Trono de vidro - Yaoi
2 Capítulo 2
Notas iniciais
— Vossa Alteza – disse o capitão da Guarda, fazendo uma reverência.
Ele se endireitou e retirou o capuz, revelando o curto cabelo castanho. A função do capuz certamente fora intimidar Caleb, fazer com que ficasse submisso. Como se um truque assim tão simplório pudesse funcionar com ele. Mesmo irritado, Caleb ficou surpreso ao ver o rosto dele pela primeira vez. Era tão jovem!
O capitão Westfall não era excessivamente bonito, mas era difícil não achar o rosto de traços fortes e os olhos claros, castanho-dourados, atraentes. Ele baixou a cabeça, agora intensamente consciente de quanto estava imundo.
— É ele? – perguntou o príncipe herdeiro de Adarlan, e Caleb olhou de um para o outro enquanto o capitão assentia com a cabeça.
Os dois o encararam, esperando que ele se curvasse em reverência. Caleb permaneceu ereto, e Chaol remexeu-se, inquieto. O príncipe lançou um olhar para o capitão e ergueu o queixo um pouco mais alto.
Caleb não iria se curvar para ele! Se já estava destinado à forca, não perderia os últimos momentos de vida submetendo-se àquela humilhação.
Passos firmes atrás de Caleb, e alguém o agarrou pelo pescoço. Ele só percebeu bochechas vermelhas e um bigode ruivo antes de ser jogado no chão gelado de mármore. Ador irradiou por seu rosto, e pequenos focos de luz salpicaram-lhe a visão. Os braços do prisioneiro doíam, pois as mãos atadas impediam que ele ajustasse as articulações corretamente. Embora tivesse tentado evitar, lágrimas de dor irromperam.
— Esta é a forma adequada de cumprimentar seu futuro rei – disparou um homem de rosto avermelhado para Caleb.
O assassino rosnou, mostrando os dentes ao se virar para o imbecil ajoelhado. Ele era quase tão grande quanto seu capataz e vestia vermelho e laranja, combinando com o pouco cabelo. Seus olhos cor de obsidiana brilhavam enquanto o homem apertava o pescoço de Caleb. Se ele conseguisse mexer o braço direito um pouco, poderia desequilibrá-lo e tomar-lhe a espada. Os grilhões pressionavam o estômago do prisioneiro, e a raiva faiscante lhe afogueava o rosto.
Depois de um longo momento, o príncipe herdeiro falou:
— Não compreendo que sentido há em forçar alguém a se curvar quando o propósito do gesto é mostrar lealdade e respeito. – Suas palavras demonstravam um profundo tédio.
Caleb tentou olhar para o príncipe, mas só pôde ver um par de botas de couro negras descansando no chão branco.
— Está claro que você me respeita, duque Perrington, mas é um tanto desnecessário se esforçar tanto para obrigar Caleb Sardothien a ter a mesma opinião. Nós dois sabemos muito bem que ele não tem apreço pela minha família. Talvez sua intenção, então, seja humilhá-la. – O príncipe pausou, e Caleb poderia jurar que seus olhos pousaram nele por um breve momento. – Mas acho que já é o bastante.
Ele fez outra pausa e então perguntou:
— Você não tem uma reunião com o tesoureiro de Endovier? Não quero que se atrase, principalmente depois de ter vindo até aqui só para encontrá-lo.
Compreendendo que havia sido dispensado, o torturador de Caleb grunhiu e soltou o assassino. Caleb descolou a bochecha do mármore, mas permaneceu deitado até que ele se levantasse e fosse embora. Se algum dia conseguisse escapar, talvez procurasse esse tal duque Perrington para retribuir a gentileza.
