Um dia nada comum.

Com meu currículo firmemente impresso em mãos, contemplei a imensidão lustrosa da Innovatech. Mais do que uma empresa de desenvolvimento de jogos, era o motor que impulsionava a economia do Vale do Silício, na Califórnia. Minha busca por emprego não era apenas uma meta de curto prazo; eu almejava mais. Queria aprender com o melhor do país: Nathan Thompson, o CEO da Innovatech e o mais jovem a integrar o ranking da Forbes, com um patrimônio estimado em 110 bilhões de dólares. Aos 28 anos, Nathan herdou a empresa de tecnologia e desenvolvimento, Innovatech, após a morte de James Thompson, fundador e seu pai, devido a um aneurisma cerebral. Para mim, uma carreira na Innovatech representava uma oportunidade de adentrar no mundo corporativo e nos bastidores da força motriz do progresso.

No tumultuado saguão, repleto de executivos apressados, senti-me pequena, quase impotente diante da multidão. O local era ruidoso, com scarpins ecoando no porcelanato e celulares disparando ligações bilionárias. Pessoas transitavam freneticamente em todas as direções. Na busca pelo elevador, desviei da manada empresarial. Em um inevitável encontro, derrubei o café de um homem bem vestido, que aparentava ter vinte centímetros a mais que eu. Olhei para a mancha marrom que se formou na altura do seu peitoral, desviei para o seu rosto. Ele buscava com os olhos o culpado, e, para a minha sorte, eu estava fora do seu campo de visão por ser mais baixa.

Acho que ele esperava alguém à sua altura. E se soubesse que eu não trabalhava ali, poderia me cobrar pela lavanderia ou querer uma camisa nova.

Talvez eu devesse apenas deixá-lo ali. E ir embora enquanto ainda estava com todos os dentes na boca e ossos intactos.

Dei um passo para o lado, saindo da sua frente. Ele limpou a garganta, como quem anunciava o que viu, o que aconteceu e o que eu estava prestes a fazer. Parei de andar e pude sentir seus olhos me metralhando pelas costas. Não arrisquei em virar e encará-lo. Ou eu poderia ser facilmente a sua presa.

— O elevador é por aqui. — Ele passa por mim e esbarra sutilmente no meu ombro.

Ele abriu o caminho com seu porte alto e musculoso; os executivos no saguão se afastaram de forma respeitosa, alguns até se curvaram e lhe desejaram um bom dia.

Quem era esse homem?

Ele parou um pouco à frente e me olhou sobre os ombros, fez um sinal com a cabeça, e eu o segui. Presumi que aquele era o caminho até o elevador; o silêncio substituiu o saguão agitado, quanto mais longe ficávamos. Acompanhei-o por um corredor com pilastras de mármore; uma iluminação baixa destacava o caminho até as portas do elevador.

Ele apertou o botão de subida. Envergonhada com o silêncio que pairava entre nós, distraí-me olhando as placas que indicavam os andares e as empresas que ocupavam cada um deles; a InnovaTech ficava no décimo segundo andar.

O silêncio é interrompido pelo barulho da porta do elevador abrindo. Ele é o primeiro a entrar; eu olho ao meu redor, na esperança de aparecer mais alguém. O homem espreme os olhos e me encara, como se estivesse confuso.

— Não vai entrar? — Ele dá de ombros e aperta o botão. — Se prefere ir de escada, é no outro corredor.

A porta ameaça fechar; dou uma última olhada ao meu redor e, sem ver ninguém, avancei para entrar no elevador a tempo; nesse momento, ele segura a porta, me protegendo.

Uau, ele tem um coração?” pensei. Estou surpresa; há cinco minutos, ele nem esboçou uma reação quando derramei café quente na sua roupa. Estar a sós com um completo desconhecido em um elevador de 3 metros quadrados me dava frio na espinha.

Era constrangedor olhar para ele, e o silêncio tornava a situação ainda mais tensa. Encolhi-me no canto do elevador para evitar contato visual. Não tinha coragem de encará-lo. Rolei os olhos aleatoriamente pelo local, evitando-o, até que notei algo curioso no visor: décimo segundo andar.

Ele também ia para a Innovatech? Será que estava indo para a entrevista? Ou pior, será que ele era o gerente?

