Trono De Sangue
26 Capítulo 26 REENCONTROS...
Notas iniciais
***Verso que abre o capítulo é de Robson Ruas com uma pequena adição minha!!!
Reencontro-me em ti...
E mesmo sem nada entender
não reluto,
me entrego...
A voragem do tempo me atrai a ti,
As tuas vontades falarão por mim!
Em cima da árvore mais alta, o menino viu o rastro de fogo e morte que as tropas negras haviam deixado pelo caminho. O galho onde estava ameaçou vergar, ainda mais, com seu peso, porém ele resistiu até que todos passassem.
Então ele viu dois homens cavalgando sozinhos e, o mais velho dos dois, era de uma beleza que ele nunca tinha visto igual. Sem querer se viu de boca aberta a admirar o homem e... caiu.
– Ai! – gritou ao aterrissar de bunda no solo.
O cavalo de Afrodite empinou e ele tocou, discretamente, o punhal que levava na cintura. No entanto, ao constatar que era, apenas, um menino, olhou em volta e então perguntou:
– Observou bastante?
– Oh, sim, meu senhor! Vocês são os primeiros a passar depois deles. – respondeu o menino.
– Deles quem?
– Do exército negro, meu senhor. Os homens do soberano estão marchando para Berkehell.
– Berkehell? Mas... Mas... – gaguejou Shun com os olhos arregalados.
– Calma, Shun... Escute aqui, menino, tem certeza do que está dizendo? – perguntou Afrodite para o garoto magro e com sardas nas bochechas.
– Sim, meu senhor. O exército vai invadir Berkehell e eles estão queimando e pilhando pelo caminho. Só poupam aqueles que escolhem juntar-se a eles.
Afrodite ficou sério. Se Berkehell ia ser atacada, não poderiam rumar para lá.
– Eu sei o que está pensando, mas eu devo juntar-me aos meus irmãos! – disse Shun.
– Não é seguro chegar lá neste momento. Nós temos que...
Afrodite não terminou a frase, pois logo silhuetas surgiram, diante de si, e alguém que ele lembrara há instantes atrás destacou-se do grupo malcheiroso...
– Ora, vejam só...! Como este mundo é pequeno, não é mesmo? Nos encontramos, novamente, Senhor... das poções! Quer dizer, dos venenos. Mas, devo dizer que não esperava encontrá-lo aqui. – falou Máscara da Morte.
Shun empalideceu e Afrodite encarou o líder dos Carniceiros.
– É uma coincidência infeliz, eu diria. Embora eu não possa dizer o mesmo da sua gente. É próprio dos abutres se banquetearem com restos, então acho que estão no lugar certo. – provocou Afrodite.
Máscara da Morte sorriu e Afrodite notou-lhe os dentes brancos e a textura dos lábios. Aquele homem possuía uma beleza rústica que o instigava e, ao mesmo tempo, provocava repulsa. Tinha vontade de insultá-lo e, ainda assim sentia uma atração poderosa quando ele se aproximava.
– Dizem que os abutres são os limpadores mais eficientes. Já não posso dizer o mesmo daqueles que compram a própria espécie para fazer sei lá o que.
Os olhos azuis de Afrodite cintilaram, perigosamente, mas Máscara da Morte não ficou atrás. Ele o encarou em um desafio silencioso até ambos perceberem que os outros olhavam de forma interrogativa para os dois...
– Não preciso justificar-me para um homem que vive de...
Mais uma vez, Afrodite não terminou sua fala, pois Shun, aproveitando que ambos discutiam, disparou com seu cavalo.
– Shun! – gritou Afrodite.
O jovem não deu ouvidos e seguiu, cavalgando com maestria, algo que os habitantes de Berkehell aprendiam desde pequenos. Máscara da Morte ficou observando, enquanto Afrodite ia atrás do fujão.
Um obstáculo no chão fez o cavalo de Afrodite estancar, enquanto o de Shun saltou sem hesitar. Em instantes, o jovem tomou a dianteira e sumiu, deixando o Senhor dos Venenos sem ação.
