Trouble

23 Capítulo #21: Março de 2011 - I


Os dias passavam cada vez mais devagar desde o dia em que Marcos disse que me ajudaria. Cada vez mais eu me encrencava, no final do ano faria dois anos que tudo estava uma bagunça. Provavelmente aquele era o sequestro mais bem feito da história, ou o suborno feito por Maria aos investigadores era realmente muito grande, e ela teria muita influencia. Acredito mais na segunda opção, era o que tinha mais possibilidade de ser.

- Será agora. – Marcos sussurrou em meu ouvido enquanto libertava meus braços para o almoço. Normalmente ele prendia uma de minhas pernas na cadeira, mas hoje ele não o fez. Estava tudo planejado.

- Teremos um novo jogo em breve, meninas. – Maria disse sorridente. – Lembram-se do ultimo? Foi muito legal, não acham?

- Maria... –Marcos disse repreendendo-a.

- Calado, irmãozinho, eu decido as coisas por aqui. – Marcos suspirou. Annabelle olhou para Marcos sem entender absolutamente nada quando ele a deixou solta. – Alguém traga a comida! – Maria gritou e logo a empregada estava trazendo a comida.

Após o jantar, como de costume, Maria bebia uma taça de vinho. Antes de a empregada trazer o vinho, Marcos saiu da sala de jantar alegando precisar usar o banheiro, antes de sair me olhou e balançou a cabeça, eu sabia que algum tempo depois Maria estaria dormindo e eu estaria livre.

Longos minutos se passaram até que Maria tentou levantar-se e caiu desmaiada.

- O que está acontecendo? – Annabelle perguntou confusa.

- Nós estamos fugindo. – Disse com um sorriso em meus lábios.

Corri em direção à porta trazendo Annabelle comigo. Ela ainda não estava entendendo muita coisa.

- Melissa! – Marcos gritou. Ao me virar e olhá-lo o vi balançar no ar uma mochila. – Vão precisar de um mapa, comida, e algumas outras coisas, não acham? – Soltei a mão de Annabelle, corri até ele e peguei a mochila, sussurrei ”obrigada” e voltei correndo em direção à Annabelle.

Após sairmos daquela maldita casa olhei para os lados e não vi nada! Não tinha absolutamente nada por ali! Ainda segurando Annabelle puxei-a para um dos lados. Ela estava atordoada, não sabia o que estava acontecendo, contudo, não questionava. A casa com muros altos ficava cada vez mais longe, o sorriso em meus lábios ficava cada vez maior.

Passamos algum tempo correndo para longe, quando achei que estávamos numa distancia razoavelmente boa parei e olhei Annabelle.

- Você está bem? – Annabelle perguntou.

- O que? – Perguntei sem entender a pergunta. – Ficarei bem quando te deixar em casa. Quando você estiver segura. – Senti todo meu corpo se arrepiar ao lembrar que eu seria culpada por tudo aquilo.

- Estou com sede. – Ela suspirou. Olhei para os lados. Alguns arbustos no meio do nada me chamaram a atenção. Segurei a mão de Annabelle e a puxei para lá, seria mais seguro, caso Maria já tivesse acordado. Coloquei a mochila sobre uma pedra que estava ali, peguei uma das garrafas de água e dei para Annabelle. Enquanto ela saciava sua sede olhei o que tinha ali dentro. Tinha um mapa, alguns biscoitos, barra de cereais, um cobertor e para minha surpresa, tinha também uma bussola, que eu não fazia ideia de como usar.

A noite chegava e o que via era a escuridão trazida pela noite. Nem um carro, nenhuma luz que me mostrasse algum sinal de que havia pessoas por ali, mas nada mudava. Andamos por mais algum tempo até ouvir um suspiro de Annabelle, provavelmente ela estava cansada, estávamos andando quem sabe por quanto tempo. Não tinha mais arvores por ali, não tinha como se esconder. Suspirei. Levei-a para o lado sentei no chão e puxei-a para meu colo.

- Temos de continuar! – Ela disse.

- Você tem que descansar. Está anoitecendo e estamos andando por muito tempo.

