Notas iniciais
Boa leitura

Os olhos do príncipe brilharam com fascínio pela ousadia de Caleb e detiveram-se demoradamente no corpo do assassino. O mesmo podia rasgar o rosto do herdeiro com as unhas por olhá-lo daquela forma, mas o fato de o príncipe sequer se incomodar em olhar quando Caleb estava tão imundo... Um sorriso se abriu lentamente no rosto dele.

O príncipe cruzou as longas pernas.

— Deixe-nos – ordenou ele aos guardas. – Chaol, você fica onde está.

Caleb se aproximou enquanto os guardas saíam, ruidosamente, e fechavam a porta. Decisão tola, muito tola. Mas o rosto de Chaol era indecifrável. Ele não podia realmente acreditar que conseguiria impedi-lo agora, caso Caleb tentasse escapar! Ele endireitou a coluna. Que plano era aquele que os deixava tão irresponsáveis?

O príncipe soltou uma gargalhada.

— Você não acha arriscado ser tão ousado na minha presença quando sua liberdade está em jogo?

De todas as coisas que poderia ter dito, isso era o que ele menos esperava.

— Minha liberdade? – O som da palavra o fez imaginar uma terra de pinheiros e neve, de penhascos ensolarados e mares espumantes, uma terra onde a luz sumia nos recessos e elevações da grama verde – uma terra que Caleb já esquecera.

— Sim, sua liberdade. Eu sugiro, então, senhor Sardothien, que você controle a arrogância antes que acabe voltando para as minas. – O príncipe descruzou as pernas. – Se bem que talvez sua atitude seja útil. Não vou fingir que o reino de meu pai foi construído com confiança e compreensão. Mas você já deve saber disso. – Caleb fechou as mãos em punhos enquanto esperava que ele continuasse. O olhar do monarca cruzou com o dele, alerta, como se o testasse. – Meu pai enfiou na cabeça que precisa de um campeão.

Caleb levou um segundo delicioso para entender o que ele queria dizer, então jogou a cabeça para trás e riu.

— Seu pai quer que eu seja o campeão? O que... não me diga que ele deu um jeito de eliminar todas as almas nobres lá fora! Certamente ainda existe um cavalheiro cortês, um senhor de coração determinado e coragem.

— Cuidado com o que fala – avisou Chaol, postado ao lado dele.

— E quanto a você, hein? – disse Caleb, levantando as sobrancelhas para o capitão. Ah,era engraçado demais. Ele, o campeão do rei! – Nosso querido rei não acha você bom o suficiente?O capitão levou a mão à espada.

— Fique quieto para escutar o que Sua Majestade tem a dizer.

Caleb se virou de volta para o príncipe.

— Pois bem?

Dorian se recostou no trono.

— Meu pai precisa de alguém que ajude o império, alguém que o ajude a lidar com pessoas difíceis.

— Quer dizer que precisa de um lacaio para fazer o trabalho sujo.

— Se prefere ser direto, sim – disse o príncipe. – O campeão do rei deve silenciar os oponentes.

— Deixá-los como túmulos – completou ele, com doçura.

Um sorriso pairou na face de Dorian, mas ele conseguiu se conter.

— Sim.

Trabalhar para o rei de Adarlan como servo real. Caleb levantou o queixo. Matar em nome dele, ser mais um dente na boca do monstro que já consumira metade de Erilea...

— E se eu aceitar?

— Então, depois de seis anos, ele devolverá sua liberdade.

— Seis anos! – Mas a palavra "liberdade" ecoou na mente de Caleb mais uma vez.

— Se recusar – disse Dorian, antecipando a próxima pergunta dele –, você permanecerá em Endovier. – Os olhos cor de safira do príncipe endureceram, e Caleb engoliu em seco. Ele não precisou acrescentar: E morrerá aqui.

Seis anos fazendo o papel de arma nas mãos de um rei corrupto... ou uma vida inteira em Endovier.

— Porém – advertiu o príncipe –, há uma condição.

Caleb manteve o rosto neutro enquanto ele brincava com um anel.

— O cargo não está sendo oferecido a você. Ainda não. Meu pai quer se divertir um pouco antes. Ele está organizando uma competição e convidou 23 integrantes do conselho para que cada um patrocine um candidato a campeão, para treinar no castelo de vidro e, por último,competir em um duelo. Se por acaso ganhar – disse ele, com um meio-sorriso –, será nomeado oficialmente o Assassino de Adarlan.

Caleb não retribuiu o sorriso.

— Quem são meus adversários, exatamente?

Vendo a expressão de Caleb, o sorriso do príncipe desapareceu devagar.

— Ladrões e assassinos e guerreiros de toda Erilea. – Ele abriu a boca para retrucar, mas o príncipe o interrompeu: – Se ganhar, se provar que é habilidoso e digno de confiança, meu pai jurou devolver sua liberdade. E, enquanto for o campeão, receberá um salário bem razoável.

Ele mal prestou atenção nas últimas palavras. Uma competição! Contra uns desconhecidos sabe-se lá de onde! E assassinos!

— Que outros assassinos? – indagou ele.

— Nunca ouvi falar de nenhum. Com certeza, ninguém tão famoso quanto você. E, aliás, você não competirá como Caleb Sardothien.

— Quê?

— Você competirá sob um nome falso. Presumo que não soube do que aconteceu depois de seu julgamento.

— É difícil para um escravo das minas escutar notícias do mundo lá fora.

Dorian deu uma risada, balançando a cabeça.

