Trinity
6 O sapo que não lavava o pé
Notas iniciais
O solo úmido dificultava a corrida de Helena. Os pés não aderiam completamente ao chão, por isso o impacto se tornava macio, fazendo com que o impulso fosse um tanto quanto menor. Isso sem contar o cuidado que ela deveria tomar em suas passadas, para que não escorregasse na lama e caísse, perdendo ainda mais tempo.
“Como caralhos a Sky conseguiu ser tão rápida em um ambiente assim?” – ela perguntava a si mesma. Pelo que deduziu junto a Dominic, a garota havia corrido os dois quilômetros que separavam o vilarejo da arena em cerca de seis minutos. Se isso é uma velocidade extraordinária em um ambiente em condições climáticas perfeitas, imagine em um local onde a chuva havia acabado de cair.
Mesmo que fosse difícil, Helena não iria ceder ao terreno em que se encontrava. A Adrenalina já atuava em seu corpo mais do que nunca, as artérias dos músculos já estavam dilatadas e o coração já pulsava em uma frequência bem mais alta que o normal. Tudo conspirava para que o organismo distribuísse mais e mais energia para as pernas da mulher, que ainda nem sentia o cansaço da corrida.
A vontade de chegar à vila era tamanha que ela simplesmente ignorava quase tudo que estava ao seu redor. Seu único foco estava em salvar sua família. Isso a impediu de ver, por exemplo, um casal de namorados que se beijava num bosque ao lado da estrada que caminhava. Ela não tinha tempo, muito menos fôlego, para se distrair.
Apesar disso, ela também queria saber como estava Sky. Em sua cabeça, esse era o único pensamento que dividia espaço com a missão de resgate. A pequena mestiça havia se sacrificado fisicamente para informar ela e Dominic sobre os ataques, e a mulher se sentia muito agradecida por isso. De certa forma ela se sentia culpada por ter deixado Sky aos cuidados de Dominic, mesmo que esse tivesse se oferecido para cuidar dela.
A ladra esperava que Dominic cuidasse dela bem.
x-x-x
Estava difícil carregar Sky daquele jeito.
Seu corpo era pequeno, seus ossos eram finos e sua anatomia a tornava mais fácil de carregar que um saco de farinha com a mesma massa, mas mesmo assim o peso começava a incomodar Dominic, não fisicamente, mas psicologicamente.
Ele sabia que não poderia ir mais rápido do que uma transição de corrida para caminhada enquanto carregasse a garota, mas deixar ela jogada ali no chão, e ainda por cima desmaiada, não era uma opção. Afinal, ela havia avisado tanto ele quanto Helena, se não fosse pela garota dos recados talvez ele não tivesse a oportunidade de ajudar sua irmã.
Ajudar sua irmã.
Desde que os dois saíram de Atlântida ele tinha medo do que os outros Telurianos, verdadeiros continentais, poderiam fazer caso descobrissem o que eles escondiam, portanto, todo o esforço de Dominic nos quatro anos em Telúria foi visando adaptar sua irmã para aquele meio enquanto a protegia. Um aviso sobre “salvar” ela colocava tudo isso em um abismo: ele não fora capaz de evitar que ela entrasse em perigo.
Seria ainda pior se eles descobrissem que ela é uma eleita.
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Glenn observava o dia chuvoso pela pequenina janela do porão. Ele gostava dos dias em que chovia, a chuva o fazia se sentir melhor, mais livre.
Mesmo que sua liberdade se limitasse aquele porão frio.
O mesmo fora construído para servir de refúgio caso acontecesse algum conflito no vilarejo, assim como outros dois abrigos, portanto não era de se esperar que sua estrutura fosse das melhores. Logo abaixo do assoalho, que para Glenn era o teto, existiam alguns sacos com mantimentos básicos como comida e água, mas ele não comia aquilo.
Ele preferia os ratos que passeavam por ali.
