Trono De Sangue
16 Capítulo 16 CORRENTE DO DESTINO...
Notas iniciais
Estava escuro. O mundo resumia-se a uma escuridão fétida misturada com cheiro de gordura da carne assada. Shun abriu os olhos sentindo um gosto amargo na boca junto a outro metálico que já conhecia, sangue.
Como uma enxurrada, as imagens se chocaram dentro da sua mente e ele reviu a luta de Ikki, o momento exato em que a espada cortou seu ventre e ele caiu, tentando resistir em meio ao sangue rubro que escapava aos borbotões. Não tinha noção do quanto tinha se passado. Um, dois, três dias? Não sabia. Apenas sentia a angústia de saber-se culpado de estar ali, preso e separado de seu irmão.
“Ikki”! Murmurou baixinho, enquanto uma tocha se aproximava da jaula onde ele se encontrava.
– Vejam, o garoto acordou! – gritou uma voz feminina.
Shun olhou na direção da voz encontrando um par de olhos azuis intensos cujo brilho cruel parecia adicionar certo fascínio àquele homem.
– É, ele acordou... Mas tem algo errado com ele. Só mesmo Rurke para me trazer um doente! – exclamou o homem.
– Mas mesmo sujo como está, dá prá ver que ele é bonito... sabe como o Senhor dos venenos repara nessas coisas. Ele reclama que só levamos espécimes rudes. – completou a mulher alta que, assim como o homem, parecia mais limpa e bem constituída que o restante do clã.
– Nunca vi a cara deste tal senhor, mas ele paga bem e nos poupa de saquear e roubar por uns tempos. – disse o homem sorrindo e exibindo dentes alinhados e brancos.
A mulher sorriu e enlaçou o pescoço do homem, de forma provocante.
– Nem eu. Mas, dizem que ele é tão belo quanto mortal e só se revela aos merecedores de tal visão...
– Então, não podemos desagradá-lo... Talvez ele nos faça ricos com o bonitinho ali. — respondeu o homem enlaçando a mulher pela cintura e beijando-a no pescoço.
Shun ouvia as risadas e as palavras, mas não compreendia o significado. Sabia que estava preso como um animal, como um escravo e fechou os olhos sentindo uma dor forte no peito junto de uma vontade de chorar, mas as lágrimas não saíam. Porém, quando abriu os olhos, viu uma menina de sessenta centímetros que flutuava à sua frente olhando-o com uma expressão séria e compenetrada.
Ela possuía olhos muito grandes eram separados, em demasia, como se ela fosse um peixe. Não dava para saber a cor deles, porque ficava mudado do verde, para a o azul e o prata. Os cabelos eram brancos e brilhantes e seu corpo parecia envolto em flocos de neve.
“SSkkkk!!! Já vai se encolher e chorar como uma menininha? Se fizer isso, vai dar um espetáculo prá esses aí...” – disse a menina encarando Shun.
Estreitando os olhos, Shun encarou-a, pensando que estava louco ou tendo alucinações.
“Sim, sim, sim! Agora está pensando que está louco ou tendo alucinações... Sabe, isso é a única coisa cansativa em humanos! Eles sempre acham que tudo que não pode ser explicado assim, diretamente, ou é loucura, ou é visão! Patético! Continue assim e vai se ferrar bonito, filho de Kardia!”
– Quem é você? Porque está aqui? – sussurrou Shun sentindo a garganta arranhar e, finalmente, as lágrimas escorrerem dos olhos.
“A grandalhona ali até que tem razão... você é bonito e esses seus olhos verdes podem conseguir qualquer coisa! Não me admira que ele tenha feito o pacto sem hesitar...”
– Pacto? Que pacto? Quem é você, afinal e o que faz aqui?
“Bem, eu souAlkuaineen invocada para protegê-lo! Ficarei com você até que tudo esteja bem. Afinal, você tá bem caidinho...”– disse ela mordendo o dedinho indicador.
