tapinhas fracos em minhas costas, e então começamos a revezar os arremessos até a cesta. E minutos mais tarde, sem eu perceber a chegada, Jellal estava arremessando também, com sua cara de paspalho de sempre.
— Você não vai me bater, não é?! – Ele resmungou, jogando outra bola na cesta e acertando, em seguida arriscando me olhar de lado.
— Não agora. – Fui sincero. – Você ainda é o titular e o jogo vai ser difícil, preciso que esteja inteiro por enquanto.
— Se nós ganharmos, eu posso ter um desconto? – Ele riu, enquanto eu não achei graça alguma.
— Não. Mas se perdermos vai ser pior.
— A culpa vai ser minha se perdermos? – Ele soou pasmado.
— Claro que não, idiota. – Joguei uma bola em sua cabeça. – A não ser que você faça alguma merda no jogo. Mas eu quis dizer que se perdermos, eu vou ficar ainda mais irritado.
— Natsu… – Ele parou sério diante de mim. – Eu realmente gosto da…
— Não, cala a boca! – O cortei rapidamente, sem paciência. – Eu não quero ouvir um piu sobre isso, entendeu?! Eu quero me concentrar no jogo e em ganhar desses merdinhas, depois, quem sabe, ajudar o Gray a quebrar a perna do Lyon, e só então você pode me falar essas baboseiras e eu arrebento a sua cara. Vai ser assim, ok?!
— Ei, vocês dois. Que tensão é essa, eu estou conseguindo sentir lá da entrada?! – Gray empurrou nós dois, já que inconscientemente eu estava muito próximo do Jellal, e ficou no meio de nós. – Temos um jogo, vamos nos focar nele. Se nós não ganharmos, como é eu vou poder esfregar nossa vitória na cara do Lyon? Eu escutei aqueles caras dizendo que nos derrotam de olhos fechados, e eu não sei vocês, mas estou louquinho pra mostrar o quão errado eles estão.
— Eles só estão falando isso porque ficaram sabendo do seu vexame no último jogo. – Um dos reservas do nosso time murmurou, recebendo um olhar fulminante do Gray.
— E não vai se repetir. – Ele falou entre dentes, arrancando a bola da mão do outro e jogando na cesta, acertando em cheio. Como se quisesse frisar bastante o quão sério ele estava para aquela partida.
Dando aquilo como encerrado, assim que percebi os juízes da partida entrando na quadra, chamei todos para uma rodinha e dei algumas instruções, além de levantar ânimos e passar confiança. Fizemos nosso grito de guerra e nos posicionamos ao lado do vestiário, esperando que as pequenas apresentações das líderes de torcida acabassem. E eu não preciso nem mencionar como as garotas da Fairy Tail estavam dando um baile nas da Lamia Scale.
Então alguém encarregado do microfone anunciou o time visitante, e eles entraram animadamente na quadra, provocando gritinhos histéricos nas garotas de sua escola, e algumas poucas da nossa. E Lyon, claro, não perdeu a oportunidade de provocar, entregando uma rosa para Juvia, que estava sentada bem próxima da quadra. De onde ele tirou aquela rosa, não faço a mínima ideia, mas se o plano dele era deixar Gray inquieto ao meu lado, funcionou perfeitamente.
— Esse cara não tem escrúpulos mesmo. – Ele resmungou, irritado.
Enquanto isso, as garotas apenas suspiravam ainda mais pelo Lyon e diziam o quanto ele era um cavalheiro.
— Mas que cara genial! Eu vou trazer um buquê na próxima para entregar para a… – Jellal começou a falar, mas se calou imediatamente ao ver minha cara, e provavelmente percebeu que eu o estrangulava mentalmente, muitas vezes, e depois o jogava em um tanque cheio de piranhas.
— Esse é o Lyon, imbecil! – Meti um tapa em sua cabeça.
— Oh! – Ele olhou cuidadosamente para o Gray, que fechava os punhos com força e parecia que uma veia de sua testa ia explodir a qualquer momento. – Agora faz sentido ele ter entregado a flor pra Juvia…
— Só cala a boca, Fernandes. – Revirei os olhos.