Máscara sorriu e mesmo um pouco distante, pode ver o rosto corado de Afrodite.
– Creio que o garoto fugiu. Contabilize como um mérito seu por tê-lo deixado com tanto vigor. – disse ele rindo e se aproximando.
Afrodite esporeou seu cavalo e disparou atrás. Entretanto, nem ele, nem Shun estavam preparados para o que aconteceu a seguir. Um grupo pequeno e retardatário, vestindo negro, investiu contra o jovem e, a seguir, contra Afrodite que vinha logo atrás.
Shun estava desarmado e Afrodite só tinha um punhal. No entanto, o Senhor dos Venenos não era indefeso.
Quando o maior do grupo se aproximou, ele fez um gesto fluído e um pó imperceptível foi lançado em frente ao rosto do homem. Os olhos e o nariz do homem sofreram um ataque, ao mesmo tempo, fazendo-o espirrar e lacrimejar. Aproveitando a deixa, Afrodite deu meia volta e gritou para Shun.
– Volte!
Mas, Shun estava decidido a ir em frente. Aproveitando-se da confusão, ele chutou o homem que ainda esfregava os olhos e puxou-lhe a espada. Sabia manejar uma e agora não estava mais doente. Lutou com bravura contra os outros três e, mesmo nunca tendo matado ninguém, a situação era atípica e ele não vacilaria se a situação assim o exigisse.
Aqueles homens eram inimigos, como diria Ikki. Não podia cometer o mesmo erro de antes, o erro que os tinha separado e deixado seu irmão ferido de morte. Derrubou um do cavalo e bateu com o punho da espada no rosto de outro, fazendo-o oscilar e cair. Usou o corpo de seu cavalo para prensar o guerreiro com um elmo arredondado e curvo, cujo visor em fenda deixou ver os olhos esbugalhados e, após derrubá-lo também, correu em disparada.
Afrodite não acreditou na cena que se descortinava frente aos seus olhos. O jovem de olhar doce e amoroso, agora se distanciava após derrubar quatro homens armados. Podia-se ver que era bom cavaleiro e que sabia defender-se, porém o Senhor dos Venenos ainda estava surpreso.
– Pelo que vejo, seu experimento o surpreendeu... – falou Máscara da Morte se aproximando de Afrodite e sinalizando para seus homens que, prontamente, cercaram os soldados caídos, mataram-nos e se apropriaram de suas vestes e armas.
Olhando-o com raiva, Afrodite nada disse. Em seguida, foi na direção seguida por Shun. O líder dos Carniceiros soltou uma gargalhada e sinalizou para June.
– Vamos seguir a belezinha... – disse ele estreitando os olhos.
– Mas, eles estão seguindo em direção à Berkehell. – falou June.
– Eu sei. Olhe em volta, esses filhos da puta do Hades tão destruindo tudo por onde passam. Nesse ritmo, não vai sobrar nada, nem para nós. Pensei em oferecer ajuda em troca de alguns incentivos. – disse Máscara.
– Incentivos? Que incentivos? Sabe muito bem que somos uma espécie de clã amaldiçoado. Ninguém nos quer por perto.
– Ninguém queria, minha cara. Agora, toda a ajuda será bem-vinda. Se sobrevivermos, vou exigir meu pagamento em terras.
– Estou te estranhando... Somos nômades.
– Pois eu cansei desta brincadeira. A pergunta é, está comigo ou não?- questionou Máscara com um olhar duro.
June franziu o cenho, depois sorriu torto.
– Você está diferente... Porque será que eu tenho a impressão que o loiro de nariz arrebitado tem algo a ver com essa sua mudança? Não conhecia esse seu lado. Sempre achei que te satisfazia...
– Tá vendo demais e falando merda. Organize o pessoal e vamos pegar um atalho. Vamos chegar a Berkehell pela porta dos fundos. – disse Máscara da Morte.
