Trono De Sangue

28 Capítulo 28 O AVANÇO DO MAL


Notas iniciais
****Amados! Este capítulo ficou imenso e como gosto de manter uma estética de compor os capítulos com a mesma variação, eu o dividi em dois. São muitos acontecimentos simultâneos e, para manter a sequência da trama achei que assim ficou melhor. O importante é que os reencontros acontecem, inclusive o tão esperado de algumas pessoas...* risos!

Foi um retorno lento e complicado. Milo tinha pressa de chegar, porém, quanto mais avançavam, mais encontravam percalços pelo caminho. Cabanas ardendo em chamas, homens e mulheres mortos a céu aberto, crianças chorando a perda dos pais e irmãos, as montarias tendo que desviar da fumaça espessa que tornava o ar asfixiante...


Afrodite cavalgava calado e Shun, de vez em quando, saía do lado de Ikki e ia conversar com ele. Máscara da Morte também mantinha silêncio e via-se que June o evitava. Havia uma atmosfera estranha naquela caravana, todos pareciam reticentes uns com os outros e o contraste entre os guerreiros bem nascidos com aquela tropa esfarrapada só acentuava o estranhamento.



Um pequeno tumulto se fez quando os integrantes do clã de Máscara da Morte, agindo pelo instinto, tentaram saquear uma aldeia recheada de corpos sem vida. Ikki ordenou que todos se afastassem e ouviu um “bastardo pau no cu!” ser dito entre dentes por um dos carniceiros.



Antes que o jovem tomasse uma atitude, Máscara da Morte se adiantou brandindo o machado e decepando a cabeça do homem barbado com expressão de fuinha. Houve uma comoção generalizada, enquanto Máscara limpava o sangue do machado e gritava, em alto e bom tom:



– Estamos sob o comando deste homem e eu dei a minha palavra que seguiremos as suas ordens. Está claro ou outra cabeça tem que rolar prá vocês entenderem?



June sinalizou, bruscamente, que estava do lado de Máscara da Morte e o restante a seguiu. Assim, a caravana continuou em direção ao seu destino, até deparar-se com as fronteiras de Berkehell e o rugido da batalha que se desenrolava na praia.



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Ah, pai... Fiz tudo conforme me ensinou e espero que seja o suficiente! Dizia Kamus a si mesmo, mas, ao mesmo tempo, sentia uma aura maligna se espalhando por toda Darneheim e temia que Akkwarju sofresse outro ataque, antes que todos estivessem em segurança.



– Senhor Kamus! – chamou a voz feminina, tirando o senhor de Irġiel kiesaħ de seus pensamentos.



– Senhorita Saori, em que posso ajudá-la? – perguntou Kamus em um tom sério.



– Perdoe-me interrompê-lo, mas é que... Bem, eu e Seiya queremos nos casar e gostaríamos que presidisse a cerimônia assim que todos estiverem assentados no abrigo.



– Será um prazer, senhorita. – respondeu Kamus, agora com um sorriso.



Fenrir ao ouvir o que Saori tinha dito, pensou se Hilda gostaria de casar com ele, também. Era de conhecimento de todos que passavam as noites juntos, mas Hilda era senhora de si e ele respeitava a força que emanava dela, do espírito livre e combativo. Balançou a cabeça deixando os devaneios para depois e foi ter com Kamus.



Enquanto Kamus e Fenrir conversavam, Hyoga meditava, expandindo sua mente por todos os recantos de Irġiel kiesaħ até chegar a uma caverna, além da Floresta Negra.



A caverna era profunda, permeada de rochas que pendiam do teto como se fossem lanças prestes a perfurar quem ousasse entrar ali. O frio congelante e a escuridão pareciam um abismo sem fim.



Um par de olhos vermelhos e perversos sorriu ao sentir a presença do jovem Máistir.



Então, filho da dama das Águas... Acha que já está pronto para enfrentar o seu destino e sucumbir junto de toda essa espécie subserviente que anda pela superfície? Perguntou a voz arrastada e primitiva.



