Troublemaker
26 Especial: Dia das Mães
Notas iniciais
Concentrado como eu estava, só fui perceber que batiam em minha porta quando finalmente invadiram meu quarto. Olhei para trás, curioso para saber quem seria o primeiro a me ver em meu estado perdido e confuso, no meio de uma imensa bagunça de roupas e objetos para todos os lados, e vi que era meu pai, que me olhava atento.
— Precisa de ajuda, filho? – Perguntou calmamente, apontando para a grande bagunça que estava em minha cama.
— Não, obrigado. Estou quase terminando. – Respondi, guardando mais uma calça em minha mala.
Bom, tecnicamente eu precisava de ajuda sim, mas eu meio que gostaria de saber o que ia entrar na mala, então aquilo ficaria por minha conta mesmo.
— Quase terminando? – Perguntou divertido, soltando uma risada alta. – Eu te conheço, Natsu. Você vai ficar três dias só pra organizar tudo isso. Eu fico me perguntando como é que vai sobreviver lá…
— Zeref sobreviveu, eu também consigo. – Desdenhei, e Igneel riu de novo. – Queria alguma coisa, pai? – Perguntei, já que ele provavelmente não entrou ali pra oferecer ajuda com minhas coisas, ou zombar da minha incapacidade de manter uma mínima organização.
— Ah, bem… Eu estava arrumando meu guarda roupa e achei algumas coisas que acredito que você vá querer. – Falou, andando até mim e ganhando completamente a minha atenção. – E também tem algo que já era pra eu te entregar antes de ir á faculdade. É da sua mãe, tudo isso. – E então Igneel colocou em minhas mãos um envelope meio amarelado, e uma pequena mochila em minha cama, que eu logo reconheci pelas patinhas de animais estampadas em tudo.
Encarei a carta em minhas mãos, realmente surpreso com o que meu pai dissera. Ver a caligrafia na frente tirou todas as minhas dúvidas de que poderia ser mesmo da Miyuki ou não. Sua letra inconfundível, meio artística e meio relaxada, que havia escrito “para meu querido caçula” me fez prender a respiração por um momento e esquecer tudo o que eu estava fazendo, me deixando literalmente sem reação. E só percebi que me sentei na ponta da cama porque um pouco da bagunça caiu em minhas costas.
Uma carta da minha mãe era tudo o que eu menos esperava receber naquele momento.
— Eu, ahn… Eu vou deixar você sozinho agora. – Ouvi meu pai, e então me lembrei que ele ainda estava por ali. – Se precisar de mim, estou lá embaixo no escritório.
Acenei positivamente, e então ele saiu, fechando a porta com cuidado.
Embora eu estivesse bem ansioso para ler o que estava escrito, também estava um pouco nervoso. Era algo da minha mãe, afinal. Acho que nem quando precisei abrir minha carta da faculdade pra descobrir se tinha sido admitido, eu não fiquei tão nervoso assim.
Fechei os olhos, respirei fundo e contei até três, tentando me acalmar pelo menos um pouco. Abri cuidadosamente o envelope, e peguei algumas folhas de caderno dobradas ao meio, também um tanto amareladas, e me preparei mentalmente para o que estava por vir.
“Querido Natsu Dragneel, meu filho amado…
Nesse momento eu estou na cama, após nossa noite de virada do ano. Eu estou sentindo que já está muito próximo de acabar o meu tempo, então não posso mais adiar fazer isso. Resolvi escrever uma carta para você, Erza e Zeref para minha consciência não ficar tão pesada de que eu não estarei ao lado de vocês quando datas importantes chegarem, como sua formatura do colegial, sua entrada na faculdade, sua primeira namorada, (que provavelmente vai acontecer antes dessas coisas, aposto! Você é muito cara de pau, filho.), seu primeiro estágio, seu primeiro emprego… Até mesmo seu casamento, seu primeiro filho, meu primeiro netinho…
Enfim, essa carta realmente não é para me remoer de coisas que não vão acontecer comigo, mas é para tentar te aconselhar, porque eu sou sua mãe, e esse é o meu papel.
Acredito que, se seu pai não for muito ansioso e respeitar o meu pedido, essa carta estará em suas mãos quando você estiver prestes a entrar na faculdade. Mas caso ele tenha te entregado antes, eu espero que esteja dando o seu melhor na escola, e esteja se empenhando para ter um futuro brilhante.