Quando é que ele se tocaria que estava sendo inconveniente?
E então o cara do microfone anunciou nosso time, e entramos na quadra não tão animados quanto os outros, mas arrancando ainda mais gritinhos e suspiros, inclusive da torcida adversária. Claro que não pude deixar de dar meu sorriso mais brilhante e uma piscadela na direção das líderes de torcida. A intenção não era me achar pra todas, era me achar apenas para a Heartfilia, que revirou os olhos ao perceber o que eu fazia, murmurando um “idiota” que eu decifrei facilmente saindo de seus lábios. Claro que eu ri, e surpreendendo-me, Lucy riu também.
Lucy. Riu. Para. Mim!
Por alguma razão, aquilo mexeu comigo mais do que eu previa, e fiquei a encarando por um tempo, até que Gray me deu um soco, chamando minha atenção para o jogo que estava para começar, e porque eu precisava me posicionar com ele no meio da quadra.
Assim que estávamos em nossos lugares, Lyon cara a cara comigo, o juiz jogou a bola e tive o azar de perdê-la. Lyon jogou para um brutamontes de seu time, que começou a correr para a frente, fazendo todo meu time recuar, e quando ele ameaçou jogar para a cesta, devolveu para o Lyon, que estava sendo marcado pelo Gray, mas acabou fazendo cesta, conseguindo os dois primeiros pontos da partida.
E se não fosse o suficiente, ele dedicou aquela cesta para a Juvia.
Gray pegou a bola de volta e começou a correr pelo campo, praticamente com sangue nos olhos, jogou a bola para o Loke, que jogou para o Jellal, que devolveu para o Gray. E quando ele foi tentar uma cesta, Lyon interceptou, logo com a bola em mãos, quicando-a rapidamente ao chão e correndo até sua cesta. Nosso time recuou de novo, com pressa, mas não foi o suficiente para pará-lo. E mais dois pontos foram adicionados no placar da Lamia, além de outra homenagem ser feita para Juvia.
Aquele cara era melhor do que eu imaginava.
Me sentindo desafiado, peguei a bola e comecei a correr com meus amigos. Joguei para Hiroshi, que desviou de dois adversários e jogou para Loke, e Loke tentou uma cesta de dois pontos, felizmente acertando. E em um surto de raiva, Gray não se conteve em logo roubar o contra-ataque do outro time e acertar outra cesta, mas agora de três pontos, fazendo o jogo ficar cinco á quatro. E para provocar, dedicou aquela cesta para as líderes de torcida da Lamia, que gritaram felizes e envergonhadas, já que ele sabia muito bem como provocá-las.
— Isso está virando uma competição de ego, pelo jeito. – Jellal suspirou ao meu lado, revirando os olhos.
Não tinha como não concordar.
Gray e Lyon ficaram trocando farpas durante o jogo inteiro, disputando quem fazia mais cestas, quem roubava mais a bola, quem era mais rápido, quem era o mais galanteador com as garotas. Foi algo ridículo, mas se não fosse por toda essa obsessão do Gray querer ser infinitamente melhor, provavelmente nós não teríamos ganho aquela partida, que acabou em cinquenta para nós, quarenta e dois para eles.
— Eu disse que venceríamos, porra! – Gray gritou alto depois que o apito final soou e estávamos todos comemorando.
— Meus parabéns, filho. – Ur apareceu segundos depois toda sorridente, puxando-o para um abraço apertado, o deixando totalmente constrangido.
— Ur! Eu estou todo suado! Me largue!
E enquanto os dois ficavam tendo uma pequena discussão sobre como Gray deveria abraçar mais Ur, além de chamá-la de mãe, Juvia veio até o meu lado me cumprimentar pelo nosso jogo. E logo em seguida, quem apareceu foi Lyon, todo sorridente, sequer parecendo que ele havia acabado de perder.
— Vocês fizeram um bom jogo, merecem os parabéns. – Lyon estendeu a mão para mim, e depois cumprimentou Jellal, Loke e Hiroshi. Com Juvia, ele lhe deu um beijo na mão, fazendo-a corar.
