Notas iniciais
Boa leitura!!

Durante as duas semanas seguintes, eles viajaram pelo continente. As noites se tornavam cada vez mais frias, e os dias, mais curtos. A chuva gélida os acompanhou por quatro dias seguidos, causando tanto frio que Caleb pensou em se jogar em uma ravina, arrastando, com sorte, Chaol consigo.

Tudo estava frio e semi congelado. Dava para aguentar os cabelos molhados, mas a agonia dos sapatos encharcados era quase desumana. Mal conseguia sentir os próprios dedos. Toda noite ele envolvia os pés com qualquer trapo seco que pudesse encontrar. Era como se estivesse em um estado de decomposição parcial e cada lufada de vento gélido o fazia imaginar que, a qualquer momento, sua pele seria arrancada dos ossos. Porém, como ainda estavam no outono, a chuva desapareceu repentinamente e um céu brilhante e límpido se abriu sobre eles.

Caleb estava semi adormecido sobre o cavalo quando o príncipe herdeiro saiu da fila e trotou até eles com o cabelo castanho esvoaçante. A capa vermelha ondulava atrás dele como uma onda carmesim. O príncipe usava um gibão azul bordado com fios de ouro sobre uma camisa branca. Caleb quase sorriu zombeteiramente, mas ele ficava muito bonito com aquelas grandes botas marrons. E o cinto de couro combinava muito bem, apesar da faca de caça excessivamente adornada. O príncipe se aproximou de Chaol.

— Venha – disse ele ao capitão, e se virou na direção de uma colina íngreme que a companhia começava a subir.

— Aonde? – perguntou o capitão, balançando as correntes de Caleb para que Dorian entendesse que onde ele fosse, o homem iria junto iria junto.

— Venha ver a vista – esclareceu Dorian. – E traga esse aí junto.

Caleb se enfureceu. "Esse aí"! Como se fosse um saco de mantimentos!

Chaol saiu com os dois da fila, dando um puxão na corrente. O assassino segurou firme as rédeas enquanto partiam a galope e sentiu o cheiro pungente de crina de cavalo invadindo-lhe as narinas. Eles cavalgaram rapidamente colina acima. O animal movia-se freneticamente, pulando e corcoveando ao percorrer o trecho de subida, e Caleb tentou não parecer desesperado enquanto sentia que escorregava lentamente da sela. Se caísse do cavalo,morreria de humilhação. Mas o sol poente surgiu atrás das árvores às costas do grupo e ele perdeu o fôlego ao avistar uma, depois três e por fim seis altas torres apontando para o céu.

Do topo da colina, Caleb avistou a joia da coroa de Adarlan. O castelo de vidro de Forte da Fenda.

Era imenso, como uma cidade vertical de torres cristalinas e pontes brilhantes, cheio de câmaras e torretas, salões com domos e corredores infinitos. Fora construído sobre o castelo de pedra original e custara a riqueza de um reino inteiro para ficar pronto.

Caleb lembrou-se da primeira vez que o vira, oito anos atrás, frio e imóvel, congelado como a terra sob o pônei gordo que ele montava. Mesmo naquela época, já achava o castelo uma obra de mau gosto, um desperdício de dinheiro e talento, com suas torres que apontavam para o céu como garras. Muitas lembranças retornaram, como a capa azul que lhe roçava apele, o peso dos cabelos lhe roçando a nuca, as longas botas de couro contra a sela, a preocupação com a mancha de lama nos sapatos caros, e o modo como não conseguia parar de pensar naquele homem... o homem que matara três dias antes.

— Mais uma torre e a coisa toda vem abaixo – comentou o príncipe, do outro lado de Chaol. Os sons do grupo que se aproximava encheram o ar. – Ainda temos alguma distância a percorrer, e prefiro viajar por estas terras durante o dia. Acamparemos aqui esta noite.

— Imagino o que seu pai achará dele – disse Chaol.

— Ora, ele vai adorar... até a hora que este cara abrir a boca. Então os gritos e as reclamações vão começar e eu me arrependerei de ter passado os últimos dois meses atrás dele. Mas,enfim, creio que meu pai tenha coisas mais importantes com que se preocupar.

Depois disso, o príncipe se afastou.

Caleb não conseguia tirar os olhos do castelo. Fazia com que se sentisse tão pequeno, mesmo estando tão longe. Ele havia se esquecido de como a estrutura fazia as pessoas se sentirem menores.

Os soldados andavam de um lado para o outro, acendendo fogueiras e armando tendas.

— Sua cara é de quem vai para a forca, não de quem vai receber a liberdade – disse o capitão, ao lado de Caleb.

Ele continuou parado, entrelaçando as rédeas nos dedos.

— É estranho olhar para lá.

— Para a cidade?

— Para a cidade, para o castelo, para os cortiços, para o rio. – A sombra do castelo era como uma enorme criatura se abatendo sobre a cidade. – Até hoje não entendo bem como tudo aconteceu.

— Como você foi capturado?

O menor assentiu.

— Apesar de você acreditar que o mundo sob o domínio de um império é um lugar perfeito, seus governantes e políticos vivem tentando destruir uns aos outros. O mesmo acontece com os assassinos, parece.

— Acha que um dos seus traiu você?

