Trono De Sangue

32 Capítulo 32 ARMADILHA!


Notas iniciais
Oi, galera amada!!! Após um longo tempo sem atualizar, aqui estou eu, encaminhando a fic para o final e tranquilizando aqueles que a acompanham. Estejam certos que ela será finalizada e, desde já, agradeço a paciência, o carinho e a presença!!!

Radamanthys acordou sozinho, a garganta seca e arranhando. Ele sonhara tudo aquilo? A dor no corpo dizia que não, assim como aquele sentimento humilhante de sentir-se usado como um objeto qualquer. No entanto, lado a lado com a sensação, havia um propósito, uma devoção inexplicável que o fazia permanecer fiel à Hades.

Valentine entrou com uma tigela contendo uma espécie de mingau, algumas frutas e uma caneca de cerveja escura. Não disse nada, apenas colocou a bandeja próxima da cama e olhou, discretamente para o corpo nu e cheio de marcas de seu general. Quando se preparava para deixar o aposento, Radamanthys falou baixo e rouco:

– Obrigado...

O jovem tenente continuou silencioso, respeitando o momento do homem que amava. Deixou o quarto e, quando saía, viu a figura imponente de Pandora. Ela não mais parecia a mulher frágil que se escondia sob intrigas e manipulações. Agora, ela parecia uma rainha plenamente consciente de seu poder e quando o olhar dela encontrou o seu, Valentine baixou os olhos e saudou-a, sentindo no peito uma opressão e raiva por saber que Radamanthys estava perdido para si...

Pandora olhou para o jovem tenente adivinhando-lhe os pensamentos. Quase sorriu ao ver o constrangimento nos olhos cinzentos. Ele a odiava, assim como muitos outros e essa constatação não era mais novidade para si. Antes, desejava o amor, aquela emoção acolhedora que recebera de Aioros e retribuíra com traição e morte. Agora se alimentava da dor e da morte, afundando-se nas sombras as quais abraçara junto à Hades.

Fechou os olhos, antes de abrir a porta pesada e encontrar o olhar profundo e dolorido de Radamanthys.

– Agora você sabe... – disse ela.

– Sim, eu sei. – respondeu o general.

Pandora aproximou-se da cama e tocou o peito nu de Radamanthys. As unhas longas e afiadas provocaram um arrepio na pele do general. Ela intensificou o toque, até arranhá-lo, deixando rastros avermelhados, enquanto ele a encarava sem desviar os olhos.

– Estamos ligados, general. E quando for o fim, você saberá e poderá fazer sua escolha.

Radamanthys abriu a boca para falar, porém Pandora o impediu, beijando-o nos lábios.

– Descanse. – disse ela. – Vai precisar de todas as suas forças.

Ditas as palavras, ela se retirou, deixando o general com o corpo em brasa e uma angústia sombria que parecia ter se instalado, para sempre, em seu coração.

Olhando em direção à janela, Radamanthys viu um pássaro negro pousar no parapeito. As asas escuras e brilhantes se abriram e ele grasnou alto, fitando-o como se quisesse dizer algo. Ele tornou a fechar os olhos e, quando os abriu, o pássaro havia desaparecido. É nisso que me tornei... Um arauto... Um arauto das sombras e do caos. O pensamento reverberou em sua mente e foi preenchendo espaços dentro de si até fazer sumir as suas ideias e vontades.

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Shaka sentiu a brisa marinha e fechou os olhos. A Fortaleza de Berkehell mostrou-se imponente e ele olhou para Aiolia que permanecia alerta e ereto sobre a sua montaria.

Deixou que sua mente viajasse além e percebeu que ele estava lá, vigilante e sério, como se fosse muito mais velho do que era.

Ikki...

Pronunciar em pensamento, o nome do amado pareceu devolver-lhe a alegria e o frescor. Ikki o instigava a sentir coisas que jamais ousara permitir-se. Uma delas era o prazer. O prazer do toque, de um olhar, de um beijo...

Ainda sentia nos lábios, a voracidade da boca ardente tomando a sua, as carícias sôfregas que marcaram a sua pele e enterneceram o seu coração. Sem querer, levou a mão aos lábios e os tocou, enquanto sorria.

Ikki... Como é bom amá-lo, mesmo que não haja futuro para nós dois.

As silhuetas que se aproximavam não podiam ser identificadas, mas para Ikki, a certeza de não serem inimigos era tão palpável que ele mesmo incumbiu-se de deixar a torre de observação e descer até os portões com uma ordem bem clara:

– Abram os portões! – gritou ele.

