Trono De Sangue
33 Capítulo 33 IRMÃOS NA DOR E NA VINGANÇA!
Notas iniciais

Os generais aguardavam instruções e o clima no grande salão era de pesar e temor. As forças sombrias de Hades começavam a mostrar-se um pouco além da compreensão e isto gerava conflitos e medo naqueles que estavam abrigados na grande fortaleza.
Por sua vez, Hyoga não sentia a presença de Kamus e não conseguia acalmar Milo que gritava e andava de um lado a outro o questionando.
– Por que, Hyoga? Você devia ter salvado o Kamus!
– Ele ordenou que eu o salvasse, senhor de Berkehell.
– E por que você obedeceu? Ele é seu irmão! Você devia tê-lo salvado! – gritou Milo.
– Antes de ser meu irmão, Kamus é o senhor de Irġiel kiesaħ e devo obedecê-lo. – respondeu Hyoga.
O rosto transtornado de Milo voltou-se para o Máistir. Em sua dor, não compreendia como Hyoga podia manter-se tão frio e sereno após tudo o que acontecera.
– Eu não acredito que ele esteja morto... Ele não pode estar... – disse o senhor de Berkehell.
– Eu... tentei rastreá-lo. Não sinto nada. Há, somente, um vazio sombrio e silencioso. – falou Hyoga e sua voz ecoava cansada e dolorida.
Kanon aproximou-se de Milo, tocando-o no ombro. Fora do grande salão, havia um grande murmúrio, os homens de Kamus estavam consternados e os outros clãs, também.
– Os homens do senhor de Irġiel kiesaħ esperam o seu pronunciamento. – disse o general, pesaroso. Mais uma vez testemunhava uma perda importante para aquele que admirava e amava como senhor e amigo.
Milo respirou fundo, seu peito estava oprimido e ele sentia uma dor física e emocional que o fazia respirar pela metade, como se o ar não fosse o suficiente. As lágrimas teimavam em queimar-lhe os olhos, desfocando o ambiente e apertando-lhe a garganta.
– Me dê alguns minutos sozinho. – conseguiu dizer.
Kanon assentiu com a cabeça. Hyoga o acompanhou e, ao deixar o grande salão, encontrou o olhar triste e amoroso de Shun. Conteve, a muito custo, a vontade de abraçá-lo e chorar. Entretanto, quando Shun tomou a iniciativa de estreitá-lo nos braços com força, as lágrimas escorreram sem que as pudesse controlar.
– Eu sinto muito, Hyoga. – disse o jovem.
– Obrigado. – murmurou o Máistir.
Manigoldo e Siegfried aproximaram-se de Hyoga. Os olhos frios de ambos os guerreiros cheios de lágrimas.
– Kamus se foi, mas desde que saímos das nossas terras, ele nos fez jurar que se algo acontecesse, ficaríamos sob as ordens do senhor de Berkehell e combateríamos o usurpador até derrotá-lo. Mas, meu coração custa a acreditar que o perdemos. Eu, praticamente o criei... – disse Manigoldo.
– Eu ainda não acredito. – disse Siegfried.
– Eu também não. E acredite, obedecê-lo foi o ato mais difícil da minha vida, após a perda da minha mãe. No fundo, eu ainda tenho esperança.
Os olhos claros e intensos dos guerreiros encontraram os de Hyoga e, numa compreensão muda, nada disseram, apenas se irmanaram na dor da perda e na esperança que pareciam uma utopia distante.
Shaka e Ikki se aproximaram de Hyoga, e o senhor de Irmied apiedou-se do jovem Máistir. Sabia bem o que era sacrificar-se pelo dever e também compreendia o peso da decisão do jovem.
– Sentimos muito. – disse Ikki.
– Obrigado. – respondeu Hyoga.
