Triângulo Mortal
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Boa leitura, ;)!
O soco foi dado tão forte que, se Isabella não estivesse acostumada, teria ficado com a mão dolorida.
Ela afastou-se um pouco, dando alguns pulinhos enquanto encarava intensamente o saco de pancadas a sua frente. No ritmo do som da academia, esfregou a luva de boxe na própria boca antes de desferir mais uma sessão de golpes contra o objeto.
Naquela mesma noite seria a final do campeonato estadual de boxe e Isabella participaria como peso meio-médio. Aquela era a última chance para treinar antes do momento que poderia levá-la para o campeonato nacional e, consequentemente, concretizar o sonho de ser uma boxeadora profissional.
Já estava quase massacrando o inocente do estofado quando, de repente, uma voz muito conhecida tirou-lhe a concentração:
— Espero que não esteja batendo pensando em mim.
Ela imediatamente parou de socar e virou-se para observar o homem que acabara de chegar. Leo era lindo. Um loiro alto de olhos castanho-escuros e músculos bem definidos por baixo da regata que usava, além de estarem bem expostos em seus braços tatuados. Não era uma surpresa que Isabella – ou qualquer outra mulher no universo – se sentisse atraída por ele.
Ela retirou as luvas de boxe e foi rapidamente ao encontro dele, apoiando a mão em seu ombro com alguma dificuldade, como se o pedisse para abaixar-se.
— Oi, amor. — Deu-lhe um beijo rápido nos lábios. — Por que bater pensando em você?
— Fica difícil saber se você ignora minhas mensagens. — Ele envolve-a em um abraço, do qual ela tenta escapar sem sucesso.
— Não me abraça; estou suando. — Ela sorriu sem jeito, afastando os braços dele da cintura. — E você sabe que não é porque eu quero te ignorar. Eu estou aqui desde que a academia abriu. Nem tive tempo de mexer no celular...
Isabella, assim que se livrou do abraço, foi em direção à bolsa, que estava repousada em um banco ali perto. Leo seguiu-a, bajulando-a, pois sabia como a namorada poderia reagir com a notícia que estava prestes a ler.
— Sim. Trabalha em um escritório de administração, faz hora extra, participa de campeonato, me namora, cuida da sua família, sai com os amigos e ainda arranja tempo para treinar e malhar pra ficar gata assim. Não sei como você consegue. Você é incrível, amor.
— Você não vai vir me ver!? — Todos os elogios não valeram de nada quando ela terminou de ler as mensagens. — Por quê?
Leonardo inspirou bem fundo, tentando encontrar as palavras certas.
— Aconteceu uma coisa. Minha avó... Ela faleceu ontem.
— Sério!? — Questionou espantada. — Oh, sinto muito. Nem sabia que você tinha avó.
— Ela estava em coma. Tinha um tumor no cérebro faz tempo. — Disse cabisbaixo. — A gente já esperava que ela fosse partir. E finalmente ela está em um lugar melhor.
— Meu Deus, Leo! Eu nunca poderia imaginar! Você nunca falou disso...
— Ela já estava assim antes mesmo da gente se conhecer e é algo pesado pra gente. Meu pai está muito triste.
— Imagino... Você também, né? — Ela, agora sem se preocupar com o suor, envolveu-o em um abraço de consolação. — Ela era sua avó, afinal.
Ele acariciou os curtos cabelos loiros da namorada, enquanto observava distraído o além.
— Eu já estava me preparando para isso. Mas não vou poder ver sua luta porque vou até a cidade onde ela estava internada pra resolver o lance do enterro. Tudo bem, Bella?
— Claro! — Ela desvencilhou-se um pouco para encontrar o olhar dele. – E hoje não vou poder por causa da final, mas amanhã mesmo vou pra lá também, já que é domingo.
— Não, não precisa. — Ele apressou-se para responder. — Vai ser um velório mais íntimo, sabe? Só pra família próxima. Meu pai e meu tio fizeram questão que fosse só a gente.
Isabella assentiu com a cabeça, sem saber muito que dizer. Percebendo o desconforto dela, Leonardo finalizou:
— Mas onde quer que eu esteja, eu vou estar torcendo por você, ok?
— Acho bom, hein?
Ambos sorriram. Leo conseguiu driblar a fúria assassina que esperava receber. Os dois passaram o resto da manhã treinando juntos na academia. Ele adorava ser tutelado pela namorada. Ela era realmente forte em todos os sentidos.
Às onze horas, Leo se despediu de Bella, alegando que precisava arrumar ainda algumas coisas para a viagem. Ela até tentou convencê-lo a almoçar com ela, mas ele disse que iria almoçar na estrada, com a família.
Leo, saindo da academia, caminhou em direção à lanchonete que ficava próxima a sua casa e sorriu assim que avistou seu alvo. Posicionou as mãos delicadamente sobre os olhos cor de mel da mulher de costas a sua frente, que sorriu ao perceber quem era.
— Leo! — Disse, rindo.
— Oi, amor. — Ele saiu de trás dela, depositando um beijo suave nos lábios da outra namorada e sentando-se na cadeira do outro lado da mesa circular. – Estudando?