Hyoga pode sentir a presença densa e gélida, porém não se intimidou. Fixou o olhar nos dois pontos rubros e ardentes e falou com toda a calma:



– Sucumbir? Creio que não é a minha existência que está em jogo e não sou eu que me escondo e rastejo nas sombras.



Uma risada longa e gutural ecoou fazendo as formações de rocha vibrar até quase cair.



É corajoso, Máistir... Uma qualidade própria dos tolos e dos heróis! Mas saiba que ele nos libertará e nada impedirá o avanço do Caos!



– Veremos! – respondeu Hyoga.



Os grandes olhos rubros aumentaram de tamanho, de forma que a face do ser podia ser vista por inteiro. Grandes caninos surgiram com saliva escorrendo, misturada ao sangue. Era uma espécie de lobo negro misturado a uma criatura reptiliana e isto criava um efeito nauseante pela estranha combinação de formas e pelo cheiro repugnante de podridão.



Eu poderia matá-lo num piscar de olhos, mas isso acabaria com a diversão... Nos veremos, novamente, filhote, e então, eu vou triturar sua carne e ossos com redobrado prazer!



Hyoga não se mexeu, apenas piscou e voltou ao seu corpo. Com o cenho franzido, foi até Yuna e partilhou o que havia acontecido. A Healer fitou-o com uma expressão preocupada.



– Precisamos falar com Kamus. É necessário que todos estejam no abrigo antes da próxima lua cheia. – disse ela.



Neste meio tempo, Manigoldo chegava às proximidades da fronteira de Akkwarju quando um falcão desceu sobre si. O comandante estranhou até perceber uma fita colorida presa à pata da ave. Ordenou que todos parassem e a ave pousou em um galho próximo e fez aquele som estridente que os falcões costumam fazer.



Logo em seguida, como se soubesse quem ele era, a ave voou em sua direção e Manigoldo estendeu o braço para que ela pousasse. Ele reconheceu a fita em tons de vermelho e laranja com que Misty prendia os cabelos. Ao pegá-la, havia apenas uma frase escrita com uma letra desenhada:



Berkehell está sob ataque! Por favor, tome cuidado. Misty.”



Manigoldo franziu o cenho e falou:



– Vamos, rapazes! Parece que nem bem chegamos e logo partiremos!



– O que aconteceu? – perguntou Siegfried.



– Hades enviou suas tropas para Berkehell. Parece que ele quer mandar um recado para todos os clãs ao invés de buscar retaliação em Irmied. Vamos, temos que chegar logo em casa para avisar Kamus! – respondeu Manigoldo.



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A cena era aterradora. Cinzas, pedaços de ossos e carne queimada jaziam nas areias brancas de Berkehell. Kanon e Saga lideravam o ataque que, ao contrário do que esperava Aiacos, ainda não iniciara com um combate corpo a corpo.



Consciente da desvantagem numérica, Kanon preparara várias armadilhas ao longo da fronteira. Redes gigantescas encharcadas de óleo que se agarravam aos cavalos e soldados e que logo eram incendiadas pelos arqueiros, catapultas com pedras de fogo, valas cobertas de areia que escondiam buracos repletos de lanças que trespassavam patas, pernas e corpos...



– Mantenham as suas posições! – gritou Kanon, enquanto observava as chamas escuras serpentearem por entre a primeira fila de ataque inimigo.



Saga observou que mesmo com a perda dos guerreiros da primeira investida, Aiacos possuía uma legião numerosa. O negror da fumaça mesclava-se com o negro das vestimentas, tornando o amanhecer uma imensa mancha escura regada a sangue, fedor de carne carbonizada e sons de morte...



Quando o sol pálido insinuou-se, havia um outro mar, este não de água salgada, mas de sangue e corpos.



Aiacos era aguerrido, mas não tinha a experiência de Radamanthys e isto lhe custou boa parte de seus soldados. Com o cenho franzido, o jovem comandante ordenou a retirada para refazer seus planos de ataque.



Enquanto isso, Milo e os outros chegavam a Berkehell por outro lado da praia, mas isso não foi capaz de impedir que sentissem o cheiro e reconhecessem a passagem da morte.



– Kanon! – gritou Milo.



