Notas iniciais
Boa leitura minna!!

Quando Caleb finalmente caiu na cama após a reunião na sala do trono, não conseguiu adormecer, apesar da exaustão que lhe dominava o corpo. Após ser banhado rispidamente por servos grosseiros, o que achou vergonhoso, as feridas em suas costas latejavam, e ele sentia como se o rosto tivesse sido esfregado até o osso. Movendo-se para ficar de lado e assim poupar as costas enfaixadas, Caleb passou a mão pelo colchão e espantou-se com a liberdade de movimentos. Antes que entrasse no banho, Chaol removera seus grilhões. Ele sentira tudo: a reverberação da chave virando na fechadura e os pesados elos de ferro se afrouxando e caindo ao chão. Ainda podia sentir o peso fantasmagórico das correntes sobre a pele. Ao olhar para o teto, Caleb flexionou as articulações doloridas e deu um suspiro de contentamento.

Mas era tão esquisito deitar em um colchão, ter a pele acariciada por sedas e um travesseiro amparando seu rosto! Ele se esquecera do gosto de comida que não fosse papa de aveia fria e pão duro e se esquecera também da diferença que corpo e roupas limpas faziam na vida de alguém. Agora tudo parecia estranho.

Mas o jantar não fora tão maravilhoso. O frango assado não estava grande coisa, e, depois de algumas garfadas, Caleb teve de correr para o banheiro, para esvaziar o conteúdo do estômago. Ele quisera comer, passar a mão na barriga cheia, desejar jamais ter comido um pedaço e jurar que nunca mais comeria. Caleb comeria bem no Forte da Fenda, não comeria? E o mais importante: seu estômago se acostumaria.

Tinha emagrecido demais. Em lugar de carne firme, suas costelas apareciam sob a camiseta. E a suas parte baixas! Outrora era grande, agora não parecia maior e enrugado do que durante o inverno. Um nó se formou na garganta de Caleb, e ele engoliu em seco. A maciez do colchão o sufocava, então se moveu outra vez, deitando-se de barriga para cima, apesar da dornas costas.

O rosto de Caleb não estava muito melhor quando ele o viu de relance no espelho do banheiro. Estava fatigado: maçãs do rosto protuberantes, maxilar pronunciado e olhos levemente, porém inquietantemente, profundos. Caleb respirou devagar, saboreando a esperança. Ele comeria. Muito. E se exercitaria. Poderia ficar saudável de novo. Enquanto imaginava banquetes magníficos e como recuperaria a antiga glória, Caleb finalmente adormeceu.

Quando Chaol foi buscá-lo, na manhã seguinte, encontrou-o dormindo no chão, enrolado em um lençol.

— Sardothien – disse ele. Caleb murmurou algo e enterrou o rosto mais fundo no travesseiro. – Por que está dormindo no chão?

Ele abriu um olho. É claro que ele não mencionou quão diferente Caleb parecia agora que estava limpo.

Enquanto se levantava, Caleb não se preocupou em esconder o corpo com o lençol. Os metros de tecido que chamavam de camiseta o cobriam bastante.

— A cama não estava confortável – respondeu, mas prontamente se esqueceu do capitão ao perceber a luz do sol.

Pura, fresca e morna luz do sol. Luz em que Caleb poderia se banhar todos os dias se conseguisse a liberdade, luz na qual afogar a escuridão infinita das minas. A luz se infiltrava pelas cortinas pesadas e manchava o cômodo com linhas espessas. Caleb esticou a mão com cautela.

O membro estava pálido, quase esquelético, mas havia algo ali, algo por trás dos ferimentos, dos cortes e das cicatrizes, que parecia belo e novo à luz da manhã.

Caleb correu até a janela e quase arrancou as cortinas ao abri-las para ver as montanhas cinzentas e a desolação de Endovier. Os guardas lá embaixo não olharam para o alto, e Caleb observou pasma o céu cinzento, as nuvens que se apressavam na direção do horizonte.

Eu não terei medo. Pela primeira vez em muito tempo as palavras soaram verdadeiras.Os lábios de Celaena se abriram em um sorriso. O capitão levantou uma sobrancelha, mas não disse nada.

Caleb estava alegre – radiante, na verdade – e sentiu o humor melhorar quando os servos prenderam-lhe as tranças na nuca e vestiram-no em roupas de montaria de qualidade surpreendente, que escondiam-lhe a silhueta terrivelmente magra. Ele adorava roupas – amava o toque da seda, do veludo, do cetim, da camurça e do chifon – e era fascinado pela elegância das costuras, pela perfeição intricada de uma superfície bordada. Quando finalmente vencesse a tal competição ridícula, estaria livre... poderia comprar todas as roupas que quisesse.

Caleb riu quando Chaol, irritado por ele estar há cinco minutos se admirando na frente do espelho, arrastou-o do quarto. O céu da manhã fez com que Caleb quisesse dançar e pular pelos salões até chegarem ao pátio principal. Mas ele hesitou ao ver as rochas cor de osso nos limites do complexo e os pequenos vultos entrando e saindo dos buracos escuros escavados nas montanhas.