Por favor, escolha aquilo que realmente lhe agrade, e não que agrade aos outros. Você sabe, eu te falei inúmeras vezes, eu arranjei brigas e mais brigas com o seu avô porque ele odiava a ideia de que eu fosse fazer faculdade veterinária. Mas eu estava feliz, aquilo era o que eu amava, e eu nunca me arrependi de ter seguido meu instinto. Se eu tivesse feito advocacia como ele queria, provavelmente eu não estaria tão feliz assim. Quem se dá bem com essas coisas é seu pai, você sabe que eu não tenho cabeça pra tanta burocracia e leis. Que fique só entre nós, mas seu pai é bem doido pra aguentar essas coisas. (Mas deve ser por isso que eu o amo tanto, acredito).
Então, como o objetivo dessa carta é que você a leia pouco antes de ir para a faculdade, aqui vai algumas dicas que você precisa saber:
1- No primeiro mês pode até parecer fácil, mas não se engane. As coisas vão piorando conforme as semanas. (Sim, não são intervalos de meses, são de semanas mesmo!)
2- Mesmo assim, não desanime! Se esforce ao máximo, e faça os professores te verem como o melhor da sala.
3- Sempre haverá festas, saideiras e garotas te chamando pra aprontar. Mantenha-se focado e diga não sem pensar duas vezes. E nada de beber, mocinho!!!!!!!!!!”
Oh, mãe… Como a senhora está atrasada com esse conselho. Me perdoe, onde quer que você esteja agora.
“4- Na sala de aula sempre tem um aluno que se acha o Albert Einstein e não deixa o professor falar por um instante. Eu sei que você vai querer dar um murro nele, como eu quis por muitas e muitas vezes, mas controle-se. Ou vai acabar tendo consequências nada agradáveis. (Falo por experiência própria, acredite!)”
Foi inevitável não parar de ler para rir, porque eu conhecia minha mãe. Ela era sempre tão calma, tão serena. Era até impossível irritá-la, mas quando conseguiam... Era como o próprio diabo vindo á terra pessoalmente para castigar todo mundo. E Erza puxou isso dela, infelizmente. Mas Erza se estressava mais fácil.
“5- Geralmente é na faculdade que acabamos encontrando o amor da nossa vida, que vai ficar ao nosso lado até o fim de nossos dias. Foi no campus que encontrei seu pai, aliás. O conselho que posso dar quanto á isso, é: não seja o galinha da turma, você nunca vai atrair a pessoa certa assim. E não seja um babaca com as garotas, você pode estar maltratando a futura mãe dos seus filhos, e não vai ser nada legal quando ela contar ás crianças que você não foi muito educado no primeiro encontro.
E sobre isso, também tenho a acrescentar que eu até mesmo quase desisti do seu pai, porque ele tem a péssima mania de ser espalhafatoso e não medir as próprias palavras, você deve saber. Acredita que em nosso primeiro encontro ele falou que eu estava com um cheiro esquisito e deveria trocar de perfume? Só por Kami pra eu ter continuado a sair com o Igneel. Ainda bem que ele conseguiu me fazer amá-lo antes de eu desistir de vez.
Depois que você começar a faculdade, aparecem as responsabilidades de arranjar um estágio, e depois um emprego, e então ter sua própria casa, se casar, ter filhos, cuidar deles até irem para a faculdade, e coisas complexas, burocráticas e chatas. São regras da sociedade que só servem para nos deixar de cabeça para baixo e estressados grande parte do dia, então eu te digo: faça as coisas na sua ordem, no seu tempo, do seu jeito. E se não quiser fazer uma delas, não faça. Se quiser fazer mais, faça. Mas não se estresse à toa, e tampouco decida tudo sozinho. Tenho certeza que seus irmãos e Igneel estarão ao seu dispor sempre, te ajudando com tudo. Sempre conte com nossa família, querido.
Eu não sei se você já estará namorando quando ler essa carta, se estará apenas apaixonado ou solteiro. Só espero que, quando você encontrar alguém que goste, seja sincero com ela. Você não vai ganhar nada escondendo seus sentimentos, apenas ficar remoendo se pode ou não acontecer algo. Vá lá e arrisque. Se declare. Seja corajoso, dê a cara a tapa. Se receber um não, o mundo não vai acabar, eu prometo. Se receber um não, apenas siga em frente. Tem várias pessoas por aí, e quando você encontrar a certa, vai acontecer, acredite.
Enfim, querido. Eu espero ter te ajudado um pouco. Eu não consigo ter uma ideia de como você estará daqui seis anos, mas eu gosto de pensar que continuará o garoto doce de sempre. Então, falando com meu garotinho doce seis anos mais velho, eu peço minhas sinceras desculpas por não poder te aconselhar mais ao longo da sua vida e das suas decisões. Sei que vai dar seu melhor para me impressionar daqui de cima, então eu prometo que estarei te olhando do céu todos os dias, meu amorzinho.