O comandante sorriu ao ver seu senhor, mas esse sorriso morreu quando o viu acompanhado, apenas, de uma legião de maltrapilhos.



– Meu senhor! Bom vê-lo, mesmo que estejamos em uma situação crítica. Conseguimos conter o primeiro avanço das tropas de Hades, mas estamos em inferioridade numérica e...



– Bom vê-lo, também Kanon. Sei o que está pensando, mas precisamos de toda a ajuda disponível até Kamus juntar-se à nós. – disse Milo.



– Muito bem, então vamos aproveitar que o inimigo está se reorganizando para compor uma nova estratégia. – falou Kanon.



Milo assentiu e Kanon viu, por trás do ombro do senhor de Berkehell, duas faces muito conhecidas e sorriu, aliviado. Ikki e Shun se aproximaram e os três trocaram saudações afetuosas, enquanto o tempo lhes permitia.



Shura e Shiryu uniram-se a Saga e Afrodite não teve escolha a não ser permanecer junto à Máscara da Morte e seu clã, sendo que June mostrava-se carrancuda e, visivelmente, incomodada.



– Vai entrar na batalha ou apenas observar e torcer para que sobrem corpos para os seus experimentos? – perguntou Máscara próximo ao ouvido de Afrodite.



O senhor dos venenos virou o rosto lenta e calmamente, encarando Máscara no fundo do olhos. Quando o teve prisioneiro do seu olhar, sorriu sedutoramente, o que fez o líder dos Carniceiros sentir uma fisgada no baixo ventre.



E, quando sentiu que Máscara da Morte era afetado pelo seu ato, fez um gesto obsceno com o dedo e saiu de perto. Por alguns segundos, o líder dos Carniceiros ficou sem ter o que dizer, mas logo explodiu em uma gargalhada que deixou June ainda mais furiosa.



– Nunca pensei vê-lo tão...tão patético! Essa situação em que nos colocou vai acabar com todos nós! E, não contente com isso, ainda fica se engraçando com esse puto perfumado e vaidoso!



Máscara parou de rir e olhou sério para June.



– O que está dizendo, mulher? Por acaso está de lua, por isso acha que pode me afrontar desse jeito?



– Vai à merda, seu... estúpido! Tomara que seja o primeiro a morrer nessa batalha igualmente estúpida! – disse June e se afastou.



Observando June, Máscara permaneceu sério e pensativo. Talvez ela tivesse razão, mas não queria pensar nisso, agora. Havia tomado uma decisão e a manteria até o fim.



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Ele sonhava que estava comandando sua tropa em meio a um intenso negror. Mal podia distinguir as silhuetas de seus guerreiros e o campo de batalha ficava cada vez mais pertado, denso e quente.



Quando abriu os olhos, estava no quarto, tendo Valentine em uma cama, ao seu lado. O jovem ainda dormia, pois suas feridas haviam sido profundas. No entanto, ele observara que cada vez que o jovem estranho de cabelos liláses impunha suas mãos sobre seu subordinado, Valentine mostrava uma recuperação cada vez mais rápida.



Já havia amanhecido e logo alguém lhe traria o desjejum. Estava cansado daquele lugar tranquilo e silencioso. Parecia que tinha morrido e agora habitava um maldito lugar de paz, algo totalmente antagônico à sua natureza.



A porta se abriu e quem entrou não foi nenhum criado ou curador e sim o senhor de Irmied.



– Mas que honra! O grande Shaka me servirá hoje. – disse Radamanthys em um tom sarcástico.



– Sim, eu o servirei, porque não há nenhuma vergonha em ser útil a outro ser. Principalmente, quando este ser está em meus domínios, após ter sido derrotado e ferido. – respondeu Shaka com um tom sereno, fazendo Radamanthys sentir-se, estranhamente, desconfortável.



– O que vai fazer conosco? – perguntou Radamanthys tentando manter uma postura superior.



– Nada. Assim que estiverem recuperados poderão voltar para Dwiefer.



– Como? Vai nos deixar ir assim?



Shaka depositou a bandeja que trazia e fitou o rosto de Valentine que começava a abrir os olhos. Ignorou Radamanthys que permanecia observando-o com impaciência.