E quando se direcionou para Ur e Gray, esse que estava com uma carranca enorme por ficar cara a cara com o meio-irmão, Lyon também lhe cumprimentou sorridente, sendo totalmente ignorado, e recebeu um abraço apertado da Ur.
— Como eu estava com saudades de você, meu bebê. – Ela choramingou, e ele a abraçou de volta.
— Eu também, mãe. Você prometeu que me visitaria na minha nova casa! Ainda estou te esperando. – Ele falou. – E pode levar Juvia-chan também.
E ambos, Ur, Lyon e Juvia, começaram a discutir sobre coisas de família, da qual Gray ignorou completamente, dirigindo-se para o vestiário. Os meninos do nosso time o seguiram, e antes que eu o fizesse, percebi que Erza saiu de algum lugar da arquibancada e estava vindo até mim. E pouquíssimos segundos foram necessários pra que Jellal estivesse ao meu lado também.
— Parabéns pelo jogo. – Ela falou, sorrindo.
— Suponho que esteja falando com o imbecil ao meu lado. – Respondi, desejando poder me livrar daquele momento desnecessário logo.
— Suponho que vocês dois estejam bem. – Ela rebateu, divertidamente irônica.
— Ah, tudo nos conformes… – Jellal respondeu. – Não é, Natsu?
— Não começa. – Eu realmente não entendia o que havia de errado com Erza pra cogitar sair com alguém como Jellal Fernandes. Deveria ser muita titica na cabeça. Ou suas poucas memórias estavam até mesmo afetando seu bom senso. – Ainda temos que conversar… – Cruzei os braços e o encarei sério, tentando ao menos passar a impressão de que eu realmente iria socá-lo se ele ousasse falar qualquer coisa.
— Mas não hoje, nós vamos sair. – Erza disse decidida, apontando para Jellal. – Vá se arrumar logo, estou te esperando no meu carro.
— Erza! – Protestei, uma vez que Jellal realmente foi para o vestiário sem pensar duas vezes, sorrindo grande. – Que merda você acha que está fazendo?
— O que há de errado nisso, oras? – Ela deu de ombros, fitando-me indiferente. – Eu já sou adulta, Natsu, você não precisa cuidar da minha vida. Ao contrário, vá se arrumar logo também porque o papai mandou te levar pra casa. Você está de castigo, esqueceu?!
***
Se aquilo me deixara nervoso? Obviamente. Tive que aturar Erza e Jellal sorridentes no banco da frente, enquanto ela me levava pra casa e ditava ordens. Eu só queria chutar alguma coisa urgentemente, e quem sabe não quebrar algo.
Por Kami, como eu odiava aquilo!
Ao bater a porta com força ao entrar em casa, acabei assustando Happy sem querer, que logo correu para a cozinha ou algum cômodo lá perto, e Lucy desceu as escadas alarmada.
— O que aconteceu? – Ela perguntou, com os olhos arregalados e olhando para todos os lados, sequer se tocando que fora eu o responsável por tal bagunça.
— Erza! Foi isso que aconteceu. Ela só gosta de infernizar minha vida. – Desabafei, pouco me importando se Lucy iria ou não me escutar.
E então, como se estivesse ali somente para me lembrar de algo importante, Zeref apareceu saindo da cozinha extremamente arrumado e perfumado, procurando por algo avidamente.
— Vai sair, irmãozinho? – O questionei, mal conseguindo disfarçar as segundas intenções da minha frase.
Eu o chamava daquela forma desde que eu ficara maior que ele, e Zeref odiava, sempre me fazia caras feias e me xingava. Mas não daquela vez. Ele apenas continuou á procura de sabe-se lá o quê.
Quando olhei para baixo, observei as chaves de sua moto em um recipiente de vidro, em cima da mesinha de centro, e logo associei que ele estava procurando por elas. E ele percebeu as chaves ali quase ao mesmo tempo que eu, mas foi devagar demais, já que quando foi pegá-las, elas já estavam sendo balançadas em minhas mãos.
