Trono De Sangue
25 Capítulo 25 A DANÇA DAS SOMBRAS!
Notas iniciais
****Obrigada a todos que comentam, se emocionam, silenciam. Estou devendo respostas a alguns reviews, mas saibam que elas virão, pois cada comentário é um carinho que merece ser retribuido. Bjs, amados e amadas!!XD
Quando a manhã começou a se abrir no horizonte, Hades ainda não havia dormido. Após a cerimônia, em que se tornara receptáculo do Caos, seu corpo adentrava a noite como se ela o alimentasse...
Olhou para o sol pálido que surgia e levou a mão aos olhos. A claridade, agora o feria, mas ainda havia muitas coisas a serem feitas. Mandou chamar seu terceiro comandante, enquanto a movimentação na fortaleza ainda era fraca e ordenou que o Círculo de Honra ocupasse seu lugar no salão. Muitos ainda estavam dormindo quando foram convocados, porém obedeceram de imediato, sentindo o peso no ar e temendo ainda mais seu soberano.
– Aiacos! Organize as tropas ainda hoje. Quero todos no campo de treinamento antes do meio dia. – disse Hades ao jovem posicionado a sua frente.
O jovem tenente fez uma reverência e então perguntou:
– Vamos atacar Irmied, meu senhor?
Hades fitou-o nos olhos e Aiacos sentiu-se estremecer. Não era medo, mas uma sensação,completamente, nova para o guerreiro. Era como se seu soberano possuísse um abismo no olhar, um abismo que poderia tragá-lo de tal maneira que ele se perderia para sempre se continuasse a encará-lo...
– Não, vamos atacar Berkehell. – disse Hades com naturalidade.
Um murmúrio espalhou-se pelo Conselho e até mesmo Aiacos ficou confuso.
– Mas... Meu senhor, e o general Radamanthys? Quem vai conduzir as tropas, se ele foi aprisionado?
– Chame Caronte e prepare-se para ser o segundo em comando. – respondeu Hades.
Aiacos sorriu, sentindo-se excitado com a perspectiva de subir na escala de comando. Retirou-se sem dizer mais nada, enquanto alguns homens do Círculo de Honra cochichavam entre si.
Hades olhou para um dos homens mais velhos e sorriu friamente. Devagar, foi se aproximando do homem sem deixar de fitá-lo dentro dos olhos. Todos paralisaram suas ações, enquanto ele continuava a andar na direção do idoso. Ao posicionar-se bem em frente ao homem, Hades segurou-o pelo queixo, obrigando-o a encará-lo.
Um silêncio mórbido e temeroso formou-se no amplo salão. O homem arregalou os olhos e estremeceu ao contato com a mão fria de Hades. Em seguida, os olhos do homem reviraram nas órbitas e ele pareceu convulsionar. Uma observação mais apurada veria que a pele do homem pareceu ressecar, aos poucos, como se fosse um pergaminho e as veias azuis saltaram como pequenos riscos...
– M-Meu... S-Senhor... – a voz engasgada do homem escapou enrouquecida.
Hades soltou-o e olhou para os demais, vendo o terror instalado em cada íris e em cada expressão do rosto.
– Se tiverem o que falar, façam em alto e bom tom! Odeio cochichos! – disse o soberano.
– Perdoe-nos, meu senhor. Estávamos apenas comentando a situação de nosso general. Dizem que Shaka o aprisionou e... que tem um poder desconhecido. – falou um dos homens.
Mais uma vez, os lábios de Hades se abriram com aquele sorriso perigoso...
– O senhor de Irmied abriga o senhor de Berkehell e também Aiolia. Veremos a extensão de seu poder quando seus aliados forem dizimados! – falou o soberano.
– E-Então é uma isca? Vai atraí-lo atacando Berkehell? – gaguejou outro.
– Isca? Mas que termo mais vulgar, conselheiro... Digamos que darei a ele a chance de mostrar a que veio. – respondeu Hades.
Todos se olharam, novamente e, quando menos esperavam, Verônica adentrou o salão trajando vestes justas e provocantes. O ar mudou, novamente, como se forças sombrias se reconhecessem e dançassem loucamente naquele espaço.
– Estou voltando para as terras altas como ordenou, meu senhor... Mas antes, gostaria de ver o velho leão e executar a tarefa... – disse ela.