Por um segundo, quase me esqueci do motivo que me levou até ali. Necessitei recompor-me e manter uma boa aparência. Caso contrário, o senhor café ao meu lado poderia ficar com a vaga. Passei a mão pelo meu blazer e o alinhei, olhei no espelho para ter certeza de que não estava amassado. Pela primeira vez, observei com atenção a aparência do homem. Suas costas grandes e largas refletiam no espelho. Seus músculos contornavam cada linha de seda daquele terno azul marinho. O cabelo raspado nas laterais e na nuca destacava os fios pretos que foram cuidadosamente penteados para trás.

Eu estava perdendo o foco.

De novo.

E mais uma vez, por causa daquele homem.

Com firmeza, agarrei minha bolsa e procurei pelo batom. Enquanto remexia na bolsa, percebi o desconhecido lançando-me um olhar de canto de olho, possivelmente incomodado com o barulho que eu fazia. Optei por ignorá-lo. Abri o batom e deslizei suavemente pelos meus lábios, contornando-os.

— Como pode ser tão pequena e tão desastrada? — Indagou, me encarando de cima a baixo. Engoli em seco.

Meu breve momento de vaidade foi interrompido quando o elevador parou no andar, provocando um leve balanço que resultou em um borrão vermelho na minha bochecha.

— Parece que estamos quites agora. — Comentou antes de sair do elevador, deixando-me com um borrão no rosto. Encarei meu reflexo no espelho e esfreguei a palma da mão na tentativa de limpar.

— Ei! — Exclamei, chamando-o, mas ele já estava longe.

“Se concentra, garota. Essa é a oportunidade da sua vida. Um encontro com alguém tão insensível não pode estragar o seu dia.”

O logotipo imponente e iluminado da Innovatech cobria toda a entrada da empresa. No balcão, o ambiente organizado exibia monitores estrategicamente posicionados para divulgar os projetos mais recentes. O aroma de café fresco permeava o ar, enquanto o som constante das impressoras confirmava que eu estava oficialmente adentrando no mundo corporativo. Na recepção, uma mulher loira digitava freneticamente no celular, como se estivesse envolvida em algo crucial. Para chamar sua atenção, fingi uma tosse discreta.

— Desculpe. — Ela se levantou e guardou o celular no bolso. — Em que posso ajudar?

— Tenho uma entrevista agendada com o Sr. Thompson às 9:00h. — Olhei para o relógio atrás dela e percebi que estava atrasada cinco minutos.
— Ham, hum… O Sr. Thompson… — Ela parecia buscar com o olhar — Está ali.

Ao me virar, deparo-me com o Sr. Thompson, nada mais, nada menos que o descafeinado do saguão mais cedo.

Logo ele? Aquele homem insensível, frio e sarcástico era o CEO da Innovatech? Isso é pior do que eu poderia imaginar. E se ele não quiser me contratar porque derramei café em sua blusa? Droga, Emi, você tinha um futuro tão promissor...

— Vou avisá-lo de que está aqui. — Disse, interrompendo os meus pensamentos pessimistas. — Pode esperar no segundo corredor à direita.

Percebi que ir embora a essa altura do campeonato seria mais constrangedor do que ficar e enfrentá-lo, especialmente agora que ele sabia quem sou e o que fiz. Segui as orientações da loira, dirigindo-me ao segundo corredor, uma sala de espera minimalista e aconchegante aguardava. Antes da poltrona, notei uma sala feita de vidro, onde pessoas testavam óculos de realidade virtual; pelos movimentos, parecia ser um jogo de luta.

— Sra. Emily Harrison? — Estremeci ao reconhecer a voz que me chamou. Voltei meu olhar para a porta, que ficava após as poltronas; notei que estava entreaberta.

Ao seguir a sua voz, bati de forma sutil na porta para avisar que eu ia entrar. O Sr. Thompson estava sentado em sua cadeira, virado de costas, observando-me e acompanhando os meus movimentos pela parede de vidro do seu escritório.

— Entre. Feche a porta e se sente, Sra. Harrison. — Seu tom era firme.

Assim o fiz. A porta se fechou silenciosamente, e o CEO, agora de frente para mim, analisou-me da cabeça aos pés antes que eu sentasse. Seu olhar focou demoradamente nas minhas pernas nuas pela fenda da saia, e eu senti a intensidade do momento. Thompson seguiu o olhar até os meus pés, levantou uma das sobrancelhas e colocou a mão no queixo, como se algo estivesse errado.

'Qual o problema de usar sapatilha numa entrevista?', questionei a mim mesma mentalmente. Sentei-me rapidamente na poltrona à sua frente, evitando seus olhares desconfortantes. Já me sentia culpada e envergonhada o suficiente pelo incidente anterior.