– Está bem. Espero que saiba o que está fazendo. Nossos homens são acostumados a pilhar, roubar e enganar. Não somos guerreiros e...
– Soubemos matar e isso é tudo o que importa numa guerra. Agora pare de tagarelar e organize o pessoal. Não temos muito tempo.
Contrariada, June obedeceu e logo todos se encaminhavam por estradas menores, atalhos como tinha dito Máscara da Morte. No entanto, mesmo ali, encontravam, de tempos em tempos, corpos pendurados e descarnados que jaziam sob o bico dos corvos e abutres...
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Natássia olhava o filho ainda adormecido.
Ah, meu filho... Tens tanto poder e tão pouca idade. Sussurrou ela de encontro aos fios brancos que se mesclaram aos dourados, acariciando-os com ternura.
O som suave da água atravessava o ar misturado à brisa lenta e fresca que ondulava os cabelos da Dama das Águas. Os cisnes deslizavam belos e imponentes, a neve continuava branca e intocada...
Quanto tempo ele ainda vai dormir, minha senhora? Perguntou a Elemental.
O tempo necessário para que seu corpo se restabeleça. Respondeu Natássia.
A Elemental fixou os olhos grandes e iridescentes em Natássia.
Ontem senti um grande tremor. Sei que não precisamos temer as trevas, mas Hyoga vive no mundo mortal e... algo terrível se aproxima, todas nós sentimos.
Natássia olhou para a Alkuaineen e seu belo semblante se entristeceu.
A escuridão avança sobre Darneheim e mesmo que estejamos protegidas, aqueles que amamos correm perigo. Hyoga precisa acordar, plenamente.
Senhora? Não diga que... Por favor! Isso não! Falou a Elemental agitando o pequeno corpo, os olhos mudando de cor, enquanto cintilava em todas as cores do espectro.
Você sabe que é necessário.
Não! O gritinho da Elemental vibrou nas águas do lago, provocando pequenas ondas.
Natássia estendeu a mão delicada e a Alkuaineen abraçou-se ao dedo indicador da Dama das Águas.
Não existe fim para nós, você sabe. Eu apenas farei o que as mães fazem. Sendo humana ou elemental, no fim, nós existimos para nutrir e proteger. O amor é o mesmo e o sacrifício, também.
Eu sei... Disse a Elemental e mesmo tentando sorrir, ela pareceu tão triste quanto o dia em que se despedira de Shun.
Natássia foi até Hyoga que repousava em uma cama macia feita de flocos de neve. Tocou em seus cabelos e sussurrou, soprando sobre ele:
Hyoga, acorde... Acorde, filho do meu ventre e do meu coração...
O jovem abriu os olhos devagar, depois sorriu, permanecendo em um estado de sonolência e vigília.
Mãe...
Escute, meu filho... Eu amo você e sempre vou amar.
Eu também te amo, mãe.
Eu sei, meu amor, mas agora, é hora de voltar...E ser!
Ditas as palavras, Natássia beijou a testa de Hyoga e abraçou-o com força. Em seguida, o jovem despertou.
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O salão estava escuro, abraçado pelas sombras... Havia algumas brasas incandescentes na lareira, mas ainda assim, tudo o que se podia ver eram silhuetas disformes e incertas dos móveis que ali estavam.
Hades caminhou pelo chão frio e foi até a grande janela coberta pela cortina grossa. Escancarou-a e logo a noite pareceu tocá-lo com volúpia, enquanto uma meia lua insinuava-se no céu tomado de estrelas.
Trevas... Ah, eu as sinto em mim como se fossem o corpo quente e voluptuoso de uma amante!
O soberano fechou os olhos e encostou-se no parapeito de pedra. A grande pirâmide negra erguia-se majestosa frente aos seus olhos, os pátios vazios, os sons longínquos atravessando a noite...
Inspirou cada detalhe e então abriu os olhos.