– Uma Alkuaineen? O que isso significa e, como assim, invocada?
A menina revirou os olhos e suspirou.
”Sou uma elemental que se forma da água, do sangue e da luz das estrelas. Fui invocada por um garoto da sua idade que, aliás,deve amá-lo muito, porque me invocar exige muito de um Oiliúnóir e ele é apenas um aprendiz! Mas, como é filho da Dama das Águas... já nasceu com o hadiah ou, como vocês humanos dizem, o dom!”
– De quem você está falando?
Ai, pela sagrada poeira cósmica! Estou falando do Hyoga, claro! – disse ela, impaciente.
Os olhos de Shun se abriram de imediato. Ele levou a mão na direção da Alkuaineen que desapareceu e reapareceu ao lado dele.
”Ei, sem contato físico! Fique quietinho e apenas me ouça.. Eu inspirei o casalsinho ali para levá-lo a uma certa pessoa. Foi o melhor que eu achei em vista dos clientes que esse povinho tem! Quanto ao fato de ser o filho da Dama das Águas que me enviou, eu terei um tempo maior junto de você, mas tem de ser forte e querer viver, senão ferra com os meus esforços e os de Hyoga! Fui clara?”
– Hyoga? E ...Meu irmão... ele...
”Tá, tá, tá! Engula essas lágrimas que seu irmão conseguiu chegar a Irmied! Devem ter dado um jeito nele por lá! Aliás, o senhor daquele reino é o sonho de toda Alkuaineen...Frio, bonito e muito poderoso! Pena que os ajudantes dele sejam outros...Fazer o quê, não é mesmo? Mas, agora, tenho que ir! Força, bonitinho!”
Um sorriso brotou dos lábios de Shun. Na verdade, não sabia se estava louco ou alucinando, mas sentia um conforto dentro do peito e já não sentia mais medo. Saber que Hyoga se preocupava com ele e que Ikki estava vivo era o suficiente para resistir, desejar viver.
Do lado de fora da grade, Máscara da Morte, como era chamado o líder dos carniceiros, estranhava a mudança nas feições do prisioneiro. De um garoto assustado, ferido e trêmulo, ele agora exibia uma expressão serena e altiva. Estranho, muito estranho... Pensou, mas logo deixou passar.
– June! Veja se sobrou um pouco de água e mande dar um banho nesse aí... Não queremos que chegue sujo ao seu destino. – gritou Máscara.
June riu da ironia que era o seu clã. Vendiam escravos sob encomenda e sempre os entregavam limpos, a despeito da sujeira em que viviam. Apenas o líder e ela pareciam se importar em manter alguma higiene. Máscara da Morte sempre se banhava todos os dias e ela compactuava com tal comportamento que, aliás, fazia muita diferença naquelas horas em que fodiam pela madrugada afora.
Após o banho, Shun se revelou. A pele branca e acetinada, os olhos verdes em destaque e os cabelos castanhos compridos cascateando pelos ombros desnudos. Houve um momento de surpresa para quem o via nu.
A velha que foi incumbida de banhá-lo sorriu com a boca desdentada, enquanto vertia a água fria do balde, fazendo Shun se arrepiar todo.
– Daria um bom putinhoem alguma casa de prazer, garoto. Tem todos os atributos necessários e podia ganhar muito dinheiro...Pena que o senhor vai levá-lo para outro lugar. Mas, quem sabe? Dizem que o senhor dos venenos adora a beleza e você é tão ou mais belo que uma donzela. Talvez ele se interesse por você. – disse ela enquanto esfregava as costas de Shun com força.
– Não precisa fazer isso, senhora. Eu tomo banho sozinho. – disse Shun, incomodado.
– Senhora? Eu ouvi bem? Você me chamou de senhora? – perguntou ela rindo.
– Sim, e agradeço tentar me ajudar, mas prefiro fazer tudo eu mesmo.
