Troublemaker
12 Mãe e Madrasta
Notas iniciais
As visitas das Heartfilia já estavam se tornando constantes em todo jantar, e quando menos percebi, as três se mudaram definitivamente – junto com o cachorro que eu não tinha um pingo de afinidade. Eu realmente não fazia ideia do que tinha feito de tão errado na vida.
A mudança ocorreu no sábado pela manhã, e Igneel ainda me fez pintar o quarto da Michelle na noite anterior, porque ela queria tudo rosa. E eu prefiro nem comentar o que ela disse sobre o meu cabelo. A sorte era que eu era educado, controlado, e meditava constantemente que estava fazendo aquilo pelo meu pai e iria sair daquele lugar o mais rápido possível. O que era algo bem questionável, porque meus irmãos eram bem mais velhos e ainda não tinham desgarrado das asas do Igneel, e tudo indicava que eu seria como eles.
Aquele sábado, em questão, fora a primeira vez que almoçamos todos juntos.
Bom, claro, se fosse contar, já houvera muitos almoços com as Heartfilia, meu pai e meus irmãos. Aquela era a primeira vez que eu participava de um. E não era lá grande coisa, porque já tínhamos jantado várias vezes juntos, a única diferença era a claridade externa.
Naquele dia quem fizera a comida fora Layla, já que Igneel queria que ela estreasse nossa cozinha. Acabou se empolgando e fizera comida para praticamente um batalhão, mas claramente não teria problema de desperdício, já que eu, Igneel e Zeref valíamos por cinco cada um.
— Sua comida está maravilhosa, Layla! – Erza elogiava, comendo de forma educada, da qual era um termo que eu desconhecia quando se tratava de comida.
— Ah, obrigada querida. – Layla respondeu um tanto tímida.
— Com certeza! Não imaginava que tivesse uma mão tão boa. Pode competir com Igneel facilmente. – Zeref também comentou, mas não tão educadamente, já que ainda havia comida em sua boca enquanto falava.
— Coma igual gente, Zeref. – Erza lhe deu um tapa na cabeça, fazendo-o engasgar e arrancando gargalhadas da pequena diaba, vulgo Michelle.
E então se formou um breve silêncio, e meus irmãos ficaram me encarando por um tempo, como se estivessem esperando que eu elogiasse a comida também. Mas eu não me dei conta disso no momento, só estava preocupado em quanto mais caberia em minha barriga antes de partir para a sobremesa.
Minha relação com Layla ainda não estava das melhores, porque nós pouco nos falávamos. Geralmente ela me perguntava durante os jantares como estava a escola e como ia meu treino, e então a conversa acabava por ali. Eu sabia que ela estava se esforçando, mas acima de tudo estava respeitando meu tempo, por isso eu estava começando até mesmo a criar uma certa simpatia por ela.
Mas não era como se eu fosse admitir em voz alta.
— Ahn, Natsu… – Layla me chamou, pigarreando. Esperou que eu me atentasse nela para continuar falando, com um grande sorriso no rosto. – Eu esqueci de te avisar, e acho que seu pai também não o fez, mas nós fomos ontem mudar a data do casamento. Espero que não se importe que seja no meio de novembro.
Aquela frase fez Erza e Lucy largarem os talheres de forma surpresa, e Zeref chegou até a se engasgar.
Ótimo, Layla tinha revelado que aquilo fora ideia minha. Agora iam achar que eu estava apoiando completamente aquele casamento.
Igneel começou a me encarar pesarosamente, esperando que eu dissesse algo, e as palavras simplesmente fugiam de mim, enquanto eu fiquei durante alguns segundos boquiaberto sem saber o que falar. O que eu poderia dizer?
“Ah, legal”.
“Tanto faz”.
“O casamento não é meu, divirta-se”.
Eu não conseguia pensar algo muito longe dessa linha de raciocínio, e isso era péssimo já que eu queria pelo menos uma vez parecer no mínimo educado.