Shun tomou a decisão de arrastar o homem que amava para uma pequena sala, próxima ao grande salão. Ali, observou-o ficar frente à janela e observar o horizonte escurecido pelas nuvens cor de chumbo. A tristeza contida de Hyoga doía em si, também. Ainda em silêncio, Shun não sabia o que dizer. Apenas olhava para Hyoga com uma cumplicidade muda. Sabia o que era perder um ente querido e sabia que nenhuma palavra bastaria. Tocou o rosto do amado com ternura, sentindo as lágrimas quentes escorrendo lenta e dolorosamente.
Hyoga agarrou sua mão, levando-a aos lábios trêmulos. Shun entreabriu a boca, ofegando ligeiramente. O crepitar das chamas da lareira se insinuou no silêncio carregado... O jovem Máistir fechou os olhos e Shun, num ímpeto de compaixão, uniu seus lábios aos dele, beijando-o com suavidade, tentando aplacar a dor visível que tomava o coração daquele que amava.
Após tornar-se um mago poderoso, Hyoga sempre colocara o dever acima das suas emoções. No entanto, após seu último ato, sentia que o tempo era um mestre cruel. Kamus se fora, mas, ainda assim, amara com intensidade. E ele? Teria tempo de usufruir deste sentimento despertado por Shun?Saberia como era o calor das peles unidas quando, enfim, cedesse ao desejo?
– D-Desculpe... – murmurou Shun ao sentir que Hyoga retesava o corpo.
– Não... Não se desculpe. Eu te amo...
Shun acariciou a face alva, sentindo uma embriaguez terna, o calor e a energia sensual que Hyoga despertava em si, fazendo-o sentir-se culpado.
O jovem mago fitou-o com os olhos ardentes, embora tristes. Sentia uma força, uma atração levando-o ao encontro daquele que amava desde que era, apenas, um menino.
Houve apenas um breve estalar do fogo na lareira e, inclinando a cabeça, Hyoga apossou-se da boca de Shun com um erotismo tão estarrecedor que o jovem gemeu surpreso e abriu mais a boca, deixando-se possuir pelo hálito quente e pela língua que passeava por entre seus lábios.
Hyoga não pensava em nada, explorava os lábios úmidos, sentindo o próprio corpo atiçado, sôfrego para fundir-se a Shun e domar a dor pungente que parecia evanescer quando o tinha em seus braços...
A surpresa de sentir toda aquela voragem e, ao mesmo tempo, nunca ter vivenciado o sexo, fez Shun estremecer e depois se enrijecer quando sentiu as mãos de Hyoga deslizarem em suas costas e trazê-lo, ainda para mais perto de si, aprofundando o beijo. Ele sentia a tristeza de Hyoga metamorfosear-se, a intenção do desejo carnal que também explodia em sua pele e em sua língua buscando a dele.
E então Hyoga apartou o beijo, os olhos azuis semicerrados, a luxúria transparecendo na face juvenil.
– Eu disse que ficaríamos juntos após a guerra, mas depois de hoje, não tenho certeza de mais nada. Quero você... agora, no presente – sussurrou ele recapturando os lábios de Shun com uma urgência abrasiva, arrepiando-se quando os dedos dele abarcaram seu pescoço e se entrelaçaram aos cabelos de sua nuca mostrando, num silêncio revelador, que também o desejava.
Sentindo a pulsação da ereção de Hyoga, Shun colou seus quadris aos dele, e seu corpo reagiu, violentamente. Sem desprender seus lábios dos de Shun, Hyoga deitou-o sobre o tapete de pele, enquanto a outra vagava por todo o corpo alvo e de uma maciez que desnorteou o jovem mago...
As roupas foram despidas, num frenesi de toques urgentes e línguas que se provavam e voltavam a se tocar nos lábios, no queixo, no pescoço...
Hyoga vagou entre as coxas apartadas de Shun e a ponta arredondada de seu sexo fez a primeira investida contra a carne pulsante, roçando a entrada, gotejando de excitação insana.
