Tropeços
2 Tropeço número 2: o encontro com o ex.
Notas iniciais
Como eu odeio a Ino! Essa era a única coisa que eu pensava enquanto pegava aquela droga de peso. Ela havia me forçado mais uma vez a voltar naquela academia, na verdade a culpa era um pouco minha também e do idiota do meu ex, mas no momento era melhor culpar somente a loira. Se eu não tivesse visto o canalha falecido no shopping, desfilando com uma morena que claramente tinha silicone e parecia querer mostrar o quão sarada era ao usar aquele micro top, eu não estaria aqui. Eu também não estaria aqui se o imbecil do meu ex não tivesse me visto com um sorvete em mãos e não viesse falar comigo com a peituda-rata-de-academia do lado e não tivesse comentado sobre o meu estado, pois de acordo com ele eu parecia “um pouco acabada”. Bufei ao colocar a droga do peso na droga da barra de ferro enquanto recordava aquela droga de conversa.
Depois daquelas palavras eu só senti o sorvete escorrer pela minha mão por ter quebrado a casquinha, mas antes que respondesse que não era por causa dele, pois eu já havia o superado há tempos e esse cansaço se devia unicamente a ideia idiota de Ino de me levar para malhar, minha grande amiga loira, que estava ao meu lado, retrucou mais rápido:
– Por favor Sasori, não se ache tanto! Sakura está assim porque ela está se exercitando muito e ela ainda não se acostumou com a rotina, apenas – rotina de um dia, diga-se de passagem, mas o falecido não precisava saber, não é?
– Sakura fazendo exercício? Não acredito. – o cretino havia dito e mais um pouco eu partiria para cima dele. Eu podia não ser atlética, mas todo mundo sabia que eu era forte, então seria fácil socar a cara dele.
– Pois acredite! Sakura mudou muito e pra melhor, ela está fazendo residência no melhor hospital de Konoha, sabia disso? – Ino começou a me elogiar e quis beijá-la por isso, mas simplesmente sorri de forma prepotente e concordei com a minha amiga. Manter a aparência nesses momentos é crucial.
– Meus parabéns Sakura e, ah, conhece a minha noiva? – ele disse noiva? – Essa é Mizuhi, ela é uma artista famosa e atleta nas horas vagas, mas acho que dá pra perceber isso, não é? – disse praticamente apontando para a roupa curta que a mulher usava enquanto esta exibia a barriga tanquinho e começava a rir. Cretinos.
– Saso-chan, pare, vai me deixar envergonhada! – disse de forma melosa e eu quis jogar o resto do meu sorvete na cara dela. Saso-chan, sério? Olhei para Ino que fazia uma cara de nojo com a demonstração de afeto e sorri, sempre era bom ter minha amiga por perto – Então, você é a ex do Saso-chan? Muito obrigada por deixá-lo para mim – disse a morena, agarrada no pescoço de Sasori, quero dizer, do canalha.
– Faça bom proveito – disse entredentes, eu não podia me rebaixar ao nível dela, eu tinha que mostrar que eu era superior e não ligava para o fato dela esfregar na minha cara a felicidade dela com o meu ex.
– Sakura, você está com raiva? Pensei que já tivéssemos resolvido tudo – o falecido se manifestou como se sentisse pena, enquanto a morena me fuzilava com o olhar e eu quis resolver aquele problema metendo a minha mão na cara dele.
– Claro que resolveram, Sakura agora é uma mulher que saber viver melhor, se diverte, tem um bom emprego e até participa de corridas, ela não precisa de você, Sasori! Me poupe! – Ino começou a inventar um monte de mentiras.
Bom, nem tudo era mentira, eu realmente tinha um bom emprego, mas não vivia melhor, estava tudo igual à antes de eu conhecer Sasori, praticamente. Eu ia para o hospital, fazia compras, me enfurnava em casa, me alimentava com comida instantânea e brigava com Ino. Sobre a diversão, bom, eu nunca fui de sair muito e por isso o ex disse que era desanimada, mas, hey, o que tem de errado em querer passar o meu dia de folga dormindo ou vendo série, às vezes? Isso pra mim é muito divertido!
E eu realmente não precisava daquele ser ruivo quem um dia chamei de “amor”, quanto a parte das corridas, acho que posso resumir em uma frase: Só em sonhos! Mas naquele momento qualquer coisa servia para não deixar o desgraçado como vitorioso, não queria que ele me visse como uma perdedora que não consegue viver sem ele, muito menos parecer medíocre perto da siliconada famosinha, então apenas concordei novamente.