O brilho avermelhado ressurgiu e Hades sentiu-se parte de toda aquela escuridão. Podia ouvir o som da grama crescendo, das águas irrompendo as pedras, de um casal fodendo, dos animais noturnos caçando, de um velho moribundo dando seu último suspiro...
Um prazer enorme e a sensação de ser um deus o tomaram por completo. Ergueu as mãos, visualizando nelas, rostos, corpos, animais, montanhas. Uma vibração trespassou seu corpo e ele riu de um jeito maníaco, sentindo a vida pulsar em cada palma e em cada veia numa deliciosa agonia...
Com um gesto brusco, fechou a mão em torno das imagens que agora eram tão claras e tão reais que ele podia sentir-lhe as texturas... Em instantes, tudo feneceu. Os rostos se deterioraram, os animais rugiram, as montanhas quebraram e um cheiro penetrante de morte pareceu inundar o ambiente do salão.
– Hades... – a voz feminina chamou-o no exato momento em que o corpo do soberano estremecia num prazer quase orgástico.
Hades voltou-se para Pandora, os olhos frios percorrendo-a... Ele sorriu, estendendo a mão.
Ela se aproximou, temerosa, mas também cheia de curiosidade. Ele olhou-a, demoradamente como se estivesse lendo um livro e saboreando cada palavra, cada detalhe...
– Você livrou-se dela, não é? Verônica está morta em algum lugar, apodrecendo, tornando-se pó... – disse ele rente aos lábios delicados. – Eu sei, eu posso sentir...
Pandora tremeu sem saber o que Hades faria. Mas, ainda assim enfrentou o olhar inumano sobre si.
– Era apenas uma questão de tempo até ela resolver livrar-se de mim. Verônica nunca me amou. Não esperei que, mais uma vez, ela jogasse com a minha vida. – disse Pandora.
– Ela não amou nenhum de nós... Não me importa o destino dela, somente o seu... – falou roçando os lábios nos de Pandora.
A forma como Hades a tocou espalhou fagulhas de prazer e medo em seu corpo. As mãos tocaram-na com possessividade e a ereção que despontava sobre a túnica era impressionante. Ele a beijou de um jeito erótico e agressivo. Ela o recebeu com os lábios trêmulos, gemendo suavemente quando sentiu a língua ávida invadir sua boca.
O cheiro e o gosto de Pandora despertaram em Hades uma luxúria tão intensa quanto o poder que vivenciara, instantes atrás. Enlouquecido, ele a encostou na parede fria, sem parar de beijá-la e apertá-la contra si. Ela usava uma fina camisola que foi arrancada, enquanto ele descia a cabeça pelo pescoço alvo e lambia os seios que ainda estavam intumescidos e sensíveis.
Ela tremeu de prazer quando ele a mordeu nos mamilos e com a língua acariciou ao redor, enquanto guiava seu falo rijo para penetrá-la. Com as mãos encaixadas nas nádegas de Pandora, Hades a suspendeu empurrando-a contra a parede. Ela o envolveu com as pernas pela cintura e logo o sentiu invadi-la com força, num movimento único e arrebatador.
Com os cabelos de Hades entre os dedos, Pandora chorou, enquanto ele se movia sem tréguas dentro do seu corpo, fazendo-a experimentar um prazer tão intenso quanto doloroso.
Hades grunhiu e apertou-a quando gozou nas profundezas do corpo delicado, sentindo-a soluçar e chegar ao orgasmo junto com ele.
Pandora ofegou, esgotada e trêmula, como se sua alma houvesse sido roubada... Em sua mente, imagens de terror e morte tomaram forma em meio ao torpor que invadia seu corpo. Olhou para Hades que a fitava como se ela fosse sua propriedade, enquanto a levava em direção à mesa e a deitava sobre ela com aquele brilho avermelhado nos olhos.
Ela não conseguia pensar direito, mas pode ver que mesmo tendo gozado, Hades estava excitado, novamente, o falo em riste brilhando e pulsando...