O ranger da madeira arrastando, se fez ouvir no pátio silencioso, enquanto o senhor de Irmied e o sucessor legítimo adentravam a fortaleza. Ikki focou na figura altiva que sempre se movia com leveza e graça. Não importava a situação, Shaka mantinha uma postura digna de um rei.

Shaka...

O nome do senhor de Irmied escapou baixinho dos lábios do moreno, enquanto ele apressava o passo pra ir ao encontro dos dois.

Os olhares se encontraram por um breve momento, daqueles de tirar o fôlego... Shaka sorriu com os olhos azuis fluindo em saudade e Ikki retribuiu com seu olhar tão profundo quanto os mares bravios de Berkehell. A conexão que havia entre os dois só precisou ser lembrada para que ambos os corações pulsassem como se quisessem romper o peito de ambos.

– Shaka! – disse Ikki sorrindo e se aproximando no instante em que o loiro desmontava.

– Ikki, que bom vê-lo!

Ikki estava tão feliz que só após falar com Shaka, deu-se conta que Aiolia também estava ali.

– Perdão, meu senhor... Eu não esperava... – disse Ikki ao olhar para Aiolia.

– Sem desculpas, Ikki. Eu sei muito bem o que é isso... – disse ele olhando para os dois com um sorriso cúmplice. – Sei como é reencontrarmos a quem amamos. Seu irmão deve estar descansando, vi como ficou o campo de batalha.

– Milo e o senhor de Irġiel kiesaħ já se recolheram, mas vou chamá-los. – disse Ikki.

– Não, eles merecem descansar. Anunciarei minha presença amanhã. – falou Aiolia.

– Ajuda-nos com a acomodação, Ikki? – perguntou Shaka.

– M-Mas é claro! Venham comigo. – respondeu o moreno.

Com alegria, Ikki os conduziu para o interior da fortaleza, pedindo ajuda das mulheres para preparar um banho para os novos hóspedes. No grande salão, alguns ainda comemoravam, um tanto bêbados e sonolentos, quando os três passaram por eles em direção às escadarias.

Aiolia foi levado a um aposento por Halona que não cabia em si de contente por poder servir o legítimo soberano.

– O que precisar, pode me chamar, meu senhor! – disse ela sorrindo.

– Obrigado. – respondeu Aiolia e trancou-se para banhar-se e comer.

Ao ser levado ao outro aposento, Shaka foi quase empurrado para dentro dele. Ikki fechou a porta e tomou o rosto de Shaka entre as mãos, beijando-o com força. O senhor de Irmied segurou a respiração, sentindo-a misturar-se à de Ikki, enquanto o moreno aprofundava o beijo, fazendo-o responder da mesma forma.

Os lábios de Ikki beijaram todo o pescoço de Shaka até alcançar, novamente a boca trêmula, fazendo com que ambos experimentassem uma excitação atroz...

– Pelo deus Sombrio... Não pensei que o teria em meus braços tão cedo. – disse Ikki desfrutando da boca, do pescoço, da curvatura do ombro de Shaka.

Shaka sorriu, tímido e afogueado com o prazer que sentia e a surpresa de perceber que Ikki o fazia reagir em níveis tão profundos que ele se desconhecia ao reagir daquela forma. Bastava sentir o calor da pele de Ikki para que a plenitude se fizesse presente dentro de si.

– Também senti a sua falta... muito!

Os dois encostaram as testas, a respiração ofegante numa ardente comunhão. As carícias foram se tornando mais íntimas e enlouquecedoras. Shaka arfou alto quando Ikki levou a mão até a sua ereção e puxou-o mais para junto de si, cobrindo a sua boca com beijos, abafando seus gemidos e provocando-o, ainda mais com a língua.

As roupas acabaram ao chão, a cama larga recebeu os corpos nus e desejosos, um do outro...

Shaka sentia as costas musculosas sob os seus dedos e a boca que o beijava profundamente com uma fome sensual e selvagem. Com Ikki, ele se rendia à voragem que incendiava todas as células do seu corpo. A língua do amado, como uma serpente furiosa e ardente vasculhando todos os recônditos não só da boca, mas do corpo por inteiro, insinuava-se o fazendo gemer e ofegar, estreitando-o mais junto de si.

Ikki explorava o corpo do amante com avidez e saudade, sentindo-se terrivelmente excitado. Os olhos azuis estavam cheios de amor, fazendo Shaka deliciar-se com os sons eróticos que ele emitia ao morder e lamber seu corpo em lugares inusitados como as mãos, os dedos, as panturrilhas, os pés...

As pupilas dilatadas, o olhar tempestuoso, a respiração ofegante enquanto roçava a boca em cada centímetro de sua pele, deixando um rastro de saliva quente. Tudo era novidade e, ao mesmo tempo, parecia tão antigo para Ikki que sentia e dava prazer de uma forma que jamais houvera vivenciado.