Sentindo-o ali, percebendo o que estava por vir e ansioso por recebê-lo, Shun jogou a cabeça para trás, pronto, ansioso e desejando tanto que aquilo acontecesse que sufocava, envolto com necessidades tão novas e, ao mesmo tempo tão primais...
Então o súbito empuxo da invasão o seu corpo, seguido por uma dor ardente e aguda o fez ofegar e fechar os olhos, entreabrindo os lábios finos. Gemeu, agarrando-se aos ombros largos que exibiam uma fina camada de suor...
O Máistir murmurou algo rente aos lábios que ofegavam, depois ergueu o tronco como um poderoso guerreiro e trouxe Shun para junto de si, abraçando-o tão forte que as batidas do coração, de ambos, fundiram-se na pele ardente.
O movimento tornou a penetração ainda mais profunda e algo dentro de Shun experimentou um prazer devastador que o fez gemer novamente, agora vivenciando uma satisfação física que quase o enlouqueceu.
O corpo esguio se contorceu e moveu-se sob o de Hyoga, fazendo-o ofegar e iniciar as investidas poderosas que provocavam uma torturante descarga de prazer nas profundezas do corpo de Shun e no falo potente que adentrava o corpo cálido e se deliciava em sentir a cavidade quente e estreita tragando-o para um abismo de puro deleite...
Tempo e espaço desapareceram, o suor brotava como prova indolente da união de corpos vigorosos e das faíscas de prazer que transpassavam os olhares lúbricos se encontrando a cada investida.
Hyoga deslizou as mãos pelos quadris de Shun e o ergueu um pouco mais, capturando a boca arquejante, estocando mais rápido e fundo, sentindo os mamilos rijos roçando próximos aos seus e aquelas mãos macias agarradas a si.
Gemendo, entrecortado, Shun continuava agarrado ao corpo viril de Hyoga, enquanto seus quadris se chocavam com um barulho surdo e seu falo latejava preso ao abdome dele, o roçar da carne rente à pele suada, acentuando o prazer, incendiando ambas as peles...
Por momentos fulminantes, Shun foi tomado por uma agonia prazerosa, sentindo o membro rijo adentrá-lo como se fosse se fundir a ele e maravilhou-se com a expressão de puro prazer nas feições angulosas de Hyoga.
O mago apossava-se dele e gemia de forma profunda, primitiva e apaixonada, os sentidos aguçados pela dança erótica de investida e recuo, a avidez de tornar-se parte de algo maior que seu dever, suas dores e tudo o que viera antes de entregar-se àquele ato...
O clímax foi chegando como uma nevasca implacável, interminável e impetuosa, arrasando os corpos com seu poder arrebatador. Hyoga apossou-se dos lábios trêmulos de Shun, arquejando como se pudesse retardar o gozo...
Shun se afastou primeiro, com um grito abafado que separou ambas as bocas. Ele jogou a cabeça para trás, largando os cabelos de Hyoga para fincar os dedos nas costas largas, enquanto sentia os espasmos de seus músculos sacudi-lo por inteiro, os lábios se abrindo para sorver o ar, seu sêmen jorrando na pele do mago...
Grunhindo, Hyoga cerrou os dentes e investiu mais uma vez, afundando-se no corpo que ainda estremecia sob o seu. Sentiu seu corpo agigantar-se quando seu sêmen quente liberou-se por completo no interior de Shun e sorriu trêmulo, porque também era o seu primeiro orgasmo...
Extenuado, ele caiu sobre Shun incapaz de mover um músculo e o jovem ficou imóvel, abraçando-o com uma doce e letárgica intimidade...
Em seguida, ambos se olharam e Hyoga mergulhou nos grandes e expressivos olhos de Shun sentindo uma mistura de culpa e realização.
– Desculpe... foi a sua primeira vez e eu... fui... um tanto bruto. Fiz tudo muito rápido e nesta sala... Devia ter esperado, mas depois de hoje, não queria arriscar sucumbir sem nunca tê-lo tido em meus braços. – sussurrou ele.