Antes que Hades respondesse, Pandora surgiu de forma inesperada com um punhal fino e ensanguentado nas mãos. Os rostos se viraram para ela e sua presença pareceu remexer as sombras com uma energia mais sutil, mas não menos perigosa.
– Tarde demais, necromante! Acabei de livrar-nos da presença de Regulus para sempre. – disse a jovem com segurança.
Hades e Verônica olharam para Pandora. Não havia nada de tímido, nem de fraco na expressão dos olhos e nos gestos. Ela parecia, totalmente, recuperada e o vestido negro, antes recatado, agora mostrava um decote profundo em V deixando ver a curva sensual dos seios, ainda intumescidos à espera do ato de amamentar. Seus passos eram firmes quando ela se aproximou de Hades, ignorando a mãe que não deixava de encará-la.
– Aqui está, meu senhor... Foi a primeira coisa que fiz, ao despertar hoje. Refleti sobre o que me disse, sobre o poder e sobre... nós dois! Sou sua... irmã e vou apoiá-lo em tudo que precisar. – disse Pandora passando o dedo fino no sangue que manchava o punhal e, em seguida, esfregando-os nos próprios lábios.
Os olhos de Hades cintilaram, um discreto, mas intenso brilho vermelho nas íris que não se desprendiam do rosto de Pandora. Ele se aproximou, devagar, o olhar voltando-se para os lábios manchados de sangue...
– Eu sabia que você entenderia... – disse ele aproximando os lábios e beijando-a de leve.
Pandora afastou o rosto e sorriu. Depois olhou para Verônica, encontrando desafio e interrogação no olhar da necromante.
– Já pode voltar mamãe. Hades e eu estaremos bem. – disse Pandora com um tom provocante.
Verônica aproximou-se da filha e tomou-lhe o punhal, cheirando-o. Conhecia o aroma do sangue de Regulus e aquele... era mesmo o sangue do leão, constatou a contragosto.
– O que fez com o corpo?- perguntou a necromante.
– Livrei-me dele. Para todos os efeitos, ele continuará recluso. Ninguém mais precisa saber o que aconteceu. Ele será, apenas, uma pedra a menos no nosso caminho. – respondeu Pandora.
Hades sorriu, agora de outro jeito e colocou o braço sobre as costas de Pandora.
– Vejam senhores! Pandora está recuperada e permanece fiel, ao meu lado! Tratem-na com a mesma reverência que direcionam a mim!
Os olhares, ainda mais temerosos, recaíram sobre os três que ali estavam e tímidas palmas encheram o ar. Verônica apertou os lábios, resistindo a dar-se por vencida, mas impotente frente aos atos do filho, agora tão mais poderoso que ela. Resignou-se a curvar-se, também, para a filha e demonstrar, por enquanto, que aceitava ser dispensada.
– Bem, sei quando não sou mais necessária. Voltarei hoje mesmo. – disse ela fazendo mais uma curta reverência.
– Obrigado, por sua ajuda. Eu volto a procurá-la. – disse Hades, dispensando-a.
Pandora sorriu, olhando Verônica com desprezo e prazer. Cansara de ser a vítima, usada como peão de ambos. Agora, ela tomaria as rédeas de seu destino. E, se antes ela era apenas um joguete, a partir dali, seria uma jogadora e, jogaria para vencer!
– Como se livrou do leão? – perguntou Hades tocando-a com delicadeza no queixo.
– Ao entrar no aposento, vi um certo conselheiro que devia estar preso, mas que pelo visto,circulava por passagens secretas dentro da fortaleza e estava com o Regulus . Logo entendi as intenções do traidor. Então, fingi que estava contra você e disse que o ajudaria tirar Regulus daqui. Ele acreditou em mim e, quando se preparou para o ato, eu o esfaqueei, assim como o fiz com Regulus, logo a seguir. Chamei os guardas e disse que tinha sido atacada pelos dois. Mandei que cuidassem dos corpos até eu informá-lo do que havia se sucedido. Eles cavaram um buraco na parede e os colocaram lá. Depois fecharam com pedras e argamassa. O quarto de Regulus tornou-se sua própria sepultura.
– Esse conselheiro era... Shion? – perguntou Hades.
– Sim, meu senhor. Não sabe o prazer que tive ao enfiar o punhal no coração daquele crápula traidor!
– Pena... Eu sabia que ele estava à solta e esperava que me levasse aos demais traidores. Mas você fez bem, minha querida... Um problema a menos, nesse momento crucial.