– Sério? – a rata de academia me olhou em desafio – Então, você vai participar da próxima corrida que vai ter em Konoha, não é? – Droga, me pegaram! pensei. Nunca que eu participaria de uma corrida e...
– É claro que vai! – Ino afirmou e eu arregalei os olhos com aquilo. Ela estava doida?
– Ótimo, porque eu não gosto de concorrência e vou fazer você comer poeira e mostrar que o Saso-chan fez a escolha certa ao te deixar – e me olhou como se eu fosse a próxima refeição dela. Não gostei nem um pouco disso e quando vi as palavras já haviam deixado a minha boca:
– Como se eu ligasse para isso, mas eu vou ganhar essa corrida apenas para mostrar a mulher fabulosa que eu sou – e que aquele cretino perdeu! Completei em pensamento.
Suspirei ao lembrar daquilo, o meu problema era com Sasori, quero dizer, o falecido, afinal eu ainda guardava mágoa pela forma como ele me deixou, mas eu não tinha que provar nada para ninguém. E daí que eu não era esportista? Meu corpo era bonito naturalmente. E daí que eu não era uma médica famosa? Eu ainda estava na residência e era jovem, ia alcançar todos os meus objetivos, algum dia. E daí que o meu apartamento era pequeno e eu não tinha uma vida social desde que meu ex me chutou? Quem liga? Sou feliz sozinha! E eu não sou um completo desastre ou desastrada como o falecido havia me dito. Era isso que tentava me convencer enquanto puxava a anilha de vinte quilos do apoio para pegar a de cinco quilos que eu precisava e que estava atrás. Quem foi que arrumou isso?
O apoio em que a anilha estava era um pouco alto e consistia em várias hastes cada uma com diversas anilhas de pesos diferentes e eu tinha que forçar para conseguir tirar aquele peso sem que ele desabasse em mim, mas no momento eu não conseguia me concentrar em mais nada que não fosse o problema que eu arranjei. Com essa ideia da Ino eu realmente tive que voltar para a academia, porque meu orgulho estava em jogo, e desenvolver nem que fosse um pouco de condicionamento físico para a corrida que seria em quatro miseras semanas. Eu estava morta, fato! Não conseguiria vencer essa corrida que eu descobri ser uma espécie de maratona, a qual continha certas etapas e os participantes tinham que parar em pontos estratégicos para pegar água e o comprovante de que passaram por lá. O percurso era de cinquenta quilômetros, cinquenta! CIN-QUEN-TA! Parecia que o organizador do evento queria bater o recorde de maior maratona de todos os tempos.
– No que eu fui me meter... – choraminguei baixinho ainda segurando a anilha presa de vinte quilos – E essa droga que não sai também! – forcei mais uma vez – Porque isso tem que estar tão alto? – resmunguei mais uma vez, pensando que eu morreria no meio da prova, aquela siliconada riria de mim e Sasori apenas confirmaria que ele estava certo e que eu era uma boba desastrada que não conseguia fazer nada direito.
Apertei com mais força o peso e puxei com toda a minha força. Não! Eu iria mostrar do que eu era capaz e que eles estavam errados.
– Oe, está... – mas antes que eu pudesse ver quem falava, arranquei o peso do apoio e desequilibrada, devido ao esforço, meus braços se lançaram para trás com o peso passando sobre a minha cabeça, mas consegui evitar um desastre, leia-se, eu cair de bunda no chão na frente de todos, ao acertar alguma coisa atrás de mim que resmungou com o impacto... pera ai, “resmungou”?
Virei-me apenas para dar de cara com o rapaz moreno do outro dia que segurava o nariz com uma das mãos enquanto sangue escorria pelo seu belo rosto.
– Ai meu Kami! – disse pondo as mãos no rosto e ele grunhiu em dor novamente, foi só então que percebi que havia derrubado a anilha no chão que caíra no pé dele – Me desculpa! – disse mais uma vez retirando o peso de cima do pé do rapaz, nesse momento todos da academia já se voltavam para nós. – Deixa eu ver como está, eu sou... – tentei ver o estrago que tinha feito, mas ele bateu na minha mão para que eu me afastasse.
– Você é um perigo isso sim, saia de perto de mim! – bradou furioso e me senti mal com as palavras rudes dele, principalmente porque não podia contestar, aquilo só estava acontecendo porque estava distraída.