Desde o momento em que seu corpo nu unira-se ao de Shaka, ele fora acometido por uma febre voraz, que o levava a desejar o amante com uma loucura nunca sentida em seus relacionamentos.

Naquele instante, seu corpo ansiava e movia-se tomado pelo prazer estonteante como se sua vida se tornasse mais verdadeira ao estar com ele...!

–Você é tão quente...! — ele sussurrou levando à boca o membro do amado, tomando-o profundamente, até a garganta.

Movendo-se com maestria, Ikki roçava os dentes num movimento de vai-e-vem, arrancando gemidos roucos de Shaka que tremia frente ao ato tão perfeito.

Shaka se contorcia, o corpo vivenciando prazer e, o coração sendo inundado por um amor tão intenso que ele sentia-se conectado com a realidade como nunca estivera.

Então era isso que era o amor? Um vínculo inexorável e profundo com tudo, o verdadeiro poder capaz de fazê-lo sentir-se parte de um mundo real, com pessoas reais e não apenas a responsabilidade que tinha como senhor de clã.

Suas mãos mergulharam entre os cabelos negros de Ikki e o puxaram de encontro ao corpo, enquanto o sentia engoli-lo, naquele ato prazeroso. Sorrindo, malicioso, Ikki parou o movimento, vendo Shaka gemer e arquear o corpo, ansiando para que ele continuasse...

Gosta desse jeito? — ele perguntou com a voz alterada e o olhar faminto.

G-Gosto... Mas... desejo sentir você ...dentro de mim... — respondeu Shaka ardendo de desejo.

Ikki sorriu e se afastou por um momento, dedicando-se a acariciar as coxas de Shaka e mordiscar-lhe a virilha, arrancando gemidos mais longos e desesperados.

Adoro as suas coxas... — falou ele, enquanto as apertava com as mãos grandes, deixando as marcas dos dedos.

Quando viu que o amante arfava e o apertava com força, deslizou o corpo, lentamente sobre ele, roçando a ereção túrgida entre as pernas, o ventre e o falo que pulsava e gotejava de tanta excitação.

Então, sua boca se fechou sobre os lábios entreabertos, num beijo molhado, a língua passeando sobre os lábios arfantes, os dentes roçando e mordiscando, as mãos acariciando os mamilos...

– I-Ikki...! — gemeu Shaka, quase implorando.

Olhando-o, entregue e em desespero, Ikki afastou as pernas de Shaka, até que todo o seu corpo estivesse intimamente colado ao dele. Seus dedos, umedecidos com a própria saliva, mergulharam dentro dele e começaram a acariciá-lo, preparando-o para a penetração.

Quando sentiu Shaka acelerar a respiração, posicionou o falo túrgido no canal e mergulhou fundo, soltando um gemido rouco e arrancando um gemido longo, de puro êxtase, do amante.

Excitados, os dois começaram a mover-se num ritmo intenso e devastador. Suor, saliva, o olhares que se encontravam em êxtase...

Shaka enlaçou as pernas em torno das costas de Ikki, aprofundando-o ainda mais dentro de si, sentindo um vigor delicioso a cada estocada e começando a chegar ao ponto em que o corpo tremia e, ao mesmo tempo, fundia-se ao do amante e ele já não sabia onde estava...

Ikki entrava e saía devorando-o, possuindo-o, fazendo-o estremecer antes de enterrar-se, novamente... Uma onda de emoção, mesclada com um prazer intenso e devastador insinuava-se por todo o seu corpo e ele sentiu Ikki enterrar o rosto em seu pescoço e cerrar os dentes, gemendo o seu nome e contraindo o corpo.

Então, seu corpo também convulsionou e um grito irrompeu dentro do quarto, saindo, ao mesmo tempo, das duas bocas que agora arfavam, enquanto os corpos permaneciam unidos.

Ao derramar-se dentro de Shaka, estocando as últimas gotas de seu prazer, Ikki olhou-o nos olhos e disse com a voz embargada:

Céus, como eu te amo!

Sorrindo e trêmulo, Shaka tocou o rosto do moreno com uma doçura inédita e olhando-o nos olhos, falou num sussurro rouco:

Também te amo... Jamais pensei que fosse possível amar, tanto, uma pessoa!

Os dois se olharam suados, afogueados e plenos. O coração de ambos vibrava e a respiração alterada ainda movia os corpos.

Embevecido pela ternura expressa no olhar e nas carícias de Shaka, Ikki debruçou-se para beijar os lábios vermelhos que se abriram, novamente. Quando o beijo ficou mais intenso, Shaka sentiu algo duro pressionar-lhe o ventre...