— Emily Harrison, graduanda em ciência da computação e engenharia de jogos em Stanford, vencedora do prêmio Game Awards de 2020. — Nathan vocalizou meu currículo; meu nervosismo transpareceu em um movimento involuntário da perna. Seu olhar fixo me fez conter o gesto imediatamente. — Devo admitir que seu currículo é impressionante para uma jovem de 24 anos. — O CEO se ergueu, afastando a cadeira, e avançou em minha direção. Tensa, apertei o braço da poltrona. — Diferentemente de sua destreza, que se assemelha à de uma criança de cinco anos.

A tentativa de Nathan de fazer piada numa entrevista de emprego me fez cerrar os dentes e encará-lo de baixo para cima. Sua imponência pela altura me colocava em desvantagem.

— Peço desculpas, senhor.

— Por que eu deveria contratá-la como minha assistente executiva, Sra. Harrison?

— Porque o senhor domina tudo que eu ainda não sei. — Com destemor, levantei-me e encarei-o. — Quero aprender suas habilidades, suas técnicas, a fórmula que o fez ser quem é hoje. — Minhas palavras eram assertivas; Nathan engoliu seco. O jogo se inverteu; agora era eu quem o intimidava. — Me dê uma chance, seja meu mentor. Eu serei sua aprendiz.

Meu pedido ecoou pelo amplo escritório; não pisquei nem tirei os olhos do rosto de Nathan, que me encarava com surpresa e curiosidade. O silêncio pairava entre nós, como se esperasse uma resposta que fosse além das formalidades.

Ele avançou mais dois passos, estreitando a distância que separava nossos corpos. Estremeci com seu calor próximo ao meu rosto, mas não recuei. Mantive-me firme, fixando seus olhos, que pareciam querer revelar mais do que podiam ou deveriam. Nathan levou sua mão esquerda até minha bochecha e dedilhou lentamente e repetidamente os dedos em minha pele, como se limpasse vestígios do batom borrado.

Nathan rompeu o silêncio, sua expressão transformou-se em um sorriso malicioso.

— Uma aprendiz, hein? Você tem coragem, Emily. Mas, como todo jogo, há riscos. A pergunta é: você está disposta a jogar?

Minha determinação permaneceu inabalável.

— Estou pronta para qualquer desafio, Sr. Thompson.

Nathan me lançou um último olhar antes de se virar e retornar à sua cadeira. Afrouxou a gravata e cruzou os braços em seguida.

— Trinta dias, Emily Harrison. — Ele fez uma pausa e procurou algo em sua gaveta. — Se em trinta dias você me convencer de que pode sobreviver em um ambiente corporativo, o emprego é seu.

Encarei-o com sua postura firme e ereta, o semblante de poucos amigos. O tom de sua voz soou ameaçador. Será que duvidava da minha capacidade para lidar com o cargo de assistente executivo?

Eu não vou recuar, Nathan Thompson. Não mesmo.

— Eu consigo. — Respondi, percebendo que minha fala saiu como a de um gato acuado. — Posso lidar. — Reforcei com mais confiança desta vez.

O CEO me analisou, observando minhas mãos cruzadas nas pernas. Deslizou o olhar novamente para as minhas pernas e voltou a me encarar. Eu podia sentir Nathan lendo meu corpo, decifrando minhas expressões. Ele encontrou o que parecia procurar na sua gaveta e me entregou. Era um contrato meticulosamente redigido.

— Aqui está o contrato para os próximos trinta dias. Todos os requisitos estão detalhados. — Ele estendeu o documento na minha direção, seus olhos fixos em mim, como se quisesse sondar minha reação. — Leia e assine. Depois de trinta dias, prorrogo o contrato e te torno minha assistente executiva.

Ao pegar o contrato, percebi que aquilo não era apenas um desafio profissional; era uma jornada que poderia mudar o curso da minha carreira. Com um nó na garganta, assinei o papel, comprometendo-me a enfrentar os próximos trinta dias sob a exigente tutela de Nathan Thompson.

O CEO recolheu o contrato com um olhar intrigante, como se vislumbrasse algo que eu ainda não compreendia. A próxima fase dessa experiência desafiadora estava prestes a começar.

Nathan encontrou um contrato na gaveta, meticulosamente redigido. Ele estendeu o documento na minha direção, seus olhos fixos em mim, como se quisesse sondar minha reação.

— Aqui está o contrato para os próximos trinta dias. Todas as condições estão detalhadas. — Ele esboçou um sorriso sutil, talvez antecipando a decisão que estava prestes a tomar.

