Trouble Town

3 Cuidado com as garotas jovens


Notas iniciais
oi gente vamos venerar a deusa camille

Ekko percebeu que iria ficar na cidade por algum tempo. Ele tinha que admitir que o céu era lindo em Piltover. Tudo era limpo e tinha um estilo vintage. Em Zaun o céu tinha uma cor cinza característica de lá, dos tóxicos que conseguiam deixar a fraca luz do sol verde. O chão era coberto por uma névoa tóxica. O ar de Piltover não era puro, é claro, era uma cidade comercial, mas mesmo assim você não sentia o cheiro de produtos químicos no ar.

Do que ele tinha raiva mesmo era dos cidadãos, que eram um bando de frescos esnobes. Sempre o olhavam torto, como se soubessem que ele era de Zaun. E lá ele estava, numa divertida fila de supermercado, ouvindo a irritante música que saía dos alto-falantes. Ele só havia comprado algumas coisas para comer, não tinha muito dinheiro, então estava numa pensão.

Algumas pessoas cochichavam e ele resolveu olhar para trás, achando que estavam novamente falando do cabelo dele, mas na verdade havia uma moça atrás dele que tinha um gato preto em seu carrinho, preso no assento para crianças. Em seu carrinho haviam várias caixas de suco, brinquedos infantis, doces infantis, veneno de rato, limpa-manchas, uma caixa de munição, tinta rosa e bebidas alcoólicas.

Ekko poderia pensar que era algo normal de piltovenses, mas as outras mulheres tinham as típicas frutas, legumes e produtos de limpeza de sempre. Bem, aquela moça estava prestes a cometer um assassinato.

Ele passou sua significante quantidade de junk food no caixa, empacotando tudo calmamente. A moça assassina estava o encarando, parecendo um tanto irritada. Ele sorriu e apontou para a frase ‘VIVA ZAUN’ em sua camiseta, como se quisesse esfregar isso na cara de todos ali. A moça olhou para o lado, como se nada tivesse acontecido. As outras mulheres atrás dela já pareceram ficar ofendidas.

Com uma risada e um aceno negativo com a cabeça, ele pegou suas sacolas e saiu, novamente flertando com a luz do sol, definitivamente a melhor coisa daquela cidade. Ele iria andando até a pensão, mesmo que fosse um caminho um tanto longo. Simplesmente adorava sentir o sol do verão em sua pele.

A cidade tinha algumas ruas estreitas dente os prédios, para que não houvesse tanta distância entre as ruas paralelas, já que a cidade era cheia de prédios altos e espaçosos. Em Zaun, ruas desse tipo eram perigosas. Em Piltover, pareciam apenas ruelas de cidades clássicas, eram de certo modo convidativas. E, sim, ele foi burro em não olhar para trás, pois ele foi atingido com algo pesado na cabeça.

Quando acordou, sentia uma enorme dor de cabeça e estava amarrado à uma cadeira encostada à parede. Estava em um lugar escuro, iluminado somente por velas, mas eram várias velas, então dava para ver as coisas, mas não havia luz solar ali. A moça estranha do supermercado estava ali, terminando de acender algumas velas, as compras dela sob uma mesa de madeira.

Ela até que estava bonita para quem vestia-se como uma típica piltovense. Um chapéu com um laço vermelho de pontas longas, o cabelo azul preso em um coque volumoso, um sobretudo preto e vestido listrado, meias três quartos brancas e sapatilhas pretas. Ele havia visto algumas garotas saírem de escolas com roupas parecidas.

— O que... — ele nem sabia qual seria sua primeira pergunta. A garota continuava a acender mais velas como se ninguém estivesse lá.

— Ekko, não esperava te ver por aqui — ela murmurou, sem olhar para ele.

Antes de perguntar quem ela era, ele olhou para a mesa e viu uma bazuca com formato de tubarão, logo matando a charada.

— Tenho que admitir que é um ótimo disfarce, X — ele perguntou-se como ela havia conseguido deixar seu cabelo tão curto.

— Meu nome é Jinx — ela o corrigiu, ainda sem olhar para ele. — X é meio sem graça, você não acha? É tipo uma letra só; não tem uma boa sonoridade. Jinx é bonitinho.