– Ikki?

– Você me faz sentir assim... Sou louco por você, Shaka... louco... – murmurou Ikki, enquanto tomava o corpo ardente do senhor de Irmied, mais uma vez.

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As horas passavam e a madrugada na fortaleza se tornava testemunha de outros amores e gemidos...

Shura ainda estava com seu tenente, a confissão de seus sentimentos entrelaçando-os em uma cumplicidade que, naquele espaço tempo, levou-os ao encontro, um do outro.

– Ele se foi há tanto tempo e ainda dói. — disse Shura baixinho – queria libertar-se daquele sofrimento e da culpa, mas a imagem de Aioros permanecia em sua mente e em seu coração, apesar do tempo passado.

Shiryu entendia a força daquele sentimento, pois ele também guardava um grande amor dentro de si. Shura jamais o amaria, mas naquela noite, faria tudo para amenizar aquela dor, nada mais sendo importante, em sua vida, do que fazer Shura sentir-se amado e protegido, antes da batalha.

– Eu sei... Mas permita que eu possa amenizar a sua dor, pelo menos essa noite, deixe-me ser eu a amá-lo. – disse Shiryu.

Shura encarou-o, os olhos escurecidos de desejo do jovem tenente inundando-o, tragando-o para um contato que já fazia anos que não vivenciava...

– Shiryu... Eu...

– Eu sei, general... Não se preocupe, apenas sinta. – falou o tenente, levando os lábios para junto da boca entreaberta.

Shiryu puxou Shura para si, beijando-o como nunca beijara ninguém. O amor contido explodindo, cobrindo aquele corpo de sensações nunca vivenciadas, entregando-se por inteiro, permitindo-se amar com plenitude um homem que nunca seria seu.

Nenhum dos dois soube como as roupas foram tiradas e os corpos unidos, nem como as bocas se exploravam quentes e libidinosas como se aquele beijo fosse o último. Lambiam-se com sofreguidão, embriagados pelo gosto da pele um do outro, enlouquecidos pelo desejo que os guiava por caminhos tão desconhecidos, quanto prazerosos.

Membros intumescidos tocando-se, sendo vorazmente sugados, gotejando volúpia antes de comungarem dentro um do outro. Shura puxou Shiryu para o seu colo, ofegando, grudando seus lábios nos dele e olhando aqueles olhos verdes profundos e nublados de seriedade, mas também de tesão.

Shura acariciou a ereção do outro, enquanto o fazia descer sobre o seu membro, afundando-se no corpo dele. Ambos abraçavam o scríbe, na roda incessante da vida, sem passado e sem futuro, apenas o presente permeado pela paixão e desejo.

Sua língua acariciava os lábios de Shiryu, colhendo gemidos e o seu nome, repetido em sussurros entrecortados. Moviam-se cadenciados de um jeito selvagem, desprezando a dor e chamando o prazer que veio forte, intenso fazendo o tenente gritar, derramando-se em Shura e fazendo o general inundá-lo com seu gozo quente, grunhindo rouco, sem amarras e sem controle.

– General... — sussurrou Shiryu com os olhos fechados e doloridos, apoiando a testa no peito do amante.

– Shiryu... Nós dois...

– Por favor, não precisa dizer nada... Foi uma escolha minha.

Shura sentia os olhos pesados, mas ainda assim encarou Shiryu bem dentro dos olhos. Acariciou o rosto jovem e afogueado.

– Eu preciso... preciso dizer...obrigado. – sussurrou ele rente aos lábios do jovem.

Shiryu achava que podia conter seus sentimentos, mas lágrimas encheram os seus olhos com o olhar intenso de Shura. Dois sentimentos coexistiam dentro dele, o encontro e a perda. Sentia-se, estranhamente livre de um grilhão invisível que carregara, até então. Sorriu para Shura e o viu sorrir de volta, algo raro e tão especial que se deitou com ele, apenas sentindo o corpo acalmar-se e a respiração voltar ao normal.

Os dois permaneceram juntos e em silêncio. As palavras foram dispensadas, o ato tornando-se a única linguagem possível. Shura fechou os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, dormiu, profundamente, sentindo o conforto de ter calor de Shiryu junto a si.

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Aiolia observava, mesmo na escuridão, a paisagem devastada, o cheiro ocre de fumaça e sangue. Sua mente se voltava para o passado, para o momento em que tudo havia começado.Aioros estava morto e, de repente, ele se tornara o sucessor, aquele que deveria continuar o reinado de prosperidade e paz.

Ah, Aioros... serei eu digno de governar em seu lugar?