Melissa deu uma olhada rápida nas apostilas e anotações sobre nutrição que estavam em seu canto da mesa enquanto Leo fazia o pedido ao garçom.
— Sim, esse é o último semestre! Medicina não é um curso fácil; não posso dar mole.
— Bobagem! Você vai tirar de letra; tenho certeza! — Ela corou e sorriu sem graça. — Por que não se dá uma folga? Amanhã é seu aniversário, a gente já vai meter o pé na estrada bem cedo pra ir pra casa de praia da sua família. Você devia ficar com esse tempinho pra relaxar.
— Mas exatamente, Leo! — Insistiu quando o garçom saiu para repassar o pedido aos cozinheiros. — Se deixar pra estudar tudo quando voltarmos, não vai dar tempo. Você tem sorte por já ter acabado sua faculdade, mas a minha ainda depende das notas que vou tirar.
— Mel, você já passou. É a única pessoa que, em plena faculdade de medicina, consegue ter nove como menor nota em todas as matérias em todos os semestres. Você poderia tirar zero, apesar de eu ter certeza que você não vai tirar, que ainda assim você iria passar e se formar. E em primeiro lugar, ainda por cima.
Com isso, as bochechas dela ficaram ainda mais rosadas do que o blush com que estava. Para completar, ela também enfiou a touca de panda com a qual andava sempre ainda mais na cabeça, chegando a cobrir os próprios olhos. Leo sorriu com isso. Melissa era realmente uma fofa.
Um pouco depois, a comida chegou e eles degustaram a refeição com o maior prazer. Quando terminaram, pagaram a conta e saíram para dar uma volta pelas lojas daquela região. De mãos dadas, conversavam animadamente, até passarem em frente a uma sorveteria onde os donos, como bons fãs de Harry Potter, nomearam: “Gota de Limão”.
— A gente não comeu a sobremesa, né...?
— Ah, não, Leo. — Mel fez manha quando viu para onde o namorado olhava. — Não faça isso comigo! Você sabe que eu não resisto a um sorvete e estou de dieta.
— Que dieta? Você já é magra como uma borboleta. — Ela apoiou a testa no braço dele para não ter que encará-lo. Ela não sabia receber elogios. — Olha, eu sou amigo do filho dos donos, então ganho desconto sempre. Vou comprar um de baunilha pra mim. Você vai querer um também? Última chance!
— Está bem, está bem. Você venceu. — Ela desencostou a testa e passou a apoiar o queixo no braço do outro para observá-lo bem. — Vou querer um de morango.
— Ótimo. Então vamos.
Leonardo se preparou para atravessar a rua, mas parou quando viu que Melissa havia soltado sua mão.
— Acho melhor ficar aqui, senão vou acabar não resistindo aos extras também.
— Está bem, então. — Sorriu torto para ela. — Você quem sabe.
Deu mais um selinho nos lábios da morena antes de partir.
...
Isabella caminhava tranquilamente pela rua. Ela percebeu que Leo acabou esquecendo-se do celular nas coisas dela e estava indo à casa dele, com a esperança de que ainda estivesse lá, para entregar-lhe.
Ela não esperava encontrá-lo antes de chegar lá. E mais: não esperava encontrá-lo com outra mulher. Uma mulher bonita e desconhecida por Isabella, que estava de mãos dadas com ele e fazendo charminho para cima dele. E... Eles acabaram de se beijar?
Isabella ficou paralisada por alguns instantes, encarando perplexa os dois. O que diabos estava acontecendo? Ela nem conseguia raciocinar direito para chegar à conclusão óbvia que aquela cena pedia.
Quando Leo já estava dentro da sorveteria, Bella saiu do estado de choque e se dirigiu a passos largos até a mulherzinha que ficou naquele lado da rua.
— Com licença. — Disse ríspida, de braços cruzados. Mel olhou-a assustada. — O que você acha que é do Leo para ficar assim com ele?
— Como assim o que acho que sou dele? — Perguntou calmamente, ainda sem entender. — Sou a namorada dele, ué. Você é amiga dele?
— Namorada? — Manteve o tom acusatório. — Acontece que eu sou namorada dele.
Melissa franziu o cenho, ainda mais confusa do que antes.
“Ele teria a coragem...?”
— Desde quando? — Mel gaguejou a pergunta.
— Três anos.
— Nós namoramos há dois.
As duas se entreolhavam em um entendimento mútuo da situação.
...
— Um de baunilha e um de morango, senhor Ruiz, por favor. — Leo pediu diretamente ao pai do amigo quando avistou o mesmo vindo de dentro da loja. — Elias! Oi!
Elias sentou-se ao lado dele, no balcão, com um sorriso irônico.
— Sério que você pediu dois sorvetes? Quer entrar no clube dos gordos? Seja bem-vindo, cara! — Abriu os braços fazendo menção de abraçá-lo, mas Leo repudiou, rindo.
— Não, não. O de morango é para a Mel. — Apontou para trás de si, onde Melissa o esperava. — Estamos num encontro.
— Sei... — Concordou, olhando para trás, distraído. — Já contou para ela? Ou para a Isabella?
— Contei o quê?