Por favor, cuide do Igneel por mim. Você e seus irmãos. Talvez ele vá precisar mais que vocês, já que ele é um cabeça dura. (Espero que você não puxe essa característica dele ao longo dos anos.)
Não se esqueça o quanto eu te amo. Você sempre vai ser o caçula mais lindo do mundo. Muito obrigada por todo o carinho que você me proporcionou nesse nosso último mês juntos, aqueceu meu coração de uma forma que você nem imagina. Inclusive, eu tenho um álbum especial com todas as nossas recordações, e eu espero que você o veja quando Igneel te entregar. Fiz com todo o carinho, para que pudesse folhear toda a noite e ter motivos para sorrir, mesmo diante toda a dor que eu sentia. Você foi minha morfina em noites tortuosas.
Espero que consiga se dar bem em tudo o que você desejar e seja um homem maravilhoso, com caráter, e feliz acima de tudo. Também espero que nunca esqueça de nossa família, e que você pode contar com ela para qualquer coisa e qualquer situação.
Um dia nos veremos de novo, eu prometo!
Te amo, Natsu.
Com todo o amor do universo, amor maior que a via láctea, sua mãe.”
Percebi que aquela carta mexeu comigo mais do que eu imaginei quando uma lágrima caiu nela, manchando um pouco as palavras. Sequei rapidamente para que não estragasse nada, porque eu iria ler aquilo mais milhões de vezes, eu tinha certeza.
Era incrível como minha mãe tinha o poder de me aquecer e me confortar mesmo tão longe por tantos anos.
Ler aquelas palavras me deixou tão feliz, porque eu sabia que estava seguindo o caminho certo.
De repente, ir para a faculdade pareceu ainda mais animador. Era como se ela tivesse me dado um novo fôlego, pra tolerar tudo o que estava por vir sem problema algum. Suas palavras estavam sendo como meu novo muro de coragem, da qual eu estava realmente precisando. Igneel não podia ter me entregado a carta em melhor hora.
Lembrei-me então da mochila dela, que estava ao meu lado. Eu não estava preparado para mais surpresas que me deixariam abalados emocionalmente, mas eu estava curioso. E a minha curiosidade sempre vencia, claro.
Puxei-a para o meu colo e a abri, olhando para dentro e buscando pelas coisas.
O primeiro objeto que vi, foi um cachecol que minha mãe havia feito para meu pai de presente do primeiro ano de casados, e ele adorava. Era até uma surpresa vê-lo ali, porque eu sabia o quanto significava para o Igneel. E ele estava me dando. Eu não poderia ficar mais realizado. Com certeza aquele cachecol seria meu novo xodó.
Fuçando um pouco mais, embaixo do cachecol havia uma pequena agenda ou um diário. Quando peguei para folheá-lo, percebi que eram pequenos poemas, todos escritos pela minha mãe, datados desde anos antes de tudo acontecer. Com certeza era algo que merecia minha total atenção, então o guardei em minha mochila, para ler durante o caminho até o campus.
Também encontrei alguns álbuns de fotos. Um deles era o que ela havia mencionado na carta, o álbum especial com fotos de nosso último mês juntos, com vários comentários dela em cada foto, um outro álbum pequeno com suas fotos de quando ela competia como jóquer, seu anuário da escola e um agasalho dela que eu amava quando mais novo. Depois de tanto tempo provavelmente já não devia mais servir em mim, mas eu iria guardá-lo com todo o carinho.
Todas essas coisas foram para minha mochila, para que eu pudesse ver com cuidado quando eu não estivesse tão atarefado, porque quando eu pegasse pra ver, com certeza eu me desligaria do mundo no exato instante.
E no fundo da mochila da minha mãe, bem escondido e praticamente imperceptível, havia uma pequena caixinha de veludo azul marinho. Fiquei chocado por vê-la ali, porque eu já imaginava o que iria encontrar quando a abrisse. E mesmo assim, não pude deixar de me surpreender quando vi o que preenchia seu interior. Era tão estonteante e bonito, que eu ficava arrepiado só em observá-lo. O anel de noivado, passado pela família do meu pai por pelo menos quatro gerações.
O por quê estava na mochila? Sequer eu poderia responder aquilo. Mas definitivamente meu pai não percebera, ou deixou cair por acidente. Digo, não poderia ter sido proposital. Até porque, se fosse, Zeref tinha mais chances de se casar primeiro, claro, além de ser o filho primogênito. Se o anel seria passado mais uma geração, deveria parar nas mãos do Zeref. Então por que Igneel o entregaria a mim? Definitivamente havia sido um engano.
