Tripulantes - Parte 1 & 2
2 Tripulantes - Parte 2
Notas iniciais
Em um fim de tarde do dia 02 de novembro de 2017, Eva Silveira ia com sua família ao velório de um velho conhecido.
Eva, uma jovem mulher de 28 anos, conhecia Seu João desde a infância. Um homem de bom coração que todos no bairro admiravam.
Na companhia de Eva, estavam seu irmão Carlos de 23 anos, sua irmã Jane de 19 anos e o pequeno Pedro, seu irmão mais novo de 10.
Pedro, menino animado, nem fazia ideia da solenidade que eles iriam enfrentar, estava no seu mundo de criança, encantado com as pessoas em volta, pessoas do bairro em que viviam
Seus pais Joana e Gilberto, que se casaram bem jovens, tiveram os filhos mais velhos e acharam que sua família já estava formada, mas foram surpreendidos com Pedro e aí sim, sentiram que estavam completos. Joana e Gilberto estavam trabalhando e coube a Eva, como mais velha, representar o chefe da família no velório.
Como o velório e enterro seriam realizados no dia em que se celebrava o Dia de Finados, o cemitério deveria estar cheio de pessoas, mas, surpreendentemente estava vazio.
Na casa funerária, só estavam os que prestavam homenagem ao seu João.
Na esquina próxima a funerária, tinha uma praça, e naquela praça tinha uma quadra. A quadra estava cheia de pessoas. Sons de risos e música vinham de lá e Eva olhou em volta e percebeu que ninguém mais reparava nas pessoas vibrando e dançando na quadra.
Ela olhava e não entendia: Como ninguém estava olhando? Tão estranho...
Naquele momento, dois homens se aproximavam da casa funerária e Eva, ao olhar para eles, sentiu um arrepio estranho e desagradável passar por seu corpo, como se um fio de água gelada estivesse passando por sua alma.
Os homens traziam uma cesta na mão, e na cesta havia vários pães. Os homens tinham uma aparência comum e nada chamativas, mas, Eva sentiu que eles representavam mais que a aparência queria transparecer.
Ambos tinham uma altura mediana, cabelos e olhos castanhos amarelados e vestiam um terno marrom simples. Os homens ofereciam pães a poucas pessoas aleatórias, sem seguir uma sequência. Um que estava em um grupo, outro que estava em outro grupo... Observavam muito antes de entregar o pão.
Vendo aquilo, Eva sentiu que aquilo não era uma coisa boa e disse aos irmãos de modo firme:
— Vocês não aceitem nada que oferecerem! Absolutamente nada! Pão, água, bala, seja o que for.
E sabendo que seu irmão mais novo era muito ingênuo e crédulo com estranhos, ela reforçou a Pedro.
— Entendeu, Pedro? Não aceite, nada!!!
Ainda observando os homens estranhos, Eva notou que um homem se aproximou deles e pediu um pão. Eles prontamente negaram e se afastaram do homem.
Sentindo que aquilo fazia parte de algo mais profundo, Eva decidiu seguir os homens e ver aonde eles iam e disse ao seu irmão Carlos:
— Carlos, preciso ir até a padaria comprar uma água, por favor, tome conta de Pedro e não deixe ele se afastar do seu lado.
Carlos então respondeu:
— Pode deixar e traz umas balas de hortelã para mim, por favor!
Eva acenou e começou a se afastar em direção a padaria. Quando viu que Carlos e os irmãos entraram na casa funerária, ela desviou e foi em direção a praça, que foi para onde os homens se dirigiram.
Conforme ela chegava mais perto, mais a música ficava alta, mais os risos ficavam claros, mais as vozes ficavam empolgadas.
Dentro da quadra, Eva notou um homem em particular. Porque ele caminhava entre as pessoas em silêncio, sem sorrir. Com passos calmos, observando em volta com um olhar de satisfação quase obscena. Como se as pessoas ali fossem suas marionetes e ele o Titereiro orgulhoso de seu trabalho.
Eva ao olhar aquele homem, sentiu que ele era perigoso, perigoso de maneiras além da compreensão. Ela começou a se afastar da quadra quando notou que uma pequena menina estava saindo sozinha pelo vão da grade que revestia a quadra. Depressa, ela se dirigiu onde a menina estava, pronta para levar a pequena de volta para dentro.
Uma linda menina de uns quatro anos de idade, com um vestido rodado branco e cheio de babados e rendas. Eva achou a menina encantadora, lembrava uma das bonecas de louça que sua mãe colecionava. Bonecas inspiradas em modelos dos anos 40.
Chegando perto da menina, Eva pegou em sua mão e perguntou.
— Oi, linda! Onde está sua mamãe? Vamos levar você para ela?
A menina só olhou para Eva e sorriu e não disse uma palavra.
Eva então, pegou na mão da garotinha e começou dirigir-se a entrada da quadra. Lá, na porta de entrada estava o homem misterioso e dessa vez, ele trazia um pequeno sorriso nos lábios.