A velha olhou bem dentro dos olhos do garoto e não viu deboche ou desrespeito velado. Apesar dela ser o inimigo ele a tratava com uma consideração que ela jamais havia sido tratada. Aquilo mexeu algo dentro dela, fazendo-a levar a mão ao bolso esfarrapado.
– Tome, não é roubado. Eu mesma fiz com gordura de javali e ervas da lua cheia. É um sabão que vai ajudar a curar os arranhões da sua pele.
Shun franziu o cenho, mas depois sorriu aceitando o sabão das mãos trêmulas e encarquilhadas.
– Obrigado. – disse ele olhando no fundo dos olhos da mulher.
Ela sorriu torto e depois completou:
– Eu que agradeço... fazia muito tempo, muito mesmo que eu não sentia isso. Você tem poder garoto, muito poder atrás destes olhos... – disse ela se afastando.
June, que fiscalizava a cena, mordeu o lábio e franziu o cenho. Aquele garoto era uma preciosidade, pensou ela e pelo visto, o Senhor dos venenos teria de desembolsar muito ouro...
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O salão estava lotado e todos conversavam baixo, como sempre. Porém, havia um clima diferente, porque seu Senhor estava diferente. Kamus estava no centro da grande mesa tendo Milo e Fenrir ao seu lado e...ria. Era interessante vê-lo descontraído e todos haviam notado isso. Até o trabalho estava sendo conduzido com menos rigor e mais tempo para o descanso.
O único que estava sério e parecendo fora do seu habitat era Hyoga. O jovem sentia-se feliz com a mudança do irmão, sabia da importância do amor na vida de alguém cujas responsabilidades eram muitas e pesadas. Mas, ele, Hyoga estava angustiado e irritado. Havia ajudado na fuga de Ikki e Shun e os resultados não tinham sido os esperados. Sonhara com a prisão de Shun e com a luta de Ikki e sentia-se culpado.
Pediu licença e deixou o salão. Neve veio ao seu encontro, olhando-o com os olhos rubros como que deixando claro o seu apoio e sua companhia. Por um instante, Hyoga sorriu e acariciou a cabeça do animal.
– Vamos, amigo. Nossa jornada será longa... – disse ele e dirigiu-se até a Floresta Negra.
O ar frio da noite bateu no rosto de Hyoga balançando os cabelos longos. Àquela hora, os montes de neve acumulada já lhe passava dos joelhos e uma crosta cobria a parte de baixo de suas botas. A temperatura era extrememente baixa, mas não importava, Hyoga gostava do frio e gostava daquele lugar, em especial.
A árvore antiga já se revelava alta, larga e cheia de galhos retorcidos parecendo abraçar aquela parte floresta. Lembrou-se de quando era pequeno e tinha medo em chegar perto dela. Agora, ela pertencia a um de seus lugares preferidos e se tornara uma grande amiga...
Fechou os olhos e murmurou:
– HelgaGrove, látamigá sínu sviði!
Ao término das palavras, um portal se abriu, revelando um lago cristalino e brumoso. As aves estranhas que sua mãe dissera serem cisnes, deslizavam preguiçosamente sobre as águas.
Em seguida, Natássia surgiu andando sobre as águas e deixando um rastro de luz e névoa.
Meu filho! O que o traz aqui, assim, com o coração tão pesado? – perguntou ela sorrindo.
Hyoga baixou os olhos e depois elevou-os, novamente.
– Vim, porque quero fazer um pacto.
Um pacto? – perguntou ela, séria.
– Eu não previ o que aconteceria ao Shun e ao irmão dele quando os ajudei a fugir. Agora, Shun foi feito prisioneiro de um clã escravagista e Ikki foi ferido, gravemente. Eu preciso ajudar o Shun. O irmão dele já está em Irmied!
Interferir em um destino tem o seu preço...
– Eu sei, mas estou disposto a pagar!
Natássia suspirou e depois abaixou-se para tocar a água cristalina que se metamorfoseou em minúsculos pontos luminosos.
Invocar um Alkuaineen exige partilhar da sua energia vital. Você ainda é muito jovem, Hyoga.