— Eu preciso ir trabalhar, Natsu. Me dê minhas chaves. – Ele parecia impaciente.
— Trabalhar bonitão assim? E o que é esse perfume? – E quando me aproximei dele para cheirá-lo, logo notei algo. – Espera! Esse perfume é o meu!
Mas era só o que me faltava. Estavam furtando o meu perfume também. Cadê a privacidade dessa casa?
— Natsu, eu vou me atrasar. – Ele ficou ainda mais impaciente.
E eu adorava o ver daquele jeito.
— Ah, que pena. Tenho certeza que seus pacientes podem te esperar mais um pouquinho… – Falei, sorrindo cínico, e ele logo perdeu a paciência de uma vez e arrancou as chaves da minha mão, saindo rápido dali, sem chances de um questionário ser feito.
— Você já parou pra pensar no quanto consegue ser chato? – Lucy se pronunciou, vindo até o meu lado.
— É uma habilidade para poucos. – Pisquei pra ela, e se eu não estivesse ficando louco, acredito que vi Lucy ruborizando minimamente. – A questão, Luce, é que Zeref não está indo trabalhar.
— E como você sabe? – Ela perguntou cética, cruzando os braços.
— Porque eu conheci a possível namorada dele hoje… – Revelei, e ela ficou espantada, ao mesmo tempo que desacreditada. Do tipo “Como assim, Zeref Dragneel namorando?”. Eu a compreendia naquela situação. – E eu tenho certeza que ele não estava cheiroso pra atender um paciente vomitando em pleno sábado a noite. Além do que, Zeref detesta os turnos de fim de semana, ele não se arrumaria pra isso.
Comecei a subir as escadas, tendo em mente um plano de invadir seu quarto.
— Então por que ele mentiu? – Ela perguntou, seguindo-me. – É o quê? Uma espécie de amor proibido? Ele está namorando alguém de uma família que o Igneel não gosta? Ele está vivendo um “Romeu e Julieta”? – Lucy parecia cada vez mais animada ao sugerir cada uma daquelas coisas, e eu podia sentir o quanto ela estava amando formular aquele drama romântico em sua cabeça.
— Não exatamente um “Romeu e Julieta”. Por favor, há alguém que o Igneel não goste? Ele deve amar até as moscas daqui de casa. – Revirei os olhos, e ela pensou um pouco, acabando por concordar comigo. – É uma garota da nossa escola, do segundo ano. De certa forma é proibido, porque ela é bem mais nova que ele, e o Zeref tem medo de contar ao Igneel e ele não aprovar.
— Tá, e o que você pretende fazer no quarto dele? – Ela perguntou, assim que paramos em frente a porta do seu quarto.
— Vou bisbilhotar, claro. – Dei de ombros, como se fosse algo óbvio. – Ela me disse que eles estão namorando há quase um ano! Você acredita que meu irmão escondeu um relacionamento de quase um ano de mim? – Perguntei indignado, entrando no quarto e acendendo as luzes, e ela estava se divertindo com minhas caretas.
— Bom, você é paranoico, Natsu, está criando uma tempestade num copo d’água por causa da Erza e do Jellal, então é claro que eu o entendo por esconder o namoro com uma garota mais nova. – Ela simplesmente falou, fazendo-me ficar ainda mais indignado.
— Isso é totalmente diferente, Erza não deveria sair com o Jellal.
— E por que não? – Lucy questionou desafiadoramente, sentando-se na cama.
— Não bagunce o quarto do Zeref, Luce. – A repreendi, e logo ela se levantou ás pressas, passando a mão pelo edredom diversas vezes para tirar todo o amassado. – Aliás, você não pretende me dedurar, não é?! – Me certifiquei, e ela pareceu pensar a respeito.
— Bom, eu também estou invadindo o quarto, e de certa forma estou curiosa, então… Isso pode ficar como um segredo nosso. – E sorriu, exatamente como fizera naquele começo de tarde, fazendo meu coração palpitar. – Mas não mude de assunto, estou falando da Erza e do Jellal. Qual o problema de os dois começarem um relacionamento?