As indagações se perdiam e se somavam ao cenário onde Aiolia se encontrava. Pensou em Mu e no quanto ele acreditava em sua força. O amor o tornara mais maduro em relação aos seus desejos, mas ao mesmo tempo, o fazia ansiar por outra vida, uma vida onde a única responsabilidade fosse para consigo e com seu amado.

Hyoga aproximou-se dele, reconhecendo a aura magnética que possuíam os herdeiros do leão. Sentiu a angústia do sucessor e reconheceu a mesma dor em si. O amadurecimento precoce, a árdua tarefa de colocar-se à serviço e acima das próprias necessidades e vontades.

– Eu o saúdo, meu senhor, sou Hyoga, do clã Akkwarju – disse ele.

O jovem sorriu e estendeu a mão.

– Muito prazer, Máistir. Não pensei que alguém, além da guarda estivesse acordado há esta hora.

– Não costumo dormir muito.

– Eu também não. E creio que daqui para frente, o sono será uma dádiva da qual não serei um apreciador. – disse Aiolia.

– Está nervoso?

Angustiado, seria o mais correto. Não posso mais permitir que clãs sejam dizimados para proteger-me. Sou eu quem deve protegê-los. No entanto, eu não tenho a força e o carisma do meu falecido irmão.

– Será? Ao me aproximar do senhor, senti a aura indomável do leão. Aioros era um soberano da paz, enquanto o senhor representa a força do guerreiro. Cada um de nós nasce com um dom e o seu se revelará no campo de batalha.

Aiolia olhou para Hyoga e seu coração experimentou reconhecimento e paz. Shaka já o instruíra em muitas coisas, mas ao ouvir as palavras de Hyoga, Aiolia vivenciou uma clareza que não vinha da razão e sim de dentro de si.

– Isso é uma previsão,Máistir?

– Isso é o seu potencial, meu senhor. Se irá acontecer ou não, vai depender somente da sua decisão. Lembre-se, somos totalmente responsáveis por nossas escolhas ou pela falta delas. Agora, se me dá licença, irei dormir um pouco e aconselho que também o faça.

Hyoga afastou-se, deixando Aiolia com várias indagações.

O jovem soberano sempre se perguntara qual a sua missão, qual o seu talento e as respostas lhe vinham diluídas no medo que tinha de não ser bom o suficiente. No entanto, a fala do jovem Máistir penetrara fundo em suas inquietações, trazendo uma nova luz... A força do guerreiro. A frase ficou ecoando em sua mente, até que ele resolveu deitar-se e descansar.

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Hilda olhava a paisagem gélida, iluminadas por tochas, quando sentiu o ventre mexer. Tocou-o e sorriu. O bebê que carregava já dava os primeiros sinais de vida. É bem filho daquele lobo atrevido, mesmo! Disse para si mesma.

Fenrir havia ido até as fronteiras, como Kamus costumava fazer. Mesmo protegidos pela barreira mística construída por Hyoga, ainda assim era necessário manter-se vigilante.Yohma e Seiya estavam com ele, enquanto o restante dos homens já haviam encerrado as atividades básicas de caça, organização territorial e serviços de construção.

Saori aproximou-se de Hilda. Após anos de implicância, as duas agora se davam, razoavelmente, bem. A jovem nobre havia amadurecido e tinha outra postura dentro do clã.

– Acha que essa guerra vai demorar muito? – perguntou ela à Hilda.

– Espero que não. – respondeu Hilda com um suspiro.

– Você e Fenrir vão casar?

– Vamos, assim como você e Seiya, não é?

– Não é tão fácil assim. Fui instruída a unir-me ao senhor do clã.

– Que jamais se unirá a você. O senhor Kamus achou o amor nos braços do senhor de Berkehell e, portanto, se negará a casar com uma mulher.

– É... e ele nem vai precisar deixar descendentes, já que o irmão terá um filho. Você deu sorte, afinal. Fisgou o homem certo. Fenrir será o senhor de Irġiel kiesaħ. – disse Saori com tristeza na voz.

– Quer saber... Eu não me importo com nada disso. Antes, talvez. Agora só quero que essa guerra acabe e que eu possa criar meu filho em paz.

– Você ama mesmo o Fenrir?

– Sim, eu amo. E você ama o Seiya. Não permita que ele escape. Tem muitas mulheres de olho nele. Se eu fosse você, deixava de ser lesada e esnobe e o agarrava de uma vez.

– Eu sou uma donzela e tenho de me preservar.

Hilda franziu o cenho.

– Saori, com quem você pensa que está falando? Com uma criança de dois anos de idade? Sim, porque as de cinco já sabem o que você e Seiya vão fazer na Floresta negra!