– Por favor, mãe! Ajude-me... – implorou Hyoga.
Está bem, vamos fazer isso juntos. Precisarei do seu sangue. – disse Natássia, vencida pelo olhar suplicante do filho.
Hyoga sacou do punhal que sempre trazia consigo e levou-o ao pulso, fazendo um pequeno corte. O sangue escorreu pela lâmina e pingou nas águas brumosas. No mesmo instante, Natássia estendeu o braço para o alto, na direção das estrelas e murmurou três palavras:
Blóðog Vatn Stjörnur formem o Alkuaineen que será alimentado até que sua missão se cumpra e o pacto, selado!
Borbulhas surgiram nas águas do lago e logo, uma pequena imagem emergiu. Seus olhos, muito vivos pousaram na Dama das águas e depois em Hyoga.
”Fui invocada e estou à seu serviço, mas adianto que exijo ser alimentada com frequência.”
– Eu a alimentarei até que cumpra o que eu lhe disser. – falou Hyoga com voz firme.
”Pois bem, o que devo fazer, meu senhor?”
Hyoga inspirou e a instruiu. Depois aproximou-se da mãe e Natássia olhou-o com ternura tocando na face que tanto amava. Compreendia-o, porque ela mesma havia se unido a Dégel por amor, mesmo sabendo que jamais poderia ficar, fisicamente, ao seu lado.
Quando conhecera o senhor de Irġielkiesaħ, ele fazia, pela quarta vez a prova junto aos lobos. Ela se apaixonara por ele e fizera um pacto com um Alkuaineen para desfrutar de um corpo físico por algum tempo. Neste corpo, seduzira Dégel e vivera uma única noite de amor. Entretanto, o impossível aconteceu e ela ficou grávida, gerando um filho metade humano e metade Alkuaineen.
Por vias misteriosas, o Destino lhe trouxera duas grandes alegrias, o amor do senhor de Irġielkiesaħ e um filho. Haveria felicidade maior que essa? Ela se perguntava ao sentir a força dos sentimentos de seu filho para com outra pessoa.
O Alkuaineen que invocamos vibra em uma energia feminina, por isso é, extremamente forte, mas também voluntariosa. Vai exigir muito de você, meu filho. Prepare-se...
Hyoga sorriu, já sentindo o seu corpo perder um pouco de calor. Abraçou a mãe e atravessou o portal. Neve o esperava sentado e em posição de guarda. Quando o viu, arfou e saltitou, fazendo Hyoga rir.
– Sinto muito, meu amigo, não terei forças para correr atrás de você agora. – disse Hyoga cujos lábios começavam a ficar arroxeados...
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Shura atravessou os corredores da Fortaleza, perguntando-se para si mesmo o que Hades estava planejando. Fazia muito tempo que o usurpador ocupava-se do tal Ádito dos Mistérios escravizando, cada vez mais homens e mulheres para terminar sua construção. E agora, ele o havia chamado para um conselho de guerra.
Temia o que resultaria desta reunião, mas logo saberia, pois Hades estava sentado no trono usufruindo do calor da lareira. Ele parecia estar longe dali e, excepcionalmente, estava sozinho...
Confuso, Shura parou e Hades voltou-se para ele com aqueles olhos penetrantes.
– Soberano. – disse Shura se apresentando.
– Aí está você, subcomandante... Quanto tempo não tenho a honra de seus conselhos...
– Conselhos? Meus? Que eu saiba, seu comandante é Radamanthys e ele está sempre ao seu lado. – respondeu Shura estreitando os olhos escuros.
– Verdade, Radamanthys é um de meus súditos mais fiéis e me serve, de forma impecável, há muito tempo. Será que posso esperar o mesmo do senhor?
Shura estremeceu, mas não demonstrou. O episódio com Shion havia sido encoberto graças aos que ainda eram fiéis ao antigo soberano. Será que Hades havia descoberto o plano?