- Não me importo! – Ela levantou de meu colo e levou ambas as mãos em sua própria cintura – Vamos! Levante! Vamos parar quando eu não puder mais andar! – Olhei seu rosto e o analisei, ela estava decidida a continuar andando, eu não iria convencê-la do contrário, minha única saída era levantar e continuar andando. Levantei lentamente, segurei a mão da Annabelle calmamente e continuamos a andar.

Era madrugada quando Annabelle parou exausta. Aproximei meu corpo do dela, e ela me abraçou deixando o peso de seu corpo descontrolado. Cambaleei para trás, afinal, não esperava por aquilo. Agarrei sua cintura e ficamos ali paradas por algum tempo.

- Olhe! – Annabelle disse surpresa. – Uma luz! É uma casa! – Soltei sua cintura e olhei para onde ela apontava, parecia um hotel, e estava relativamente distante de nós. – Vamos!

- Está conseguindo andar? Não está cansada? – Perguntei.

- Temos que andar até lá, Melissa. – Ela segurou fortemente uma de minhas mãos e fomos andando até a casa.

Apoiei um de seus braços em meus ombros e envolvi sua cintura com meu braço. Andamos lentamente até a casa, paramos em frente à porta e bati algumas vezes. Ninguém apareceu, suspirei. Tinha que ter alguém naquela casa! Bati novamente e olhei Annabelle. Ela estava visivelmente exausta.

- Vamos continuar... Não tem ninguém aí. – Annabelle sussurrou.

- Não. Venha... – Levei Annabelle para um dos cantos daquela grande varanda e sentamos ali. – Descanse meu anjo. – Mesmo sem querer ficar ali Annabelle sentou-se e apoiou a cabeça na parede caindo no sono quase que imediatamente.

- Olá? – Ouvi uma voz masculina atrás de mim. – Quem é você?

- Olá, senhor... – Me virei e o analisei. Era apenas um homem de meia idade, um pouco maior do que eu, e parecia ter acabado de acordar. – Pode nos ajudar? Estamos andando há muito tempo. Nós... Ela está exausta... Por favor... Ajude-nos... – Ele me observou por alguns segundos, e finalmente falou algo.

- Claro, podem entrar. – Olhei novamente para Annabelle e alisei seu rosto.

- Ei, acorde... – Ela abriu os olhos que logo pesaram e se fecharam novamente. – Tem alguém na casa, nós podemos entrar. Acorde... – Ainda de olhos fechados, ela estendeu um dos braços o colocando em volta de meus ombros. Levantei Annabelle calmamente e o homem nos guiou para dentro da casa. Deixei Annabelle no sofá e quando voltei para pegar a mochila que estava do lado de fora, me deparei com o homem com a mochila numa das mãos. – Obrigada...

- Precisa de alguma coisa, mocinha? – Ele perguntou num tom baixo.

- O senhor pode encher essas garrafas de água? – Entreguei-lhe as duas garrafas calmamente.

- Claro mocinha.

- Muito obrigada! – Quando ele saiu do cômodo me sentei próximo a Annabelle. Eu estava exausta, mas não poderia descansar nem um minuto, eu só descansaria quando Annabelle estivesse salva.

Aquilo que antes julgávamos ser um hotel, quando observei calmamente pelo lado de dentro, me pareceu mais uma casa de alguém solitário. Havia algumas fotos numa das paredes. Levantei-me para observá-las. A primeira imagem era de um jovem casal com um bebê, na segunda foto o bebê havia crescido e se tornado uma criança alegre, e em seu lugar no colo da mãe, havia outro bebê. Algo naquele pequeno garoto me pareceu familiar. Familiar até demais... As outras fotos eram as crianças em algumas festas.

- Aqui está, mocinha. – Andei para o lado, em sinal de que havia acabado de levar um susto, não esperava por ele. Peguei as garrafas e coloquei na mochila.

- Obrigada... – Disse ao terminar de fechar o zíper. – Estes são seus filhos? – Perguntei curiosa.

- Sim, mas estas são fotos antigas, hoje em dia meu garoto provavelmente tem sua idade, e minha menina é um pouco mais nova... – Ele parecia ter saudade dos filhos, notei quando deu um longo suspiro ao terminar a frase.

- Onde eles estão agora?