— Meio de novembro é bom… – Comentei baixo, focando em minha comida.
— Ótimo! – Layla bateu palmas, realmente animada com aquilo. – Queria te perguntar outra coisa também.
— Como é? – Erza a cortou, ainda surpresa. – Vocês mudaram a data por causa dessa peste?
— Ele que nos pediu, a mim e ao seu pai, e eu não poderia recusar já que ele me explicou o porquê. – Layla deu de ombros, ainda sorrindo. – E não chame seu irmão assim, Erza. – Seu tom mudou, parecendo que estava dando bronca.
Layla estava dando bronca na Erza!
Na Erza!!
Esse almoço estava melhor do que eu imaginava.
O sorriso que moldou meu rosto claramente mostrava como eu estava por dentro, enquanto Erza fazia caretas e pedia desculpas em um quase sussurro.
— Sua pergunta… – Chamei a atenção de Layla para mim novamente, e seu sorriso estava enorme outra vez.
— Ah, claro! O que acha de entrar como meu pajem? Junto com Lucy?
— O QUÊ?! – Lucy derrubou os talheres de novo, recebendo olhares repreensivos da mãe.
— Pajem? – Perguntei, fazendo uma careta. – Mas isso não é coisa de criança?
— Bem, sim… Mas não tem crianças na sua família, tampouco na minha. E seria lindo vocês entrando juntos, participando do casamento tanto quanto eu e Igneel. Esse é um momento para nós todos.
— E quanto a mim, mãe? – Michelle reclamou ao seu lado.
— Você será a florista, meu anjo. – E então voltou a me olhar. – Vou deixar que pense. Mas leve em consideração, por favor. Zeref e Erza já aceitaram de entrarem juntos, só falta você e Lucy.
— Ah, não se preocupe. Não vou precisar pensar. Eu vou participar sim, e a Lucy também, não é mesmo Lucy?! – Lhe mandei um olhar sugestivo, sorrindo grande.
Não era Lucy que vivia fazendo o discurso que faria de tudo para o casamento dar certo? Pois então.
Sim, eu sei que sou um pé no saco, mas Lucy também não é lá grande coisa.
— Isso é ótimo! Maravilhoso! – Layla ficava cada vez mais animada, como se tivessem anunciado que ela não teria que se preocupar com dinheiro nunca mais na vida. – Não vejo a hora de começar a organizar as coisas semana que vem, arrumar as roupas, depois fazer os ensaios, e fazer…
— Espera. Semana que vem? – Organizar coisas? Fazer ensaios? Que loucura era essa?
— Sim. O casamento será em menos de dois meses, e há bastante coisas pra fazer.
Era só o que me faltava. Como se eu já não tivesse a escola e o campeonato de basquete pra me preocupar o suficiente.
~*~*~*~*~
Logo após o almoço fui até a escola, pois haveria um último treino para o primeiro jogo do campeonato que seria amanhã, domingo, contra uma escola chamada Quatro Cerberus, que eu ouvi falar que não era lá grande coisa.
Já na rua da escola, acabei encontrando Lisanna, que já estava me evitando tempo demais para o meu gosto. Fui correndo em sua direção, a chamando, e para a minha surpresa, ela se virou sorridente, abraçando-me quando me aproximei.
— Natsu! Tudo bem?
Olhei confuso pra ela, e depois olhei ao redor. Lisanna estava mesmo falando comigo? Ela realmente havia me abraçado? Eu estava sonhando?
— Lis! Estou bem, e você? Como passou essa semana? – Sim, eu seria cara de pau o suficiente para lhe questionar sobre a última semana.
— Muito corrida. Fiquei sabendo que Lucy já se mudou para sua casa, como está sendo? – Ela entrelaçou um dos braços ao meu, puxando-me para dentro da escola.