– Vai mesmo atacar Berkehell?– perguntou Pandora com voz suave.
– Atacar, somente, não... Vou arrasar o famoso clã Skorpjun e fazer com que os outros clãs compreendam que ficar contra mim é ser destruído. Total e completamente!
0000****0000****0000
A pequena passagem subterrânea mal dava para os dois homens que agora ofegavam. Consciente das próprias respirações, ambos forçavam o corpo, ignorando a dor do esforço.
Regulus sentia o suor escorrendo e uma ardência onde Pandora havia cortado. Lembrou-se do olhar firme da filha que amava, de como ela estava diferente, mais forte e mais sofrida. Fuja e espere até que Aiolia volte com os outros clãs! Reconheça-o e acabe com a tirania de Hades. Ela disse, enquanto colhia parte do seu sangue com um punhal.
Para todos os efeitos, ambos estão mortos. Senhor conselheiro, já deve saber da passagem, então vão. Eu cuido de tudo, por aqui. As últimas palavras foram ditas para Shion que agora o guiava pela escuridão intensa.
– Acha que ela... Ela vai ficar bem? – perguntou Regulus, ofegante.
– Ela mudou. O sofrimento faz isso com as pessoas. Rezemos para que ela possa, ao menos, redimir-se das suas escolhas. – respondeu Shion.
Com os ombros pressionados à parede de pedra e os olhos fechados, Regulus pediu ao Senhor das Almas que protegesse Pandora. Ela o havia traído, mas ele a traíra também, deixando-se dominar pela dor e pela luxúria. Se havia um culpado em tudo isso, era ele. Precisava viver até reconhecer Aiolia, aí então podia deixar esse mundo e talvez, reencontrar Aioros e Ailish. Pediria perdão aos dois pelo que tinha se tornado. O leão dentro dele era um pálido reflexo do que fora, um dia.
– Vamos, aguente firme, meu amigo. Logo estaremos fora da fortaleza. – disse Shion vendo que Regulus respirava com dificuldade.
Regulus assentiu com a cabeça e olhou, uma última vez, para trás mesmo não enxergando nada em toda aquela escuridão. Deixava o lugar onde vivera os melhores e piores momentos de sua vida como um rato se esgueirando pelas sombras e restos do seu passado.
Inspirou fundo, sentindo a fraqueza que assolava seu corpo pela abstinência da papoula negra. Porém, ajeitou o corpo e seguiu em frente. Afinal de contas, ainda era o leão mesmo naquele corpo frágil e deteriorado pela droga.
Correu junto ao amigo que nunca desistira dele e permitiu-se sorrir, lembrando que, em outros tempos, aquela fuga seria como uma brincadeira de criança...
0000****0000****0000
Manigoldo sorria de leve, ainda no salão onde todos faziam a refeição da manhã. O perfume de Misty ainda estava impregnado em sua pele, assim como todas as sensações que ele havia lhe despertado.
Siegfried, Thor e Hagen conversavam com belas e tímidas garotas que sorriam e falavam baixo, dando a entender que a noite não havia sido prazerosa, somente para o comandante das forças de Irġiel kiesaħ.
O senhor de Irmied estava reunido com Ikki, Milo, Aiolia e Mu, todos um tanto sérios e parecendo estudar vários mapas dispostos sobre a mesa, quando Shura e Shiryu uniram-se a eles.
– É uma pena... Sei que não devia pensar assim, mas... gostaria de tê-lo mais tempo por aqui. – disse Misty roçando a unha no braço musculoso de Manigoldo.
– Eu também, mas, sou necessário em Irġiel kiesaħ.
O rosto de Misty ficou sério e ele desviou o olhar, tentando voltar a ser frívolo para não sentir aquele aperto na garganta. Estava sendo ridículo e sentimental! Logo ele que sabia muito bem como essas coisas funcionavam.
Manigoldo tocou-lhe a face e olhou-o bem dentro dos olhos.
– Quando tudo isso acabar e se eu ainda estiver vivo, eu volto para vê-lo e...buscá-lo. Isto é, se quiser viver comigo em Irġiel kiesaħ.
– E-Es-stá d-dizendo que... que... me quer? – gaguejou Misty.
– Estou. Quero que fique comigo, que sorria desse jeito, que me toque com estas mãos macias e que durma agarrado ao meu corpo todas as noites.