Saori ficou vermelha.

– E-Eu... Nós... nunca fomos até o fim. Eu pretendo casar virgem.

– Pelo lobo negro... Acorde para a vida, menina tola! Não há nada errado em consumar aquilo que seu corpo e seu coração anseiam. Se continuar com essa besteira, vai perdê-lo para outra. – disse Hilda.

Saori ficou sem saber o que dizer. Fechou as mãos sobre as laterais do vestido e retirou-se da presença de Hilda. Correu pelo pátio amplo, até encontrar seu guardião. Tatsumi afiava a lâmina de sua espada num lento deslizar, quando ela chegou com o rosto corado.

– O que foi, minha senhora? – perguntou ele.

– Suas instruções... Elas... Bem, eu sei que fui destinada ao casamento com o senhor do clã, mas... Isso já não será mais possível. Ele jamais se casará comigo.

Tatsumi olhou-a e continuou a afiar a lâmina.

– Nada, além da morte, é definitivo, minha senhora.

– Você não está entendendo... Ele não quer e eu... também não! Chega de viver uma farsa, eu quero ser feliz, Tatsumi!

– E acredita que a sua felicidade está junto daquele rapaz espevitado e irritante... – murmurou ele.

Saori estremeceu ao dar-se conta que Tatsumi sabia.

– Seiya não é espevitado! Um pouco irritante, talvez. Mas, ele é um dos melhores guerreiros de Irġiel kiesaħ. E eu...Eu o amo!

– Bem, sou seu criado, embora aja como seu tutor. Seus pais me incumbiram de protegê-la, até o fim dos meus dias. A derradeira batalha irá começar logo e, mesmo estando protegidos aqui, creio que teremos de engrossar as fileiras contra o usurpador. Se deseja mesmo, unir-se a esse jovem, faça-o como manda a lei. Case-se com ele.

Saori sorriu e, num ímpeto, beijou o rosto endurecido do guerreiro.

– Obrigada! – disse ela e logo saiu correndo, novamente.

Tatsumi quase sorriu, porém continuou a afiar a lâmina, no silêncio reverente que lhe era característico.

Hilda aproximou-se dele.

– E então... deixou de guardar a menina como se fosse um cão raivoso? – disse ela rindo.

– As coisas mudam, não é mesmo? Se até uma cadela pode tornar-se a preferida de um senhor...

Hilda gargalhou alto.

– Verdade! Tome, achei que estava precisando para espantar o frio. – disse ela estendendo ao homem uma caneca de vinho quente.

Tatsumi também riu, agradecendo e aceitando a caneca.

Ele e Hilda continuavam a trocar farpas, mas a animosidade existente entre os dois já havia acabado. Ali, em meio as paisagens gélidas, a convivência e a iminência da guerra provocara uma transformação nas relações. Era preciso unir-se para evitar, não só a destruição de Irġiel kiesaħ, mas de toda Darneheim.

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A caverna, iluminada apenas pela pequena fogueira, parecia um útero para aqueles homens. Já fazia algum tempo que se reuniam ali para discutir estratégias e, com a movimentação do senhor de Irmied e do jovem sucessor, a situação pedia novos rumos.

– Shaka levou Aiolia para Berkehell. É lá que irão se concentrar os ataques de Hades. Vamos organizar as tropas e marchar para lá. – disse Dohko.

Regulus estava ao lado de Shion. Continuava debilitado, mas não havia mais resquícios da lothus negra em seu corpo e a lucidez retornara. No entanto, a culpa e o constrangimento se faziam presentes e ele pouco falava.

– Sente-se bem, meu senhor? – perguntou Shion estendendo-lhe uma caneca com vinho quente.

– Sim, meu amigo. Pudera eu apagar o que desencadeei, mas vou ter que conviver com isso o resto dos meus dias. – respondeu Regulus com uma voz cansada.

– Seu filho assumirá e a paz será restabelecida. – falou Shion tocando na mão de Regulus.

O soberano sorriu. Shion era um amigo fiel e permanecera fiel até mesmo quando ele o traíra, agindo como um déspota cruel. Se havia uma benção maior que a de possuir amigos verdadeiros, ele não sabia. A única certeza que tinha era de lutar para reverter tudo o que acontecera, após Hades tomar-lhe o poder.

– Tem razão, Shion. Encarcerar-me na culpa não mudará nada. Vamos lutar!