As casas da vila eram feitas de alvenaria, e com aquele porão não era diferente. Na verdade o piso era terra batida, mas as laterais eram revestidas por madeira, que tinham uma função de isolante térmico, mas pareciam mais um amplificador de temperatura: sempre estava ou muito frio ou muito quente, desde que se mudara para aquele lugar Glenn não sabia o que era um clima ameno.
Mas ele estava vivo, e ninguém queria o assassinar por seu uma aberração ali, então ele estava feliz. Ele sorria e dava algumas linguaradas na janela molhada, fazendo com que o vapor que se acumulava nela se condensasse, para se formar novamente. Era um passatempo divertido para o garoto-sapo.
Isso mesmo: garoto-sapo, humanoide ou híbrido. Seja lá como for que fosse tratado, para todas as outras pessoas ele era apenas mais uma aberração criada pela radiação da guerra. Pelas suas contas Glenn tinha apenas nove anos de idade, e por mais que fosse pacífico ele perdera a habilidade de se comunicar verbalmente assim que se transformou, então era caçado por todos os humanos que conhecia, mesmo que não tivesse feito nada. Parecia que os humanos normais o odiavam simplesmente por ele ser um pouco diferente, era muito ódio para a cabeça do garoto entender.
Todos o odiavam, menos uma família em específico. A mesma família que o abrigara no porão de sua casa.
A família de Helena.
Ele ficou feliz quando viu pela janela sua anfitriã chegar à vila, mas ela parecia apressada demais para cumprimentar as outras pessoas ou mesmo passar no bar e rir, como sempre fazia. Ela seguiu direto para sua casa.
Glenn conseguiu ouvir a porta se abrindo bruscamente na cozinha acima de si. Logo após isso ouviu a dona da casa gritar:
— Pai, mãe, para baixo! Rápido! — A voz dela transpassava certo desespero, para o garoto era possível sentir seu coração: ele estava agitado. Ele nunca havia visto Helena assim.
O próximo coração que ele sentiu foi o da mãe dela, junto com o pai. O da mãe estava começando a se agitar, como o famigerado desespero que se sente quando não se entende a alguma coisa.
O do pai estava quase parando há alguns dias.
— Não podemos – Respondeu a mulher mais velha – Independente de qualquer motivo que você queira colocar seu pai e eu ali embaixo, se nós formos para lá ele vai morrer.
“Então é isso” pensou Glenn “O pai da Helena tá doente de novo. Quando ele tá assim ele não pode sair da cama. Tomara que o velhinho melhore. Por que será que ela tá tão desesperada?”
—Você não está entendendo, mãe! A gente está correndo perigo!— A ladra gritava com sua mãe, tentando a convencer, mas parecia não surtir efeito.
Ela começou a explicar tudo, de uma forma detalhada. Falou sobre Sky. Glenn gostava da voz da Sky, mesmo que ela xingasse a cada dez palavras que falava. Ele esperava que ela ficasse bem também.
Depois falou que colocaram fogo em outra vila, onde já haviam colocado um preço pela cabeça do garoto. Mesmo assim ele não desejava mal nenhum para aquelas pessoas, e sentia muito pela vila deles ter pegado fogo.
No meio da explicação Helena parou, como se tivesse se lembrado de algo. Logo após isso Glenn ouviu os passos dela vindo em direção a porta escondida do porão. Ela ficava no falso forno da casa. A luz incomodou os olhos do garoto quando ela abriu a porta bruscamente.
— Glenn, sai daqui – Ela disse calma.
O garoto fez uma expressão de dor, indagando o porquê da ordem já que ele gostava daquele lugar. E ficou parado, observando sua anfitriã o expulsar verbalmente.
— Glenn, sai daqui – Helena repetiu, um pouco com raiva.
Novamente ele ficou parado.
Helena jogou sal no garoto-sapo.
A pele verde dele queimou. O sal o fazia perder agua por osmose, e como era meio anfíbio, a água era fundamental em seu organismo. A desidratação causada pelo sal ardia e latejava a cada pulsada de seu coração pecilotérmico.