Misty arregalou os olhos, mordeu o dedo indicador e caiu para trás, sendo amparado pelo comandante de Irġiel kiesaħ.
– Ei, você está bem? – perguntou Manigoldo.
– Ah... dormir todas as noites com você... Diga que não está brincando. Diga! –falou Misty.
– Eu não brinco, belo. – disse Manigoldo beijando-o.
Milo olhou na direção dos dois e sorriu.
– Pelo que vejo todo mundo se deu bem aqui em Irmied. – disse o senhor de Berkehell olhando, sugestivamente, para o irmão.
Ikki pigarreou, depois tornou a olhar para o mapa que Shaka havia estendido sobre a mesa. Havia muitas terras, ainda desconhecidas, assim como clãs pequenos buscando assentar-se em lugares férteis. O senhor de Irmied marcava pontos em que achava ser o mais provável para encontrar o tal Senhor dos Venenos e, consequentemente, o irmão mais novo de Ikki e Milo.
Enquanto Milo observava e discutia com Aiolia e Mu, Ikki puxou Shaka, discretamente para falar-lhe às sós.
– Shaka... Eu queria dizer que... Bem, o que aconteceu entre nós foi... um momento único em minha vida. Há tanta coisa que eu gostaria de saber sobre você...
Shaka sorriu e tocou o rosto anguloso de Ikki, sentindo que o jovem estava tão envolvido como ele próprio.
– Para mim também. – disse ele com suavidade. – Nós ainda nos encontraremos para conhecer um pouco mais, um do outro... Saiba que conhecê-lo e tê-lo ao meu lado fortaleceu-me em um momento que eu precisava muito. Sua honra e sua força permanecem em meu coração, não importa o que aconteça.
Ikki olhou-o dentro dos olhos claros, tomado por um forte sentimento e uma inesperada angústia. Pela primeira vez se sentia completo e viril, não por ser hábil em guerrear, mas por sentir-se desperto para um sentimento maior, por algo que enchia seu coração...
– Quando tudo isso acabar, eu... – As palavras engasgaram na garganta de Ikki e ele estreitou Shaka com força, sentindo o pulsar dos corações unidos.
– Eu estarei esperando. – completou Shaka.
Os dois se olharam com profundidade e amor. Nada mais foi dito e nem era preciso. Shaka passou os braços pela cintura de Ikki e encostou-se no peito largo. De olhos fechados sentiu os lábios dele em seu rosto, em seu pescoço e em seus cabelos... Beijaram-se com suavidade, no início e depois, com ânsia. Ficaram um tempo respirando juntos, as bocas unidas...
Nada mais seria como antes para nenhum deles, mas o sentimento permaneceria forte e eterno como a natureza secular que cercava aquele lugar.
0000****0000****0000
Shun olhava as flores brancas ondulando sob a brisa morna e seus pensamentos viajavam nos movimentos sinuosos. Já fazia muito tempo que estava ali, sem saber de seus irmãos ou de Hyoga.
Fora um longo período envolto em dores e febre, mas agora seu corpo estava forte, graças à Afrodite e suas poções misteriosas.
– Pensando na vida? – perguntou a voz melodiosa às suas costas.
– Um pouco. Não tenho noção exata do tempo que passou, mas...
– Alguns meses, algumas horas e vários momentos cruciais onde lutou pela vida. O importante é que você venceu a doença e está pronto para voltar aos seus.
Os olhos de Shun se arregalaram e ele olhou para Afrodite, sempre belo, perfumado e impecável nas vestes.
Para os meus? Ele vai me deixar voltar? Os pensamentos se atropelaram junto com a surpresa.
– Me olha como se eu tivesse dito algo proibido ou... Fosse uma entidade maligna devoradora de crianças.
– Nunca pensei que me deixaria voltar. Você me comprou e todos dizem que um experimento do Senhor dos Venenos jamais retorna.
– Bem, os que morrem, não. Mas, você sobreviveu e, particularmente, deixou-me orgulhoso pela força que tem e de mim mesmo por ter acreditado e investido em você.
Shun sorriu, tímido.
– Eu devo minha vida a você.
– Certamente que sim. Mas, grande parte da cura acontece quando a pessoa acredita em si mesma e luta para viver. Entretanto, não pense que vou deixá-lo ir, apenas. Vou acompanhá-lo até Berkehell e exigir um pequeno mimo por tê-lo ajudado.