Os três ergueram as canecas num brinde silencioso. E Regulus olhou para as chamas trêmulantes da pequena fogueira. Por um instante, pareceu ver o rosto do filho, não de Aioros, mas de Aiolia. Lembrou-se do nascimento dele, tão difícil e demorado. Ao contrário do irmão mais velho, que nascera rápido, Aiolia quase matara a mãe no parto, enrolara-se no cordão umbilical e foram preciso muitas horas para que o trouxessem ao mundo.

É, meu filho... Eu descuidei do amor a ser-lhe dirigido. Amei Aioros com tanta intensidade que, para você, sobraram migalhas... Mas eu o amo, Aiolia. Depois de tanto sofrimento, sinto muito por ter dado a você o pior de mim.

Os pensamentos de Regulus pareceram misturar-se ao fogo. Shion deixou a caverna para contemplar as estrelas. Ali, naquele lugar afastado, agradecia o retorno de seu amigo e sacramentava o amor que sentia por Dohko.

– Está preocupado com o que virá? – perguntou Dohko abraçando-o pelas costas.

– Sim. Você não? – respondeu Shion tocando os braços que se fechavam ao redor do seu corpo.

– Não temos escolha a não ser lutar. Então... eu me forço a pensar que tudo acabará como deve. Hades será deposto e a tranquilidade voltará à Darneheim.

– Você é um guerreiro formidável, Dohko.

– E você, aquele que detém meu coração em suas mãos...

O general afundou o nariz na curva do ombro de Shion e ambos ficaram um bom tempo abraçados, contemplando o céu estrelado que parecia mais vívido naquela noite sem luar. Por alguns segundos, Shion sentiu um leve tremor, como se fosse um presságio e apertou, ainda mais aqueles braços ao redor de si.

– O que foi? – perguntou Dohko.

– Não sei... – respondeu Shion voltando o rosto para encarar o homem que amava.

Dohko sorriu, o olhar sempre firme e determinado.

– Então venha, vamos fazer amor... – disse ele, beijando-o com paixão.

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O céu escuro arrancou de Hades, uma admiração extasiada. A lua nova, mais uma vez o saudava... Elevou os braços e fechou os olhos, enquanto visualizava em sua mente, toda a escuridão que recaía sobre Darneheim.

Pandora juntou-se a ele, que lhe estendeu a mão, mantendo os olhos fechados.

– Radamanthys está pronto. Poderei usá-lo, logo. – disse ele.

– Sim, ele está. – falou Pandora sentindo a mão fria apertar a sua.

– Todos pensam que enviarei tropas para Berkehell e estão se organizando por lá. Vários clãs tencionam me trair... Tolos! Não imaginam com quem estão lidando.

– Vai atraí-los para cá, não é?

– Minha cara irmã, não imagina a admiração que tenho pela sua inteligência... Sim, vou atraí-los para a ratoeira como ratos imbecis que eles são. Terei um imenso prazer de destruí-los aqui e depois colocar as cabeças destes senhores espetadas diante da pirâmide negra!

– E como vai fazê-lo?

Um sorriso malévolo escapou dos lábios bem feitos. Hades abriu os olhos e eles estavam avermelhados e flamejantes. Pandora sentia-se estremecer, sempre que aquilo acontecia. Hades se deixava possuir por aquela entidade maléfica, cujo único propósito era perpetuar a eterna dança do criar e do destruir.

O ar eletrificou-se de tal forma que Pandora pode perceber as sombras tomando vida e preenchendo todos os espaços.

Hades abriu os braços e todas elas entraram em seu corpo, produzindo um espetáculo terrível e doloroso.

Então Pandora o viu estremecer como se estivesse convulsionando e logo, todas elas o abandonaram, fazendo-o cambalear.

– Hades! – disse ela.

– Não... se... preocupe... – falou Hades, sorrindo, enquanto uma lágrima de sangue escorria do seu olho direito.

– O que você fez? – questionou Pandora.

– A armadilha foi lançada! Logo, serão aqueles traidores a derramar lágrimas de sangue! – respondeu Hades e sua risada irrompeu na escuridão, sendo ouvida por todos em Darneheim.

Pandora sentiu o sangue gelar. Também ela tornara-se íntima das sombras e aquilo que Hades enviara, continha em si algo perigoso e mortal. Ela desejava que tudo acabasse logo, no entanto, os planos do irmão mostravam que as batalhas anteriores haviam sido pequenas perto do que ele desencadeara...

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O calor do corpo junto ao seu mesclou-se ao sonho. Em seu sonho, seus irmãos lobos estavam uivando, mas o som não saía de suas bocas. O grande lobo negro olhava-o, diretamente, nos olhos, como se quisesse articular palavras e então, veio a escuridão...

A batida na porta aconteceu no mesmo instante de seu despertar e Kamus saltou da cama, junto de Milo que também abria os olhos.