Ao se levantar, Caleb franziu a testa ao perceber a mancha que deixara no chão impecável e ao escutar o tilintar dos grilhões ecoando pelo salão silencioso. Mas ele fora treinado para ser um assassino desde os 8 anos quando o rei dos Assassinos o encontrou quase morto às margens de um rio congelado e o levou para seu forte. Depois de tudo que passara, nada o humilharia, muito menos o simples fato de estar sujo. Depois de recompor seu orgulho, ele jogou a longa trança para trás de um dos ombros e levantou a cabeça. Seus olhos encontraram os do príncipe.
Dorian Havillard sorriu para Caleb. Era um sorriso polido, repleto de charme cortesão. Sentado confortavelmente no trono, ele apoiava o queixo em uma das mãos, e sua coroa de ouro refletia a luz suave do salão. O emblema dourado da serpente alada real lhe ocupava todo o peito. Um manto vermelho cobria graciosamente o príncipe e o trono.
Mas algo em seus impressionantes olhos azuis – da cor das águas dos países do sul – e no contraste que faziam com seus cabelos negros o deixou sem reação por um instante. Ele era extremamente belo e não devia ter mais de 20 anos.
Príncipes não deveriam ser bonitos! Eles são criaturas revoltantes, arrogantes, estúpidas! Esse... esse... Como é injusto que seja membro da realeza e bonito.
Caleb trocou o peso do corpo de um pé para outro enquanto o príncipe franzia a testa para ele, avaliando-o.
— Achei que tivesse pedido a você que o limpasse – disse ele ao capitão Westfall, que deu um passo à frente.
Caleb esquecera que havia mais gente no salão, olhou para os trapos que usava e para a pele encardida e não conseguiu suprimir uma pontada de vergonha. Que estado mais miserável para um cara que um dia já fora tão bonito!
À primeira vista, os olhos de Caleb pareciam azuis ou cinzentos, talvez até esverdeados, dependendo da cor das roupas que usasse. De perto, porém, a ambiguidade de tons era ofuscada pelo anel de ouro que envolvia suas pupilas. Mas eram seus cabelos dourados – que ainda retinham vestígios do antigo esplendor – que chamavam a atenção da maioria das pessoas. Em resumo, Caleb Sardothien fora abençoado com algumas características atraentes e femininas que compensavam a mediocridade dos outros traços; e, no início da adolescência, ele já descobrira que, com a ajuda de cosméticos, os traços comuns podiam facilmente passar por extraordinários.
Agora, porém, postava-se diante de Dorian Havilliard sentindo-se quase um rato de esgoto! Caleb sentiu as bochechas queimarem quando o capitão Westfall falou.
— Não queria fazê-lo esperar.
O príncipe herdeiro balançou a cabeça quando Chaol estendeu a mão na direção de Caleb.
— Não se preocupe com o banho agora. Já posso ver que ele tem potencial. – O príncipe endireitou a coluna, concentrado em Caleb. – Não acredito que tivemos o prazer de nos conhecer formalmente. Mas como você já deve saber, sou Dorian Havilliard, príncipe herdeiro de Adarlan, e talvez agora o príncipe herdeiro da maior parte de Erilea.
Caleb ignorou a onda de emoções amargas que sentiu ao ouvir o nome maldito.
— E você é Caleb Sardothien, o maior assassino de Adarlan. Talvez o maior assassino de toda Erilea. – Ele pareceu perceber os músculos tensionados de Caleb e levantou as sobrancelhas negras e bem-cuidadas. – Você parece um pouco jovem demais. – O príncipe apoiou os cotovelos nas coxas antes de continuar: – Escutei histórias fascinantes sobre você. O que está achando de Endovier depois de ter vivido com tanto luxo no Forte da Fenda?
Canalha arrogante.
— Mais feliz impossível – cantarolou ele, enquanto enfiava as unhas pontiagudas nas palmas das mãos.
— Depois de um ano, você parece mais ou menos vivo. Pergunto-me como isso é possível quando a expectativa de vida nestas minas é de apenas um mês.