– Como se sente? – perguntou Shaka para Valentine.



– Melhor, obrigado. – respondeu o jovem.



– Escute! – disse Radamanthys segurando o braço de Shaka para que ele lhe desse atenção.



O olhar que Shaka lançou para Radamanthys o fez estancar e sentir um mal-estar tão grande que ele se engasgou. Os dedos que envolviam o braço do senhor de Irmied se abriram, automaticamente, e uma dormência os deixou endurecidos e sem força.



Pelas labaredas do Inferno! Quem é este homem? Radamanthys perguntou para si mesmo, enquanto sentia-se trêmulo e com o coração acelerado.



– Como eu disse antes, comandante, assim que estiverem bem, voltarão para casa e levarão minha mensagem à Hades. Por enquanto, aproveitem a estadia para refletir se desejam, realmente, desperdiçar suas vidas à serviço de um homem sedento por poder e destruição. Com licença!



Radamanthys olhou para Valentine.



– Levante-se! Temos que sair daqui e rápido.



– Por que a pressa? Quer voltar para os braços traiçoeiros daquela vagabunda?– perguntou Valentine.



– E você? Quer morrer aqui? Porque, se não levantar dessa cama, eu o mato, entendeu? – respondeu Radamanthys.



Magoado, Valentine encarou o rosto severo de Radamanthys. Sem nada dizer, ergueu-se da cama com dificuldade e era visível que ainda sentia desconforto físico. Porém, de sua boca não escapou um só gemido de dor.



Quando o comandante viu a palidez no rosto de Valentine, quase voltou atrás, mas não o fez. Devia deixar Irmied imediatamente e relatar a Hades o que acontecera. Se demorasse mais naquele lugar maldito, logo seria substituído.



– Venha, deixe-me ajudá-lo. – disse ele para Valentine.



– Não preciso de ajuda... – disse Valentine, baixo.



Radamanthys ignorou-o e sustentou-o com seu braço. Os rostos se aproximaram, porém Valentine virou a face e desvencilhou-se dos braços que o sustentavam.



– Deixe-me! Posso sustentar meu próprio corpo e, se não puder fazê-lo, eu mesmo dou cabo da minha vida. – disse o jovem dirigindo-se até a porta.



Antes que Radamanthys dissesse algo, Mu entrou e sentiu a tensão no ar. Era ele que cuidava de Valentine e, ao vê-lo em pé, franziu o cenho.



– Seu ferimento está quase fechado, porém se movimentar-se pode abri-lo novamente. – disse Mu.



– Seu senhor disse que podíamos ir quando estivéssemos prontos e nós estamos. – falou Radamanthys.



Mu não questionou, mesmo que fosse um curador, não gostava da presença daqueles homens em Irmied.



– Esperem aqui. Vou falar com Shaka.



– Não é preciso se incomodar, nem aborrecer seu senhor com isso. Nós estamos saindo. – falou Radamanthys.



Desta vez, Mu enfrentou o olhar altivo de Radamanthys e sua voz, apesar de calma, mostrou-se com uma autoridade que ele não costumava exercer, mas que agora saía de modo natural.



– Está em Irmied senhor. Ninguém entra ou sai sem a permissão de Shaka.



Radamanthys sorriu, malévolo.



– Posso estar até no Inferno, garoto. Mas, quem decide onde ficar e quando sair sou eu.



Mu sorriu de volta, os lábios delicados abrindo-se devagar...



– Deixe que eu lhe dê um conselho, seja um pouco mais paciente e humilde, ou... realmente, seria melhor que estivesse no Inferno, ao invés de estar aqui.



– Pois eu também lhe dou um conselho...saia da minha frente! – rosnou Radamanthys.



Sem manifestar nenhuma reação de conter o comandante, Mu deu passagem a ele. Porém, quando a porta se abriu, Shaka apareceu como se tivesse se materializado ali, naquele instante. A visão do senhor de Irmied fez Radamanthys estancar.



– Algum problema aqui, Mu? – perguntou Shaka.



– O comandante disse que ele e seu oficial já estão prontos para retornar. – respondeu Mu.



