Tristes Lembranças
1 Capítulo único
Notas iniciais
Espero que quem leia goste *---*
Eu não conseguia me mover dali.
Eu queria ir embora. Era doloroso demais permanecer neste lugar, lembrar de tudo, e mesmo assim eu continuava vindo, sem falta.
Queria, precisava, mas não conseguia.
Por mais que doesse ficar ali, apenas com o vento frio como companhia, fitando com a expressão vazia aquela lápide solitária em meio à relva, minhas pernas recusavam-se a mover-se e meus olhos recusavam-se a desviar daquelas inscrições. Palavras visíveis mesmo com a pouca luminosidade que o céu de fim de tarde fornecia.
Maes Hughes.
Idiota, por que você foi morrer?
...
— Roy, não precisa ficar com vergonha – ele disse rindo logo após aparecer do nada e me dar um beijo rápido. Sempre assim, nunca se preocupando em pensar se a hora e o lugar eram apropriados.
Se bem que não posso dizer que parte de mim não gostava desse jeito inconsequente dele.
— A não ser que tenha se esquecido, estamos no meio de uma guerra, Major – falei, colocando uma mão em seu peito para impedí-lo de repetir o ato. Não adiantou.
— Exatamente por isso, senhor Tenente-Coronel – ele abriu um sorriso que evidenciava um tom de tristeza que eu entendia muito bem – É uma guerra, podemos morrer a qualquer momento. Não temos como saber qual será o último – e apesar de fazer menção de abaixar-se mais uma vez para um terceiro beijo, ele sentou ao meu lado na murada de pedra e ficou olhando para o céu acizentado com uma atenção distante.
Não sabíamos qual seria o último momento, devíamos aproveitar... Talvez essas sejam as palavras mais seguras para se agarrar em uma guerra, até que ela chegasse ao fim.
Deixei um suspiro cansado escapar e encostei a cabeça no ombro de Hughes, fechando os olhos frente ao mesmo cenário miserável que dominava aquele país atualmente.
Não adiantava de nada.
Mesmo de olhos fechados, as mesmas imagens me vinham à mente contra a minha vontade. Não dava para fugir daquela realidade.
Ishbal.
Destruída, despedaçada, cheia de mortes, cheia de dor.
Era o inferno.
Eu nunca te pedi nada. Pelo menos nada que não fosse um ímpeto egoísta que surgia em algum momento aleatório e que você tinha o costume de atender. Mas nunca algo que ultrapassasse esse limite. Tudo o que eu queria, a bem da verdade, era você vivo.
Vivo e bem.
Apenas isso.
Por que esse único desejo não pôde ser realizado?...
Mesmo quando você me disse que iria se casar, eu não fiz nada, eu nem tentei impedí-lo. Tratei logo de deixar de lado fora da vista de todos, inclusive de mim mesmo, o que eu sentia de verdade, as palavras que eu gostaria de dizer. Porque por mais egoísta que eu seja, naquela hora eu pude ver o quanto você estava... Feliz.
A situação era estranha, não era fácil dar aquela notícia a mim, mas o brilho de felicidade mal camuflado em seu olhar era mais do que perceptível.
Agora...
— O quê? – eu tinha ouvido perfeitamente bem, mas essas duas palavras saíram involuntariamente antes que eu pudesse pensar em outras menos ridículas.
— Eu vou me casar, Roy – ele não desviava o olhar do meu, e de alguma forma, eu ficava grato por isso.
Já fazia tempo que não nos víamos. Fazia tempo desde que deixamos de agir como antes. Fazia tempo que não estávamos juntos. Ora, era natural que ele encontrasse alguém, não era? Ele tinha esse direito, não tinha? Eu mesmo vivia cada dia com uma pessoa diferente ao meu lado, então...
...
A quem eu quero enganar? Aquilo me surpreendeu sim, aquilo me causou um aperto no peito sim. Mas eu não tinha mais qualquer direito de me meter em sua vida, não havia nada que eu poderia fazer a não ser aceitar.
Eu sei disso, mas mesmo assim...
— Ohhh, é mesmo? – o sorriso a seguir veio quase que mecanicamente – Quer dizer que existe alguém louca assim?
Ele não acompanhou a graça. Continuou me olhando sério.
— Roy... – eu sabia que ele ia começar a falar algo que provavelmente quebraria a delicada barreira que mantinha escondido o que aquela notícia havia aberto dentro de mim, então o parei antes que ele começasse.
— Maes, eu posso fazer um último pedido egoísta?
— O quê?
Dei dois passos para frente e agarrei o fronte de sua amassada camisa branca, o beijando como há muito não fazia. Eu sentia falta daquela sensação, eu a guardei na memória por todo esse tempo, e agora eu a experimentaria pela última vez.
Ele não resistiu.
— Uma despedida – falei baixo, olhando-o diretamente nos olhos também – É tudo o que eu quero.
Claro que era mentira. Uma grande e estúpida mentira. Mas eu já tinha sido egoísta o suficiente por tempo o suficiente para fazer outra coisa que não fosse contar essa mentira.
Ele não falou nada, nem hesitou. Pelo contrário. Agiu como se já esperasse por aquilo.
O segundo beijo foi ele quem iniciou. E o terceiro, e todos os que se seguiram naquela noite escura e misteriosamente silenciosa.
Deixei um suspiro único escapar dos meus lábios e enfim me afastei dali. O sol já havia se posto e estava escuro e frio. Fui até meu carro e comecei a dirigir até o local onde mais necessitava estar no momento.
Talvez eu não merecesse aquele local, talvez eu não merecesse nada do que eu tinha conseguido lá, mas mesmo assim, era para lá que eu iria.
Ao chegar, precisei tocar a campainha apenas uma vez.
— Coronel? Está tudo bem? – Riza me recepcionou com uma expressão surpresa e preocupada, dando-me espaço para entrar em sua casa.
— Eu apenas queria vê-la – envolvi meus braços ao seu redor, instantaneamente bem ao sentir seu perfume, seu calor.
Não era mentira.
Eu a amava.
O que se referia à Hughes também não era nenhuma mentira.
Melhor dizendo, no fim das contas, foi Hughes quem tornou possível para mim o desenvolvimento deste sentimento por ela. Era difícil de explicar, mas apesar de ter certeza de que nunca seria capaz de esquecer sobre ele, eu tinha igual certeza certeza sobre o que sentia por ela.
Confuso, eu sei.
No começo pode ter sido apenas para me apoiar, buscar forças, mas antes que eu percebesse, eu necessitava tê-la ao meu lado, eu desejava não perdê-la jamais. Antes que eu me desse conta, eu estava realmente me apaixonando por ela. Claro, me surpreendi ao constatar isso, mas já era tarde.
A apertei mais em meus braços.
Por mais que aquela dor, da perda, das lembraças, não sumisse, era tudo o que restou de Hughes, afinal. Tristes lembranças.
Fale com o autor