— Um mistério fascinante, sem dúvida – respondeu Caleb, piscando maliciosamente e ajustando os grilhões como se fossem luvas de renda.
O príncipe herdeiro virou-se para o capitão.
— Ele tem a língua bem afiada, não? E não fala como alguém da ralé.
— Eu realmente espero que não! – interrompeu Caleb.
—Vossa Alteza – corrigiu Chaol, ríspido.
— O quê? – perguntou o assassino.
— Você deve chamá-lo de "Vossa Alteza".
Celaena lançou-lhe um sorriso zombeteiro e voltou a se concentrar no príncipe.
Dorian Havilliard, para surpresa da assassina, gargalhou.
— Você sabe que agora é escravo, não sabe? Será que não aprendeu nada com sua sentença?
Se os braços de Caleb não estivessem atados, ele os teria cruzado.
— Não sei como trabalhar em uma mina pode ensinar qualquer coisa além do modo certo de segurar uma picareta.
— E você nunca tentou escapar?
Um sorriso perverso apareceu lentamente no rosto do assassino.
— Uma vez.
O príncipe levantou as sobrancelhas e voltou-se para o capitão Westfall.
— Isso ninguém me contou.
Celaena se voltou para trás e viu Chaol lançar ao príncipe um olhar culpado.
— O capataz-chefe me informou esta tarde que houve apenas um incidente. Três meses...
— Quatro meses – corrigiu ele.
— Quatro meses – disse Chaol – depois que Sardothien chegou, ele tentou fugir.
Caleb aguardou o resto da história, mas o capitão claramente não tinha intenção de continuá-la.
— Mas essa não é nem a melhor parte!
— Há uma "melhor parte"? – perguntou o príncipe herdeiro, com a expressão do rosto entre a perplexidade e um sorriso.
Chaol encarou Caleb, furioso, antes de começar a falar:
— É impossível escapar de Endovier. Seu pai se certificou de que cada vigia de Endovier fosse capaz de acertar um esquilo a 200 passos de distância. Tentar escapar é suicídio.
— Mas você sobreviveu – disse o príncipe para Caleb.
O sorriso de Caleb desapareceu quando as lembranças do incidente retornaram.
— Sim.
— O que aconteceu? – perguntou Dorian.
Os olhos de Caleb endureceram, frios como gelo.
— Perdi o controle.
— É assim que você explica o que fez? – indagou o capitão Westfall, indignado. – Ele matou o capataz e mais 23 guardas antes de ser capturado. Estava a uma unha da muralha quando os soldados finalmente o nocautearam.
— E...? – disse Dorian.
Caleb se irritou.
— "E"? Você tem ideia da distância entre as minas e a muralha? – O príncipe o encarou com a expressão vazia. Ele fechou os olhos e suspirou dramaticamente. – São 110 metros desde a minha cela. Eu pedi que alguém medisse.
— E...? – repetiu Dorian.
— Capitão Westfall, até onde os escravos costumam chegar quando tentam fugir das minas?
— Um metro – murmurou ele. – Normalmente os guardas de Endovier os atingem antes que consigam avançar 1 metro.
O silêncio do príncipe herdeiro não era a reação que Caleb desejava.
— Você sabia que era suicídio – disse ele, finalmente, e sua expressão estava mais séria.
Talvez tivesse sido má ideia mencionar a questão da muralha, pensou ele.
— Sim – respondeu Caleb.
— Mas eles não mataram você.
— Seu pai ordenou que me mantivessem vivo o máximo possível para que sofresse toda a miséria que Endovier tem a oferecer – respondeu Caleb, sentindo calafrios que não tinham nada a ver com a temperatura do corpo. – Eu não tinha intenção alguma de escapar. – A pena nos olhos do príncipe fez com que Caleb quisesse bater nele.
— Você carrega muitas cicatrizes? – perguntou o príncipe.
O prisioneiro deu de ombros, e o príncipe sorriu, tentando amenizar o clima sombrio. Ele desceu do estrado onde o trono se assentava.