Shaka olhou dentro dos olhos de Radamanthys. Mais uma vez ele sentiu aquele desconforto físico, mas mesmo assim, resolveu enfrentá-lo.



– Se tem mesmo palavra, senhor, deixe-nos voltar para Dwiefer. – disse o comandante.



– Minha palavra é uma só, senhor Radamanthys. Eu disse que os deixaria ir quando os dois estivessem recuperados e é visível que seu oficial ainda requer cuidados. Só sairão daqui, quando ambos estiverem sãos e puderem levar minha mensagem a Hades. Estou me fazendo entender?



– Mas... Por que? O que pretende cuidando de nós como se fossemos animais sendo engordados para o abate? – gritou Radamanthys.



O olhar que Shaka direcionou a Radamanthys foi tão sereno que ele estremeceu.



– Não nos julgue pela visão de mundo que norteia os seus atos. Se eu pretendesse matá-los, não os teria retirado do local de combate. Em meus domínios, toda a forma de vida é sagrada, desde um inseto até aos seres de carne e osso. Quero que voltem e sejam a prova viva que minha missão neste mundo é curar e preservar a vida. No entanto, se Hades insistir em trazer a guerra e a morte para Irmied, todas as tropas serão aniquiladas completamente e não vai sobrar ninguém para levar outra mensagem minha ao usurpador. Agora, por favor, deixe que seu oficial se restabeleça. Não vai demorar mais que uma ou duas semanas. Sua mãe esperou nove meses para o seu nascimento. O que são alguns dias frente a uma espera como essa?



Ditas as palavras, Shaka tocou no centro da testa de Valentine e a dor que ele sentia evanesceu, trazendo de volta a cor ao seu rosto. Depois, deixou o quarto sem olhar para trás.



Valentine olhou para Radamanthys e, pela primeira vez, viu uma sombra de temor nos olhos frios de seu comandante.



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Kamus comandava a migração das casas para o abrigo. O ar tornava-se mais frio e logo estaria escuro. Youma ajudava na árdua tarefa de manter a ordem das coisas e Fenrir havia ido até a Floresta Negra com Noite para verificar a morte de alguns cervos de forma incomum.



Quando Hyoga aproximou-se de Kamus,silhuetas apontaram no horizonte.



Manigoldo! Pensou Kamus reconhecendo seu comandante. De imediato, a ansiedade se fez presente em seu peito, porém ele a dominou, como sempre fazia.



– Boa noite! Pelo visto ocorreram muitas mudanças por aqui! – gritou Manigoldo.



– Sejam bem- vindos! – disse Kamus indo ao encontro dos três.



Manigoldo desmontou, assim como Thor e Siegfried. Aldebaran os viu e deixou o trabalho que fazia para rever os amigos. Houve uma breve confraternização, mas logo a seriedade voltou a reinar.



– O senhor Milo pediu que lhe entregasse isso. – disse Manigoldo estendendo um pergaminho para Kamus. – E também, acabei de saber que Hades está atacando Berkehell.



Kamus franziu o cenho e pegou o pergaminho. Depois, ditou uma última ordem e foi ter com Manigoldo, Aldebaran, Thor e Siegfried. Mesmo que estivesse ansioso para ler as palavras de Milo, haviam questões urgentes a serem discutidas.



– Temos que prestar ajuda à Berkehell. Sabe em que pé está o ataque? – perguntou Kamus.



– Esse foi o primeiro, assim como eles tentaram em Irmied. No entanto, Shaka revelou poderes estranhos e letais, então Hades resolveu escolher outro clã para submeter, aproveitando que Milo estava fora e é uma época em que grande parte dos guerreiros está em alto mar, fazendo a segurança dos navios mercantes. – disse Manigoldo.



– Milo... o senhor de Berkehell...Ele ainda está em Irmied?- perguntou Kamus, embora já soubesse a resposta.



– Não, creio que há esta hora, ele já se encontra em meio ao conflito. – respondeu Manigoldo.



