Troublemaker
2 Ciúmes.
Notas iniciais
jealousy/ciúmes.
Era muito tarde quando Gintoki deixou o bar bêbado. Andando aos cambaleios, ele voltava ao Yorozuya pelas ruas do distrito que nunca dormia. Vinha agasalhado, a temporada de inverno acabara de começar e aquela noite prometia um frio intenso. Sua respiração quente era visível e uma camada de neve fina juntara-se acima de sua cabeleira cinza. Os flocos que caíam desfaziam-se ao alcançar o chão, sem acumular neve nas ruas.
Muitos comércios funcionavam mesmo àquela hora. Quando passou em frente ao cabaré em que Otae trabalhava, ele esticou o pescoço a fim de enxergá-la pela porta principal, e sem sucesso, só então lembrou-se que Kagura-chan o avisara que jantaria com os Shimura naquela noite. A gorila então estava de folga. Por um instante preocupou-se pela yato, ela não comentou sobre dormir lá, levando-o a acreditar que voltaria sozinha.
Gintoki era em segredo um pai coruja. Sem se recordar quando passou a considerar seus empregados quase como filhos, às vezes sentia-se um velho com esses pensamentos. Entretanto, era instintivo de sua parte importar-se com eles, como agora, que lidava com a preocupação mesmo embriagado.
Esse sentimento se intensificava tratando-se de Kagura. A responsabilidade que o Shiroyasha adquirira por ela não podia ser medida, ela era uma amanto que vivia com ele, uma criança que seu pai biológico o encarregara. E ele confiava nela como integrante do clã mais forte do universo, talvez a ruiva fosse muito mais forte que ele, contudo ainda não podia evitar aquela angústia em deixá-la sozinha pelas ruas de Edo em uma noitada.
Saindo do centro movimentado, ele não virou aonde o levaria ao Yorozuya para seguir até a casa de Shinpachi. Com sorte a encontraria lá e voltariam juntos.
Mentalmente praguejava a menina por dar-lhe tanto trabalho mesmo sem a intenção. Gintoki acelerou a caminhada enquanto esfregava as mãos a fim de aquecer-se. E ainda no caminho da casa dos Shimura, uma viatura da polícia passou. Hijikata dirigia e parecia procurar algo, o samurai de permanente natural virou o rosto na direção contrária com o propósito de não ser visto. Ouviu o carro ser manobrado e então apareceu a seu lado na rua, acompanhando seu caminhar em baixa velocidade.
— Oe, Yorozuya. — então o desgraçado o tinha visto, Gintoki torceu o lábio em desgosto.
— Boa noite, senhor policial. — respondeu sarcástico.
— Está tarde.
Ficou subentendido para Gintoki que o vice-comandante da Shinsengumi queria saber o que ele fazia ali àquela hora. Ele inspirou profundo, prometendo que não se irritaria com um policial fazendo seu trabalho em encher-lhe o saco.
— O que você quer? — parou de caminhar, levando-o a desligar o carro também.
— Você tá bêbado, não faça nenhuma besteira. — ele avisou notando a vermelhidão no rosto do rival, e então procurou por um isqueiro no porta-luvas do veículo. — Você por acaso viu o Sougo?
Gintoki pensou, e por um momento imaginou que o garoto fosse o mesmo para Hijikata que Kagura era pra ele. Pouco sabia da história deles e também pouco lhe importava, mas era de seu conhecimento que o comandante demoníaco parcialmente criara o sádico junto com o gorila que chamavam de líder. Ele decidiu não ser grosso.
— Não vi ele por esses lados. — deu de ombros. — Qual é o problema?
— Passou do horário da patrulha daquele imbecil, não encontro ele em lugar algum. — Hijikata agora tinha um cigarro preso entre os lábios, e tornava a ligar o motor da viatura.
— Oh, fico feliz em saber que a polícia leva tão a sério seu dever com Edo.
O vice-comandante agradeceu de qualquer jeito e seguiu por onde viera, Gin continuou seu caminho.
Chegando a casa de Otae, ele chamou e ela demorou o atender, impaciente, bateu na porta até que alguém saísse, mas isso a assustou e o samurai ganhou uma vassourada da mulher que o confundiu com seu stalker. Ela pediu desculpas, e depois de questionada sobre a yato, contou ao Shiroyasha que a menina havia ido embora há pelo menos uma hora.