Shun cobriu os lábios finos com os seus, murmurando entre o beijo:
– Que eu saiba, foi a sua também... E você tem razão, talvez essa tenha sido a nossa única oportunidade. Não me importa onde e sim que foi com você.
Hyoga sorriu triste, acariciando o rosto belo e delicado de Shun.
– Eu te amo, Shun. Sempre amei e sempre vou amar.
O jovem retribuiu o sorriso e tornou a beijar o mago.
– Eu também te amo, Hyoga... Hoje e sempre.
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Em Irġiel kiesaħ, Raio elevou a cabeça farejando o ar. Em seguida, uivou três vezes e deitou-se na neve com o olhar perdido no horizonte branco.
Fenrir acordou inquieto, como se algo ou alguém o tivesse sacudido. Hilda dormia ao seu lado e, por alguns segundos, ele observou-a e sorriu. Pareceu-lhe ter ouvido o uivar dos lobos.
– Noite. – chamou baixo.
O lobo não estava no quarto, como de costume. Levantou-se devagar para não acordar Hilda e espiou pela janela. Ainda estava escuro, mas ele conseguiu visualizar os lobos na neve. Os três pareciam inquietos e olhavam para algum lugar no horizonte como que vendo algo que os olhos humanos não podiam ver.
Fenrir sentiu um desconforto na nuca e massageou-a. Hyoga tinha erguido uma proteção sobre Irġiel kiesaħ, porém mesmo assim, algumas vezes, Fenrir experimentava uma sensação estranha, como se a neve adquirisse vida e tentasse escapar.
Raio olhou na sua direção e disparou, embrenhando-se na Floresta Negra. Noite e Neve o acompanharam e, de repente, outros lobos começaram a uivar e Fenrir soube que havia algo errado...
– O que foi? – perguntou Hilda abraçando-o pelas costas.
O calor do corpo feminino trouxe certo bem-estar, mas não o suficiente para afastar o mau pressentimento.
– Não sei, os lobos estão inquietos. A última vez que isso aconteceu eu era um garoto e...
– Seu pai morreu. Eu me lembro.
Os olhos dourados de Fenrir se estreitaram.
– Kamus...
– Não vamos pensar o pior. – disse Hilda, tentando afastar o temor de si e do coração de Fenrir.
– Vou até a Floresta Negra.
– Para quê?
– Se aconteceu algo com Kamus, os lobos se reunirão lá.
Hilda tocou em seu ventre, sentindo uma contração.
– O que foi? – perguntou Fenrir vendo-a franzir o cenho.
– O bebê chutou.
Os dois sorriram e Fenrir colocou a mão sobre a dela.
– Ai! Ele fez de novo! – disse Hilda.
– Ele ou ela... – falou Fenrir.
– Você ficaria feliz se fosse uma menina? – perguntou Hilda.
– Eu adoraria uma garotinha parecida com você. – respondeu ele beijando-lhe a mão.
Os olhos cristalinos de Hilda se encheram de amor e gratidão. Ela tocou o rosto de Fenrir e sorriu.Quando poderia imaginar ser tão feliz e amada?
– Nunca pensei que iria dizer isso, mas... você foi a maior benção que eu poderia receber. Às vezes eu penso que não mereço tanto.
– Eu amo você. Sempre amei. Mesmo quando era, apenas um garoto tarado e louco para foder.
Os dois riram juntos, amenizando por um tempo, aquele clima estranho que sinalizava algo ainda não revelado.
Na Floresta Negra, Raio, Neve e Noite correram juntos até chegar aos montes gelados que se uniam como elos de uma corrente. No monte mais alto, o lobo negro impunha a sua presença em meio à imensidão gelada. Delicados flocos de neve dançavam no ar, fixando-se no pelo longo. Os olhos rubros pareciam perscrutar muito além daquelas terras.
Raio aproximou-se dele, encarando-o com firmeza e respeito. Seu olhar buscava o vínculo ancestral, o poder da matilha. Sentira Kamus em perigo e precisava saber.