– Mimo? Como assim?
Afrodite revirou os olhos, gesticulando.
– Um presente. Quero um pouco mais de sangue... – disse Afrodite com um sorrisinho nos lábios.
– O sangue de Milo?
– Sim, o precioso sangue do senhor de Berkehell. Acho que ele não vai se importar, não é? Afinal, estou devolvendo seu irmãozinho. – respondeu Afrodite com aquele olhar malicioso que Shun aprendera a reconhecer.
– Não vai machucá-lo, não é? Se for assim, me recuso a voltar e...
– Fique tranquilo, garoto. Nem que eu quisesse, poderia fazer mal a alguém que recebeu o sopro do deus Sombrio. Seu irmão ainda vai surpreender a muitos... Agora se apronte, sinto modificações no ar, algo estranho e denso. Vamos viajar enquanto ainda podemos.
– Você sentiu também... Eu pensei que fosse, apenas, uma impressão minha. – disse Shun olhando para uma fileira de pássaros que cortava os céus.
– Forças sombrias estão sendo manipuladas e são muito poderosas. Rogo para que não seja o que eu penso que é.
– E o que é? – devolveu Shun olhando, firmemente, para Afrodite.
– Algo que meus mestres me ensinaram que, uma vez liberado, dificilmente pode ser contido. Mas, vamos logo. Se sairmos agora, poderemos chegar a Berkehell depois de amanhã à noite.
Shun pensou em perguntar a quê, Afrodite se referia, mas a expectativa de voltar para casa suplantou sua curiosidade.
– Vou arrumar as coisas! – disse ele sorrindo.
Afrodite acolheu a inocência do jovem, sorrindo também e olhou na direção dos pássaros que pareciam afoitos em migrar para longe. Sim, algo havia acontecido e continuava a expandir-se como uma sombra dançando por entre os clãs...
Colheu uma das flores brancas e, sem querer, lembrou-se do homem grosseiro e viril que havia lhe vendido Shun. O rosto forte intrometeu-se em seus pensamentos e ele questionou-se o motivo daquela lembrança. Afundou o nariz nas pétalas macias e sentiu-se estremecer, mas logo, Shun surgiu com aquele olhar puro e cheio de expectativas, fazendo-o focar no presente e rezar para que o caminho até Berkehell estivesse livre.
0000****0000****0000
O sol permanecia escondido entre as nuvens densas, aumentando a sensação de calor e densidade.
No pátio da fortaleza, o movimento do dia já iniciara. Alimentos, animais e pessoas transitavam, quando o jovem chegou afogueado e desceu do cavalo com as vestes empoeiradas. O comandante das forças de Berkehell o aguardava com ansiedade, embora seu semblante permanecesse firme.
– Então, o que descobriu?
A pergunta feita em tom urgente fez o batedor ignorar o cansaço da viagem e relatar tudo o que vira e ouvira em sua busca.
– Muitas coisas, senhor comandante! O senhor Milo deixou Irġiel kiesaħ e rumou em direção à Irmied, assim como o senhor Ikki. Houve problemas e o senhor Shun foi capturado pelos Carniceiros e vendido ao Senhor dos Venenos. Mas tem uma coisa muito grave, senhor! Fontes seguras dizem que a tropa que Hades enviou a Irmied foi dizimada por Shaka num piscar de olhos!
– Então Hades desejará uma retaliação. – falou Kanon.
– Mas, aí é que está, comandante! As fontes dizem que ele enviará todo o seu poder de fogo contra nós e não contra Irmied.
Kanon levou a mão aos cabelos e franziu o cenho. Hades fora pego de surpresa e agora invertia o jogo, batalhando contra um clã, reconhecidamente bélico, mas que se encontrava num momento delicado. Muitos guerreiros faziam a segurança dos mercadores e, nesta época se encontravam nos navios que navegavam em alto-mar. Os que permaneciam para resguardar Berkehell eram os melhores, mas ainda assim, inferiores em número para enfrentar as hostes que Hades unira em torno de si. E Saga... Saga ainda continuava visitando os clãs menores visando formar um exército considerável...
– Quanto tempo nós temos? – perguntou Kanon.
– Um dia e meio, senhor, as tropas já foram acionadas e colocadas em movimento!
– Organize os homens no campo de treinamento e envie um falcão para Saga. Que ele retorne com os homens que tiver conseguido.
– Sim, senhor.