— Leo, você sabe muito bem do que estou falando. — Disse decepcionado, mas não surpreso. — Cara, você não pode tratar as mulheres assim. Traição não é bacana; é babaca.
— Eu não estou traindo elas. — Defendeu-se. — Isso se chama poliamor, tá? É possível, sim, se apaixonar por mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Li isso na internet.
Elias balançou a cabeça em discordância.
— Não. No poliamor, todo mundo sabe o que rola, todo mundo concorda, todo mundo se ama. Isso que você está fazendo se chama piranhagem mesmo. — Esperou para ver a reação dele, que ficou quieto. — Você aí, com duas namoradas, e eu aqui, querendo só uma pra dar amor e carinho. Nem precisava ser uma, já me contentava com meia. Aliás, até um pigmeu cairia bem.
— Olha, eu vou contar, tá? Só estou esperando o momento certo. — Elias estreitou os olhos em descrença enquanto Leo pegava os sorvetes e pagava. — Amanhã, Mel e eu vamos viajar. Se eu sentir que for a hora, eu conto.
— Pois eu acho que podia contar agora. — Constatou depois de observar o outro lado da rua por cima do ombro de novo. — Porque está rolando um crossover de namoradas lá no outro lado.
Leonardo não entendeu o que o amigo quis dizer até virar-se e deparar-se com a cena que se desenrolava na outra calçada: Bella e Mel estavam uma de frente para a outra. Completamente desesperado, sem nem dizer nada, ele saiu em disparada para atravessar a rua.
— Melissa! Isabella! — Exclamou nervoso. — Vejo que estão se conhecendo!
As duas o encararam de cara feia. Os olhos dele se revessavam entre uma e outra, esperando alguma reação. Finalmente, Isabella dá meia-volta e sai batendo os pés.
— Isabella! — Ele a chama, deixando as duas casquinhas nas mãos de Melissa e correndo atrás da outra. Conseguiu pará-la, colocando uma das mãos sobre o ombro dela. — O que está fazendo aqui?
— Você esqueceu o celular na academia. — Contou quase como se estivesse cuspindo fogo e virou-se para entregar o celular a ele. Quando ele estava prestes a pegar, ela o puxou de volta. — Por que aquela mulher disse que é sua namorada?
— Ah, ela disse isso, é? — Perguntou quase gaguejando. — Então, é que a Melissa, ela é... Minha prima. Ela também vai no meu carro pro enterro da minha avó e... Ela tem uma quedinha por mim desde que a gente era pequeno. Ela vive falando para todo mundo que nós somos namorados. – Pausou um pouco para ver a reação de Isabella. Não parecia nada melhor. Acariciou a bochecha dela para tentar acalmá-la. – Mas minha namorada é você. Você sabe disso, né?
Bella nada respondeu. Só entregou o celular, com o máximo de cuidado para não deixar transparecer sua tremedeira, e seguiu pelo outro lado sem um rumo certo, para que Leo não visse suas lágrimas caindo.
Ele ainda ficou parado lá por um breve instante, perguntando-se se ela acreditara mesmo nele e decidindo o que iria fazer. Acabou optando por voltar e resolver agora o lado de Melissa.
Quando chegou perto, assustou-se. Ela mantinha os olhos nos dele com uma intensidade que ele nunca vira igual. As mãos estavam abaixadas, vazias, e sua boca, coberta por casquinha e por sorvete de baunilha e de morango.
— Mel... Onde está seu sorvete?
— Comi.
— Ah... E o meu?
— Comi também. — Resmungou. Ela sempre comia quando estava raivosa. – Agora estou 300 gramas mais gorda. Muito obrigada.
Depois dessa resposta fria, ela se virou e seguiu na direção oposta da qual Isabella foi. Leonardo seguiu-a:
— Espera, Mel!
— Não me chame assim. Mel é o que a abelha produz. Meu nome é Melissa. — Ela parou de repente, fazendo Leonardo trombar nela. Deu alguns passos para trás e encontrou-a encarando-o fria novamente. — Aquela mulher disse que é sua namorada. Vou te dar dez segundos para se explicar. E espero que seja bem convincente.
Leo deu uma risada nervosa. Ele com certeza não esperava por isso.
— Que isso, Mel? Você nunca foi assim.
— Você nunca me deu motivo antes. — Respondeu no mesmo nível. Leo engoliu em seco, ainda mais inquieto.
— Então, a Isabella... Ela é minha prima. E ela gosta de mim desde que a gente era criança, sabe? Claro que eu já disse milhares de vezes que não a vejo dessa forma, mas ela insiste nisso. E é muito ciumenta; ela disse isso para todas as namoradas que eu já tive, por isso que nunca quis apresentar ela a você. Sabia que ela ia agir assim.
Melissa limpava a boca com um lencinho que carregava sempre em sua bolsinha de franja enquanto ouvia descrente a desculpa mais esfarrapada que podia existir. Quando ele terminou, instaurou-se ainda um breve silêncio até ela cortar com um tom ainda mais gélido, como se isso fosse possível.