— Vire de costas, deixe-me ver – disse o príncipe herdeiro.
Caleb franziu a testa, mas obedeceu. Chaol, alerta, se aproximou um passo.– Não consigo vê-las com tanta sujeira – reclamou o príncipe, inspecionando a pele exposta por entre os rasgos da blusa de Caleb. Ele fez uma careta de raiva e intensificou-a ainda mais quando ele exclamou:
– E que fedor horrível!
— Quando não se tem acesso a um sabonete e uma banheira, é difícil ter um perfume tão agradável quanto o seu, Vossa Alteza.
O príncipe herdeiro estalou a língua e andou lentamente ao redor do assassino, avaliando-o. Chaol e o resto dos guardas os observavam com as mãos nas espadas – como deveriam. Em menos de um segundo, Caleb poderia passar os braços algemados por cima da cabeça do príncipe e esmagar a traqueia dele. Valeria a pena tentar só para ver a expressão no rosto de Chaol. Mas o príncipe continuou, sem perceber o quanto estava perigosamente próximo dele.
Caleb quase se sentia ofendido.
— Pelo que vejo – disse ele –, há três grandes cicatrizes e talvez algumas menores também. Não tão horríveis quanto eu esperava, mas... bem, os vestidos irão esconde-las, suponho.
— Vestidos? – repetiu Caleb, sem entender, tão próximo dele que podia ver cada detalhe do paletó do príncipe e sentir o cheiro, não de perfume, mas de cavalos e de ferro. — Eu sou homem! — exclamou ao entender a frase do príncipe.
Dorian sorriu e ignorou o prisioneiro.
— Que olhos impressionantes você tem! E como é raivoso!
Perto o suficiente para estrangular o príncipe herdeiro de Adarlan, filho do homem que o sentenciara a uma morte lenta e miserável, o autocontrole de Caleb se equilibrava perigosamente na beira de um abismo.
— Exijo saber – começou ele, tentando se aproximar, mas o capitão da guarda o puxou para trás com toda a força.
— Eu não ia matá-lo, seu idiota.
— Cuidado com a língua antes que eu o jogue de volta nas minas – disse o capitão de olhos castanhos.
— Ah, não acho que você faria isso.
— E por que não? – replicou Chaol.
Dorian voltou ao trono e se sentou; os olhos cor de safira brilhavam.
Caleb olhou de um homem para o outro e endireitou a coluna.
— Porque há algo que vocês querem de mim, algo que querem tanto que vieram até aqui pessoalmente. Não sou idiota, embora tenha sido tolo o bastante para ser capturado, e já entendi que isso é algum assunto sigiloso. Por que mais vocês sairiam da capital e se arriscariam a vir tão longe? Estão me testando para ver se estou apto física e mentalmente. Bom, sei que ainda não estou louco, apesar do que o incidente na muralha possa sugerir. Então exijo saber por que vocês estão aqui e que serviço desejam de mim, se é que não estou destinado à forca.
Os homens trocaram olhares. Dorian entrelaçou os dedos.
— Tenho uma proposta para você.
Caleb sentiu um aperto no peito. Nunca, nem nos sonhos mais fantasiosos, ele imaginara que teria a oportunidade de falar com Dorian Havilliard em pessoa. Poderia matá-lo tão facilmente, arrancar-lhe aquele sorriso do rosto... poderia destruir o rei como ele o destruíra...
Mas talvez a proposta do príncipe herdeiro pudesse proporcionar sua fuga. Se passasse pela muralha, conseguiria fugir. Correr e correr e desaparecer nas montanhas e viver em solidão, na escuridão verde da floresta, com um tapete de folhas de pinheiro sob os pés e um cobertor de estrelas sobre a cabeça. Era realmente possível. Ele só precisava passar pela muralha. Já chegara tão perto...
— Estou disposto a ouvir – disse Caleb.
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