Deixei aquelas coisas em minha mochila, – com exceção do cachecol, que envolvi em meu pescoço – guardei a mochila da minha mãe em meu guarda roupa, e peguei a caixinha de veludo para devolvê-la ao Igneel.
Estava tão pensativo ao descer até o seu escritório, que quase não percebi Michelle me zombando que ainda não estava frio o suficiente para eu sair desfilando de cachecol pela casa. Mas eu apenas a ignorei, deixando-a um pouco irritada por isso.
— Pai… – O chamei da porta, abrindo só uma pequena fresta, o suficiente para que eu pudesse colocar minha cabeça para dentro e vê-lo sentado em sua mesa, com um óculos quase na ponta do nariz e bastante concentrado com a tela do notebook.
— Natsu! Pode entrar. – Ele falou, como se estivesse á minha espera fazia um tempo, logo retirando os óculos e fechando o notebook, afim de me dar total atenção.
Entrei sem muita demora, e logo o vi abrindo um grande sorriso.
— Ah, vejo que gostou do cachecol! Eu fico realmente feliz.
— Claro que sim, eu sempre gostei dele. – Falei, e ambos sorrimos um para o outro.
Fui até onde ele estava, e sentei em uma das cadeiras confortáveis dispostas de frente para ele.
Igneel me olhava com curiosidade, e parecia pronto para passar uma tarde toda respondendo um grande questionário.
— Isso aqui estava no lugar errado, acredito. – Coloquei a caixinha em cima da sua mesa, um tanto bagunçada, e empurrei para mais perto dele.
Ele não pegou a caixinha para si, tampouco a deu mais que uma espiadela. Manteve o tempo todo o olhar em mim, sério e minucioso, como um verdadeiro advogado tentando descobrir se seu cliente era mesmo inocente como dizia, ou era tudo balela.
— Não, tudo o que estava dentro daquela mochila era pra você. – Respondeu, empurrando a caixinha de volta para mim.
Quase engasguei ao ouvi-lo dizendo aquilo com tanta convicção.
— Pai, isso é um anel de noivado! Eu não vou usá-lo pelos próximos cinco anos, no mínimo. Não é melhor dar para o Zeref? Ele é o mais velho, afinal…
— Eu sei, mas sua mãe queria que ficasse com você. – Ele falou, dando de ombros. – E se ela falou que era melhor te dar, então eu prefiro que seja assim. E eu também sei muito bem que as chances de você se noivar antes que seu irmão são bem grandes. – E então riu, divertindo-se com aquela ideia.
— O que está querendo insinuar, Igneel? – Perguntei, também me divertindo, mas tentando manter o semblante sério.
— Estou querendo insinuar que eu sei sobre o seu irmão e a Mavis, oras... – Ele deu uma piscadela, e foi inevitável não ficar um pouco sem graça com aquilo. – Eles não vão se casar tão cedo pela diferença de idade dela, mas já você...
— Ah, não começa pai! – Tentei cortá-lo, mas fui totalmente ignorado.
— ...Eu tenho certeza que a Layla já terá se acostumado com a ideia até lá. – E riu alto novamente, achando graça em meu rosto corado. – Pode até ser que você não use o anel daqui cinco anos, mas o guarde mesmo assim. Eu ficarei muito feliz só em saber que você o aceitou.
— Certo… – Resmunguei, pegando a caixinha em mãos de novo, e a abrindo para poder ver aquele anel outra vez. – Obrigado, pai. Por todas as coisas. – Falei, sincero, e o vi sorrindo satisfeito.
— Eu sabia que ia gostar. Deixei as coisas mais especiais com você, porque você sempre foi o mais apegado á Miyuki. Só não conte aos seus irmãos sobre aqueles álbuns de fotos, ou eu terei problemas. – E então nós dois rimos.
Levantei-me, pronto pra me retirar, mas antes que o fizesse, dei a volta na mesa e dei um abraço em meu pai, que foi pego de surpresa. Ele me abraçou de volta depois de uns segundos atordoado, e ficamos assim por algum tempo.
— Não fique com ciúmes, velhote, eu também te amo. – Falei, bagunçando seus cabelos.
— Oras, moleque! Me chame de velhote de novo pra você ver o que não te faço! Eu ainda lembro dos meus golpes do judô.
— Aposto que o senhor vai travar a coluna se tentar. – O provoquei rindo, e sai correndo antes que ele me arremessasse algo na cabeça.
Fechei a porta do escritório, e mesmo do outro lado, consegui escutá-lo rindo. Eu tinha tanta sorte em ter um pai tão incrível. E aposto que nós dois concordávamos que ele foi ainda mais sortudo por ter conseguido conquistar minha mãe.
Mãe… Eu definitivamente iria te dar orgulho!
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