— Luce, pense comigo. – Batuquei meu dedo duas vezes em sua cabeça. – Erza é minha irmã, da qual eu convivi durante toda minha vida. Jellal é meu amigo, que apesar de eu o conhecê-lo há apenas dois anos, ele é, tecnicamente, alguém insubstituível em meu grupo de amizades. Mas infelizmente ele é alguém idiota. Logo, eu sei que ele vai fazer uma idiotice. Vai partir o coração da minha irmã e eu vou precisar partir a cara dele. – Dei de ombros, citando a ordem natural da vida. – Só que aí entra um dilema. Eu vou precisar apoiar um dos lados, e obrigatoriamente vai ter que ser minha irmã. Vou ter que parar de falar com o Jellal e vai tudo desandar, porque ele também é amigo do Gray, e o Gray é quase meu irmão. Entendeu?! Atrocidades precisam ser evitadas, mas ninguém me escuta! E não é nada legal, nada mesmo, ouvir um amigo seu comentando como acha sua irmã gostosa! – Expliquei por fim, olhando-a atentamente, e depois ajoelhando-me para verificar debaixo da cama do Zeref. – Bingo! – Comemorei, ao encontrar uma caixa de sapato. A puxei para fora e me sentei ao chão, pronto para abri-la.
— Isso não diz respeito a nada. E não é como se o Jellal fosse estragar tudo. Você não acha que há possibilidades da própria Erza acabar não gostando tanto assim dele e acabar desistindo de tentar algo? Ou simplesmente tudo dar certo e eles serem felizes? – Ela sugeriu, olhando-me curiosa. – O que tem aí?
— Como assim não diz respeito a nada? Imagina que, sei lá, o Gray quer namorar a Michelle, e ele fica falando pra você o tempo inteiro o quanto ela é gostosa e beija bem. Como você ia se sentir? – A perguntei, e ela pareceu confusa. – E quando ele fizesse merda e magoasse ela? Vocês são amigos agora, mas você ousaria continuar falando com ele, mesmo depois de fazer sua irmã chorar por dias?
— Claro que não! – Ela respondeu, exasperada.
— Então, agora você entendeu o meu ponto.
Ela parecia querer argumentar de início, mas pensou melhor e nada disse.
— Certo. Só abra logo essa caixa. – Lucy desconversou, sentando-se ao meu lado e quase puxando a caixa para si.
— Calma, apressadinha. – Ri, vendo-a fazer um biquinho.
Abri a caixa cuidadosamente, e para minha surpresa – e decepção, – não era nada além de coisas que ele costumava guardar do seu começo de carreira como médico. Um estetoscópio, provas com notas máximas, um jaleco velho, e mais papéis insignificantes de misturas químicas de remédios.
Guardei a caixa no mesmo lugar, e então comecei a bisbilhotar seu guarda roupa.
— Então, deixa eu ver se entendi direito. Você não quer que a Erza e o Jellal namorem, porque você não quer correr riscos de perder a amizade com ele, é isso?! – Lucy continuou falando. – Interessante. Você gosta do Jellal mais do que pode admitir.
— Não diga besteiras, Lucy. Eu gosto de mulheres.
— Eu não disse nesse sentido. Você vive xingando o Jellal e tudo o mais, não parecia que você o considerava um amigo, pelo menos não o tanto quanto considera o Gray. Mas eu estava enganada, pelo jeito. – Ela sorriu convencida.
— Por Kami, Lucy! Você continua achando que eu sou uma pessoa ruim. Eu gosto dos meus amigos, independente se eles são mais idiotas que o necessário. – A encarei sério, e ela ficou um pouco sem graça. – Eu vou precisar passar um dia inteiro com você pra desconstruir essa imagem péssima que você fez de mim. – Resmunguei, revirando os olhos. E então, abrindo uma das gavetas do Zeref, achei outra caixa de sapato. Mas dessa vez mais bonita e maior que a outra. – Olha, acho que pode ter algo de útil aqui. – Peguei a caixa para mostrá-la, e ela me olhava um pouco desconfiada.