Kamus levou a mão aos cabelos, depois inspirou fundo, ordenando tudo o que tinha de fazer. Milo não tinha experiência com combates, mas seu comandante não era inexperiente. O clã Skorpjun era notadamente bélico, portanto ele teria de confiar que eles segurassem as primeiras incursões de Hades e protegessem aquele que amava.



– Bem, a mudança para o abrigo pode ficar sob a liderança de Fenrir e Aldebaran. Sei que não o deixo descansar, Manigoldo, mas preciso de você ao meu lado para ajudar Berkehell.



– Eu compreendo, meu senhor, e quero que saiba que nesses meses em que fiquei ao lado do senhor Milo, vi nele uma fibra e grandiosidade que o tornam um homem único. Foi uma honra ajudá-lo.



Kamus olhou para Manigoldo, vendo nos olhos escuros uma sincera admiração e uma mudança sutil da forma de comunicar-se e, até mesmo, na expressão do rosto que parecia mais relaxada e feliz. Então, mesmo angustiado, permitiu-se sorrir.



– Sim, Manigoldo, ele é. Gostaria de agradece-lhe pela sua competência e dizer que não o considero, apenas, um oficial e sim um homem indispensável para o nosso clã. Agora vão descansar e comer. Daqui a algumas horas nos reunimos para planejar, organizar os homens e partir o mais rápido possível para Berkehell.



– Sim, meu senhor. Com licença. — disse Manigoldo e logo foi juntar-se à Aldebaran.



Enquanto todos se encaminharam para ver seus familiares e amigos, Kamus caminhou pela neve fria até chegar à caverna onde passara momentos de alegria e prazer com Milo. Sentou-se nas pedras úmidas vendo o vapor serpentear na superfície das águas. Então, abriu o pergaminho e leu:



Kamus,


Espero que quando isso chegar às suas mãos, você esteja bem. Tive pressentimentos ruins a seu respeito e por isso ordenei que Manigoldo, Thor e Siegfried voltassem o mais rápido possível para Irġiel kiesaħ.

Reencontrei meu irmão Ikki e sei que com a ajuda dele e de Hagen, logo encontraremos Shun, também. Por isso, não seja severo com Manigoldo e nem o castigue, pois isso me deixaria muito contrariado (eu ia dizer puto, mas não combina com a linguagem que se espera de um senhor de clã. Viu? Até isso aprendi com você). Ele está me obedecendo e minha autoridade é inquestionável, não é mesmo?

Seus homens de confiança foram excepcionais em tudo e eu agradeço que os tenha enviado para apoiar-me. Aprendi valiosas lições e quero que saiba o quanto sou grato a eles e a você.

Agora a outra parte... Sinto saudades sua. Muito, muito, muito! Às vezes parece que meu peito se fecha e dói. É uma sensação horrível! Então eu pego aquela mecha dos seus cabelos e coloco junto ao meu peito prá poder voltar a respirar direito.

Amo você, lobo. Saiba que foi o primeiro e será o único em meu corpo e em meu coração. E não importa quanto tempo leve, eu vou te encontrar e beijar essa boca deliciosa, tocar essa cicatriz que me excita e fazer amor até nossos corpos ficarem exauridos.

Até o nosso reencontro.

Milo.


Com os olhos fechados, Kamus sorriu e levou o pergaminho aos lábios... Permaneceu um tempo roçando-os nele, sentindo o cheiro, imaginando tocar os lábios carnudos que o ensinaram a ter prazer em um beijo...



Te amo, Milo... Pensou, recordando a face alegre e o olhar intenso daquele que penetrara o seu coração de forma tão profunda. Você também é o único em meu coração, em meu corpo e em minha alma. E o será para sempre, não importa o que aconteça.



Quando Kamus abriu os olhos, Raio surgiu de repente, os olhos rubros com um pedido explícito de siga-me!



O senhor de Irġiel kiesaħ guardou o pergaminho e deixou a caverna. Porém, quando andou alguns metros, viu uma silhueta cambaleante com algo junto ao corpo. Correu, reconhecendo que aquele homem era Fenrir e ele trazia Noite nos braços.



– Fenrir! – gritou Kamus quando o jovem caiu.



Fenrir estava banhado de sangue, mas logo Kamus percebeu que a maior parte dele vinha do corpo do lobo.