— Glenn, eu gosto de você – Ela disse com lágrimas nos olhos – Pessoas vão vir para cá, se elas te verem aqui elas vão te matar. Eu não posso deixar você aqui. Sai daqui!
“Podia ter explicado antes” ele pensou consigo mesmo “não ia precisar me machucar”.
Ele partiu em direção a porta, andando. Quando chegou ao lado de Helena ele deu um pequeno salto e deu um beijo na bochecha da mulher. Ela não era uma princesa, e muito menos ele virou humano de novo.
Dessa vez foi o sapo quem deu o beijo.
E saiu em disparada para fora da vila, ignorando todos os olhares feios que recebia enquanto passava. Tinha que ser rápido para sair dali, antes que alguém resolvesse pegar um arco e uma flecha para caçá-lo.
Suas pernas eram firmes e rígidas, como a de um humano, a única coisa que mudava eram seus pés, que eram grandes e fedidos, já que Glenn não os lavava. Além disso, toda a pele do seu corpo era verde. Era rápido para uma criança.
Saiu da vila em segurança e seguiu para o norte.
Infeliz decisão.
Ele nunca havia visto um veículo, e o primeiro que viu foi o último. Quando se encontrava a cerca de duzentos metros do vilarejo Glenn foi atropelado.
O corpo do garoto foi dividido em dois a partir da barriga, graças a força do pneu e ao peso exercido sobre ele. A parte de cima do troco ainda demonstrava a dor que ele sentiu. A parte de baixo com os pés ensanguentados, que não conseguiram correr para sua liberdade.

x-x-x
— Por que você tá indo pra nossa vila, CARALHO?! — Sky dizia irritada, enquanto acordava do desmaio. Era impossível entender como uma garota conseguia gastar toda a energia disponível em seu corpo correndo, desmaiar, e acordar no ombro de um cara de cabelo azul, xingando.
— Hein? – Respondeu Dominic, sem deixar de caminhar.
— Você entendeu, porra! – Os palavrões não saíam da boca da garota de 1,50m com naturalidade, ainda mais quando o rapaz que a segurava considerava sua voz fofa — Não é pra ir para lá. Será que você não prestou atenção no que eu falei?
— Você disse para eu salvar minha irmã, certo?
— Isso mesmo. Mas por algum acaso eu disse que sua irmã estava na nossa vila?
Ele ficou calado
—Então, fortão, pode me colocar no chão – Ele o fez sem pensar duas vezes, o que assustou um pouco Sky — Sua irmã foi capturada. Eu não consegui dizer, mas deduzi que você fosse esperto o suficiente para saber que se ela estivesse em nosso vilarejo em chamas, que fica a dois quilômetros da sua arena, quando você chegasse ali ela não precisaria ser salva.
A garota baixinha dizia isso olhando fixamente para cima de queixo erguido, como se realmente confrontasse o homem que se colocava à sua frente. Era realmente estranho como ela havia se recuperado rápido do desmaio. Ele, por sua vez só ouvia, havia agido sem pensar, e isso podia sair caro. Ela continuou:
— Os quatro homens estavam em um caminhão quando chegaram. Eles pegaram os jovens e atiraram nos velhos. Eu me escondi no estábulo e saí quando tudo começou a pegar fogo no resto da vila.
— Espera... o estábulo não pegou fogo?
— Eu acho que não, mas isso não interessa, a gente tem que ir junto atrás da sua irmã talvez a gente consiga ajudar ela e a Helena – Dominic parecia ignorar a garota – Puta que pariu, você tá me ouvindo?
— Vamos para o estábulo.
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Sky ficou surpresa quando viu uma moto entre os cavalos não adestrados. Dominic a havia coberto com um lençol, mas ainda assim o seu formato era visível. A garota se sentiu um tanto quanto estúpida por não ter reparado nela quando se escondeu ali.
