Triste Destino
2 Cap. 1 - Tudo começou...
- Mãe! Olha só! Eu consegui! — Adentrei a casa tropeçando e caí de cara ao chão.
- Cuidado, minha filha! Quantas vezes eu tenho que repetir?
- Ita... — passei minha mão na cabeça, levantando-me — Mas, mãe... Eu consegui!
- Conseguiu...? – Minha mãe encarou-me, só agora percebendo que eu trajava vestes diferentes do usual. Eu estava vestindo um longo vestido vermelho, com uma abertura até a parte superior da coxa de cada lado. Por todo o vestido, havia umas listras brancas no peito e na saia do vestido, formando a figura de uma cruz. O vestido era contornado por listras douradas e uma cruz de ouro repousava sobre meu peito e na lateral dos ombros. Uma fita branca amarrada na cintura completava o modelo. O modelo utilizado pelas Sumo-Sacerdotizas de Prontera.
Não me agüentei e pulei por sobre minha mãe, envolvendo-a em um abraço apertado. O sorriso ainda estampava-se em meu rosto, e não precisaria muito para descobrir-se que estava extremamente feliz
– Diz que ta orgulhosa de mim, mãe!
- Claro que sim, filha! Meus parabéns... Seu pai estaria orgulhoso de você. – Minha mãe olhou-me meigamente, porém eu via o receio em seus olhos. O mesmo brilha que surgia toda vez que ela mencionava meu pai.
- É... Eu queria que ele estivesse vivo, para ver o que eu me tornei.
- Eu tenho certeza, querida, que ele a está vendo de algum lugar e seu coração está se enchendo de orgulho e felicidade!
- Tomara mãe! Afinal, parte da motivação do meu esforço foi por ele. Bom, eu vou atrás da Rika... Quero ver se ela também conseguiu passar no teste! – Fui dizendo isso enquanto me afastava de minha mãe, voltando para a porta de entrada da minha casa.
- Tudo bem, filha. Boa sorte. Mande meus parabéns a ela!
Acenei confirmando que tinha ouvido o a última coisa que ela disse, e abri a porta. Saí correndo pelas ruas da cidade de Prontera atrás de minha melhor amiga, Rika. Ela também iria fazer o teste para se tornar Sumo-Sacerdotiza hoje, e eu estava esperando ansiosa pelo resultado.
Diminui os passos enquanto me aproximava da casa de minha amiga, e avistei a mãe dela à entrada, carregando algumas sacolas.
- Tia, a Rika já chegou? – Aproximei-me dela enquanto estendia minhas mãos para ela me entregar as sacolas, que não só pareciam pesadas como estavam. Adentrei a casa assim que tia Fuu abriu a porta, depositando tudo em cima de uma mesa.
- Não, querida. Porque não vai procurá-la na Igreja? Talvez o teste dela já esteja acabando. Ah, obrigado pela ajuda, querida.
- Sim, senhora! – “Estranho, ambas começamos o teste na mesma hora...”.
Saí correndo da casa em direção a Igreja, que não ficava a poucos metros dali. Adentrei-a sem cerimônia alguma, afinal visitava aquele local desde que me conhecia por gente. Apesar de ser um lugar supostamente sagrado, gritei pelo nome de Rika sem cerimônia alguma.
- Shiiiu, calada! Você está em território santo, e lhe deve o devido respeito!
- Perdoe-me, padre Molray, mas... Você viu a Rika por aí? – Olhei para o Padre que surgia de uma das imensas portas que rodeavam o centro da Igreja. Com cabelos branco-marfim e vestindo um escapulário azul com dourado, Padre Molray era o Sacerdote-Chefe da Igreja, e um antigo amigo de meu pai.
- Sim, ela saiu há poucos minutos.
- Ótimo! Pode me dizer para onde ela foi? Estou louca para ver como ela ficou com essa roupa!
- Infelizmente, Yuuho, você não poderá vê-la assim.
- Ué? Por quê?
- Rika não teve sucesso no teste.
- Mas... Como?
- Um dos requisitos para o teste é um pensamento altruísta acima de tudo, e sua amiga não o tem. Ela valoriza a vida dela mais do que a de qualquer um. Porém, se quiser encontrá-la, acredito que esteja no cemitério atrás da Igreja, no túmulo do pai.
- Ta... Obrigada, Padre! – Sem nem me preocupar com etiqueta na frente de um Padre, saí correndo da Igreja, tropeçando em meu longo vestido. Dei a volta na Igreja e cheguei ao cemitério, onde eram sepultados os guerreiros de Prontera. Gritei pelo nome de Rika, e a encontrei deitada sobre um túmulo, chorando e pedindo perdão. De primeira, ela não notou minha presença. Aproximei-me silenciosamente dela e ajoelhei-me ao seu lado, puxando-a para um abraço. Sua cabeça repousou sobre meu colo, que logo se encharcou com suas lágrimas.