— E o que isso significa? — era estranho o jeito que ela agia tão normalmente, como se não fosse completamente doida. Sem suas armas gigantes, ela parecia apenas uma garota normal. Um ótimo disfarce.

— Jinx é de Jinx. Duh — ela explicou, com um leve sorriso. Ela suspirou e pousou uma vela sob a mesa e sentando-se numa cadeira ao lado, parecendo cansada de acender velas.

Havia uma parte do cômodo totalmente escura, como se fosse apenas uma sala naquele lugar. E ele não via nenhuma porta ou janela, apenas um ducto de ar pequeno demais para que ela o arrastasse para dentro. Nas paredes era possível ver uma versão mais complexas das pichações que ela deixava na cidade, todas tinham cores vibrantes com caveiras, animais e explosões.

— Eu até te mostraria o resto da casa, mas, bem... você não vai sair daí tão cedo — ela deu uma risada. — O que veio fazer aqui? Eu tenho te seguido nesses últimos dias, mas você só faz coisas chaatas...

Ela tirou alguns grampos de seu cabelo e foi desenrolando-o, e a cascata de fios azuis que iam até o pé foi revelada. Também tirou seu casaco e o colocou ao lado da bazuca, espreguiçando-se. Para ele, ainda era estranho vê-la tão perto dele depois de tanto tempo. Ela era um pouco menos bonita do que ele se lembrava, era mais magra, pálida e o olhar cada vez mais caótico.

— Eu vim procurar você. Soube que estava em perigo — ele disse, enquanto ela descalçava seus sapatos e meias.

— E eu lá tenho cara de donzela em perigo? — ela sorriu. Enquanto ela tirava a outra meia, a luz de velas revelou um ferimento na perna dela, um furo de bala provavelmente feito por Caitlyn.

— Eu posso fazer um curativo para isso — ele apontou a ferida que sangrou através da meia.

— É, Ekko, eu com toda certeza nunca levei um tiro antes e não sei cuidar disso. Eu morri de infecção e você está vendo meu fantasma — ela irritou-se, fazendo uma careta para ele.

— De certa forma eu estou vendo um fantasma seu — ele balbuciou, suspirando dramaticamente, na tentativa de fazê-la sentir algum tipo de culpa. — Mas tudo bem, eu só queria ajudar.

— Você sempre quer ajudar, não é mesmo? — a garota retrucou de forma ácida. — Já existe aquele ditado, “mais ajuda quem não atrapalha”.

— Você já ouviu aquele ditado “não ataque seus amigos por trás para sequestrá-los”?

— Não sou sua amiga, calças frouxas — ela resmungou. — Achei que isso fosse óbvio depois de eu te atingir com uma arma de choque.

— Fico feliz por esclarecermos isso, então — não foi difícil perceber que ele iria levar várias respostas atravessadas. — Eu só queria entender... por que diabos você me sequestrou?

— Por que eu posso — ela sorriu diabolicamente. — Além do mais, eu te acho irritante, daí eu fiquei mais brava quando vi você com a mãozuda e sua namorada, a chapeleira.

— Você é ótima com apelidos, hein? Como é o nome daquele gato? Peludo? — Ekko zombou.

— O nome dele é Manda-Chuva — Jinx explicou, rosnando. — Você se acha, não é? Nerdzinho da cidade grande... — ela acenou negativamente com a cabeça, balançando o Z-Drive em suas mãos. Ekko apenas torcia para que ela não quebrasse. — O que é essa geringonça?

— Se você quebrar isso, eu vou cortar o seu cabelo enquanto você dorme. Ele volta no tempo. Salvei sua vida com isso aí, e você nem sabe.

— Oh, muito obrigada, Ekko! Eu sou tão grata por isso... acho até que vou te soltar.. — ela disse cinicamente, suspirando. Ele revirou os olhos, frustrado.

— O que você quer de mim, Jinx? — ele quis saber, já um pouco cansado de levar foras.

— Eu não sei bem... quero fazer você sofrer. Quem precisa de motivos? — ela riu novamente, mas então fez uma pausa e olhou para sua arma. Logo tomou uma cara nervosa e deu um soco na mesma. — Ah, fique quieto, Fishbones! Essas bazucas... dizem cada coisa hoje em dia!

— Elas não deveriam falar... — ele sussurrou, não gostando do quanto queria saber a suposta fala da arma.