— Oi, moça, decidiu se juntar a nós? – disse o homem com uma voz tão agradável que Eva sentiu o choque correr pelo seu corpo e cada célula do seu ser começou a gritar: Perigo!!!
— Não, — disse Eva — Só estava trazendo a pequena fugitiva de volta, já estou indo.... até logo.
— Tem certeza de que não quer nos acompanhar? – disse ele com aquela voz suave que a induzia a entrar na quadra — A pequena Carlota adoraria uma nova amiga.
Eva, sentindo que aquele homem representa um perigo real a sua vida começou a se afastar mais depressa.
— Não posso, obrigada pelo convite, mas, não. – disse ela saindo de perto.
O homem então estendeu para ela um objeto e disse — Certeza? Não quer levar uma lembrança para casa?
Ao olhar o que estava nas mãos do homem, Eva viu que era diário que ela ansiava quando era criança. Um pequeno livro cheio de brilhos, pedras rosas pequenas e um cadeado dourado que ela achava quando criança seria perfeito para guardar seus mais profundos segredos.
Eva levantou os olhos do diário e olhou para os olhos do homem e viu sua alma e disse
— Sei quem é você, sei o que você quer e não quero ir com você.
— E quem sou, pequena Eva?
Um sobressalto tomou conta do corpo de Eva por ele saber seu nome, mas, o que não devia surpreendê-la. Ela sabia que aquele homem sabia coisas que poucas pessoas no mundo sabiam.
— Você é Antônio, ou Tony para as pessoas que você seduz para acompanhá-lo, não é isso? – disse Eva encarando o homem sem medo. Ela, que tinha uma mediunidade aflorada, mas pouco explorada, não entendia como conseguia ver aquele homem e sua história tão claramente.
Por seus olhos, passava a história de Antônio Villa Real, um jovem vendedor de pães de 24 anos, que de passagem por uma pequena vila de escondida no canto mais distante de São Paulo em 1881, se viu seduzido por uma mulher mais velha e experiente. Uma linda morena de cabelos longos e encaracolados, corpo voluptuoso e intrigantes olhos amarelados que lhe prometeu uma aventura se ele a seguisse em uma viagem com a trupe de ciganos que ela fazia parte.
Saraah dizia a Antônio com voz suave
— Pequeno Tony, vai ser a viagem de sua vida. – sorrindo maliciosa.
Antônio, que era sozinho na vida e encantado com a morena sedutora, seguiu Saraah sem titubear um segundo, sem perguntar aonde iam, o que fariam e o que o esperava.
Chegando perto do povo de Saraah, Antônio observou que os olhos de todos eram iguais, amarelados e sedutores, com um brilho misterioso.
Chegando perto da cozinha do acampamento de Saraah, Antônio viu uma moça com os mesmos olhos amarelados, mas ela era ruiva, sardenta e com ar travesso. E ela lhe estendeu um pão.
— Bem-vindo novo companheiro, gostaria de um pedaço de pão recém assado? Está uma delícia, e a propósito, meu nome é Ana – disse ela sorrindo.
Antônio achava que estava no céu, tanta gente bonita e simpática e para um jovem só como ele, era como estar no paraíso que sempre desejou.
— Olá, Ana, sou Antônio, – ele se apresenta timidamente — adoraria um pedaço de pão.
Ao comer o pão, Antônio sentiu tudo girar ao redor dele e o sorriso largo de Ana, antes cheio de alegria, de repente se tornou maníaco e ele não viu mais nada.
Ao acordar, Antônio viu que estava em uma cabana, deitado em peles jogadas no chão. O lugar cheirava a pão fresco e incenso de almíscar.
Ele sentou, e naquele momento Saraah entrou na cabana. Ao vê-lo acordado, disse sorrindo:
— Bem-vindo ao seu lugar, Pequeno Tony. Agora você faz parte dos Tripulantes, e nos ajudará a trazer mais e mais pessoas para nossa pequena família.
E Saraah, começou a explicar a Tony sua função. Como vendedor de pães, ele seria perfeito para caçar pessoas que se encaixassem em sua pequena família de predadores de almas. Pessoas com uma solidão no coração, pessoas que se sentissem desligadas do mundo e sentissem que precisavam pertencer a um lugar especial.
Antônio ou Tony como ele começou a ser chamado dali em diante, se sentiu especial por fazer parte de um grupo e ainda mais especial ao saber que poderia escolher quem faria parte da sua nova família.
Eva, sentindo e vendo tudo aquilo através dos olhos amarelos brilhantes de Tony, sentiu o anseio que ele tinha de tê-la a seu lado.
Ela disse determinada e sem medo.
— Bom, Tony, parece que você errou seu alvo. Não sinto solidão, não me sinto só e sei muito bem há quem e onde pertenço. Essa solidão que você acha que sente em mim, não é minha. Ela é a sua solidão, e eu a estou mostrando a você.
