Notas iniciais
Aviso: morte da personagem principal e alusão a um purgatório.

Era um dia quente de verão, trinta e sete graus, umidade em 70%, quando Célia viu o carrinho de picolé. Andar até o outro lado da rua foi difícil — calor infernal, o chinelo verde quase derretendo no asfalto — e ela quase perdeu o homem. Havia suor acumulado na testa dela — “um picolé de uva, por favor” — e Célia limpou com as costas da mão antes de tirar o dinheiro do bolso. Trinta-e-sete-graus, verão, umidade em 72%, e Célia abriu o picolé. O homem seguiu seu caminho, um sino barato balançando, a rua vazia porque ninguém sairia nesse tempo. Havia o ti-li-lim do sino, o chiado do asfalto, a respiração de Célia e o Sol. Já na terceira mordida — o sorvete tentando derreter antes de ser devorado, o suco pingando nos dedos, o açúcar grudento -, Célia decidiu continuar andando. O chinelo verde derretendo no asfalto, o calor aumentando e aumentando. Célia terminou o picolé e jogou o palito no lixo do fim da rua. Atravessando a faixa, a correia do chinelo arrebentou. Célia xingou a sorte, se abaixou para puxar o chinelo. Um caminhão virou a esquina, a luz nos olhos do motorista.

Célia ainda tinha que voltar para casa.

Era um dia quente de verão, trinta e oito graus, umidade em 71%, quando Célia viu o carrinho do picolé. Andar até o outro lado da rua foi difícil — calor infernal, o chinelo rosa quase derretendo no asfalto — e ela quase perdeu o homem. Havia suor acumulado na testa dela — “um picolé de limão, por favor” — e Célia limpou com as costas da mão antes de tirar o dinheiro do bolso. Trinta-e-oito graus, verão, umidade em 73%, e Célia abriu o picolé. O homem seguiu seu caminho, um sino barato balançando, a rua vazia porque ninguém sairia nesse tempo. Havia o ti-li-lim do sino, o chiado do asfalto e o sol. Já na terceira mordida — o sorvete tentando derreter antes de ser devorado, o suco pingando nos dedos, o açúcar grudento. Célia decidiu continuar andando. O chinelo rosa derretendo no asfalto, o calor aumentando e aumentando — trinta e oito, trinta e nove, quarenta. Célia terminou o picolé e jogou o palito no lixo do fim da rua. Atravessando a faixa, a correia do chinelo arrebentou. Um caminhão virou a rua — a luz refletida nos olhos do motorista.

Célia ainda tinha que voltar para casa.

Era um dia quente de verão, trinta e nove graus, umidade em 72%, quando Célia viu o carrinho do picolé. Andar até o outro lado da rua foi difícil — calor infernal, o chinelo roxo quase derretendo no asfalto — e ela quase perdeu o homem. Havia suor acumulado no testa dela — “um picolé de morango, por favor” — e Célia limpou com as costas da mão antes de tirar o dinheiro do bolso. Trinta-e-nove graus, verão, umidade em 74%, e Célia abriu o picolé. O homem seguiu seu caminho, um sino balançando, a rua vazia porque nunca haveria mais ninguém. Só o ti-li-lim do sino, o chiado do asfalto e o Sol. Já na terceira mordida — o sorvete tentando derreter antes de ser devorado, o suco pingando nos dedos, o açúcar grudento. Célia decidiu continuar andando. O chinelo roxo derretendo no asfalto, o calor aumentando e aumentando — trinta nove, quarenta, quarenta e um. Célia terminou o picolé e jogou o palito no lixo do fim da rua. Atravessando a faixa, a correia do chinelo arrebentou. Um caminhão virou a rua — a luz refletida nos olhos do motorista.

Célia ainda tinha que voltar para casa.

Era um dia quente de verão, quarenta graus, umidade em 73%, quando Célia viu o carrinho de picolé e percebeu que nunca voltaria para casa.

Notas finais
Eu queria dizer que a Célia fez alguma coisa de errado para merecer isso, mas eu criei isso em cinco minutos, então eu não sei o que ela fez para desperar a fúria de quem quer que seja o responsável.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!