Ekko percebeu que ela parecia nervosa. Ela tinha algum motivo para prendê-lo, mas não queria contar. Talvez tivesse planos de utilizá-lo como isca para Caitlyn e Vi, ou algo assim. Ela não parecia interessada em fazer as pazes.

—... se você continuar a dizer isso eu vou te guardar no armário — Jinx olhou feio para a arma. Após uma breve pausa, ela revirou os olhos. — Tudo bem, então. Fique muito feliz com as escolhas que você faz com a sua vida, Fishbones... essa semana eu não vou te levar para passear.

A garota pegou sua bazuca e desapareceu na parte escura do quarto. O som de uma porta se abrindo foi a confirmação que Ekko precisou para saber que não estava num lugar maluco de um cômodo só. Jinx logo voltou, parecendo satisfeita.

— Sobre o que estavam conversando? — Ekko quis saber, amaldiçoando-se por perguntar.

— Se fosse da sua conta eu já teria anunciado — ela respondeu, parecendo irritada. — Fishbones é muito chato, sabe? Ele sabe das coisas, mas caramba, muito chato! Pow-Pow é muito mais descolada.

— Eu não acho que você deveria conversar com as suas armas... — Ekko falou baixo, tentando não irritá-la.

— Ué, com quem mais eu posso conversar? — Ele sentiu-se mal ao perceber que aquilo era a mais pura verdade. Jinx era uma maníaca procurada, não tinha muitos amigos.

— Comigo — ele respondeu, firme.

— Uau! Me sinto tããão melhor agora... — ela andava em círculos em volta dele, parecendo um tanto entediada. — Sabe, eu ainda estou confusa... por que está tão determinado a ser legal comigo? Você meio que me abandonou e tudo mais... não faz sentido!

— Eu não te abandonei. Só que acho que ficaria complicado continuar correndo atrás de você depois de você atirar na minha perna — Ekko sentiu-se um tanto ofendido com tal acusação. Ele nunca abandonaria nenhum de seus amigos, por pior que fosse a situação. Mas então entrava a triste diferença entre querer salvar alguém e essa pessoa querer ser salva.

— Eu não me lembro disso... — ela parou de frente à ele e franziu o cenho, lhe encarando com uma expressão conturbada. — É, serio, nenhuma visãozinha... e você não mentiria para mim sabendo que você está amarrado e eu posso te fuzilar a qualquer momento... Hmm.. enfim, foi mal.

Ekko torturou-se por meses por conta daquele fato, não apenas por usar muletas, mas sim por ter sido traído pela melhor amiga de infância que havia enlouquecido. E a resposta que ganhou foi um simples “foi mal” pois ela nem se lembrava daquilo. Não era surpresa dizer que ele não estava nada feliz.

— É só isso? Você me dá um tiro e diz “foi mal”? — Ekko indignou-se.

— Argh, largue de ser sentimental! Eu não me lembro disso, mas mesmo assim estou pedindo desculpas. É um sacrifício muito grande para o meu ego — Jinx queixou-se, falando como se fosse óbvio. — O que mais você quer?

— Eu ficaria muito feliz se você me soltasse. Agora que nós esclarecemos isso, somos amigos e você não vai mais me perseguir com uma metralhadora rosa, certo? Por que se não eu vou ter que correr de você e você vai ficar chateada — Ekko falou devagar, para que ficasse fácil para ela entender.

— Mas Pow-Pow adora perseguições... e eu acho que ela ainda não vai com a sua cara. Acha que você está tramando com a chapeleira. Hm, talvez ela esteja certa, sabe? Você estava com elas naquele dia — ela disse em um tom sugestivo, exigindo explicações.

— Eu também quero minha amizade com a Vi novamente. Eu sei que é pedir demais, mas tudo o que eu quero é que as coisas voltem a ser como eram antes. Os quatro mosqueteiros do lixão.

— Oh, sim, por que o garotinho de óculos não está com você? — Jinx inclinou a cabeça de leve.

— Ajuna faleceu faz algum tempo — Ekko falou baixinho, como se não quisesse que ele mesmo ouvisse. O garoto era como se fosse um irmão mais novo para ele, e toda a experiência de tentar salvá-lo e falhar miseravelmente com o garoto morrendo em seus braços era extremamente traumática.