- Eu não consegui, Yuuho...
- Sim, eu já fiquei sabendo...
- Pelo visto você conseguiu, não é? Parabéns... Você deve estar muito feliz.
- Eu estava, sim, até saber que você não conseguiu. De repente, esta roupa já não me parece tão importante assim...
- Mentira. Eu sei o quanto você desejava se tornar Sumo-Sacerdotiza.
- O quanto NÓS desejávamos, não é? Lembra-se da promessa que fizemos quando nossos pais morreram na Guerra?
- É, você conseguiu cumprir a promessa. Mas eu não... Sou uma fracassada, mesmo... – Rika disse isso enquanto levantava-se, largando-se do meu abraço. Agora estávamos rosto a rosto. Ela enxugava as lágrimas que haviam molhado seu belo rosto pálido, que era contrastado pelos negros cabelos longos e lisos.
- Não, Rika! Você nunca será uma fracassada. Eu entendo a sua dor...
- Não, você não entende! Você sempre teve tudo, não dá para entender como eu me sinto!
- Rika, isso não é verdade!
- Não venha me desmentir! Apesar de nossos pais terem morrido na Guerra, sua família sempre teve mais privilégios pelo seu pai ter sido um general! Já com meu pai, que era apenas um soldado, foi diferente! Os familiares de apenas mais um soldado não podem ficar recebendo tantos privilégios...
- Rika, você não deveria se importar com isso! Somos melhores amigas...
- Rá! Você acha mesmo que eu considero a Yuuho-Certinha-Que-Quer-Ajudar-Tudo-E-Todos minha melhor amiga? Vá sonhando!
- Rika, do que está falando? – Encarei-a, realmente sem conseguir entender o que ela estava querendo dizer. Meu olhar interrogava-a assim como as minhas palavras. Ela nunca tinha falado dessa forma comigo antes!
- Eu só estava com você porque achava que ia receber créditos para isso! Afinal, você é tão altruísta que poderia passar essa imagem para mim também.
- RIKA! Não fale assim! Eu sei que você só está deste jeito porque está triste com o que aconteceu... Não se preocupe, eu estou aqui pra te ajudar...
- Eu não sou nenhuma coitadinha, não! Não preciso de sua ajuda! Eu posso me virar sozinha!- Rika se levantou e saiu correndo, ignorando os meus gritos que pediam para que ela esperasse.
Minha melhor amiga, uma invejosa? \"Ah, eu nem sou tão certinha assim...\". Levantei-me e me dirigi ao túmulo de meu pai, que ficava em uma área mais honrosa do cemitério, ao centro. Em seu mausoléu, as palavras “Laos Kiseki. Grande Pai, Marido e Guerreiro. Nunca será esquecido. Que descanse em paz.” estavam escritas em ouro. Sentei-me por cima de sua sepultura, chorando. Não me dei conta que o tempo passava, nem lembro quanto tempo fiquei lá até ouvir uns gritos. Levantei-me e saí de trás da Igreja para olhar o que estava acontecendo.
A imagem que apareceu à minha frente era horrível. Pessoas corriam em diferentes direções, desesperadas. Soldados prontenses corriam em direção ao portão principal, exatamente a direção contrária das pessoas que fugiam.
Ao invés de seguir aquelas pessoas, segui os soldados. Ao chegar ao portão, avistei um batalhão que tentava impedir que o mesmo fosse inteiramente derrubado. Porém, eles atuavam sem sucesso, pois entre as frestas do que restava do grande portal, o exército inimigo adentrava a cidade e feria quem via pela frente.
Usando de meu poder de cura, fui ajudando quem pudesse. Apesar de ser uma Sumo-Sacerdotiza, ainda não tinha tanto poder por ter acabado de se tornar uma. Porém não me importei, e tentei ajudar como podia.
Vi pessoas caídas, crianças chorando atrás dos pais, gente fugindo. Foi aí que o batalhão não agüentou mais, e o portão da cidade cedeu.
Foi uma correria maior ainda. Soldados lutavam sem sucesso tentando impedir o avanço do inimigo. Eles estavam em maior número.
Estava desesperada. Nunca tinha visto uma carnificina maior. Os soldados inimigos avançavam cada vez mais, e o meu poder limitado não ajudava muita gente. Vi companheiros caídos ao chão, os que não estavam mortos provavelmente estavam desgastados demais para ajudar as pessoas.
Então vi minha ex-amiga, Rika, caída ao chão. Não pensei duas vezes e saí correndo para ajudá-la. Ajoelhei-me ao seu lado, tentando analisar se seu ferimento era ou não grave. Ela apenas tinha torcido o pé.