– K-Kamus... o Noite... ajude-o! – disse o jovem.



– Calma, deixe que eu o carrego. Pode andar?



– P-Posso... ele... ele me salvou. Ajude-o... – repetia Fenrir tentando manter-se em pé.



Kamus olhou para Raio que os acompanhava em silêncio. Quando ambos os olhos rubros se encontraram, o lobo disparou na frente, sabendo exatamente o que fazer.



– Apoie-se em mim e vamos esperar. Raio foi buscar ajuda. É melhor não andar e nem transportar Noite com essa perda de sangue. – disse Kamus.



Logo, Yuna e Hyoga vieram ajudar. Noite foi colocado em uma padiola e Fenrir também.



Ao ver a movimentação, Hilda sentiu-se aflita e seus pressentimentos se confirmaram ao ver Fenrir todo ensanguentado.



– O que aconteceu? – perguntou ela indo até ele e tentando manter o controle.



– F-Fui... investigar os cervos mortos... Parecia ataque de lobo, mas... os lobos não fazem aquilo. A carne... parecia queimada e tinha... sangue coagulado por tudo... e cheirava mal, um... cheiro diferente. De repente, surgiu... um lobo...parecia um lobo, mas tinha um corpo parecido com um lagarto... as patas tinham garrar compridas... E o hálito dele fedia e fazia meus olhos arderem... Eu usei o machado naquela coisa, mas apareceram mais...Noite os atacou e lutou ao meu lado...



Hilda franziu o cenho, assim como Kamus. Hyoga olhou para Yuna e ambos se aproximaram de Kamus.



– Precisamos conversar. – disse Hyoga. – Yuna vai cuidar dos dois.



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Com o recuo das forças de Hades, Kanon e Milo rumaram para a Fortaleza a fim de traçar novas estratégias. Grande parte da população tinha sido avisada para deixar as regiões centrais de Berkehell e concentrar-se nos locais mais distantes das praias e fronteiras. No entanto, aqueles que não tinham para onde ir, eram recebidos dentro da Fortaleza do senhor e, assim, junto com os clãs que haviam chegado, o lugar tornou-se uma grande difusão se rostos, ideias, comida e um pouco de confusão.



Milo estava cansado da viagem, mas adentrou o grande salão e falou à todos.



– Bem, a nossa situação é delicada. Estamos com poucos guerreiros e as forças de Hades atacam, principalmente, à noite quando todos estão cansados. No entanto, recebemos ajuda de dois clãs que se juntam a nós e isso já nos motiva a resistir até que outros entrem neste combate. Por isso, aproveitem para comer, beber e descansar um pouco. Também busquem entrosar-se e não arrumar mais confusão. Precisamos nos unir e não criar desafetos entre nós.



– Senhor de Berkehell, perdoe a minha insolência, mas o outro clã a que se referiu foi... eles – perguntou um guerreiro do clã liderado por Saga, que tinha uma barba curta, olhos de gato e uma postura ereta e arrogante, apontando para as mesas onde os Carniceiros estavam acomodados.



As mesas onde seus companheiros estavam acomodados riu, ruidosamente, fazendo ecoar o som por todo o salão.



Milo deu um sorriso.



– Entenda uma coisa, senhor...?



– Ian Keffer de Tarso! À seu serviço, senhor de Berkehell! – respondeu o homem estufando o peito.



– Muito bem, Ian Keffer de Tarso. Estamos em guerra e toda a ajuda é bem-vinda. Não vamos ficar julgando uns aos outros, neste momento. Afinal, quando a morte nos acolhe, fedemos e somos devorados pelos vermes igualmente, não é mesmo? Ou será que os vermes escolhem a quem devorar por ser mais simpático, bonito ou politicamente correto? Como eu disse antes, aproveitem este momento de trégua e estejam preparados para uma investida mais dura das forças do usurpador.



Houve silêncio por alguns segundos, até Máscara da Morte soltar uma gargalhada e ser acompanhado pelos seus. Ian sentou-se com uma expressão aborrecida e Kanon olhou para Milo, reconhecendo que o jovem amadurecera bastante no tempo em que estivera fora.