— Um porre! – Suspirei sincero. – Digo, a irmã dela é uma mimadinha, e ainda tem aquele cachorro insuportável que não sai do meu pé, sem falar na própria Lucy que é a encarnação do diabo.
— Não fale assim da Lucy, ela é uma ótima pessoa! Você só precisa dar uma chance para…
— Não, Lis… Por favor, não venha com papo de “dar uma chance”, eu tenho a impressão de que minhas orelhas vão cair se eu ouvir essa frase mais uma vez.
Ela gargalhou alto, parando de andar e se virando de frente pra mim.
— Ok, você que sabe. Mas agora eu preciso ir, tenho treino, e você também pelo jeito. Boa sorte, Natsu. – E me deu um beijo na bochecha, correndo para a quadra descoberta, que ficava do outro lado do prédio da escola.
Dirigi-me até a quadra onde foram feitos os testes e me surpreendi ao notar que estavam todos ali muito antes de mim, já treinando.
— Parece que alguém esqueceu que dia é hoje. – Gray apressou-se em começar a zoação.
— Houve um pequeno… Imprevisto. – Fiz uma careta, que instantaneamente Gray entendeu ao que eu me referia. Ele já conhecia todas as minhas caretas referente ás Heartfilia, provavelmente.
— Vamos te perdoar dessa vez, mas só se você jogar com os reservas e vencer de nós! – Jellal me jogou uma bola, sorrindo desafiadoramente.
— Não sabia que vocês estavam assim tão desejosos pra perder. É algum tipo de fetiche pra deixá-los animados para amanhã? – Provoquei, jogando a bola de volta.
— Não seja tão confiante, Natsu. Você perdeu pra nós na segunda, esqueceu?
~*~*~*~*~
Após o fim do treino completamente cansativo, todos nós sentimos que já estávamos prontos para o dia seguinte. Fui para casa confiante, e até um tanto feliz, até eu abrir a porta e lembrar que tinha dado moradia ao diabo e suas proles.
Estavam todos amontoados na sala, rindo, brincando e fazendo uma enorme bagunça. E todos pararam assim que entrei, como se estivesse sendo inconveniente.
— Não parem por minha causa. – Falei em tom irônico, subindo as escadas para ir para o meu quarto.
— Natsu, não quer ficar conosco? Estamos contando algumas histórias…
Geralmente eu continuaria subindo as escadas e ignoraria completamente seja lá quem tivesse falado comigo, mas eu não podia.
Ou melhor, eu não queria.
— Obrigado Layla, mas eu preciso tomar banho.
Ela sorriu docemente, e como um lapso, por um instante eu vi Miyuki ali, com o mesmo sorriso, o mesmo jeito doce de se preocupar comigo, e até a covinha no mesmo lugar, e aquilo me congelou por completo. Eu não conseguia mais determinar se aquilo era realmente uma miragem ou minha mãe, parada bem em minha frente, bela como sempre. Pude ver sua boca se mexendo, dizendo algo para mim, mas eu não consegui reagir. Provavelmente minha feição não estava das melhores, já que ela começava a me olhar preocupada. E então a imagem de Miyuki sumiu, e deu lugar a Layla novamente.
— Natsu? Aconteceu alguma coisa? Fale comigo, por favor! – Escutei-a dizendo.
Mas eu não consegui dizer nada.
Não conseguia raciocinar devidamente.
Subi correndo para meu quarto e fiquei trancado lá o resto da noite.
~*~*~*~*~
Finalmente o tão esperado dia do primeiro jogo do campeonato havia chegado. Apesar de ter ido dormir tarde, acabei acordando cedo. Geralmente de domingo eu só acordava depois das três da tarde, mas a animação e ansiedade tomava conta de mim de tal forma, que dormir nem ao menos parecia possível.
— Olha só quem levantou cedo em pleno domingo. Será que vai chover? – Meu pai estava na frente do fogão, olhando para mim de forma brincalhona.