O jovem cruzou o pátio e Kanon fechou os olhos, buscando forças para lidar com aquela situação. O clã Skorpjun era conhecido como um dos mais acirrados de Darneheim. Mas, mesmo assim, a desvantagem seria gritante se outros clãs não ajudassem. Era preciso pensar em alternativas, enquanto isso...
Hades, seu canalha usurpador... Você quer nos subjugar primeiro como forma de deixar um exemplo aos outros clãs. Mas, pelo deus Sombrio, eu juro: não será tão fácil como pensa!
Quando abriu os olhos, o comandante das forças de Berkehell caminhou altivo e soube, exatamente, o que fazer.
0000****0000****0000
As horas passaram depressa, mesmo naquele lugar onde tudo possuía um ritmo mais lento e suave.
Milo despediu-se de Shaka com uma sensação de urgência zumbindo dentro de si. Pelo menos, a angústia em relação à Kamus tinha arrefecido, mas ainda assim, ele desejava que Manigoldo voltasse logo e levasse os rapazes com ele.
– Foi um prazer tê-lo ao meu lado, senhor de Berkehell – disse o comandante de Irġiel kiesaħ. – Vou fazer o que me pediu, mas insisto que fique com Hagen. Ele é um excelente farejador e pode ajudá-los muito na busca por seu irmão.
– Está bem, meu amigo. Eu aceito. Não se esqueça de entregar minha mensagem à Kamus. – respondeu Milo abraçando Manigoldo.
O comandante sorriu e montou seu cavalo. Siegfried e Thor o acompanharam e se despediram com um aceno das jovens que agora os olhavam com lágrimas nos olhos.
Instantes mais tarde, Shura e Shiryu se reuniram com Aiolia, Shaka e Mu, enquanto Milo, Ikki e Hagen iniciavam os preparativos para deixar Irmied.
Milo notou o olhar de Ikki, reconhecendo no semblante preocupado a mesma sensação que tivera ao deixar Irġiel kiesaħ.
– Está preocupado com Shaka? – perguntou o senhor de Berkehell.
– Ele decidiu deixar Radamanthys e aquele outro voltarem para Dwiefer. Não acho que seja uma decisão acertada.
Milo suspirou e coçou a cabeça.
– Seus sentimentos estão com ele, mas você, mais do que ninguém, sabe que ele não é indefeso. Muito antes, pelo contrário, Shaka conseguiu surpreender a Hades e a nós e algo me diz que a batalha não começará aqui.
– Por onde então? – indagou Ikki estranhando a fala do irmão.
– Não sei... Eu sinto uma vibração estranha nas veias, como se meu sangue me avisasse de algo. Vamos voltar logo, precisamos encontrar Shun e organizar nossas forças. – respondeu Milo.
Assim que Milo terminou sua fala, Shaka surgiu com um falcão em seu braço. Sua expressão era grave, embora seus gestos fossem calmos.
– Recebi notícias que as tropas de Hades marcham em direção à Berkehell. – disse o senhor de Irmied.
Milo estancou, assim como Ikki que olhava, atônito para Shaka e para o irmão. Shura e Shiryu se adiantaram e Aiolia também.
– Não pode permitir a volta de Radamanthys, nem de Valentine, meu senhor! – disse Shura.
– Eles estão feridos e sendo cuidados, comandante. Não creio que ofereçam perigo, neste momento. – respondeu Shaka. – Acho que a questão maior é buscar aliados para lutar junto à Berkehell. – falou Shaka.
– Preciso voltar! Mais uma vez, a busca por Shun vai ter de esperar! Merda! – disse Milo.
– Vamos com você. – falou Aiolia.
– É melhor que fique protegido até podermos apoiá-lo, Aiolia. Berkehell chamará os outros clãs e resistirá ao avanço de Hades até que você possa se reunir a nós para enfrentarmos o canalha com um só exército. – disse Milo.
– Mas quem vai ajudá-lo agora? – perguntou Aiolia.
– Neste momento, só existe um clã com força e poder suficientes para nos apoiar. – respondeu Milo.
– Você está falando de...
– Do clã Akkwarju e seu senhor, Kamus. Espero que ele esteja bem e possa vir, assim que solicitarmos a reunião dos clãs. – disse Milo, enquanto montava seu cavalo.
Aiolia ainda insistiu em acompanhá-los, mas Shaka reforçou a fala de Milo.