– Sabias palavras, meu senhor. Embora, eu tenha meus receios quanto a essa... aliança com os carniceiros. Mas, como disse, toda ajuda é bem-vinda e é dever de um líder manter a ordem e a unidade, mesmo entre homens tão díspares. – disse Kanon.



–Não posso me dar ao luxo de escolher aliados, nem de deixar que a discórdia nos enfraqueça. Agora, me ponha a par das estratégias de combate, comandante. Sei que temos pouco tempo até a próxima incursão do inimigo. – disse Milo.



Kanon sinalizou para Saga e Máscara da Morte. Uma mesa foi preparada com mapas e peças, reproduzindo Berkehell e os locais onde os combates haviam acontecido. As armadilhas tinha contido a primeira investida, mas a superioridade númerica das forças de Hades continuava.



Foram horas de discussões e planejamento, até que um gongo soou e todos souberam que a batalha recomeçaria...



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Hyoga contou a Kamus o que havia visto em sua meditação. Ambos estavam próximos ao fogo e o calor subia, iluminando vagamente o ar frio. De repente, ouviram barulhos no quarto onde Fenrir estava sendo tratado por Yuna.


A Healer havia limpado a ferida que não era muito extensa, no entanto, minutos depois Fenrir se contorceu, o corpo tremendo de forma incontrolável, os olhos movendo-se rápido e os dentes cerrados...



– O que está acontecendo com ele? – perguntou Hilda, enquanto tentava ajudar a conter o corpo.



Veneno! A criatura que o arranhou tinha garras venenosas. – respondeu Yuna franzindo o cenho.



Hilda sentiu a garganta apertar, mas se manteve firme e tocou o rosto de Fenrir.



– Vamos! Resista! Não ouse morrer, ouviu? — disse ela.



Hyoga adentrou o quarto junto com Kamus. Rapidamente, o senhor de Irġiel kiesaħ segurou o corpo de Fenrir junto com Hilda, enquanto Yuna continuava seu trabalho de limpar a ferida e Hyoga tocava o corpo do irmão, tentando interromper o avanço do veneno.



Fenrir parou de se debater, o corpo empapado de suor e a respiração ruidosa e pesada. Hilda tocou seu rosto e não pode evitar a lágrima que caiu sobre a face lívida do amante.



– Por favor... Abra os olhos... – sussurrou rente aos lábios arroxeados.



Lentamente, Fenrir voltou a si e a primeira imagem que viu foi Hilda com os olhos cheios de lágrimas. Seu corpo parecia em chamas e a dor em todas as articulações e ossos era enorme. Porém, a mulher que amava e que nunca chorava estava ali, chamando por ele.



– H- Hilda... – a voz mal saía e ele sentia a garganta apertada e inchada.



– Estou aqui, meu amor! Fique conosco... Não feche os olhos!



Fenrir tentou sorrir, mas até isso era difícil e doloroso.



– Olhe para mim, irmão. Foque nos meus olhos. – disse Hyoga segurando com as duas mãos o rosto de Fenrir.



– N-Não... c-consigo... – respondeu ele, tão baixo que mal se ouvia a sua voz.



– Fenrir! Olhe para mim! – ordenou Hyoga sentindo o corpo do irmão, amolecer.



Hilda sentiu que algo estava acontecendo, Fenrir parecia cada vez mais fraco. Ele está morrendo! Por favor, Mãe Zelosa de Muitas faces, não permita, não o tire de mim! Ela disse para si mesma sentindo a angústia invadir cada parte do seu ser.



– Fenrir, por favor! Por favor, volte! Não quero criar nosso filho sem pai!- gritou Hilda pegando a mão do amante.



Ao ouvir o que Hilda dissera, Fenrir abriu os olhos.



– Um...filho... – sussurrou ele.



Notas finais
** de lua= estar menstruada.
**** Agradeço o carinho de todos e sinto saudade de alguns comentários. Entretanto, não sou de pedir ou vincular postagem ao número de reviews. A fic continua com ou sem comentários, porque uma vez iniciada uma fic, eu jamais deixo de terminá-la! Obrigada a todos! XD