— Bom dia para você também, Igneel. – Respondi de mal humor.
Não era só porque acordei cedo e animado com o jogo que eu estaria realmente feliz por ter dormido mal, não é mesmo?!
— Parece que está muito bem humorado para o dia de hoje, campeão. – Ele me entregou uma tigela para que eu tomasse meu café da manhã.
Revirei os olhos e me sentei á bancada, que estava caprichadamente preparada com tudo o que um asagohan¹ tinha direito. Surpreendi-me quando pequenas mãos pousaram sobre meus ombros e recebi um beijo na bochecha.
— Bom dia, querido. – Layla cantarolou, sentando-se ao meu lado.
E novamente aquela sensação de ruborizar sem necessidade. Por que diabos Layla me deixava assim, tão sem graça com tão pouco?
— B-bom dia. – Acabei gaguejando e me xingando internamente por isso. E se ela percebeu, deixou passar, para o meu alívio.
— Está animado para o jogo de hoje? – Ela perguntou, servindo-se da comida do Igneel.
— Animado, ansioso, nervoso… O que você preferir. – Dei de ombros, e ela riu.
— Tenho certeza que vai dar tudo certo. Aliás, fazia algum tempo que eu não via Lucy se animar tanto para torcer em um jogo.
E ao ouvir isso, lembrei que a loirinha estaria lá também, torcendo pelo meu time. Certamente o sorriso que apareceu em meu rosto me denunciou, mas eu não estava me importando muito com isso. O importante era que Lucy estaria no campeonato, usando a roupa mais sexy possível e torcendo por mim.
Ok, não exatamente por mim, mas vamos fingir que sim.
Ficamos comendo por um tempo em silêncio, e alguns minutos depois Zeref e Erza também apareceram para comer.
— Pai, vou pra casa do Gray e ficar lá até a hora do jogo, ok?! – O avisei, já me levantando, e por pouco não tropeçando no cachorro que estava quase ao meu pé.
— Que horas começa mesmo?
— Três e meia. Você vai ir assistir?
— Claro que sim. Meu filho jogando e minha enteada torcendo, eu não perderia isso por nada. – Igneel se expressou alegremente, fazendo-me revirar os olhos.
Como ele conseguia ficar tão animado tão cedo?
Subi até o meu quarto para pegar minha mochila com minhas coisas, e ao sair dele, tive o privilégio de presenciar uma cena memorável. Lucy também estava saindo de seu quarto, de pijama extremamente curto e os cabelos um tanto bagunçados. Seu rosto estava sonolento e ela sequer prestou atenção em mim, além de começar a se esticar, tocando os pés com as mãos e me presenteando com o enorme decote.
— Que flexível, Luce. Você na cama deve ser uma loucura…
A loirinha se levantou rapidamente, ruborizada, e não sabia como reagir.
— Você… Você é um idiota! – E entrou rapidamente no banheiro, fechando a porta com força e fazendo-me rir com aquela reação.
Aproximei-me da porta e dei breves batidas.
— Te vejo no jogo, loirinha?
— Vai a merda, Dragneel! – Ela gritou de volta.
~*~*~*~*~
Na casa do Fullbuster, ficamos conversando e jogando vídeo game até que desse a hora para irmos para a escola, mas não antes de sermos abarrotados pela comida da Ur.
Jellal nos esperava no portão da Fairy Tail, e junto conosco já apareciam alguns estudantes, torcedores e jogadores da escola adversária.
— E então?! Estão nervosos? Porque eu ainda estou tentando descobrir como estou me mantendo em pé! – Jellal falou, fazendo-nos rir.
— Acredite, estou do mesmo jeito. – Admiti.
— Eu não estou muito preocupado, eu conheço o pessoal da Quatro Cerberus. Eu sozinho deixo eles no chinelo. – Gray falou, e eu revirei os olhos, acompanhado por Jellal.