Ao receber o contrato das mãos de Nathan, examinei rapidamente as páginas, percorrendo as condições e requisitos minuciosamente. A incerteza pairava sobre mim, questionando se, ao assinar, não estaria vendendo a minha alma para o diabo.

A Funcionária será contratada para a posição de Assistente Executiva do CEO, sendo responsável por:

1.1. Estar sempre de salto durante o expediente de trabalho.

1.2. Manter-se disponível para comunicação 24 horas por dia, quando necessário pelo CEO.

1.3. Participar e apoiar projetos filantrópicos promovidos pela Empresa em conjunto com o CEO.

1.4. Oferecer assistência executiva, fornecendo suporte administrativo direto ao CEO.

1.5. Administrar agendas e coordenar reuniões conforme as necessidades do CEO.

1.6. Ser responsável por preparar e servir o café da tarde ao CEO, mantendo-o sempre quente.

1.7. Vedado o acesso à sala de porta vermelha, respeitando a privacidade e confidencialidade associadas a esse espaço.

Examinando cuidadosamente cada condição do contrato, percebo que, aparentemente, não se trata de um pacto com o diabo ou de uma venda de almas. A cláusula 1.2 me chama atenção: disponibilidade 24 horas por dia? O que o CEO poderia querer comigo além das 8 horas de expediente? Entretanto, é a cláusula 1.7 que mais intriga. O que estaria na sala vermelha que demandasse confidencialidade? Seria um local de tortura onde chicoteavam funcionários?

Enquanto pondero sobre essas condições, uma pergunta ecoa na minha mente: "Estou disposta a sacrificar minha liberdade em prol dessa oportunidade?" Do outro lado da mesa, Nathan me fuzilava impaciente com o olhar.

Olho mais uma vez para aquele contrato em minhas mãos, não hesito e assino. O que de ruim poderia acontecer nesses 30 dias?

Ele sorriu satisfeito, sua realização exalando como se eu fosse seu troféu. Nathan recolheu o contrato e guardou-o em sua gaveta antes de fitar-me novamente com seus olhos estonteantemente verdes e enigmáticos.

— Você começa amanhã às 8h. Não se atrase novamente.

— Entendido, senhor. — Afirmei ao levantar-me, assegurando que não haveria mais espaço para atrasos. Suspirei ao tentar manter a minha dignidade sob o olhar atento de Nathan. Ajeitei a saia e o cabelo enquanto me preparava para sair da sala; ficar mais de dez minutos no mesmo ambiente que Nathan Thompson era desconcertante. No entanto, antes que eu pudesse alcançar a porta, a sua voz ressoou novamente.

— Emily. — Chamou, interrompendo o meu movimento em direção à porta. — Antes de sair, preciso que você faça algo para mim.

Ao me virar sou surpreendida com Nathan desabotoando a blusa. A tensão no ar é palpável, meu coração acelera diante do inesperado. Nathan, mantendo uma expressão serena, parece consciente do efeito que sua ação causa. Seus olhos intensos fixam-se nos meus, convidando-me a observar cada movimento. Uma mistura de nervosismo e excitação toma conta de mim, enquanto acompanho cada botão sendo liberado. Nathan sorri de maneira intrigante, como se soubesse exatamente o impacto que tem sobre mim. O último botão se solta, revelando um abdômen definido, e meu corpo reage, instigado a descobrir para onde seus músculos me levariam.

— Nathan, eu... eu não estava esperando por isso. — Gaguejei, tentando processar a visão à minha frente. — Eu sou uma assistente executiva, não uma... bem, não era essa a função que eu tinha em mente.

Nathan riu, e a tensão antes sexual transformou-se em constrangimento momentâneo. Ele se aproximou, retirando a blusa. Receosa com seus movimentos, dei um passo para trás, percebendo que minhas costas chocaram-se contra algo. Fui tomada pela sensação de estar encurralada contra a parede, enquanto ele continuava a se aproximar.

— Leve esta blusa para a lavanderia e a deixe no endereço que vou enviar por SMS. — Ele diz, estendendo a mão para que eu pegasse a blusa. — Certifique-se de que esteja impecável. É uma ordem.

A ordem dele reverberou, despertando uma onda de calor que se propagou por todo o meu ser.

O que mais ele exigirá, testando os limites do meu profissionalismo e da tensão que cresce entre nós?

Notas finais
Como eu disse, pode ser um pouco mais longo. Se acharem melhor fracionar, estou a disposição. lol
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.