— Ninguém sabe que Caleb Sardothien é só um adolescente.. todos achavam que você fosse bem mais velho.

— O quê? – repetiu Caleb, sentindo o rosto ficar vermelho. – Como isso é possível? –Ele deveria estar orgulhoso por ter protegido aquele segredo do resto do mundo, mas...

— Você manteve uma identidade secreta durante todos os anos em que esteve solto, matando. Depois do julgamento, meu pai achou que seria mais... sábio não informar Erilea da sua verdadeira identidade. Ele prefere que as coisas continuem como estão. Que diriam nossos inimigos se soubessem que estávamos todos morrendo de medo de uma menininha?

— Então eu estive trabalhando nesse lugar miserável esse tempo todo por um nome e um título que nem mesmo me pertencem? Quem o povo de Erilea acha que é realmente o Assassino de Adarlan?

— Não sei e pouco me importa. O que eu sei é que você era o melhor e que as pessoas ainda cochicham quando mencionam seu nome. – O príncipe encarou Caleb. – Se você aceitar lutar para mim, se for meu campeão durante os meses da competição, garanto que você estará livre depois de cinco anos.

Embora ele tentasse esconder, Caleb percebeu a tensão no corpo do príncipe. Ele queria muito que ele concordasse. Precisava tanto daquilo que estava disposto a negociar com Caleb. Os olhos do assassino começaram a brilhar.

— Como assim, "era o melhor"?

— Você permaneceu em Endovier por um ano. Quem sabe o que ainda é capaz de fazer?

— Ah, sou capaz de bastante coisa, pode ter certeza – respondeu ele, mexendo nas unhas maltratadas. Caleb tentou não sentir nojo da sujeira acumulada sob elas. Quando fora a última vez que tivera oportunidade de limpar as mãos?

— Veremos – replicou Dorian. – Você terá todos os detalhes da competição quando chegarmos ao Forte da Fenda.

— Essa competição parece desnecessária, apesar da diversão que vocês nobres terão apostando em nós. Por que não me contrata de uma vez?

— Como acabei de dizer, você precisa provar que é digno.

O assassino pousou uma das mãos no quadril, as correntes retiniram, ecoando pelo salão.

— Bem, acho que ser o Assassino de Adarlan já é prova mais do que suficiente.

— Sim – respondeu Chaol, e seus olhos cor de bronze brilharam. – Prova que você não passa de um criminoso e de que não devemos confiar em você com os negócios secretos do rei assim tão facilmente.

— Eu juro solenemente...

— Duvido muito que o rei daria valor à palavra do Assassino de Adarlan como juramento.

— Sim, mas eu não vejo por que tenho de passar pelo treinamento e pela competição. Quero dizer, eu devo estar um pouco... fora de forma, mas... o que mais esperava quando tenho de me virar com pedras e picaretas neste lugar? – Caleb lançou um olhar raivoso para Chaol.

Dorian franziu a testa.

— Então vai recusar a proposta?

— É claro que vou aceitar a proposta – disse ele, bruscamente. Os pulsos de Caleb roçavam nos grilhões com tanta força que seus olhos lacrimejaram. – Serei seu ridículo campeão se você concordar em me libertar em três anos, não cinco.

— Quatro.

— Muito bem – disse ele. – Está fechado. Posso estar trocando uma forma de escravidão pela outra, mas não sou bobo.

Ele poderia recuperar a liberdade. Liberdade. Caleb sentia o ar frio do mundo livre, a brisa que vinha das montanhas para levá-lo embora. Poderia viver bem longe do Forte da Fenda, a capital que um dia fora seu domínio.

— Espero que esteja certo – replicou Dorian. – E espero que sua reputação corresponda à realidade. Prevejo uma vitória e não ficarei satisfeito se você me fizer de tolo.

— E se eu perder?

Os olhos do príncipe perderam o brilho, e ele respondeu:

— Será mandado de volta para cá, para terminar de cumprir sua sentença.

Os belos devaneios de Caleb se dissolveram como areia entre os dedos.

— Então posso muito bem saltar da janela. Um ano neste lugar já me deixou assim, imagine o que aconteceria se voltasse. Eu morreria no segundo ano. – Ele levantou o queixo. – Sua oferta parece justa.

— Justa, sim – disse Dorian, e acenou para Chaol. – Leve-o para o quarto e limpe-o. – Ele encarou Caleb. – Partimos para o Forte da Fenda amanhã de manhã. Não me decepcione, Sardothien.

Era besteira, claro. Quão difícil seria para ele superar os competidores em inteligência e habilidade e então acabar com eles? Caleb só não sorriu porque sabia que, se o fizesse, aquilo o abriria para um universo de esperanças que há muito se fechara. Mesmo assim, sentiu vontade de pegar o príncipe e sair dançando pelo salão. Tentou pensar em música, tentou pensar numa canção de comemoração, mas só conseguiu se lembrar de um único verso de uma das amargas canções de trabalho de Eyllwe, uma canção profunda e lenta como mel derramando-se de uma jarra. "E então, finalmente, voltar para casa..."

Caleb nem se deu conta quando o capitão o levou embora, nem reparou enquanto atravessavam corredor atrás de corredor.

Sim, ele iria – para o Forte da Fenda ou qualquer lugar, até atravessaria os portais de Wyrd a caminho do próprio inferno, se isso significasse liberdade.

Afinal, não é à toa que você é o Assassino de Adarlan.

Notas finais
:D