— Então eles devem ser muito ruins mesmo, pra perder pra você… – Soltei, e Gray me deu um soco no ombro. – Pelo menos não foi o Jellal que fez a comparação, ou a gente ia saber que o pessoal não merecia nem vaga no campeonato. – Sim, eu adorava provocá-los.
— Mas você é um merdinha metido mesmo, hein Dragneel?! – Jellal me deu um empurrão, e começamos a rir.
Já estávamos na quadra, dirigindo-nos para o vestiário pra colocar o uniforme do time, e alguns jogadores da outra escola treinavam em metade da quadra.
O pouco que os vi treinando já percebi que habilidade ali estava em falta, mas os jogadores eram brutos, e eu já imaginava que seria o saco de pancadas.
Quando passamos ao lado deles, um grupinho em particular parou e ficou nos encarando, e sem educação nenhuma começaram a cochichar e apontar para nós. Apenas fingi que não dei bola e continuei andando, convencendo Gray a fazer o mesmo, já que ele gostava de arranjar uma confusão.
— Eles querem briga? Então eles vão ver a briga! – Gray murmurava alto o suficiente para que eles escutassem.
— Cale a boca, cabeça de vento. Você não vai brigar coisa nenhuma. Se arranjar confusão antes ou durante o jogo, eu mesmo te arrebento.
Embora eu soubesse que fazer ameaças ao Gray era a mesma coisa que dar um comando á uma porta, eu não poderia deixar de lhe avisar. Havia chances – pouquíssimas, mas havia – de ter olheiros na plateia. E isso era válido para todos os jogos do campeonato. Se Gray se mostrasse um descontrolado briguento dentro de quadra, a bolsa que ele queria iria por água abaixo.
Já vestidos, nos dirigimos até a quadra e pegamos uma bola pra treinar. Mais alguns parceiros de time chegaram logo em seguida, e ficamos treinando arremessos. Nada muito cansativo ou técnico.
Conforme os minutos iam passando, mais o ginásio ia se enchendo de público. E passando os olhos pela arquibancada, observei que meu pai já havia chegado. Mas não só meu pai, meus irmãos, Layla e Michelle também. Quando meu pai me encontrou, cutucou meus irmãos, apontando para mim em seguida, e então eles começaram a gritar torcendo pelo meu time e gritando meu nome, deixando-me envergonhado. Eu não sabia se acenava de volta ou fingia que não estava vendo.
Mas não foi necessário nenhuma das ações, já que as líderes de torcida entraram em quadra e a gritaria foi geral. Elas entraram animadamente, pulando e balançando os pompons, e a maioria dos meninos da arquibancada se levantaram pra conseguir olhar melhor. E pelo jeito, a rivalidade não era somente entre os times, já que algumas garotas da escola visitante estava caçoando das meninas da Fairy Tail. E Cana, com toda a gentileza e educação que tinha, revidava com o dedo do meio e outros sinais nada educados.
— Hey, rosinha. – Recebi um empurrão.
Me virei para o sujeito que tivera coragem de fazer tal barbaridade, e me deparei com o capitão do time adversário. Era um sujeito alto, de cabelos negros e preso em um coque, com um bafo de bebida extremamente forte.
— Vê se não chora se te tocarem um pouquinho mais forte, viu mocinha?! – Caçoou, sorrindo grande.
Se não estivéssemos em público, minha primeira reação seria desferir um soco nesse rosto de bêbado babaca, mas eu não queria manchar minha imagem na frente de um possível olheiro. Então apenas ri de volta.
— Não se preocupe. Acho que é você que vai ter que segurar as lágrimas quando perder pra uma garotinha.
Sua expressão fechou para uma carranca, e eu me afastei antes que ele dissesse mais alguma merda. Juntei o time em uma roda, e passei algumas instruções.