Neve e Noite se juntaram aos dois e um coro de uivos cortou o ar gélido. No mesmo instante, no abrigo, Byako abriu os pequenos olhos sonolentos. Seu coraçãozinho estava disparado e sua testa exibia pequenas gotas de suor.
– Pai! – chamou ele.
Yohma correu, seu filho parecia assustado.
– O que foi, meu filho?
– Eu vi... Eu vi o tio Kamus!
Um sorriso abriu-se nos lábios de Yohma.
– Você sonhou com ele, Byako.
– Mas... parecia tão de verdade. Ele estava em uma nuvem negra e... depois ele sumiu.
No mesmo instante em que Byako partilhava seu sonho, o uivo dos lobos ecoou por toda Irġiel kiesaħ. Yohma sentiu uma vibração estranha e acreditou ser o estremecimento do seu filho quando o estreitou nos braços. Logo, Yuna entrou trazendo uma caneca de chá quente para Byako. A Healer sorriu para o menino.
– Então, você teve um sonho... Conte para mim.
O menino bebeu um gole e, em seguida, contou tudo. Yuna franziu o cenho e sorriu triste, acariciando a face do menino.
– Beba seu chá, pequeno.
– Dona Yuna... O tio Kamus está em perigo?
– Seu tio... está cumprindo o seu papel. Agora volte a dormir, pequeno. Ainda é muito cedo.
Yohma fitou-a, mas nada disse. Tornou a colocar seu filho na cama, entoando uma das canções que ele gostava de ouvir. O menino sorriu e fechou os olhos, mas logo os abriu, porque ainda sentia medo da escuridão...
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Milo olhou para as paredes, a cena de Kamus sendo engolido pelo turbilhão negro se repetia, sem parar, em sua mente e ele pensou que ia enlouquecer. Caminhou, nervosamente, pelo aposento buscando forças no sangue e no desejo de vingança, mas ainda assim, a dor em seu peito era tão grande que o sufocava.
Era o senhor do clã Skorpjun, todos esperavam que se pronunciasse sobre o que acontecera à Kamus, senhor do clã Akkwarju e seu amado. Porém, sua garganta estava dolorida de tanto gritar e agora se encontrava fechada, como se estivessem estrangulando-o.
– Você disse, Kamus... Você prometeu que nada, nem a morte, podia nos separar... Por que se sacrificou por mim? – falou baixinho, enquanto as lágrimas escorriam pelo seu rosto.
Lá fora, Kanon e os demais esperavam. Aiolia juntou-se a eles, instantes antes de Milo abrir a porta. O jovem soberano estava sério, o olhar sempre angustiado, agora exibia uma expressão forte e decidida. Shaka percebera a diferença, Aiolia não parecia mais um jovem perdido e indeciso. A tragédia o fizera amadurecer. Finalmente.
Aiolia abriu passagem em meio aos guerreiros que esperavam o pronunciamento do senhor de Berkehell. Milo fitou-o e inclinou a cabeça em uma meia reverência. Dava para notar os olhos vermelhos, o rosto crispado, porém Aiolia ignorou a hierarquia e aproximou-se dele tocando-o nos ombros.
– Acenda a Pira Ardente. Marcharemos contra Hades e acabaremos com a sua tirania. Eu, Aiolia de Leão, não permitirei mais mortes para proteger-me. Estou assumindo a frente de batalha como o soberano de Darneheim.
Milo encarou-o e assentiu. Depois, respirou fundo e falou:
– Hoje... perdemos um valoroso companheiro de batalha. Ainda não consigo acreditar, mas... por ele e por Darneheim lutaremos contra Hades e, pelo deus Sombrio, eu juro que o maldito usurpador pagará com sangue por tudo o que fez! Por hora, vamos honrar a memória do senhor de Irġiel kiesaħ no salão de orações.