O trabalho do dia já começara e continuaria sem Caleb depois da partida; os prisioneiros permaneceriam lá, abandonados àquele destino terrível. Com o estômago apertado, Caleb desviou o olhar dos trabalhadores e correu para acompanhar o capitão enquanto se aproximavam de uma caravana de cavalos perto da alta muralha.

De repente, latidos ecoaram, e três cães negros partiram do centro da caravana para encontrá-los. Eram todos esguios feito flechas – sem dúvida pertenciam aos canis do príncipe.

Caleb apoiou um joelho no chão, sentindo as feridas protestarem ao acariciar as cabeças dos cães e alisar o pelo suave dos animais. Eles lamberam os dedos e o rosto dele, as caudas batendo no chão feito chicotes.

Um par de botas negras parou diante Caleb, e os cães se acalmaram imediatamente, sentando-se. Caleb olhou para o alto e encontrou os olhos cor de safira do príncipe de Adarlan estudando seu rosto. Ele deu um leve sorriso.

— Estranho eles terem notado você – disse o príncipe, coçando a orelha de um dos cães. –Você deu comida a eles?

Caleb negou com um movimento de cabeça enquanto o capitão se aproximava pelas costas do assassino, tão perto que os joelhos dele roçaram as dobras da capa de veludo verde-escuro dele. Bastariam dois movimentos para desarmá-lo.

— Você gosta de cães? – perguntou o príncipe. Caleb assentiu. Por que já estava tão quente? – Será que serei agraciado com sua voz ou você está decidido a ficar em silêncio pelo resto da jornada?

— Acho que suas perguntas não mereceram uma resposta verbal — sua voz estava rouca.

Dorian fez uma mesura.

— Peço que me perdoe, gentil senhor! Quão terrível deve ser o esforço de responder uma pergunta! Da próxima vez, vou pensar em algo mais interessante para dizer.

Com isso, o príncipe se virou e se afastou, os cães o seguiam de perto.

Caleb fez uma careta ao se erguer e fechou ainda mais o rosto ao perceber que o capitão da guarda ria enquanto seguiam até o grupo que se aprontava para partir. No entanto, a vontade irresistível de arremessar alguém contra uma parede diminuiu quando lhe trouxeram uma égua malhada.

Caleb montou. O céu ficou mais perto, espraiando-se no infinito sobre sua cabeça, por terras distantes das quais ele jamais ouvira falar. Caleb agarrou a cabeça da sela. Estava mesmo indo embora de Endovier. Todos aqueles meses sem esperança, as noites gélidas...agora no passado. Ele inspirou profundamente. Sabia – apenas sabia – que se tentasse, conseguiria voar da sela. Mas então sentiu o aperto dos grilhões nos braços.

Era Chaol, algemando seus pulsos enfaixados. Uma longa corrente ia até o cavalo dele e desaparecia sob as capangas amarradas à sela. Ele montou o garanhão negro, e Caleb cogitou por um instante pular do cavalo e usar a corrente para enforcá-lo na árvore mais próxima.

O grupo era numeroso, vinte pessoas no total. Atrás de dois guardas portando a flâmula imperial seguiam o príncipe e o duque Perrington. Depois, um grupo de seis guardas reais, entediantes e desinteressantes como mingau. Mas, ainda assim, tinham sido treinados para protegê-lo – dele. Caleb bateu com as correntes na sela e olhou para Chaol. Ele não reagiu.

O sol já estava mais alto no céu. Após uma última inspeção dos suprimentos, eles partiram. Com a maior parte dos escravos trabalhando nas minas e o restante dentro dos precários barracões de refino, o pátio gigante estava quase deserto. A muralha assomou subitamente, e o sangue de Caleb pulsou forte nas veias. A última vez em que estivera tão perto assim...

Um chicote estalou, seguido de um grito. Caleb olhou para trás, para além dos guardas e da carroça de suprimentos, na direção do pátio quase vazio. Nenhum daqueles escravos sairia dali, nem depois de mortos. A cada semana, cavavam novas sepulturas coletivas atrás dos barracões de refino. E a cada semana, essas sepulturas se enchiam.

Ele se lembrou das três grandes cicatrizes nas costas. Mesmo se conquistasse a liberdade... mesmo se conseguisse viver em paz em algum lugar... as cicatrizes sempre alembrariam do que suportara. E que embora fosse livre, outros não eram.

Caleb olhou à frente para expulsar aqueles pensamentos da mente enquanto o grupo entrava na passagem da muralha. O interior era denso, quase enfumaçado, e úmido. Os sons dos cavalos ecoavam como trovões. Os portões de ferro se abriram, e ele vislumbrou o nome amaldiçoado da mina, que então se dividiu em dois, afastando-se para dar-lhes passagem. Um piscar de olhos e os portões se fecharam, rangendo. Caleb tinha saído.

Mexeu as mãos atadas, vendo as correntes balançando e batendo entre ele e o capitão da guarda. A corrente estava atada à sela dele, a qual estava afivelada ao cavalo, o qual, quando parassem, poderia ser desselado sutilmente, apenas o bastante para que um puxão forte de Caleb arrancasse a sela do animal, lançando o capitão ao solo, então ele...