- Não preciso da sua ajuda, vá embora!
- Mas, Rika, você está machucada...
- Não me importa, eu posso cuidar de mim sozinha! – Levantou-se com muita dificuldade, ajoelhando-se primeiro e depois tentando apoiar-se em um poste de madeira. Tentei ajudá-la, mas ela me empurrou com a mão livre.
- Não Rika, tome cuidado, você não pode se esforçar muito!
- Que se dane! -Ao proferir estas últimas palavras, em questão de segundos uma lança atravessou o peito de Rika e a derrubou de volta ao chão. Agora, o solo estava encharcado do sangue de minha ex-melhor amiga. Pulei para cima dela, gritando pelo seu nome. Porém, quando tentei curá-la, vi que meu poder mágico (SP) estava esgotado. Desesperada, procurei em minha bolsa uma Poção Azul a fim de recuperá-lo, mas meu estoque estava vazio. Tentei estancar o sangue que jorrava do peito de Rika o máximo possível, chorando até mais do que ela, mas era tarde demais. Rika deu seu último suspiro e morreu.
Não queria acreditar que vi minha amiga de uma vida inteira morrer daquele jeito, na minha frente. Senti-me uma inútil. Depois de tanto treinamento, tanto sacrifício, não pude usar do poder que adquiri para salvar a pessoa que mais precisava de mim. De repente, a guerra que se passava ao meu redor já não era mais tão importante.
Olhei para minhas mãos manchadas de sangue. Tinha perdido toda a esperança. De que adiantava aquele meu pensamento de querer ajudar a todos, se meu poder era assim tão limitado? Queria acabar com a Guerra, queria eu mesma evitar mais morte e tragédia. A minha ingenuidade chegou ao estopim, e finalmente entendi o que Rika havia me dito. Mesmo que eu me esforça-se ao máximo, seria impossível resolver tudo isso.
Foi então que uma lembrança veio-me à mente.
FLASHBACK
Um ano atrás, noite do pijama na casa de Rika. Eu e Rika tínhamos acabado de nos encher de bolo e doces e de fazer uma guerra de travesseiro. Deitamo-nos, exaustas, nas camas que tínhamos juntado para formar uma cama de casal.
- Ta dormindo? – Rika sussurrou no escuro, com medo de que sua mãe a escutasse do corredor.
- Que nada! Você acha que eu conseguiria dormir com tanto doce que comi? Creio que hoje terei uma noite de rainha...
- Vai passar a noite inteira sentada no trono! Há, há!
- Ei, não ria! Tenho certeza de que você terá o mesmo destino que eu.
- Que coisa feia! Não se pode ficar desejando o mal para sua amiga... Mas, de qualquer forma, se tiver que ser... Eu sou a primeira no banheiro!
- Não se EU chegar primeiro!
- Não tenha tanta certeza, minha cara! Mas, Yuu-chan, mudando de assunto...
- O que foi, Ri-chan?
- Você já ouviu falar da lenda da Zealotus, a demônio?
- Hum, não...
- Sabe... Diz a lenda que, nas profundezas de Glast Heim vive uma demônio muito velha, conhecida como Zealotus. Quando era nova, possuía um poder infinito e uma beleza incomparável, fazia tudo que lhe dava vontade. Porém, agora está velha, e, apesar de ser imortal, ela já se cansou dessa vida. Parece que ela está esperando que algum humano desesperado vá atrás dela pedindo sua ajuda, e que ela está realmente disposta a ajudar...
- Nossa, isso é sério?
- Você ta com medo, não é?
- E-eu não, u-ué...
- Sabia! É só falar em demônio que você fica assim. Devia deixar de ser tão covarde!
- Ah, é? Sabe como eu posso te deixar assim também?
- Como?
- Com isso! – Em um movimento relativamente rápido, puxei o travesseiro onde antes descansava minha cabeça e taquei-o em Rika, bem em seu rosto.
- Ei! Você vai ver só! – Rika ameaçou tacar o travesseiro em mim, porém a porta de seu quarto abriu na mesma hora. Sua mãe nos pegou no flagra.
- Chega de bagunça, vão dormir!
- Sim, senhora! – Dissemos as duas em coro, enquanto rearrumávamos nossas camas para dormir. A porta foi fechada e logo adormecemos, tendo uma longa noite de sono...
FIM DO FLASHBACK
Como um “plim”, a solução para as minhas dúvidas surgiu. Definitivamente aquilo não fazia parte de meus planos, mas eu não podia ignorar. Podia ser minha única chance. — É isso o que tenho que fazer! É minha última esperança!
Levantei-me e, apesar daquela confusão inteira, saí da cidade como se fosse mais um dos que fugiam para salvar a própria vida. Porém, o que eu planejava era muito mais do que isso...
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