Tony deu um passo para trás e deu aquele sorriso suave e disse:
— Ah, pequena Eva, seriamos tão incríveis juntos... preparei tudo isso aqui só para atrair você, sabia? Eu vi que você vinha e te esperei, eu e minha família aqui queremos você.
E só neste momento, Eva percebeu que o silêncio os rodeava e olhou para o lado e viu em choque que todos na quadra que antes festejavam, a olhavam fixamente. Olhos amarelos e fixos e mãos estendidas para ela.
E na sua cabeça ecoava bem baixinho: — Venha para nós, pequena Eva, seja uma de nós, venha nos guiar.
E o volume das vozes começou a aumentar o volume mais e mais, até começar a deixá-la tonta. Até que ela gritou.
— CHEGA!!!— Estendendo os braços aos céus.
As pessoas na quadra viram com choque, uma luz brilhante começar a irradiar das mãos de Eva e tomar conta de todo seu corpo, tornado tão forte o brilho que era impossível para eles continuarem olhado. Eles gritaram e eles e Antônio, sumiram todos ao mesmo tempo.
Na quadra, só restou uma mulher morena voluptuosa e que sorria de maneira irônica para Eva e disse:
— Acha que pode contra nós, pequena Eva?
Eva, ainda brilhando e sentindo a força da luz em suas veias, disse com a voz firme:
— Não tenho intenção alguma de ir contra vocês, seu fardo é seu fardo. Sua hora de pagar por ele Saraah Gioa, será em outro momento, por outras mãos. A minha missão hoje, era só impedir que as pessoas que receberam o pão neste dia, não caiam em suas mãos. – disse Eva, com uma voz que parecia um trovão e estremecia as grades da quadra.
— Sua hora, Saraah Gioa, virá pelas mãos da próxima pessoa que você tentar seduzir. Ela, pequena Saraah – disse a voz de trovão irônica — Virá mais rápido do que você imagina. A luz dela vai lhe fazer derreter, e todos os seus Tripulantes junto com você.
Saraah com seus olhos neste momento mais vermelhos que amarelos olhava com um ódio profundo para Eva.
— E você acha que serei enganada, Eva? Tenho milénios garotinha, ninguém nunca me enganará!
— Será? – disse a voz de trovão. E neste momento um estrondo veio dos céus e Saraah foi envolta por uma luz que a rodeava como um furacão. Ela gritava e protestava até que sumiu e nada restou na quadra.
Eva caiu de joelhos ao chão e respirava ofegante. Ao seu lado, surgiu uma mão estendida e ela pegou. Ao olhar para a pessoa que lhe ajudava, Eva viu um homem sorridente. Ele era alto, em torno de 2 metros de altura, cabelos castanhos e olhos de um azul tão pacífico que ela sentiu sua alma se acalmar.
Em volta do homem, uma luz suave brilhava em tons de azul e lilás. Ainda sorrindo para ela, o homem com a voz de trovão disse:
— Grande, grande Eva, hoje você nos deixou orgulhosos. Você salvou mais vidas do que sonha. Obrigado por se abrir e ver o perigo que rodeava essas vidas. Obrigado por nos dar a abertura para o início da queda dos Tripulantes, e não se preocupe, a queda deles será rápida, graças a você que os deixou visíveis aos olhos de quem precisava enxergar.
E ele continuou.
— Volte para sua família, grande Eva, e não temas, nunca mais lidará com eles. – Com um beijo em sua mão e uma curvatura o homem desapareceu, sem dizer seu nome e de onde vinha.
Eva atordoada, olhou em volta e viu a praça e o bairro que antes lhe parecia vazio, cheio de gente. Crianças correndo, pais brigando e chamando a atenção dos filhos, pessoas com flores na mão caminhando em direção ao cemitério para prestar homenagens aos entes queridos.
Então, Eva ainda sem acreditar no que viveu, volta a casa funerária para encontrar seus irmãos.
Chegando lá, ela viu Carlos e seus irmãos mais novos juntos aos pais que conseguiram uma brechinha em seus empregos para dar o último adeus ao Seu João.
— Eva, aonde você se enfiou garota? – pergunta sua mãe — Seu irmão disse que você foi há uns vinte minutos atrás de comprar uma água e não tinha voltado ainda.
— Vinte minutos? – Eva diz em choque
— Sim, assim que você saiu, eu e seu pai chegamos – percebendo o ar atordoado da filha, a mãe pergunta: — Você está bem, minha filha?
Ainda atordoada, mas, fascinada com o que tinha vivido, Eva diz a sua mãe: — Estou mãe, — olhando ao redor e vendo as pessoas que receberam o pão dos Tripulantes ali, sãos e salvos — Como nunca estive antes.
Mais tarde, a caminho de casa, Eva começou a refletir de verdade o que tinha acontecido com ela, a experiência fantástica que os espíritos de luz haviam permitido que ela fizesse parte. E olhando para o céu estrelado naquele momento, Eva viu uma estrela cadente incandescente cruzar o céu, sorriu e disse: — Obrigada, Senhor Trovão, até a próxima.
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