Hyoga, Shun, Shaka, Afrodite e os demais baixaram as cabeças, enquanto os guerreiros de Irġiel kiesaħ batiam no peito. Máscara da Morte, Ikki, Kanon e Saga elevaram suas espadas, quando Manigoldo falou:
–Nosso senhor não perdeu sua vida em vão! Acabaremos com a tirania ou morreremos! Por Kamus!
– Por Kamus! Por Kamus! – gritaram todos e Milo fechou os olhos, dizendo mentalmente: Por você, meu amor! Eu juro que destruirei aquele maldito!
Hakurei aproximou-se de seu antigo pupilo, agora um senhor de clã. Orgulhava-se do homem que Milo se tornara e sabia, desde que ele chegara à Torre Negra, que uma grande responsabilidade lhe seria conferida. Era chegado o momento da revelação...
– Meu senhor, antes de iniciarmos as orações, gostaria de falar-lhe às sós. – disse ele fazendo uma reverência.
– O senhor foi e sempre será o meu mestre. Não se curve, por favor. – falou Milo.
O olhar de Hakurei se enterneceu.
– Filho do meu coração... Seu pai, além de valente, era um visionário. Ele viu o seu potencial e sabia que, ao final de tudo, o clã Skorpjun seria o primeiro a repudiar a tirania e o decisivo no combate da mesma. Seu sangue, meu senhor... Ele contém o poder do deus Sombrio. Com ele, poderá romper as defesas de Hades!
Milo franziu o cenho.
– Está dizendo que o meu sangue...
– O seu sangue colocado na ponta das nossas flechas as tornará mortais, até mesmo para o arauto do caos em que Hades se tornou. Eu me encarregarei da cerimônia e o senhor nada sentirá, nem ficará fraco. O deus Sombrio permanecerá ao seu lado, como sempre esteve.
Ditas as palavras, Hakurei fez uma reverência, deixando o senhor de Berkehell olhando para os pulsos, sentindo o pulsar nas veias... Não diminuía a dor, mas saber que tinha o poder de acabar com Hades lhe impingia novas forças. Meu sangue... Meu sangue se unirá ao seu, Kamus, na vida e... na morte!
E foi com esse pensamento, que Milo adentrou o salão das orações. Ajoelhou-se em frente a uma grande taça escura e fechou os olhos. As orações entoadas pelos mortos reverberavam pelas paredes lisas. Não havia uma representação do deus Sombrio. Ele habitava invisível em todos os espaços e sombras e, também, no sangue de seus escolhidos.
O incenso queimava em espirais lentas e preguiçosas, tornando o ar perfumado e quente. Hakurei fez uma prece pelas vidas ceifadas na batalha e, em especial, pelo senhor de Irġiel kiesaħ.
Assim que ele concluiu, Milo sacou o belo punhal de prata que ganhara dos acólitos, quando deixara a Torre Negra. O cabo esculpido em calcedônia negra na forma de um escorpião brilhante pareceu criar vida, assim que o senhor de Berkehell cortou seu pulso esquerdo, fazendo verter o sangue dentro da taça, também feita de calcedônia.
Por um instante, o silêncio constrangedor pairou sobre todos, menos para Hakurei, Hyoga e Shaka que compreendiam a importância crucial daquele momento e também daquele ato que não era um mero ritual físico. Havia uma grande energia espiritual permeando todos os passos do senhor de Berkehell.
Nenhum dos guerreiros e generais ali presentes ousou pronunciar uma só palavra. Apenas Aiolia, o verdadeiro soberano, aproximou-se do senhor de Berkehell, imitando-o no ato de verter seu sangue.
No entanto, ao invés de juntar seu sangue ao de Milo dentro da taça escura, uniu seu braço ao dele, fitando-o bem dentro dos olhos.
– É um guerreiro valioso, senhor de Berkehell. Será uma honra ser seu irmão de sangue e tê-lo ao meu lado na batalha.
Um brado forte ecoou, novamente, pelo espaço amplo. Quando os braços de ambos se afastaram, o corte na pele de Milo e de Aiolia, desapareceu por completo, selando a união do escorpião com o leão.