Combinamos algumas estratégias e posições, e então fomos nos posicionar em campo. Coloquei-me ao meio, junto com Gray, de frente para o capitão adversário e outro jogador. O juiz apitou o começo do jogo jogando a bola para cima, e o bêbado foi quem pegou primeiro no pulo, dando vantagem ao seu time. Não foram muito eficientes no passe de bola, e logo Jellal já a roubava para nós. E foi assim que eu abri o placar.
Em certo momento da partida, quando Jellal teve oportunidade de pegar na bola e marcar a sua primeira cesta, saiu correndo pela quadra até ficar de frente para a arquibancada da ponta direita, e assim que chamou a atenção de Erza, sinalizou que a cesta fora pra ela. E como se tivessem trocado minha irmã por outra pessoa, ela ficou ruborizada onde estava sentada, tentando disfarçar um sorriso que queria adornar seu rosto, falhando miseravelmente.
Era só o que me faltava.
Logo nos primeiros minutos do segundo tempo, em um rebote que a Cerberus pegou, numa tentativa de marcar pontos, um dos brutamontes meteu uma cotovelada brusca no rosto do Gray, que acabou caindo. O jogo foi parado imediatamente, e assim que ele se levantou, extremamente irritado, metade de seu rosto estava manchado com sangue. Mas isso sequer foi um impedimento para que ele avançasse nos outros jogadores. Tive que correr para segurá-lo e pedir que ficasse calmo, mas até eu estava quase recebendo um murro dele.
Levei-o até um enfermeiro que estava próximo, e ele fez o curativo em Gray, que apenas cortou o supercílio. E enquanto ele limpava o rosto, o jogo teve continuidade, onde eu cobrei a falta.
Durante todo o primeiro e segundo tempo, os adversários nos acertavam “acidentalmente”, e quase aconteceu briga por diversas vezes. Porém, como eu prometera, eram eles quem estavam perdendo, e a diferença de pontos era enorme. Se eles quisessem recuperar, iam ter que se empenhar o dobro no terceiro e quarto tempos.
E nos intervalos, as líderes de torcida também mantiveram suas rixas. Era até possível dizer que Quatro Cerberus era uma escola de loucos maloqueiros, já que em tudo queriam arranjar confusão. Eu não me surpreenderia se houvesse uma briga na arquibancada começada pelos estudantes de lá.
Terminamos os dois últimos tempos com um jogador machucado, Gray irritado e sangrando, roxos no corpo e muitos pontos no placar. A torcida da Fairy Tail gritava animadamente, e as líderes de torcida incentivavam ainda mais. Como o jogo foi finalizado com a bola em minhas mãos, joguei-a por cima do ombro, como nós costumávamos fazer quando ganhávamos. Era praticamente um ritual, e não significava nada, mas nós fazíamos mesmo assim.
Por azar, acabei acertando a bola no maldito bêbado, que não demorou a vir tirar satisfações.
Como eu estava de costas, ele me puxou pelo ombro para eu ficar cara a cara com ele, e me desferiu um soco no rosto, acertando minha mandíbula. Não vou mentir, ele tinha uma mão pesada, e aquilo doeu pra caralho, mas não o suficiente para me desnortear. E como já dizia a lei do retorno, “tudo o que vai, volta”, não pensei duas vezes ao socá-lo também, colocando muito mais força. As pessoas foram rápidas em nos separar, e uma delas foi Cana, que foi ajudar a parar o babaca.
— Qual é, vem arranjar confusão comigo no bar, e agora com os meus amigos? Você quer apanhar, imbecil? – Ela gritava com o dedo na cara dele, e ele apenas ria cínico.
— Ele arranjou confusão com você, Cana? Me soltem que eu vou deformar esse sorriso. – Gritei, forçando os que me seguravam, tentando me soltar de qualquer forma.
— Eu cuido dele, Natsu. – Cana me respondeu, ainda olhando diretamente para o bêbado, e então o socou no mesmo lugar que eu. Todos começaram a gritar, colocando lenha na fogueira, e os amigos dele o soltaram, e rapidamente eu me soltei para proteger Cana caso ele avançasse nela.