– Sabe que sim, meu senhor. Mas, porque a pergunta?
Hades se levantou do trono e caminhou em direção à janela ampla que levava à sacada.
– Minha obra já está quase terminando, graças ao empenho de Radamanthys em convencer o povo a contribuir para a elevação de Dwiefer. Quanto a você, tenho outra missão para que execute... Quero que vá até Irmied e traga meu querido meio- irmão Aiolia de volta.
– Irmied não pode ser encontrado assim, tão facilmente. Shaka só permite a entrada de quem busca a cura ou conselhos. Não permitirá um destacamento militar em seus domínios. O que aquele maldito estava tramando, agora? Pensava, enquanto a resposta era cuspida com rapidez de sua boca.
– Meu caro Shura, é por isso que estou enviando você. Eu sei que foi você que o levou até lá... ou será que foi o Conselheiro Shion? – perguntou Hades com um estranho brilho nos olhos.
– Fui eu. – respondeu Shura de imediato.
– Pois então, vá buscá-lo! Quero a família toda reunida quando a grande obra for inaugurada. – disse Hades voltando ao trono.
– Talvez, eu não seja recebido como fui antes. – disse Shura.
– Ora, meu caro... aí está a prova de sua profunda lealdade para comigo. Crie a oportunidade e faça-o! Ou será que devo enviar o pobre Shion, nesta missão?
– Farei o que for possível, meu senhor.
– Errado, senhor subcomandante! O senhor fará o impossível ou Shion será executado por causa da sua incompetência! – falou Hades com um tom autoritário.
A boca de Shura crispou-se antes de responder e Hades pareceu divertir-se com aquilo.
– Se me permite, senhor vou encaminhar os preparativos da viagem. – disse Shura.
– Vá, subcomandante. Espero... quer dizer, tenho certeza que terá sucesso em sua missão. Afinal, há muito em jogo, não? – disse Hades elevando a mão em um gesto dispensatório.
Shura saiu pisando duro e firme. A mente fervilhando e o coração pesado. Mais uma vez teria que agir de forma torpe e desleal para ficar mais próximo de Hades. Só o que o consolava era a intenção de um dia matá-lo olhando bem dentro daqueles olhos amaldiçoados.
No caminho, encontrou Pandora que tocava o ventre já bastante crescido. Respirou fundo ao ver que ela o olhava com uma expressão entristecida. Não estou com tempo para a víbora número dois! Pensou com raiva. Continuou seu caminho, mesmo assim, e quando ficaram frente a frente, ela baixou os olhos e nada disse. Shura curvou-se numa saudação rápida e também ficou em silêncio. Quando já tinha se afastado alguns metros, ela falou:
– Creio que precisamos conversar, senhor Shura. Mas, não agora e não aqui. Antes que vá buscar meu outro irmão, tenho algo importante a lhe dizer.
Shura franziu o cenho e assentiu com a cabeça. Depois voltou ao trajeto original respirando fundo para assimilar todas aquelas informações e planejar o que iria fazer.
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A porta ornada de flores e trepadeiras se abriu, como sempre, e um estreito corredor levou a uma pequena sala com uma janela interna feita de uma tela que só permitia vislumbrar uma sombra. A voz delicada que sempre os atendia repetiu a mesma frase:
– Deixe a mercadoria e aguarde lá fora.
June assentiu, mas ficou de sobreaviso. Desta vez, ela exigiria um preço melhor e mais alto.
– Por favor, vá até o fundo do corredor e entre na segunda porta à direita. – disse a voz para Shun que estava algemado com grossas correntes.
O garoto tratou de olhar em volta, memorizando tudo como Ikki sempre fazia. O corredor era escuro, mas ao chegar na porta indicada, esta revelou um jardim interno com um teto aberto e várias flores e ervas compondo um belíssimo e estranho mosaico de cores.
– Aproxime-se! – disse outra voz, agora masculina, porém melodiosa e agradável.