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O salão estava escuro, abraçado pelas sombras protegidas pelas cortinas grossas. Havia algumas brasas incandescentes na lareira, tornando as silhuetas disformes e incertas dos móveis que ali estavam.
Hades estava sentado no trono, a expressão cruel parecendo ausente, embora seus olhos frios exibissem um brilho malévolo de triunfo.
Fora da fortaleza, a grande pirâmide negra continuava majestosa, esperando a peregrinação matinal dos acólitos e dos que se convertiam ao culto perverso. Os sons longínquos das movimentações atravessavam o ar sufocando os lamentos dos encarcerados, aqueles que se recusavam a aceitar o usurpador.
Inspirando cada rumor, lamento e oração, Hades fechou e abriu os olhos. O faiscar avermelhado ressurgiu em suas íris e Hades expandiu sua escuridão. Um prazer enorme e a sensação de ser um deus o fizeram sorrir. Ergueu as mãos, visualizando os horrores que se passavam nas terras daqueles que não o aceitavam. Corpos, animais, montanhas, tudo ia fenecendo, acabando em estertores de tormento e dor, fosse nas mãos de seus guerreiros ou pelas pragas e catástrofes que provocava. Uma vibração trespassou seu corpo e ele gargalhou satisfeito, sentindo os horrores dentro de si em uma deliciosa agonia...
– Hades... – a voz feminina chamou-o no exato momento em que o corpo do usurpador estremecia pela risada.
Hades voltou-se para Pandora, os olhos frios percorrendo-a... Ele sorriu, estendendo a mão.
Ela se aproximou, não mais temerosa, mas decidida. Também ela comungava da sombra poderosa dentro de si. Ele olhou-a, demoradamente como se estivesse apreciando uma obra de arte e saboreando cada detalhe...
– Senti sua falta na cama... – disse ele com uma expressão maliciosa.
– Não minta... – respondeu ela sorrindo de forma sinuosa.
– Onde estava?
– Cuidando dos nossos interesses. Tenho uma surpresa que eu acredito que vá gostar.
Hades fitou-a, longamente. Pandora era sua irmã e amante. Dividiam aquele poder obscuro e, a cada dia, sentia que ela se tornava mais forte. Quando a fodia se sentia poderoso e se alimentava do poder dela, deixando-a mais fraca e assim, submissa a si.
– Quero você. – disse ele com um olhar desejoso e cruel.
Pandora sorriu.
– Tenho uma ideia melhor...
– E o que seria?
– Venha... vou mostrar-lhe a surpresa que tenho para o meu amado senhor.
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Havia uma escuridão asfixiante e sem fim... Os rostos descarnados pareciam congelados com expressões de terror e, aos poucos, iam se desintegrando em meio ao vórtex, desaparecendo em um grande buraco negro.
Kamus sentia a vida se esvaindo do seu corpo, mas ainda assim, lutava com bravura, tentando achar algo em que se agarrar, embora tudo ali girasse em uma velocidade espantosa.
Seus dentes cerraram em forte agonia e ele gritou, mas não havia nenhum som. Sentiu sua carne continuar zumbindo, tensa e subjugada à força do turbilhão que tentava separá-la dos músculos e ossos.
A dor era excruciante, mas mesmo assim, ele permaneceu consciente e, em determinado momento, ouviu o chamado da sua matilha. Uma força extra invadiu seu corpo e com dificuldade, ele manteve os olhos abertos, mesmo não enxergando nada a sua volta.
Posso até morrer, mas não será lamentando, nem de olhos fechados! Disse a si mesmo quando sentiu uma mão suave envolver a sua. Ao toque sutil seguiu-se um par de olhos violáceos que o encararam com visível surpresa.
– Ainda não é chegada a hora de morrer, senhor de Irġiel kiesaħ...Sua presença ajudará a dar fim em toda essa loucura e irá nos libertar.
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