— Leonardo Ramos. Meus pais se separaram quando eu tinha cinco anos porque minha mãe descobriu que ele a traía. Eu terminei com meu primeiro namorado porque descobri que ele me traía com minha melhor amiga, na época. Meu avô matou minha avó e meu tio-avô porque estava bêbado quando descobriu que ela costumava traí-lo com o irmão. Se tem uma coisa pela qual eu seria capaz de matar alguém, essa coisa é traição. Por isso, é melhor você me dizer a verdade agora: Você está me traindo, Leonardo?
Leo observou-a incrédulo. Nunca imaginaria que a doce Mel pudesse proferir tais palavras regadas por um ódio tão profundo. Por fim, acabou hesitando ao responder “não”.
Melissa puxou a touca de panda para mais dentro da cabeça. Dessa vez não por charminho, mas por raiva, e soltou um grunhido. Percebendo isso, Leo mudou de assunto:
— Hey, parece que já está ficando tarde, não é mesmo? Ainda precisamos passar na sua casa pra pegar suas coisas. — Nenhuma resposta. — Por que não fazemos o seguinte: você vai até sua casa e termina de arrumar sua mala, enquanto eu vou para a minha e pego o carro para te buscar, hein? Está bom assim pra você?
Silêncio. Mel deixou Leo falando sozinho e seguiu para casa. Sem desistir, ele confirmou bem alto:
— Passo lá às seis e meia.
Ela nem parou para ouvir.
...
Melissa nem ligou a luz ao chegar em casa. Bateu a porta de entrada e correu para o quarto para se jogar na cama. Agradeceu mentalmente pelas colegas da república estarem fazendo monitoria naquele dia e não estarem em casa para vê-la assim. Não tardou para lágrimas de frustração descerem por suas bochechas, borrando toda a maquiagem e molhando os travesseiros e cobertas.
Isso não era certo. Ela pensava que iria ficar com Leo para sempre, que havia finalmente encontrado seu príncipe encantado. Já havia planejado o futuro todo deles. Pensava que, depois de se formar na faculdade, seria uma questão de tempo até ele pedi-la em casamento. Eles se casariam na praia ao pôr-do-sol. Ela já havia até mesmo feito a lista de convidados e escolhido o vestido, as madrinhas, as damas de honra, o buquê... E a casa onde iriam morar? Havia um apartamento de três quartos alugando no centro que seria perfeito para eles – perto da delegacia onde Leo trabalhava e perto da clínica onde ela iria trabalhar, além de ter várias escolas boas nas redondezas. Ah, e as crianças! Teriam um casal de filhos: um menino e uma menina chamados Luan e Sofia. Seriam as crianças mais lindas do mundo. Isso sem falar do cachorro que iriam adotar. Ele, ela, dois filhos e um cachorro. Melissa era uma grande fã do Luan Santana.
Mas não. Descobriu que seu príncipe tinha uma Marquesa de Santos. Não, pior. Descobriu que era ela quem era a Marquesa de Santos. Ele era igual sua avó, seu tio-avô, seu pai, seu primeiro... Era igual a todos os outros!
Depois de alguns minutos, ela levantou a cabeça do travesseiro e enxugou as lágrimas, com muito cuidado para não borrar ainda mais a maquiagem. Não, ele não merecia seu choro. Acabou esbarrando em uma das bolinhas felpudas da touca de panda. Arrancou-a da cabeça no mesmo instante e tacou-a dentro do armário com fúria. Por mais que amasse aquela touca, foi um presente dele. Não amava mais. Agora era lixo. No entanto, isso acabou fazendo com que outra coisa caísse no chão e rolasse até o pé da cama. Melissa olhou aquele frasco, tentando lembrar-se do quê que era.
Ah, sim. Sua mãe havia dado a ela anos atrás. Na época do término com o primeiro namorado, depois da descoberta da traição, Mel entrou em depressão. Não saía do quarto nem para comer e passava os dias chorando. Chegou a um ponto que a mãe não aguentava mais ver a filha naquele estado e deu aquele frasco a ela. Disse que era veneno, que havia comprado na época que descobriu que o marido a traía e que foi com o objetivo de acabar com a vida dele, mas não o fez. Mel a perguntou o porquê. Lembrava-se da mãe sorrindo ao responder-lhe:
“— Porque morto ele não me veria dando a volta por cima sem ele”.
Mel deu um leve sorriso ao lembrar-se disso. Depois daquele dia, ela começou a aceitar a frequentar um psicólogo e começou a voltar à vida normal aos poucos. No começo foi difícil, mas logo conseguiu recuperar as notas excelentes, fez novas amizades e manteve-se linda. Ela não precisava de um namorado ou de uma falsiane para ser feliz.
Ah, se ela seguisse mais uma vez o sábio conselho de sua mãe. No entanto, o sorriso foi tomando cada vez mais forma conforme imaginava um cafajeste a menos no mundo.
...
— Cara, eu te falei! Era melhor ter contado!
— Você fala como se estivesse feliz com isso...
— Ah, mas foi você quem pediu, não foi? Já nem sei quantas vezes falei pra você contar e você não contou. Queria tanto ter duas namoradas, mas agora não tem nenhuma. Vai ver assim você aprende a lição.