— Essa é a gaveta de cuecas do seu irmão? – Ela fez careta.
E quando eu olhei melhor, pude confirmar o que ela disse, e acabei rindo.
— Não acredito que ele guarda isso na gaveta de cuecas. Zeref é um tarado, então… – Conclui, sentando-me na cama e colocando a caixa em meu colo. – Se houver fotos da Mavis aqui, eu não sei nem o que pensar…
— Mavis? Eu acho que já ouvi esse nome. – Lucy falou pensativa, sentando-se ao meu lado.
— Provavelmente sim, de uma das broncas do Makarov em nossa sala. Ela é a aluna número um da Fairy Tail, a queridinha do diretor, e ele quer que sejamos todos como ela. – Revirei os olhos de novo. – Zeref era seu professor de química e biologia, parece que foi assim que começaram um namoro.
Abri a caixa cuidadosamente, e logo no topo já havia uma foto do Zeref e da Mavis juntos, ela com o uniforme da Fairy Tail, e ele com uma roupa normal. Ambos olhavam um para o outro, e ela sorria, enquanto Zeref tentava um sorriso também, mas sem muito sucesso. Embaixo daquela foto, havia outra dos dois juntos, que parecia ser do mesmo dia, mas dessa vez eles usavam óculos engraçados e Zeref fazia careta emburrado, enquanto Mavis ria dele. E em outra foto, ainda do mesmo dia, os dois estavam se beijando.
— Deus, eles são tão fofos! – Lucy cortou o silêncio, tirando as fotos da minha mão e admirando com os olhos brilhando. – Eu ainda não estava botando muita fé nesse namoro, mas veja isso! Eles foram feitos um para o outro! – Ela me mostrava a foto do beijo, claramente animada com aquilo. – É uma pena que ele ainda não tenha revelado ao Igneel. Eu queria poder ter os dois aqui algum dia, pra um jantar.
Continuei olhando a caixa, e havia algumas cartas da Mavis, outras cartas de professores, amigos, e até mesmo algumas coisas da minha mãe, que eu preferi não mexer.
— Certo. A não ser que você queira bisbilhotar as cartas também, acredito que já vimos o que queríamos. – Falei, esperando que ela se levantasse para sair.
E Lucy logo o fez, certificando-se antes de deixar a cama impecável, para não levantar suspeitas em meu irmão quando ele chegasse.
Guardei a caixa no mesmo lugar e deixei tudo organizado no estilo Zeref.
— Será que os pais dela sabem? – Lucy perguntou, assim que saímos do quarto e eu fechei a porta.
— Não tenho certeza, mas acho que Mavis é emancipada. Ela mora em um prédio ao lado da escola sozinha.
— E o Zeref simplesmente vai até lá? Eles ficam assim, sozinhos? – Ela pareceu um pouco alarmada, o que me fez rir.
— Já pensou Igneel descobre que vai ser avô mais cedo do que imaginava? – Aproveitei para provocar, e ela ficou ruborizada.
— Não diga bobagens, Dragneel. – Lucy ficou emburrada.
— Ué, foi você quem começou. – Dei de ombros, rindo ainda mais.
Lucy ficou em silêncio por um tempo, e ficamos os dois ali, no corredor, nos encarando. Novamente pude observar o quão lindo eram seus olhos, e quão convidativa parecia sua boca.
Espera.
Eu já tinha pensado sobre a boca dela antes?
Eu não me lembrava da Lucy ter uma boca tão rosinha. Eu apostava que seus lábios eram tão macios de morder.
— Natsu... – E sem que eu pudesse ter percebido, eu estava me aproximando dela, mas fui parado por sua mão espalmada em meu peitoral. Lucy estava um tanto ruborizada e alarmada, e eu completamente desatento de meus atos.
E segundos depois, escutei Layla anunciando que o jantar estava pronto, e Lucy não pensou duas vezes ao descer apressadamente.
Onde eu estava com a cabeça?
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