Ele a penetrou de novo, repetidas vezes, até que ela desfalecesse e não soubesse mais onde terminava seu corpo e iniciava o dele... O cheiro do sêmen, a boca que buscava a sua, as mãos que apertavam sua carne, tudo mesclou-se em um grande abismo de prazer, dor e vergonha. As sombras banharam os corpos nus e o salão foi inundado de gemidos e ofegos.
E, enquanto Hades tomava Pandora para si, em vários lugares de Darneheim as calamidades foram se desencadeando...
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O céu ainda estava escuro quando a montanha rugiu. Pedras enormes desceram até o vale onde Yohma havia assentado sua gente. Raio e Noite uivaram e Kamus levantou-se da cama num sobressalto.
– Ouviu isso? – perguntou Fenrir que tinha Hilda em seus braços.
– Sim, parece o som de algo muito grande desmoronando. – respondeu ela buscando as roupas que estavam no chão.
– Fenrir! – Kamus chamou batendo na porta.
– Já estou indo! – respondeu o jovem beijando Hilda.
– Tome cuidado. – disse ela.
O jovem sorriu. – Gosto tanto quando diz isso. Parece que se importa comigo.
– É claro que eu me importo, seu idiota!
Mais uma vez, Fenrir sorriu, exibindo os dentes brancos e aquela covinha que Hilda achava deliciosa.
– Eu sei... Eu provoco só prá ter certeza e ouvir você repetir. – disse ele já saindo.
Hilda levantou-se com rapidez e vestiu as roupas. Olhou na janela que ainda exibia a escuridão que precedia o amanhecer. Sentiu frio e algo dentro de si, um pressentimento ruim que tratou de afastar com um movimento de cabeça e uma prece nos lábios.
Os archotes foram acessos, enquanto vozes gritavam umas às outras quando encontravam um animal ferido. A montanha tinha estremecido e, logo em seguida, pedras e neve haviam rolado até o vale. Sorte de Yohma que as barracas haviam sido montadas dentro da floresta e somente os animais estavam no descampado, onde havia um pouco de pastagem. No entanto, um dos homens que os guardava havia sido soterrado sob pedras, neve e lama.
Kamus chegou rápido deparando-se com aquele cenário desolador. As mulheres gigantes tentavam ajudar a arrastar os animais, enquanto os homens retiravam as pedras e entulhos.
– Alguém ferido, Yohma? – gritou ele.
– Um dos homens foi soterrado.
– Eu trouxe cordas e material de escavação. Vamos liberar o caminho. Fenrir vai levar as mulheres e crianças para o abrigo.
Yohma olhou para Kamus e coçou a cabeça.
– Mas... esse abrigo que construiu não era para a sua gente?
Kamus aproximou-se do irmão, encarando-o com seriedade.
– Quando vai entender que faz parte da família? Ficarão conosco até vermos o que está acontecendo. Tem lugar para todos e ficarão protegidos.
– Eu... nem sei o que dizer, Kamus... Eu...
– Diga sim. Ajude Fenrir a conduzir a todos. Eu vou investigar o que aconteceu na montanha.
Yohma apertou a mão de Kamus e o senhor de Irġiel kiesaħ tomou o rumo em direção às altas elevações que pareciam chegar até o céu. As montanhas eram soberanas e imponentes, sábias professoras daqueles que buscavam o caminho do guerreiro. Kamus já havia escalado muitas vezes, mas agora sentia que era diferente. Algo acontecia e não era natural.
Quando chegou ao pé da montanha, Kamus viu um jovem alto aproximando-se com passos firmes e lentos. Franzindo o cenho, ouviu o uivo dos lobos e a neve recomeçou a cair em pequenos flocos, dançando em frente aos seus olhos. Um olhar mais aguçado e ele percebeu a fisionomia de alguém que conhecia muito bem, mas que lhe pareceu diferente.
– Hyoga? – falou Kamus vendo a figura imponente.
– Sim, irmão. Eu voltei. – disse o jovem.