Leonardo suspirou profundamente quando parou no sinal vermelho, perguntando-se se ligar para Elias para conversar sobre o que houve no viva voz enquanto dirigia era realmente a melhor ideia.
— Elas não terminaram comigo. Eu ainda tenho uma chance de me redimir...
Leo não conseguiu completar, pois sua voz foi abafada pela risada escandalosa do amigo no outro lado da linha.
— Ah, tá. Foi um término implícito. Se eu fosse mulher e tivesse amor próprio, nunca mais iria querer ver sua cara na minha vida.
Leo tomou muito cuidado para não pisar muito no acelerador, de raiva. É, com certeza pedir consolo a Elias foi a pior ideia que ele já teve.
— Ria o quanto quiser. Estou indo pra casa da Melissa agora.
— E aposto que você espera encontrá-la na porta, aguardando ansiosamente sua chegada para te encher de beijo, te perdoando por tudo. — Por sorte, Elias não conseguia ver que as bochechas de Leo coraram. — Ah, tenha paciência. Já parou para pensar que isso tudo foi na véspera das provas finais e do aniversário dela ainda por cima? Ela deve estar trancada no quarto, chorando, ligando pras amigas, vendo comédia romântica na Netflix, necessitada de sorvete...
— Nem me fale...
— Será que, se eu for vender sorvete dos meus pais na casa dela, ela compra tudo?
— Elias, cala a boca. — O homem do outro lado da linha riu. — Isso é sério. E ainda nem consegui falar com a Isabella. Ela não atende o celular.
— Iiiihhh, cara! Ainda tem a Isabella! Cê tá ferrado! — Disse estalando os dedos. — A mulher é campeã de boxe! E ainda por cima descobriu que você ia deixar de ver a final dela pra sair com a outra! Ela deve estar se preparando pra te descer o sarrafo! Olha, conselho de amigo: vai preparando sua entrada no SUS... Não! Melhor: vai agendando com a funerária que agora alguém da sua família vai morrer de verdade e não vai ser sua vozinha.
— Que belo conselho. Não sei nem como te agradecer... — Disse irônico enquanto imaginava dolorosamente Isabella subindo nele com as luvas de boxe.
— Pode escrever no testamento que vai deixar seu Playstation pra mim.
— Agora é você quem está sonhando. Se a situação sair do controle, tenho como chamar ajuda.
— Ah, é. Às vezes esqueço que você é da polícia. Mas você iria mesmo chamar a armada pra tirar sua namorada de cima de você?
— Espero que não, mas cuidado nunca é demais, não é? É por isso que durmo com uma arma de baixo do travesseiro.
— Agora estou com medo de ir na sua casa. — Alguns ruídos apareceram ao fundo. — Olha, Leo, acho que já fiz tudo que pude. Tentei te avisar, mas você não quis ouvir a voz da razão, então agora é com você. Minha mãe está chamando. Vou desligar. Tchau.
— Tchau. — E a ligação se encerrou.
Parado em mais um sinal vermelho, Leo praguejou algo sobre como morar em cidade grande é uma porcaria. O tempo que passou lá foi o suficiente para encarar novamente a tela do celular e ver o contato “Bella”. Bem, o máximo que aconteceria se tentasse ligar novamente era ela não atender.
Selecionou o telefone e esperou. O sinal abriu. Virou a curva. Cada toque parecia uma eternidade. Por fim, ela não atendeu. Essa já era a vigésima terceira, se seus cálculos estivessem corretos. Mais tarde tentaria enviar uma mensagem de texto. Talvez assim funcionasse.
Deu aleluia quando chegou à casa de Melissa. Abriu a porta do carro e parou no portão, perguntando-se em que estado encontraria a garota e o que ele faria. No entanto, não precisou pensar muito. De repente, a porta da frente se abriu e de dentro saiu uma Melissa belamente recomposta e de malas prontas. O coração de Leo quase parou quando percebeu que ela sorria para ele. Só não tinha certeza se esse quase ataque cardíaco era de alegria ou susto.
— Leo! — Ela saudou-o alegre, descendo as escadas e abrindo o portão. – Por que demorou tanto? Já estava indo te ligar. – Colocou-se nas pontas dos pés e deu-lhe um beijo. Ele mal teve tempo de raciocinar o que foi aquilo e ela já havia voltado. – Venha; me ajude com as malas.
Seu cérebro parecia ter parado de funcionar por alguns instantes, pois a única coisa que ele era capaz de fazer era encarar a namorada tentando arrastar as malas, perplexo. Ela estava completamente diferente da mulher que o havia deixado falando sozinho. Será que Melissa tinha dupla personalidade e ele nunca percebeu? Bem, de qualquer forma, tinha que aproveitar, não é mesmo?
— Claro. — Aproximou-se sorrindo para ela. — Já estou indo, amor. Pode esperar no carro.
Com isso, Melissa foi esperar sentada no banco de passageiro, sem o sorriso. Ele esqueceu o celular desbloqueado e Mel pôde ver todas as tentativas de ligação que ele tentou fazer para Isabella, ou Bella, como estava registrado nos contatos.
