Triste e Imortal:A Vida de Uma Caçadora de Ártemis
1 Infância Escondida
Notas iniciais
Primeiramente, deixe-me apresentar: Sou Helena, uma garota imortal, serva da deusa Artemis. Me tornei caçadora aos meus 15 anos, mas acho que devo contar um pouco da minha vida antes do dia em que eu conheci a deusa.
Eu nasci na Grécia antiga, não me lembro exatamente o lugar, mas foi nesse país. Meu pai era um ferreiro, fazia tudo de metal que se pudesse imaginar. Minha mãe ajudava no que podia, já que tinha um problema nos braços que a impedia de movimentar-se livremente.
Minha infância foi normal, eu brincava com as outras crianças da vila, ajudava mamãe nos serviços domésticos e tudo mais que eu podia fazer. Mas um fato sempre me chamou a atenção: quando eu passava nas ruas da vila com mamãe ou com papai, os adultos sempre faziam sinal de negação e demonstravam um enorme desprezo por mim. Toda vez que eu perguntava a papai o porquê das pessoas fecharem a cara quando eu passava, ele respondia:
— Não dê ouvidos a eles. Siga em frente.
Foi isso que eu fiz. Não dei ouvidos e segui em frente até os meus 14 anos. Foi quando tudo aconteceu.
Em um dia de verão, minha mãe, meu pai e eu resolvemos passar à tarde de domingo ao lado de um lago, para nos refrescarmos. Eu, desastrada que era, derrubei a pilha de maças que a gente tinha levado, no lago. Minha mãe e meu pai abaixaram para pegar as frutas e foi aí que eu notei.
Eu era totalmente diferente dos meus pais. Eles tinham cabelos negros e enrolados. O meu era loiro e liso. Minha mãe tinha olhos castanhos e meu pai tinha olhos cor de mel. Os meus eram azuis como o céu. Os dois tinham pele bem clara, a do meu pai um pouco mais queimada de sol. Minha pele era amarelada, totalmente diferente. As nossas diferenças não paravam por aí, todos os traços dos dois não tinham nada a ver comigo.
Fui correndo para nossa casa. Minutos depois, meus pais chegaram:
— Eu sei, eu devia ter te contado antes — disse minha mãe. — As pessoas te olham estranho porque elas acham que nós te roubamos de algum outro casal, mas não é verdade. Era meia noite quando bateram na porta e eu encontrei você, enrolada em um simples cobertorzinho de lã. Não pensei duas vezes e te acolhi, te criei e te amei como se você fosse minha filha.
— Eu não te culpo mãe, só acho que eu deveria saber por mais tempo. Esse pessoal da vila não devia me tratar assim. Eu sou um ser igual a todos eles.
— Filha, acalme-se — disse meu pai, acariciando meus cabelos. — Atena dá mais sabedoria pra uns do que pra outros. Dou graças aos deuses por Atena ter me abençoado com sabedoria o suficiente para te respeitar como uma igual, mas Atena não deve gostar do povo da vila, pois eles são mais burros que os grãos que comem. Eles te excluem por ser diferente de nós, mas o que importa o sangue se o amor é maior?
— Amo vocês por tudo que fizeram por mim. Simplesmente amo.
Comecei a chorar. Agora, as palavras que meu pai sempre dizia faziam sentido. Seguir em frente e não dar ouvidos a ninguém foi a melhor coisa que eu fiz na vida.
Nesta tarde, eu passei a conversar mais com minha mãe e com meu pai. Perguntei a eles tudo sobre como eu tinha chegado, se tinha algo junto comigo e como foi me receber. Eles disseram que eu vim enrolada em uma manta de lã crua, numa cesta feita de cordas finas. O meu choro era calmo e melodioso, eu tinha um brilho inexplicável e uma mira sempre precisa.
Quando já era tarde da noite, minha mãe me obrigou a ir dormir. Afinal, segunda-feira era o dia mais movimentado na ferraria e eu tinha que ajudar meu pai.
Eu deitava e revirava, mas não encontrava posição confortável. A curiosidade bateu e comecei a pensar sobre quem eu teria sido se eu não tivesse sido abandonada. Eu seria uma princesa? Ou talvez uma escrava? Poderia estar na mesma situação financeira, mas com pais diferentes? Eu estaria feliz? Meus pais estariam felizes comigo ou eu estaria largada no mundo.
A curiosidade me bateu e uma decisão tomou minha mente: O Oráculo de Delfos.
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