– Milo tem razão, Aiolia. Quando todos os clãs se reunirem em Berkehell, eu mesmo o acompanharei até lá. Mas, por enquanto, permaneça conosco onde ninguém poderá feri-lo.
– Como pode ter tanta certeza que Hades não enviará mais tropas para cá, também? – questionou Aiolia.
– Não posso ter certeza do que Hades pretende. A única coisa que sei é que enquanto eu viver, Irmied não será maculada pela presença deste usurpador. – respondeu Shaka e, mais uma vez, todos sentiram uma energia estranha no olhar do senhor de Vergni.
Ikki olhou-o com uma compreensão muda e montou. Sentia urgência em voltar, mas também em encontrar Shun. Shaka percebeu e, antes que ele partisse, olhou-o dentro dos olhos e disse:
– Tome cuidado. Se servir de consolo, minha intuição diz que seu irmão está bem.
– Obrigado. – respondeu Ikki e as mãos se tocaram num último adeus.
0000****0000****0000
As fileiras negras encheram o pátio de treinamento. Homens, mulheres, jovens empunhavam as armas e bandeiras do Spectrum Svört. Havia um clima de devoção e violência, ambos mesclados em uma estranha sincronia.
Dwiefer não mais vibrava na luminosidade frutuosa dos aromas da terra. A pirâmide negra erguia-se acima de todas as construções, como um divisor de águas, uma versão corrompida do que um dia, o clã Iljun significara. A honra fora substituída pela traição e o leão, pelo chacal. As sombras, finalmente, haviam encontrado um lar...
Hades!Hades!Hades!Hades!Hades! Hades! Hades! Hades!
Os gritos ritmados com as armas batendo nos escudos fazia reverberar o nome do seu soberano. Hades montava um corcel negro e desfilava em frente às tropas. Seu olhar incisivo recaía sobre cada um, causando uma espécie de frenesi silencioso e, ao mesmo tempo, temor.
Pandora assistia a tudo da sacada e seu olhar se perdia na extensão das tropas que, dali a instantes, marchariam em direção à Berkehell pilhando, matando e queimando como faziam os usurpadores.
Ostentando uma aparência firme e satisfeita, ela pensava no caminho que havia tomado. Era uma estrada sem volta e sem arrependimentos...
Ergueu a taça de vinho que tinha na mão e fez um brinde silencioso...
A família! Disse ela em pensamento.
No exato momento em que Pandora brindava, Verônica era cercada por homens vestindo negro, no caminho que tomara de volta às Terras altas. Imersa em suas indagações, ela deu-se conta tarde demais que aqueles homens tinham uma missão.
Quem são vocês? Gritou ela, porém a resposta foi um movimento hábil e rápido do líder a sua frente e, antes que pudesse esboçar uma reação, a necromante caiu tendo a garganta cortada em um golpe limpo e preciso que a deixou com os olhos abertos em uma expressão congelada de terror.
Sua mão contendo um anel em forma de demônio foi cortada com outro golpe perfeito e, em seguida, um líquido foi derramado sobre o seu corpo, corroendo em instantes, a carne que se amontoou aos ossos, vestes e sangue.
O homem sem face guardou a mão em uma sacola de couro e rumou, de volta para a fortaleza. A prova de sua lealdade ainda quente e ensanguentada assegurando sua recompensa...
O brado ensandecido ainda ecoava no pátio de treinamento. Com um sorriso frio desenhado nos lábios, Hades absorvia a energia dos homens ao seu comando com um arrepio de excitação percorrendo seu corpo...
– Marchem em direção à Berkehell e acabem com tudo! Honras e riquezas para aquele que me trouxer a cabeça de Milo Alethea como uma oferenda a mim! – gritou Hades e, mais uma vez, as armas foram elevadas e um brado primitivo ecoou tão alto como se fosse um trovão.
Pandora apenas observava e sentia um distanciamento lânguido, enquanto servia-se de mais vinho e saboreava as sombras...
Quando as tropas puseram-se em movimento, sacudindo o solo com sua marcha ritmada, Hades voltou para a fortaleza e tomou Pandora nos braços, sentindo a excitação consumi-lo, enquanto ela se desvencilhava dele rindo e bebendo mais vinho, agora misturado à papoula negra. Ligados pela inexorável fatalidade, ambos desfrutavam, a seu modo, sórdidas vitórias e desejos regados com sangue.
Fale com o autor