– Bom dia... – disse o senhor de Berkehell.

– Bom dia. – respondeu Kamus, sorrindo.

Kanon não esperou ser autorizado e adentrou o aposento. Sua expressão era grave, o que fez Milo preocupar-se.

– Perdoe-me a invasão, meu senhor, mas temos problemas!

– O que foi? – perguntou Milo.

– Bem, o verdadeiro sucessor chegou ontem, trazido pelo senhor de Irmied.

– Aiolia! Por que ninguém me avisou?

– Ele chegou tarde, meu senhor e não quis ser anunciado. Ikki o recebeu e acomodou.

Milo começou a vestir as roupas, acompanhado por Kamus.

– Bem, vamos encontrá-lo e saudá-lo como se deve. – disse o loiro.

– É sobre isso que vim falar-lhe. Acho que a saudação terá que esperar. – disse Kanon, um tanto nervoso.

– Por quê?

– Algo está acontecendo fora da fortaleza, meu senhor.

Franzindo o cenho, ambos os senhores perguntaram, ao mesmo tempo.

– O que está acontecendo?

– Não sabemos, mas temos que deter essa coisa antes que ela chegue até nós!

Ainda sem compreender, Milo e Kamus foram até a janela do quarto. Só então perceberam que, apesar de estar amanhecendo, o dia estava escuro como breu. Foi então que, ao firmar os olhos na linha do horizonte, os dois viram uma grande massa negra deslocando-se como se fosse uma tempestade se arrastando pela terra.

– Pelo deus Sombrio! – exclamou Milo.

Kamus adiantou-se.

– Vou chamar Hyoga.

Kanon e Milo fizeram que sim com a cabeça, enquanto também deixavam o aposento.

Hyoga já estava na torre alta da fortaleza, seu semblante estava sério. Sabia que aquilo não era natural e continha uma alta concentração de um poder maléfico e destrutivo. Parecia alimentar-se dos corpos do inimigo que ainda jaziam, após a batalha.

Kamus se aproximou dele.

– Sabe o que é isso? – perguntou o ruivo.

– Uma invocação do mal.

– Pode fazer alguma coisa?

– Vou tentar.

Kamus tocou o ombro do irmão e logo olhou para baixo. Havia pessoas que estavam em aldeias mais distantes e que não integravam a população trazida para dentro da fortaleza. No entanto, junto com aquela espécie de nuvem negra, podia-se ver famílias fugindo e pedindo ajuda.

– Aquelas pessoas... – murmurou Kamus.

Hyoga suspirou.

– Não podemos salvá-las, é uma armadilha.

Com o cenho franzido, Kamus olhou, novamente, e então foi falar com Milo. Desceu correndo, mas no caminho já soube que o senhor de Berkehell já estava nos portões. Conhecia Milo, ele não deixaria inocentes expostos ao perigo sem nada fazer. Angustiado, viu quando os portões se abriram e Milo cavalgava, junto de alguns guardas, para resgatar aqueles que estavam sob a sua proteção. Foi até o seu garanhão, montou-o, mesmo sem sela e disparou atrás do homem que amava.

Fora da fortaleza, o clima parecia ter enlouquecido, a nuvem negra avançava como se fosse um imã, atraindo tudo para o seu interior. Milo ordenou que resgatassem as mulheres e crianças, enquanto tentava analisar melhor o que consistia aquela coisa.

O senhor de Berkehell viu quando a menina escapou das mãos dos pais e ficou no caminho da nuvem negra. Bateu com os calcanhares na barriga do cavalo e lançou-se na direção da nuvem. Kamus também viu e fazendo uma manobra, galopou na diagonal até ficar perto de Milo. Os dois chegaram, ao mesmo tempo e Milo olhou nos olhos rubros do amante, enquanto apanhava a criança.

– Não pode resgatar todos! É uma armadilha! – gritou Kamus.

Milo franziu o cenho e, nesse exato momento, a nuvem pareceu expandir ao ponto de abarcá-los por inteiro.

Kamus olhou firme na direção de Hyoga que se encontrava flutuando frente aquele espetáculo e, em seguida, um redemoinho envolveu Milo e a menina, deixando-os em segurança, enquanto a nuvem cobria, por inteiro, o senhor de Irġiel kiesaħ.

– Não! Kamus! Kamus! – gritou Milo, enquanto o torvelinho o trazia de volta para o interior da fortaleza e o senhor de Irmied chegava a tempo de ver Kamus desaparecer dentro da imensidão negra.

Notas finais
****Agradecimentos especiais a todos que acompanham pedem a postagem, comentam, silenciam. Um grande beijo e boa semana!!! XD ***scríbe = Destino.