— Você gostava muito dele — Jinx comentou, falando num tom solene, quase como se dissesse seus pêsames.

— Eu passei um bom tempo tentando consertar tudo isso, X. Descobri que não posso mudar o passado, então devo me concentrar no futuro. Ficar com as pessoas que realmente importam, porque é só isso que nós temos, não é? — ele terminou, ainda um tanto chateado por conta do assunto.

— Fishbones concorda com você — a garota lhe deu um tapinha no ombro. — Eu adoraria que voltássemos a ser amigos, mas eu acho que você não vai conseguir lidar comigo. Você não conseguiu antes, imagine agora! Eu meio que gosto da minha vida agora, de jeitos que você claramente não apoia. E olhe, a maioria das pessoas não consegue lidar com gente doida, então eu não te culpo. Você não vai me iludir de novo, tá?

Ela virou-se de costas, falando cada vez mais rápido e mais baixo. Ekko imaginou que Jinx tentou fazer amigos com seus disfarces e não deu muito certo. Ele sentia-se mal, pois na época em que ela começou a delirar, ele esteve ao seu lado, dizendo que ela iria melhorar, quando o que aconteceu foi o exato contrário.

— Eu nunca quis que... — ele começou, mas logo a garota o cortou.

— Eu sei — ela continuava de costas, provavelmente não queria que ele a visse parecer melancólica. — Acho que seria melhor para nós dois se fôssemos apenas... conhecidos.

— Não me importo com nada do que você tá falando — Ekko afirmou. A garota virou-se de frente, franzindo o cenho de modo um tanto desafiador. — Eu nunca desisto dos meus amigos. Eu sempre vou estar lá para te salvar, mesmo que você não queira.

— Um pouco tarde demais pra isso — ela deu de ombros, indiferente. Jinx foi até a sacola de compras e abriu um pacote de biscoitos, para então pegar um e sadicamente enfiar na boca de Ekko, que grunhiu em protesto. O outro ela mordeu, e então falou de boca cheia: — Toda essa sua conversa chata me deu sono, até mais.

Ela virou-se de costas e desapareceu na escuridão.

Uma certa paranoia veio sobre Ekko enquanto ele encarava a escuridão, entediado. Ele achava que em algum momento alguém pularia em cima dele ou o lugar seria iluminado por tiros. O máximo que aconteceu foi o gato chamado Manda-Chuva chegar apenas para derrubar uma vela, que felizmente se apagou.

Ekko logo teve a brilhante ideia de arrastar sua cadeira para o lado para que uma das velas queimasse as cordas e ele pudesse sair. Esperando que Jinx ainda tivesse sono pesado, ele arrastou a cadeira até o outro lado e demorou um pouco para queimar a corda e um pouco de seus pulsos.

Numa situação dessas, a maioria das pessoas fugiria sem pensar duas vezes. Mas Ekko era curioso e um tanto tolo, então ele pegou uma vela e foi explorar o lugar, que parecia um apartamento normal, exceto por todas as paredes serem cheias de desenhos, não haver nenhuma janela e uma escada que dava de encontro à porta, que era no teto. Um esconderijo subterrâneo era genioso.

Ekko achou o lugar muito interessante, havia um pouco da personalidade de Jinx em cada lugar, se um dia a polícia achasse, seria impossível esconder a identidade do dono. Ele a encontrou dormindo tranquilamente no quarto, abraçada à sua metralhadora em meio a confusão de cabelos azuis em todo lugar. Ela murmurava coisas inaudíveis, fazendo uma expressão zangada enquanto a bochecha estava colada à arma.

Ekko a observou por um bom tempo; ela era absolutamente encantadora quando não estava explodindo coisas ou lhe dando foras. Simples e desarmada, quase como se fosse normal novamente. Ele continuava sendo um tolo por ela, e talvez sempre seria.

O encanto acabou quando ela virou-se abruptamente, assustando o garoto, que correu para a sala como se nada houvesse acontecido. Com rapidez, ele escreveu um bilhete — dizendo que a encontraria amanhã e que ela deveria comer mais frutas — e o prensou na mesa com uma maçã, pegando suas compras e tomando seu caminho.

Notas finais
adoro drama sim jinx carregou o ekko e as compras sem ninguem perceber corretissimo ekko troxa q nem eu