“Tudo bem.”. — Pensou. — “Ele nunca mais vai magoar uma mulher na vida dele. Nem eu, nem Bella, nem nenhuma outra”.
...
As competidoras estavam animadíssimas, preparando-se para as finais de suas categorias no boxe, com a exceção de uma das finalistas do peso meio-médio.
Isabella estava recolhida em seu canto, observando a tela rachada do celular, resultado do impacto que teve quando ela o jogou na parede na quinta tentativa de ligação de Leonardo. Acabou encontrando a mulher que estava com ele no Facebook. Estava marcada como amiga dele e ela nunca reparou. Não era de mexer muito em redes sociais.
Neste momento, ela ocupava-se em ver as fotos de “Melissa Cruz”, perguntando-se o que a outra tinha que ela não tinha que fizesse o namorado querer trocá-la. Peito e bunda era o que não era – enquanto os dela eram normais, a outra era uma completa “desbundada” e “despeitada”, em todos os sentidos das palavras. Bella era loira com olhos verde-água, mas ele preferia aquela morena dos olhos castanhos. Bella tinha uma corzinha... Será que ele gostava mais das albinas? Porque aquela menina era quase tão pálida quanto uma vampira...
Talvez fosse então a altura? Aquela mulher era alta. Deveria chegar à casa dos um metro e setenta, enquanto Isabella tinha seu padronizado um metro e sessenta e cinco. Ou era o cabelo? Mel tinha longas madeixas cor de chocolate até a cintura, tão lisinhas e bem cuidadas. Deviam ser cheirosas também. Bella pegou uma ponta do próprio cabelo para analisar, arrependendo-se profundamente da comparação. Era curtíssimo e de um loiro morto, sem graça, cheio de pontas duplas e oleoso; nem parecia que tomava banho direito. E a forma como ela se arrumava? Toda delicada, pintava as unhas com rendinha, as roupas sempre combinavam e eram tendência, milhares de acessórios, e a maquiagem então... Parecia até uma Barbie. Por outro lado, Bella olhou para si mesma. Mesmo quando não estava com roupa específica para a luta, era sempre tênis, moletom... Brinco, pulseira, colar e semelhantes não faziam seu estilo. E não fazia a mínima ideia de como se passava qualquer tipo de maquiagem. Será que era esse o problema? Seria ela masculinizada?
As fotos agora mostravam a garota na praia, de biquíni. A cintura era fina e não tinha barriga. Olhou para si mesma, passando a mão pelo próprio abdômen. Só músculo, mas ela ainda insistia em ver tecido adiposo ali, apesar de haver anos que não havia mais nada.
Com isso, os pensamentos iam se tornando cada vez mais melancólicos, conforme as lembranças da escola vinham à tona. Isabella nem sempre fora uma atleta. Na verdade, era bem o oposto disso. Ela costumava ser muito acima do peso ideal, destoando completamente das outras meninas do colégio. As outras crianças eram maldosas com quem não se encaixava no padrão de beleza. Aproveitavam-se de sua baixa autoestima para terem uma escrava boba da corte, humilhando-a constantemente e obrigando-a a fazer todas as tarefas delas. “Isabella? Está mais para Isafeia!” – Não, não era engraçado. Bem, talvez fosse para os outros, mas não era para ela.
Mas tudo bem. Desde que ela tivesse amigas, estava tudo bem. Até o dia em que ela começou a gostar de um garoto pela primeira vez. Ele estava na faculdade e era o melhor amigo de seu irmão, então acabavam se encontrando de vez em quando. Ele era uma das únicas pessoas que era gentil com ela e, como se isso não bastasse para prender a atenção dela, ele era lindo e inteligente.
Porém, suas fantasias adolescentes só duraram até o final do ano, quando ela descobriu que o garoto iria se formar e mudaria para outra cidade. Em um lampejo de desespero, ela acabou se declarando para ele e recebeu um belo de um fora que as pessoas jamais seriam capazes de esquecer. As zoações só pioraram depois daquilo. Mas, ao invés de recolher-se em seu próprio mundinho, como Melissa fez, a raiva de Isabella foi finalmente despertada. Revoltou-se com as manipuladoras que utilizavam da insegurança dela para fazê-la de escrava e convenceu a mãe a botá-la em uma academia de luta. Assim, além de mostrar a todos que poderia ser magra, saudável e bonita, ainda saberia se defender se tentassem abusar da boa vontade dela de novo.
No entanto, após meses de treinamento, aquilo acabou tornando-se uma obsessão. Ela não conseguia mais parar de insistir em seus limites e, a cada dia, apesar de ver sua imagem diminuindo no espelho, aquilo ainda não era o bastante. Nunca era o bastante. Pensou que, se vomitasse o excesso que comia, conseguiria o que queria. Mas, mesmo com os resultados mais rápidos, ela achava que poderia ser ainda mais veloz. Contudo, com a fraqueza e cansaço que sentia agora, era incapaz de tirar tanto de si quanto antes.
Foi assim que conheceu os anabolizantes. Não os comuns. Afinal, por que ela usaria os comuns se os ilícitos faziam o trabalho mais rápido? E, com trabalho, quer-se dizer tanto fortalecer a musculatura quanto acabar com a saúde. Aquilo já era quase oficialmente um vício. Uma pena que isso só foi reconhecido quando ela foi parar na delegacia após uma confusão envolvendo os traficantes e os compradores de tais substâncias. E foi assim que eles se conheceram.