Mas, para nossa surpresa, ele apenas sorriu para ela e deu as costas, indo embora.
— Você é doida, Cana. – E começamos a rir daquilo.
— Ele merecia. Me chama na próxima briga, eu gostei de socar imbecis. – Ela sorriu, voltando para junto das torcedoras.
— Você está bem, querido? – Layla apareceu de repente, segurando meu rosto com ambas as mãos e verificando cada centímetro a procura de machucados, praticamente me retorcendo.
— Mãe, pare com isso. Essa briga foi tudo culpa dele. – Lucy falou com desinteresse.
— Mas o que diabos foi aquilo? – Erza gritou irritada.
— Erza-sama! Você viu as cestas que fiz pra você? – Jellal surgiu do inferno.
Meu pai e Zeref estavam ali também, esperando que eu me explicasse, e nenhum deles estavam com caras agradáveis.
— Não foi nada demais, eu estou bem, Layla. Obrigado. – E mesmo dizendo aquilo, ela não parou de mexer em meu rosto. – Eu acertei a bola nele acidentalmente, não foi nada demais. Ele só estava estressadinho por ter perdido. Vocês viram como eles estavam apelando pra força física durante o jogo. Escola ruim pra cacete.
— Olha a boca, garoto! – Erza me acertou um tapa na cabeça.
Aquilo era definitivamente abuso de autoridade.
— Certo, acabou por hoje né?! Podemos ir pra casa comemorar? – Igneel se pronunciou, um tanto alegre. – Ou melhor, que tal irmos na sua pizzaria preferida? – Ele sugeriu pra mim, e claro que eu não pude recusar.
Regra da vida: nunca recuse um rodízio de pizza. Nunca!
— Jellal e Gray estão mais que convidados.
E Jellal, que estava ao meu lado, mandou um olhar sugestivo para Erza, que apenas fechou a cara. Agora sim, essa era minha irmã.
— Ahn, obrigado Igneel, mas Ur e Ultear estão aqui, eu vou acompanhá-las até em casa… – Gray começou a se afastar, mas foi impedido por Igneel.
— Não tem problema, elas podem vir conosco também.
E foi assim que nossa noite terminou. Após todos esperarem que eu, Gray e Jellal tomássemos banho no vestiário da escola, fomos para a pizzaria.
Zeref já tinha percebido as gracinhas do Jellal em cima da Erza, então apenas o ameaçou com o olhar e não permitiu que ele sentasse perto de nossa irmã. Com isso, a única alternativa do Fernandes foi ficar perto de Ultear, que pelo menos o aturava. Layla sentou ao meu lado e vez ou outra fazia menção sobre alguma coisa que conversamos na semana passada nessa mesma pizzaria, sorrindo o tempo todo. Posso até mesmo dizer que Lucy estava com ciúmes pelo modo que sua mãe estava comigo, e tenho que admitir que isso me divertiu.
Também preciso admitir que me diverti a beça. Layla, Ur e Igneel juntos foi o ponto alto da noite, os três eram extremamente engraçados e ficamos com dor de barriga de tanto rir. Me arrisco a dizer que foi a melhor noite de todas, desde que minha mãe se fora.
Como eu sentia sua falta, mãe…
Próximo capítulo:
— Nunca achei que viveria pra ouvir você elogiando minha mãe. – E então abriu o sorriso mais lindo, que eu sequer poderia chegar perto de imaginar.
— Sabe como é… – Dei de ombros. E então a puxei para perto novamente, voltando em nossa posição inicial da dança. – Vamos tentar outra vez.
(...)
— Não é a primeira vez que escuto isso. Você tem uma ideia muito errada de mim como pessoa, Lucy.
— Me desculpe. – Falou de forma sincera. A abracei de volta, acariciando seus cabelos.
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