– Teme! – gritou um rapaz loiro ao se aproximar – Cara, você tá bem? Ah, você tá sangrando? Você vai morrer? Não faz isso comigo cara! – o loiro chacoalhava o moreno que parecia cada vez mais irritado.
– Para Naruto! Me tira de perto dessa louca e me leva para um hospital! – ordenou e o loiro que se chamava Naruto o ajudou a se levantar e apoiou um dos braços para facilitar a locomoção.
– Sakura, você está bem? – Ino indagou ao se aproximar um pouco depois, ela devia estar flertando de novo com o instrutor quando tudo aconteceu.
– Estou... – murmurei ainda envergonhada e resolvi ir atrás dos dois rapazes, eu tinha que me desculpar de alguma forma – Já volto Ino!
Por sorte a recepcionista da academia me avisou que eles, provavelmente, iriam para o Hospital St. Konoha que era o mais perto da região e, por mais sorte ainda, era onde eu trabalhava! Então foi fácil encontrar a ficha do moreno e pedir para que qualquer custo fosse repassado para mim, afinal eu era a única culpada. Ignorei os olhares dos outros médicos e enfermeiros por eu estar usando roupa de ginástica e peguei o prontuário de atendimento dele. Não havia nada a respeito sobre ele ter fraturado o pé, provavelmente ainda estavam esperando o resultado do raio-X, mas o nariz não se quebrara como pensei primeiramente, pelo menos isso. Não me perdoaria, e nem a Ino, se desfigurasse aquele rostinho lindo. Haviam dado a medicação para a dor e ele estava em observação agora. Suspirei e fui em direção à saleta em que ele estava.
O loiro, Naruto, estava lá sentado em uma cadeira ao lado da cama do moreno que continuava irritado, mas dessa vez parecia ser pelo fato de que o amigo não o deixava descansar em paz, ele tinha um curativo no nariz e seu pé estava enfaixado. Entrei hesitante e assim que me viram o loiro parou de falar e o moreno, bom, digamos que se ele pudesse ninguém encontraria o meu corpo de tanta raiva que aquele olhar desferia contra mim.
– Me desculpe – pedi fazendo uma leve reverência – Não foi minha intenção, eu... – não sabia mais o que falar e sentia meus olhos marejarem – Me desculpe! – pedi de novo.
– Oe, tudo bem, sabemos que não foi sua intenção trazer o teme para o hospital, não é? – disse Naruto com um sorriso para o moreno que estalou a língua e virou o rosto para o lado e aquilo pareceu ter irritado o outro – A moça veio aqui só pra pedir desculpas, não seja um bastardo! – brigou.
– Está tudo bem, eu mereço – disse sem graça e respirei fundo antes de continuar – Por isso saibam que não precisam se preocupar com nenhum gasto, já mandei colocarem tudo na minha conta.
– Nani? – o loiro gritou assustado e pude perceber que até o moreno parecia um pouco surpreso pelo o que eu disse – Mas você não teria que ter uma autorização ou algo assim?
– Eu trabalho aqui, então foi fácil – disse e o loiro pareceu empolgado, ainda mais. Será que ele é um daqueles caras viciados em cafeína? Isso explicaria o fato dele sempre falar tão alto e parecer hiperativo.
– Nossa, então você é médica? Que sorte teme, ser machucado por uma médica – tudo bem, aquele cara devia ter algum problema para falar isso, mas preferi ignorar.
– Cala a boca dobe, isso não tem nada a ver com sorte. – tive que concordar com o moreno, mas outra coisa me passou pela cabeça...
– Ah que bonitinho, vocês têm até apelidos – e ao ver que havia falado isso em voz alta e que os dois me olhavam de forma sanguinária, preferi mudar de assunto – E-Então, eu só vim avisar isso e espero, sinceramente, que você melhore logo – disse para o moreno antes de sair da sala.
Somente quando sai do hospital foi que me dei conta de algo, eu não tinha perguntado o nome do Deus grego da academia e nem tinha dito o meu. Mas o que eu poderia esperar? Que ele fosse me procurar loucamente e se apaixonar pela garota que o mandou para o hospital? É claro que não! Além disso, eu também não queria um grosseiro como ele, eu não havia me esquecido das palavras dele, e não queria entrar em um relacionamento tão cedo. Mas eu podia continuar olhando para ele na academia, certo? Afinal, olhar não tira pedaço.
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