- Eles foram para a faculdade... – Ele andou e sentou-se numa poltrona do outro lado do cômodo. – Marcos estava na idade de ir para a faculdade quando começou. Repetiu dois semestres. – Eu não me movia, mal respirava. Então o nome daquele pequeno garoto era Marcos? Quais são as possibilidades deste homem ser o pai de Marcos e Maria? Havia poucas chances... Certo? – Maria sempre foi muito esperta, ela terminou o colegial fora da idade correta, e logo foi para a faculdade com o irmão. Eles desejavam ser médicos, mas desistiram. – Então aquela era mesmo a casa do pai de Maria e Marcos. Meus olhos estavam arregalados, e minha respiração estava pesada e rápida, eu tinha que sair dali. – Vou tomar um banho, mocinha, se importa de esperar? – Neguei com a cabeça com movimentos rápidos e assim que ouvi a porta do banheiro se fechar corri até Annabelle.

- Belle... – A balancei calmamente, mas ela não acordava. – Annabelle! Acorde!

- O que...? O senhor nos mandou embora...? – Ela perguntou com os olhos fechados.

- Não, mas temos que ir! – Ela não abria os olhos, e parecia ter dormido novamente. – Annabelle! – Disse um pouco mais alto.

- O que...?

- Ele é pai de Marcos e Maria. Vamos! Acorde! – Seus olhos se abriram rapidamente.

- O que?! – Ela gritou tapando a boca em seguida.

- Vamos! Maria pode aparecer por aqui a qualquer momento. – Peguei a mochila e observei Annabelle, ela estava próxima a mesa onde se encontrava o telefone, estava escrevendo algo. – O que está fazendo?

- Escrevendo um bilhete para agradecer pela hospitalidade... – Andei até ela, e tirei o papel de suas mãos bruscamente, o que assustou Annabelle.

- Está louca? Maria reconheceria sua letra! – Retirei a folha que continha a letra de Annabelle e joguei dentro da mochila. Segurei uma de suas mãos e andei até a porta. – Vamos!

Quando saímos da casa, fechei a porta calmamente para não fazer nem um tipo de barulho. Voltamos a andar. Andamos por muito tempo. Eu estava exausta, mal sentia minhas pernas, mas eu não iria parar. Annabelle não trocou muitas palavras comigo desde que saímos da casa daquele homem, ela só pedia por água, e nada mais.

Paramos num acostamento vazio, Annabelle disse que precisava se sentar. Fiquei de pé por algum tempo, e pude notar um posto de gasolina com uma loja de conveniência, próximo de onde estávamos. Abri a mochila para analisar o que tínhamos ali, não havia nenhuma bebida que não fosse água e alguns pacotes de salgadinhos. Havia dois óculos escuros, um boné e uma presilha de cabelo, provavelmente para nos disfarçarmos. No fundo da mochila havia um envelope, quando o abri vi algumas notas de dinheiro. Não era muito, mas acho que poderíamos comprar algo melhor para comer.

- O que acha de comprarmos algo ali? – Apontei para o lugar. Annabelle olhou e balançou os ombros, como se não se importasse. – O que houve? – Ela me olhou por alguns segundos e riu, mas ela não achou graça nenhuma, ela riu como se eu soubesse exatamente o que fiz. Foi quando olhei para a mochila e vi o bilhete que Annabelle havia escrito, estava todo amassado, e eu soube exatamente o que fiz. – Desculpe...

- O que? Por quê?

- Desculpe por ter agido como uma idiota quando você tentou apenas ser amigável. – Ela me olhou esperando que eu falasse mais alguma coisa. – Não deveria ter tirado o papel da sua mão daquele jeito, desculpe... – Ela ainda me observava. – A propósito, sua letra é bem bonita, parece de princesa. – Sorri, e ela riu.

- Boba. – Ela disse rindo.

- Sou mesmo, agora vamos comprar algo para comer. Tome isso. – Lhe entreguei o boné e um dos óculos.

Enquanto ela ajeitava seu cabelo no boné, peguei a presilha de cabelo e fiz um rabo-de-cavalo, e coloquei os óculos. Annabelle me olhou e sorriu.

- O que?

- Está muito bonita, Senhorita Thompson. – Ri.

- Você está muito bonita também. – Sorri.