Claramente descontente, Gintoki tornou ao seu caminho inicial, o Yorozuya. Depois de exposto ao frio por aquela mudança de direção desnecessária, pensava em maneiras diferentes de punir a amanto que carinhosamente considerava como filha. Ela não precisava saber que estaria sendo punida, aquilo seria somente uma vingança pessoal do ex-joui.
Ainda sob o efeito do álcool, ele finalmente virou em sua rua e notou que algo próximo de um furacão passara ali. Havia barracas reviradas, bancos partidos no meio e um dos postes estava amassado. Ele continuou seu caminho e chegando em frente ao bar da Otose fechado, viu o corrimão que levava ao andar de cima quebrado. Gintoki estava tão bêbado que deixaria para lidar com aquilo no outro dia, apenas subiu fingindo não se importar.
O Shiroyasha deslizou a porta para entrar e a fechou em seguida, tirou os sapatos e pendurou o agasalho que usava. A casa estava escura, imaginou que Kagura já estivesse dormindo.
— Cheguei. — disse baixo com medo de acordar a yato, tateando a parede em busca do interruptor.
Gintoki acendeu a luz, deparando-se com uma cena na sala que jamais esperou ver. Ele piscou diversas vezes, e as palavras não vinham à mente, estava perplexo diante daquilo.
— Bem-vindo de volta...? — Kagura respondeu com um sorriso sem graça, no colo de Sougo.
Ela encontrava-se de cabelos soltos, devidamente bagunçados, e tinha a qipao desabotoado com um ombro desnudo. Suas mãos agarravam-se à jaqueta do policial, e ele a segurava pela cintura e pela coxa. O Okita tinha rastros de sangue no canto dos lábios, semelhança que Gin notou posteriormente também em Kagura.
Atordoado, Gintoki andou até eles que ainda permaneciam imóveis, e sentou-se no sofá contrário ao dos dois. Ele inspirou uma, duas vezes, de olhos fechados procurava forças para lidar com aquilo. Curvou-se até a mesa central entre os sofás, apoiando então os cotovelos sobre ela. Com as mãos entrelaçadas cobrindo sua boca, ele parecia analisar seriamente situação.
— Vocês podem... se desgrudar, por favor. — eles o obedeceram rapidamente, sentando-se separados. — Kagura-chan, seu vestido. — avisou irritado para que ela o abotoasse.
Okita não tinha reação alguma, parecia até mesmo pálido. Não era novidade que o sádico nutria algo muito próximo de respeito pelo samurai de permanente natural, até mesmo o chamava de chefe, entretanto, ter sido pego com a menina que Gin cuidava como filha só significava que certamente não sairia ileso dali.
— Souichirou-kun, você não deveria estar patrulhando? — Gintoki perguntou com um tom engraçado, a voz tremida mostrava seu esforço em lidar com eles.
— É Sougo. — levantou os olhos só para deparar-se com um sorriso assustador do mais velho, e então baixou o olhar outra vez. — Quer dizer... sim.
— Hijikata-kun estava procurando por você. Não é bom preocupar as pessoas. — se recompôs no sofá, dirigindo-se agora a yato. — Você por acaso sabe que merda estava fazendo? — sorriu nervoso, soando menos agressivo.
— Mas a gente não fez nada, Gin-chan!
— Só me responde. — encarando o nada, ele bagunçava o cabelo frenético e ainda custando acreditar no que vira.
— Sim... — ela encolheu-se no lugar.
De súbito, Gintoki levantou-se e jogou Kagura nos ombros, indo até o armário que ela chamava de quarto e a atirou lá dentro.
— Hora de dormir, crianças dormem cedo! — fechou a porta aos protestos dela.
Quando virou-se, Sougo saia silencioso, saltando em um susto quando sentiu o samurai colocar seus olhos nele.
— Não quero te ver por umas semanas. — o Okita assentiu, mas por medo não continuou seu caminho até a porta. — SOME!
No banheiro, Gintoki lavou o rosto com água fria, ainda digerindo o que havia acabado de acontecer. Procurava maneiras de lidar com aqueles dois e o ciúmes que sentiu ao ver sua menininha com outro cara. Uma lágrima magoada escorreu por sua bochecha, e com um bico de quem segura um choro sentido, admitiu ter aprendido uma lição com Kagura-chan naquela noite: filhas são ingratas com seus pais.
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