Leo havia acabado de se formar em Direito e de passar no concurso para policial. Foi o responsável por chamar a família dela. Depois disso, começaram a levá-la a um psicólogo, nutricionista, entre outros médicos, e ela voltou a praticar luta de maneira saudável, prometendo que nunca mais voltaria àquela vida. E, como uma obra do destino, descobriu que Leo frequentava a mesma academia. Com isso, eles acabaram se aproximando e, consequentemente, namorando. Ele ajudou-a a dar a volta por cima no momento mais difícil de sua vida.
— E agora, para a final feminina do peso meio-médio... — O locutor começou. — À direita, a campeã do último campeonato municipal, Isabella Perez!
Isabella entrou no ringue ao ouvir o próprio nome, em conjunto a uma salda de palmas. Seus pensamentos, no entanto, ainda estavam em outro lugar:
“Leo é meu.”.
— E, à esquerda, a iniciante que surpreendeu ao despontar todas as concorrentes da cidade natal e conseguiu chegar até aqui, fazendo jus ao seu nome... — O locutor anuncia a outra competidora. — Vem aí, Vitória Flores!
Vitória subiu no ringue, ao som de mais aplausos. A mulher era branca e alta com olhos castanhos, assim como suas longas madeixas presas em um rabo de cavalo. Lembrava muito a Melissa, o que fez Isabella ficar ainda mais determinada para vencê-la.
“Não dela”.
O sinal marcou o início da luta. Não demorou nem um pouco para Isabella estar a míseros centímetros de distância de Vitória. Conseguiu pegar a adversária pela barriga, que recuou um pouco. Contudo, quando foi dar o segundo golpe, a outra conseguiu esquivar e, na sequência, atingir a mandíbula de Bella. A cabeça dela foi um pouco para trás e ela sentiu um gostinho de sangue na boca. Isso a deu ainda mais vontade de acabar com aquela mulher.
Em um ataque de adrenalina, Isabella desferiu uma série de golpes em uma velocidade sobre-humana. Não houve tempo de Vitória sequer pensar em reagir. Uma pancada após a outra, com cada vez mais força e fúria, a dor e hemorragia se intensificaram tanto que a lutadora, por incrível que parecesse, não conseguisse mais ficar em pé e caísse ao chão, sendo imediatamente imobilizada pela loira.
A contagem de dez segundos começou, o que não impediu Isabella de continuar golpeando a adversária. O sino tocou, indicando o final de luta mais rápido que aquela plateia já havia visto.
— Vitória foi derrotada! Isabella é a nova campeã do estado!
Todavia, Isabella continuava espancando o rosto da morena, fazendo surgir cada vez mais hematomas e sangramentos. Foi necessária a intervenção do árbitro para que ela se afastasse e aceitasse ter o braço levantado, indicando a vitória.
“Só meu”.
Depois da cerimônia de entrega de medalhas e de receber o prêmio em dinheiro, a família e amigos foram prontamente parabenizá-la. Mesmo arfando e suando, aceitou o abraço coletivo. Tomou um banho rápido no vestiário da própria academia, pois dali eles haviam combinado de levá-la à pizzaria predileta dela para comemorar.
Ao terminar de vestir-se, no entanto, ela pegou mais uma vez o celular. Leo estava ligando mais uma vez. Com um longo suspiro, seguido de um meio sorriso, dessa vez, ela atendeu:
— Oi, Leo.
— Bella!? — Perguntou surpreso, como se não esperasse que ela de fato fosse atender. — Vo... Você está bem?
— Estou ótima! — Disse, sorrindo por completo. — Acabei de ganhar o campeonato!
— Sério!? Que ótimo! Era óbvio que você iria ganhar. Ninguém luta melhor do que você!
—Sim... E sua prima? Como é que tá?
— Ah... Ela? Ela tá bem. — Demorou um pouco para responder. —– Bella, a gente precisa conversar. Segunda, depois do trabalho, na sua casa está bom pra você?
— Está perfeito, amor.
— Ótimo! — Era claro o tom de descrença na voz do namorado. — Bem, então a gente se vê.
— Até lá. — Despediu-se, encerrando a ligação. Admirou intensamente a foto de Leo nos contatos por algum tempo.
“Só meu. E eu vou mostrar”.
...
As músicas estavam no aleatório. Tocar “Melody of a Murder”, de Scarlett Rose, foi uma coincidência e tanto, pois aquela faixa combinava perfeitamente com a ocasião.
Os relógios marcavam meia-noite e meia quando Bella saiu de casa. A madrugada estava fria, escura e silenciosa. O único som, além do canto de cigarras, vinha dos fones dela. Caminhava calmamente em direção à casa de Leonardo, trajada de tênis, calça comprida e seu moletom universitário com capuz levantado, as mãos nos bolsos do casaco. Parecia que estava saindo para uma anormal caminhada noturna.