— Todos sabiam que eu recebia os melhores contratos e podia pedir qualquer pagamento. –Caleb olhou as ruas entrecruzando-se na cidade e o reflexo do sol no rio sinuoso. – Se eu sumisse, abriria uma vaga com a qual todos iriam lucrar. Posso ter sido traído por um ou por muitos.

— Você não deveria esperar comportamento honrado andando em tal companhia.

— Eu não disse que esperava. Jamais confiei na maioria deles e sempre soube que me odiavam.

Caleb tinha suas suspeitas, é claro. E a que parecia mais provável era uma que ele não estava preparado para aceitar. Nem agora nem nunca.

— Endovier deve ter sido terrível – comentou Chaol. Não havia nenhum traço de malícia ou escárnio nas palavras. Seria uma ponta de compaixão?

— Sim – respondeu ele, calmamente. – Foi.

Chaol o olhou esperando mais. Bom, por que não contar a ele?

— Quando cheguei, rasparam meu cabelo, me vestiram com trapos e me deram uma picareta como se eu soubesse o que fazer com ela. Me acorrentaram aos outros e eu tive de aguentar as chibatadas junto com eles. Mas os capatazes receberam ordens de me dar um tratamento especial e tomaram a iniciativa de esfregar sal nos meus machucados – o sal que eu minerei – e me chicoteavam tanto que alguns ferimentos nunca cicatrizavam. Foi a bondade de alguns prisioneiros de Eyllwe que impediu que minhas feridas infeccionassem. Toda noite, um deles ficava acordado por quanto fosse necessário para limpar minhas costas.

Chaol não respondeu e apenas olhou de volta para Caleb antes de desmontar. Teria sido um erro revelar algo tão pessoal? O capitão não falou com ele novamente durante todo o dia, exceto para gritar comandos.

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Caleb acordou assustado, com a mão na garganta, suor frio escorrendo pelo corpo. Já tivera aquele pesadelo antes, no qual estava deitado em uma das valas comunitárias de Endovier. E quando tentava se libertar do emaranhado de membros apodrecidos, era arrastado para uma pilha com vinte cadáveres de profundidade e enterrada viva sem que ninguém percebesse que ainda estava gritando.

Então abraçou as pernas, sentindo-se enjoado. Respirou pausadamente e inclinou a cabeça, os joelhos pontiagudos pressionaram sua bochecha. Por causa do clima quente fora de época, o grupo abrira mão de dormir em tendas, o que dava a ele uma vista inigualável da capital. O castelo iluminado se erguia em meio à cidade como uma montanha de gelo e vapor. Havia uma energia verde pulsante que parecia emanar dele.

Àquela hora, no dia seguinte, Caleb estaria confinado dentro daquelas paredes. Mas agora, à noite, estava tudo quieto, como a calmaria que precede a tormenta.

Caleb imaginou o mundo inteiro adormecido, encantado pela luz verde-mar do castelo. Imaginou o tempo passando rápido, montanhas se erguendo e caindo, plantas se entremeando pela cidade sonolenta, ocultando-a com uma camada de folhas e espinhos. Ele era a única pessoa acordada.

Puxou a capa para se cobrir. Ele venceria. Venceria e serviria o rei. Depois,desapareceria para sempre e nunca mais pensaria em castelos, reis ou assassinos. Caleb não desejava reinar sobre a cidade novamente. A magia estava morta, os feéricos tinham sido banidos ou executados, e ele nunca mais teria nada a ver com a ascensão ou a queda de reinos.

Caleb não tinha destino. Não mais.

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Com a mão na espada, Dorian Havilliard observava o assassino do outro lado do grupo adormecido. Havia algo de triste em Caleb, sentado abraçando as pernas, com o luar refletido nos cabelos. Nenhum traço de expressão audaz ou resoluta aparecia-lhe no rosto enquanto o brilho do castelo cintilava em seus olhos.

Dorian o achava belo, mesmo sendo homem e com o jeito estranho e amargo. Havia algo especial no modo como os olhos do assassino brilhavam ao perceber algo belo na paisagem. Era difícil compreender.

Caleb olhava fixamente para o castelo, e sua silhueta era demarcada pela luz que emanava das margens do rio Avery. As nuvens se avolumavam acima deles, e ele olhou para o alto. Uma pequena constelação aparecia por uma abertura na massa de nuvens. O príncipe não pôde deixar de imaginar que as estrelas olhavam para o delinquente.

Não, ele precisava se lembrar de que ele era um assassino, abençoado com um belo rosto e uma esperteza incomum. As mãos de Caleb tinham derramado muito sangue, e ele cortaria a garganta de Dorian com a mesma facilidade com que lhe daria bom dia. Caleb era seu campeão. Estava lá para lutar por ele e por sua liberdade. Nada mais. Dorian deitou-se, segurando a espada, e caiu no sono.

Ainda assim, a imagem assombrou seus sonhos a noite toda: o lindo garoto que olhava as estrelas e as estrelas que o olhavam de volta.

Notas finais
E aí meus amados? Tudo bem com vocês? comentem o que acharam dos caps :) se ando repetindo muito ao me referir aos personagens ou algo assim é só avisar. bjs e até mais ♥