A vila ainda queimava. As casas com telhado de madeira exalavam um calor intenso, mesmo com a chuva.
E o fogo não se apagava.
Dominic tirou uma chave que estava escondida entre os pilares de sustentação do lugar e funcionou o motor. Como o dia estava quente, o combustível estava ainda mais volátil, o que facilitava a combustão.
— É uma XT 660, Sky – Dizia ele, se gabando – Modelo propriamente off road, e tem um dos motores mais potentes da categoria. Não é linda?
— Ela anda?
— Anda – Ele parecia chateado por ser completamente ignorado.
— Então vamos – disse a garota sentando na garupa – Ninguém usa capacete já faz uns vinte e cinco anos né?
Dominic ignorou seus sentimentos de raiva, puxou a embreagem, empurrou a primeira marcha com o pé esquerdo.
E acelerou.
x-x-x-x
Os homens chegaram a vila de Helena e a encontraram vazia, exceto por uma mulher na praça principal, sozinha.
Armados e ameaçadores, eles usavam capacetes com viseiras negras que escondiam completamente seu rosto. Por outro lado, todo o resto de suas roupas era branco e provavelmente era baseado em Kevlar, uma fibra sintética leve, mas altamente resistente. Helena era a mulher em questão notou isso logo que chegaram.
Eles foram rudes desde o começo
— Onde está o resto das pessoas daqui? – O maior deles perguntou para ela de forma incisiva e ameaçadora.
— Não estão aqui, não viu? Provavelmente saíram pra dar uma volta, quer deixar recado? – Ela não podia deixar transpassar de que quase todos os trinta e cinco membros daquele vilarejo estavam escondidos em seu porão, e fazer parecer com que ninguém estivesse no vilarejo era o objetivo dela naquele momento. Ia realizar isso, nem que custasse sua vida.
E provavelmente ia custar.
O mesmo homem que fez a pergunta segurou Helena pelos cabelos e a levantou com um só braço, com uma força incomum para um humano. Ela tentou reagir, chutando o oponente, mas não causou efeito nenhum. Ele não esboçou nem uma reação de que havia sentido aquilo.
A cabeça da mulher doía, a gravidade a puxava para baixo enquanto seus cabelos puxavam o couro cabeludo para cima. Parecia que o homem ia arrancar sua cabeça.
Mas não.
Ele foi em direção a uma árvore, ainda com Helena em mãos, e bateu sua cabeça contra a mesma com força a deixando tonta e fazendo com que pedaços da casca entrassem em seu ouvido esquerdo. Eles machucaram
O lado direito do rosto começou a sangrar. Ela estava atordoada.
O homem a jogou no chão e disse novamente:
— Onde está o resto das pessoas daqui?
— E.. Eu não sei. – Dito isso Helena fingiu um desmaio, mas continuou a ouvir tudo o que falavam. Não podia competir com eles, e se a torturassem teriam que deixar o vilarejo. Tudo que ela queria é que deixassem o vilarejo.
— Caralho hein João! – A voz que exclamou foi outra dessa vez, provavelmente era outro soldado – Você exagerou na força, idiota. A gente não pode ficar muito tempo aqui e você mata a única fonte de informação.
— Eu acho que ela tá viva ainda, ela parece bem forte – Respondeu o que chamavam de João – Só desmaiou. Amarrem-na e coloquem ela junto com os outros no caminhão. Pedrinho, só dê prosseguimento a missão.
— Certo.
“Ótimo” pensou Helena “eles iam deixar o vilarejo em paz”
Ela foi amarrada e colocada no caminhão. Ouviu outras vozes e algumas frases como “Mais uma”, “tadinha, tá sangrando” e “Ela é bem gostosinha né”.
A última frase a assustou, e quando abriu os olhos viu Leah.
A irmã de Dominic.
x-x-x-x
Com a moto Dominic conseguiu chegar ao vilarejo a tempo de ver o caminhão partindo.
E de ver a explosão de uma casa.
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