Caleb sentiu que o capitão Westfall o observava. Ele o encarava com o cenho franzido e os lábios apertados, e ele deu de ombros inocentemente, largando a corrente.

À medida que a manhã avançava, o azul do céu ficava mais intenso e quase não havia nuvens. Seguindo pela trilha da floresta, eles passaram rapidamente dos ermos montanhosos de Endovier para o interior mais agradável.

Pelo meio da manhã, já tinham alcançado a floresta de Carvalhal, a qual cercava Endovier e servia como divisão entre os países "civilizados" do leste e as terras não mapeadas a oeste.

As lendas ainda falavam das pessoas estranhas e perigosas que a habitavam, os cruéis e sanguinários descendentes do decaído Reino das Bruxas. Uma vez Caleb conhecera uma jovem daquela terra amaldiçoada e, embora tivesse se revelado realmente cruel e sanguinária, ainda era apenas uma humana. E sangrara como humana.

Depois de horas de silêncio, Caleb voltou-se para Chaol.

— Dizem que quando o rei terminar essa guerra contra Wendlyn, ele irá colonizar o oeste.

Caleb falou em tom casual, mas esperava uma confirmação ou uma negativa. Quanto mais soubesse da situação atual e das ações do rei, melhor. O capitão a avaliou de cima abaixo, franziu o cenho e desviou o olhar.

— Eu concordo – disse o assassino, suspirando alto. – O destino daquelas planícies vazias e amplas daquelas regiões montanhosas miseráveis também me parece bastante sem graça.

O maxilar do capitão se retesou quando ele trincou os dentes.

— Você pretende me ignorar pra sempre?

O capitão Westfall ergueu as sobrancelhas.

— Eu não sabia que estava ignorando você.

Caleb fez um biquinho e conteve a irritação. Não o satisfaria.

— Quantos anos você tem?

— Vinte e dois.

— Que jovem! – Caleb piscou os cílios, esperando alguma reação (lembrando que ele tem algumas características femininas kkk). – Então você subiu de posição em pouco tempo...?

O capitão assentiu.

— E qual a sua idade?

— Dezoito – Mas o capitão não replicou. – Eu sei – continuou ele –, é impressionante eu ter realizado tanta coisa tão cedo.

— O crime não é uma realização, Sardothien.

— Sim, mas se tornar o assassino mais famoso do mundo é! – Ele não respondeu. – Pode me perguntar como eu consegui, se quiser.

— Conseguiu o quê?

— Ficar tão talentoso e famoso tão cedo.

— Não quero saber.

Não era o que Caleb queria ouvir.

— Você não é nada gentil – respondeu ele, entredentes. Caleb teria de tentar com mais afinco se quisesse irritá-lo.

— Você é um criminoso. Eu sou o capitão da Guarda Real. Não tenho obrigação de conversar com você nem de demonstrar cortesia. Agradeça por não o termos deixado preso dentro da carroça.

— Bom, aposto que conversar com você deve ser desagradável mesmo quando você demonstra cortesia aos outros. – O capitão não respondeu, e Caleb se sentiu um pouco tolo. Alguns minutos se passaram. – Você e o príncipe herdeiro são amigos íntimos?

— Minha vida pessoal não é da sua conta.

Caleb estalou a língua.

— O quão bem-nascido você é?

— Bem o suficiente. – O queixo do capitão se levantou quase imperceptivelmente.

— Duque?

— Não.

— Lorde? – Ele não respondeu, e Caleb sorriu lentamente. – Lorde Chaol Westfall. – Ele se abanou com a mão. – As damas da corte devem desmaiar quando você passa!

— Não me chame assim. Não recebi o título de lorde – respondeu ele.

— Você tem um irmão mais velho?

— Não.

— Então por que não usa o título? – Novamente, nenhuma resposta. Caleb sabia que era melhor parar de bisbilhotar, mas não conseguia. – Algum escândalo? Direito de nascença contestado? Em que tipo de intriga você se meteu?

O capitão apertou tanto os lábios, que ficaram brancos.

— Você acha que...

— Será que eu precisarei amordaçá-lo ou você vai conseguir ficar quieto sem minha ajuda? – Ele olhou para a frente, na direção do príncipe herdeiro, com uma expressão impassível...

— Você é casado? – Caleb conteve o riso ao ver que o capitão fizera outra careta quando o ouviu falar novamente.

— Não.

Caleb cutucou as unhas.

— Eu também não. – As narinas de Westfall se dilataram. – Que idade você tinha quando virou capitão da guarda?

Ele mexeu nas rédeas e respondeu:

— Vinte.

O grupo parou em uma clareira, e os soldados apearam. Caleb encarou Chaol, que desmontou.

— Por que paramos?

Chaol soltou a corrente da sela e deu um puxão firme, fazendo sinal para que Caleb descesse da montaria.

— Hora do almoço – respondeu.

Notas finais
Esse é o cap de hoje :) espero que tenham gostado Comentem o que acharam please... Meu gato e eu estamos curiosos hihihihi Bjs na bunda e até segunda... to brincando kkkkk tenham uma ótima semana