Com um semblante entristecido, Hyoga aproximou-se do irmão mais velho. Ele não era mais o mesmo garoto que o tinha salvado. Seus cabelos estavam mais longos e havia uma mecha branca entre eles. O corpo adquirira uma musculatura discreta e os olhos estavam ainda mais penetrantes, assim como a sua voz se tornara grave e sua postura, ereta e... adulta.
– O que aconteceu? – perguntou Kamus não enxergando mais o irmão caçula e sim um homem feito.
– Tornei-me um Máistir. Minha mãe... Ela... Sacrificou-se para que eu atingisse o auge de meus poderes. – disse Hyoga e uma lágrima rolou por sua face, transformando-se em um pequeno pingente de gelo.
– Irmão... Eu... Devo minha vida à Dama das Águas, eu... não sei o que dizer, só que sinto muito.
Hyoga abraçou Kamus e logo depois, olhou para a montanha. Com um gesto, elevou pedras e entulhos, fazendo-os deixar o vale. Em seguida, inspirou, profundamente, e as nuvens que tornavam o céu escuro, dissiparam-se, deixando que a luz da aurora incidisse sobre o lugar.
– O acidente com a montanha não foi natural. Poderes sombrios foram liberados. Posso sentir que, em outros lugares, houve enchente, tremores de terra, ondas gigantescas e morte. Teremos muito trabalho daqui para frente. Mas, por enquanto, pude apaziguar os elementais que nela vivem. – disse Hyoga.
Kamus assentiu, assombrado com o novo poder do irmão. Depois contou sobre Yohma e como as coisas estavam se desenrolando em Irġiel kiesaħ.
Hyoga ouvia a tudo com atenção e logo apertava a mão do novo irmão sob olhares admirados. Aqueles que o haviam conhecido, agora viam um homem ao invés de um garoto e aqueles que o estavam conhecendo, admiravam a beleza e a aura de poder que emanava dele.
Fenrir, ao voltar ficou de boca aberta, mas ainda assim, abraçou o caçula com força.
– Puta que pariu! Você ficou tão forte quanto eu! Isso não vale, você é o caçula, tinha que, ao menos, ficar um bom tempo menor! – disse Fenrir.
Hyoga sorriu. Tinha esquecido o calor selvagem do irmão, mas logo lembrou ao ser apertado com força e elevado com facilidade pelos braços fortes de Fenrir.
Hilda chegou com os outros e franziu o cenho ao ver Hyoga. Pelo lobo negro... no que esse pivete se transformou? Pensou ela, enquanto Neve o farejava e corria até ele, recebendo um afago generoso na enorme cabeça.
– Senti saudades, também. – disse ele ao seu lobo e Neve arregaçou os dentes, como se estivesse sorrindo.
Os demais olhavam para Hyoga tentando entender o que havia acontecido, sentindo as mudanças visíveis, mas também um desconforto estranho por não saber como agir.
Yuna aproximou-se com um olhar compreensivo e tomou a mão de Hyoga na sua. Acostumada às mudanças naturais e sobrenaturais, a Healer sentiu-lhe a força, mas também a dor. Podia fazer uma leitura precisa das emoções do jovem que cuidara e instruíra por 16 anos.
– Sua mãe sempre foi sábia e amorosa. Guarde isso em seu coração e a dor será menor.
Hyoga sentiu a garganta apertar e o peito doer. Lembrou-se da última cena vivida no reino de sua mãe, o corpo delicado afundando no lago, os olhos abertos e o sorriso de despedida.
Quando o corpo dela desapareceu, as águas transformaram-se em gelo e os cisnes explodiram em luz e neve. Todo aquele ambiente mágico se desfez em uma espiral, adentrando o infinito...
No mesmo instante, em que sua mãe fundia-se àquelas águas, seu corpo pareceu expandir e seus sentidos foram além do conhecido e daquele microuniverso que aprendera a amar.