Enquanto isso, Leo e Mel dormiam no quarto dele. Bem, pelo menos Leo dormia. Mel estava bem acordada, esperando sentir a respiração do namorado pesar para agir. Quando teve certeza de que ele já havia mergulhado em um sono profundo, levantou-se com cuidado e dirigiu-se à própria bolsa, na cabeceira do lado da cama em que estava.
Com ainda mais cuidado, ela vasculhou a bagagem até encontrar o vidrinho de vingança. Um sorriso pequeno e maldoso surgiu lentamente em seus lábios. Isso serviria de consolo por todas as traições imperdoáveis que já presenciou.
Ao mesmo tempo, Bella chegava à porta daquela casa. De um de seus bolsos, retirou a cópia da chave da porta da frente. Leo não se importaria se ela entrasse só um pouquinho lá, não é? Afinal, ela era a namorada dele. Há muito mais tempo.
Infelizmente, Melissa não informava endereço nenhum no Facebook. Maldita mania de segurança. Por que aquela boneca humana tinha que ser tão certinha? Mas, enfim, o plano de Isabella era procurar pela casa de Leo algum lugar onde pudesse estar anotado o endereço da outra. Tinha um presentinho para entregá-la assim que a visse.
Vasculhado todo o primeiro andar, ela subiu as escadas na ponta dos pés para impedir que Leo acordasse. Também abriu a porta do quarto dele com todo o cuidado. Mesmo assim, a atenção de Melissa, que estava derramando o líquido no copo d’água que Leo mantinha do lado da cama, foi atraída para ela.
O olhar das duas se encontrou e, por um momento, o choque foi tamanho que nenhuma delas fez nada além de piscar. Porém, logo um sorriso de companheirismo apareceu no rosto de Mel, destoando completamente da expressão pasma de Bella ao compreender o que ela deveria estar fazendo. Antes que pudesse falar qualquer coisa, Mel posicionou o dedo indicador sobre a boca, indicando que a outra deveria fazer silêncio.
“Ele nunca mais irá trair ninguém” – A morena disse com o simples movimento dos lábios.
Bella quase não podia acreditar no que tinha encontrado ali. Deu passos lentos até a outra, que, por mais psicopata que pareça, tranquila, esperou a chegada dela. As duas se encaravam intensamente, verde se misturando ao castanho. Elas ficaram assim por alguns segundos, até as sobrancelhas de Mel se contraírem. Uma repentina dor pulsante começou a queimar seu ventre. Como em um reflexo, suas pupilas desceram para lá.
Um facão de cozinha, cujo cabo era segurado por Bella, penetrava a lateral de sua barriga, de onde saía sangue. O susto prendeu sua voz na garganta. Voltou-se com lágrimas mudas para ela. Os olhos verde-água eram inexpressíveis, como se ela já tivesse premeditado friamente aquilo, o que não deixava de ser verdade, pois segurava aquela faca no bolso do moletom desde que saíra de casa, esperando descobrir onde Mel morava para fazer isso com ela. Só mudou o endereço esperado.
Bella retirou a arma branca da barriga de Mel, que gemeu com o movimento. “Por quê?” – Ela queria perguntar, mas a voz estava entalada. Quem ela pensava que era para tirar o namorado dela de novo? “Ele não é seu. É meu. Só meu.”. – Pensava enquanto um sorriso sádico surgia em seus lábios, fazendo com que Melissa finalmente conseguisse forças para gritar, ao ver a faca sendo levantada por ela.
Dessa vez, o local atingido era o pescoço, o que fez com que os gritos finos fossem substituídos por mais gemidos e sangue respingasse no rosto da assassina, avermelhando até mesmo os dentes, que estavam à mostra. E ela teria continuado compenetrada em sua vingança se não fosse o estrondo e a dor que, do nada, começou a arder em seu peito.
O corpo de Bella caiu sobre o corpo de Mel enquanto Leo assistia a tudo paralisado. Ao ouvir o grito de Melissa, foi automático puxar o revólver que deixava por segurança em baixo do travesseiro e atirar no invasor, sem nem distinguir antes quem seria. E, para sua surpresa, encontrava agora ambas as namoradas caídas no chão.
A mão livre tapou a boca, que xingava, tremendo de nervoso, enquanto a outra largava a arma no chão. “O que foi que eu fiz?” – Questionava-se.
Como se fosse a própria vida que dependesse disso, ele pegou o celular e telefonou para a emergência, pedindo uma ambulância, explicando que havia uma mulher esfaqueada e outra baleada. Quando desligou, continuou encarando as duas, perguntando-se se havia alguma coisa que poderia fazer, mas o desespero era tanto que ele não conseguia raciocinar direito.
Para tentar acalmar-se um pouco, pegou o copo d’água que deixava em sua cômoda e bebeu o conteúdo. Enquanto esperava pela ambulância, fazendo ele mesmo curativos simples e rápidos nelas para ganhar tempo, começou a sentir um intenso mal-estar, que julgou ser consequência do desespero e da preocupação.
Quando a ambulância finalmente chegou, no entanto, não havia somente duas pessoas feridas para levar, mas, sim, três amantes juntos no chão, sem vida.
Notas finais
Até a próxima, ;)!
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