Shun ficou estarrecido com a beleza do dono da voz. Era um homem de feições tão perfeitas que parecia um deus andrógino encarnado em um corpo mortal. Vestia uma túnica azul com detalhes em dourado e prata. Os cabelos longos estavam trançados com fios prateados como se fossem gavinhas das flores que ali estavam.
– Sou Afrodite, embora todos me conheçam como o senhor dos venenos. – disse ele.
Os olhos verdes de Shun perscrutaram aquele homem a fim de saber se deveria dizer quem era ou não. Talvez se dissesse que era filho de Kardia ele o libertasse. Porém, em contrapartida, talvez resolvesse matá-lo por ser um nobre e descobrir que ele comprava pessoas para seus experimentos.
– Como é o seu nome, garoto? — perguntou Afrodite circundando-o.
“Não diga o seu nome verdadeiro por enquanto... Esse aí caminha em uma linha tênue que oscila entre o perverso e o buscador” sussurroua Alkuaineen.
E que nome eu devo dizer? Não me ocorre nada agora! Pensou Shun.
”Use o meu! Tá, eu não tenho nome- disse ela revirando os grandes olhos.– Mas quando a dama das águas me invocou ela apontou para a constelação de Andrômeda e eu acho o nome bonito.”
– Andrômeda. Meu nome é Andrômeda. – disse Shun.
– Andrômeda... mas que nome interessante e combina com você. Excepcionalmente, me trouxeram alguém bonito prá variar e você me parece inteligente também... – falou Afrodite franzindo o cenho ao notar a maciez da pele Shun e também outro detalhe.
– Algo errado? – perguntou Shun vendo que Afrodite o olhava, agora, com mais atenção.
– Espere aqui. – disse ele e afastou-se.
Lá fora, June batia o pé, nervosamente, quando ouviu uma voz em um tom alterado chamá-la.
– Quero saber quem foi o idiota que escolheu esta mercadoria e quero vê-lo já! – disse Afrodite através da janelinha.
Assustada, June respondeu apressadamente e foi buscar Máscara da Morte.
– J-Já vou chamar o responsável, senhor! – disse ela.
Máscara da Morte fumava uma espécie de cachimbo quando June chegou correndo.
– O s-senhor dos venenos quer vê-lo! – falou June estremecendo.
– Me ver? Mas ele nunca vê ninguém! Que porra é essa agora?
– E-Eu não sei! Algo a ver com o garoto!
O líder dos carniceiros estendeu o cachimbo para June e foi até a sala de recebimento. Chegando lá, ouviu a voz ordenar que fosse até uma porta no final do corredor e entrasse. Máscara obedeceu, achando até excitante encontrar, finalmente, o tal senhor dos venenos.
Empurrou a porta pesada que revelou uma sala iluminada, cheia de flores brancas e perfumadas que pareciam estar plantadas nos vasos de tão vívidas que se mostravam.
Máscara tocou em uma delas, admirando a beleza ímpar daquela flor. Nunca tinha visto uma assim em toda a sua vida e o perfume, então, era extasiante, embriagando os sentidos de tal forma que ele ansiava por mais...
– Então é você o idiota que ousou aprisionar um nobre e que possui uma doença grave!- disse Afrodite olhando, incisivamente, nos olhos de Máscara da Morte.
O líder dos carniceiros ficou de boca aberta por dois motivos. O primeiro, pela beleza ostensiva daquele homem. O segundo, por estar com uma mercadoria que achara ser uma mina de ouro e que aquele homem descobrira o pequeno detalhe que ele tentara, sem sucesso, esconder...
Notas finais
Obrigada, também ao povo do silêncio!!!Bjs,XD
Pequeno glossário de algumas palavras e frases da fic:
***Helga Grove, láta mig á sínu sviði! = Bosque sagrado, permita-me entrar em seus domínios!
*** Alkuaineen = elemental
*** Blóð og Vatn Stjörnur= sangue, água e estrela
*** Oiliúnóir= manipulador da realidade, uma espécie de mago.
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