Estrelas, mundos, água, fogo, terra e ar dançaram em tantas faces e corpos... A origem da vida e o fim de civilizações... Tudo e nada... Morte e ressurreição... O Universo descortinou-se em seus olhos, em sua mente e em seu coração, fazendo-o compreender e aceitar, além da dor, além de si mesmo...
– Venha, precisamos conversar. – disse Yuna.
Hyoga assentiu e Kamus sentiu-se triste e, ao mesmo tempo, orgulhoso da coragem do irmão menor. Ele, mais que ninguém, podia entender o que Hyoga estava sentindo, porque também havia vivido na carne a perda da inocência e das pessoas que lhe eram caras.
O senhor de Irġiel kiesaħ. olhou para o irmão, vendo-o ser abraçado por Yuna e aproveitou para si aquela cena de afeto. Lembrou-se de Milo e do calor extasiante daquele que amava. Então fechou os olhos e os punhos, alimentando-se da única lembrança prazerosa que tivera em sua vida. Depois, se encaminhou para o abrigo a passos largos, alimentado pela força que aquele amor lhe trazia ao coração e a sua alma.
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A noite já tinha caído por completo quando Milo, Ikki e Hagen chegaram a um vilarejo. A fumaça e o odor ocre de carne, madeira e metal se espalhava fazendo os olhos arderem. Não havia nenhum ser vivo, fosse gente ou animal. Corpos estavam espalhados ou fincados em estacas, as casas tinham sido queimadas e algumas serviam como fogueiras gigantescas a iluminar a selvageria resultante do ato das tropas de Hades...
– Fizeram isso há pelo menos quatro horas atrás... – disse Hagen.
– Precisamos continuar. Temos que chegar a Berkehell logo. – disse Milo.
Ikki assentiu sem dizer uma só palavra. Embora estivessem cansados, tinham que prosseguir. Hagen desmontou, para surpresa de Ikki e Milo.
– Tem alguém se aproximando. – disse o jovem.
– Somos nós! – disse Shura.
– Pensei que ficariam em Irmied. – falou Milo.
– Eu temia a atitude de Shaka em relação à Radamanthys e Valentine, mas vi que ele dará conta do recado. Creio que Kanon precisará de toda a ajuda e estamos dispostos a engrossar a resistência de Berkehell. – respondeu Shura.
– Obrigado! Serão bem-vindos com sua experiência. – disse Milo.
Os cinco seguiram silenciosos pelos bosques esparsos em que as árvores retorcidas pareciam entidades fantasmagóricas petrificadas. De repente, ouviram relinchos nervosos de cavalos e um praguejar. Hagen franziu o cenho e sinalizou para que parassem. Desceu do cavalo e encostou o ouvido no chão.
– Tem dois cavaleiros vindo nessa direção, mas estão sendo seguidos, à distância, por outros. – disse o jovem batedor.
Milo preparou o arco e os outros se esconderam entre as árvores.
Duas silhuetas adentraram o caminho estreito no denso emaranhado da floresta. Milo retesou a corda e respirou baixo e calmamente. Hagen , Ikki, Shura e Shiryu se dispuseram um em cada árvore, criando um semicírculo. Foi então que ouviram a voz melodiosa em um tom severo.
– Nunca mais faça isso! Cavalgar sozinho é o mesmo que acenar “estou disponível para ser atacado”! O que pensava estar fazendo? – rosnou Afrodite.
– Voltando prá casa! Você ia voltar que eu sei. Mas, eu, não deixarei meus irmãos sozinhos. Pertenço ao clã Skorpjun e mesmo que eu não seja tão forte quanto Ikki e Milo, ainda assim, eu lutarei. – respondeu o jovem.
Ao ouvir aquela voz, Milo baixou o arco e Ikki sentiu-se estremecer.
– Shun! – gritaram os dois ao mesmo tempo e o jovem voltou os grandes olhos verdes, reencontrando o rosto amado e emocionado dos irmãos.
Notas finais
****Nomezinhos da fic:
Máistir= Mestre.
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