Trina
5 Capítulo 6 - Perdidos na Mata
Notas iniciais
— Onde estamos?!!!
Rafaelle não sabia responder.
Até então eu estava olhando em volta, perdida, com uma expressão de surpresa, raiva e confusão, tudo ao mesmo tempo. Virei-me, abruptamente, para ele e perguntei mais uma vez.
— Onde a gente está?!?!?! – Agora a raiva tinha me dominado.
Rafaelle ainda estava com um olhar meio confuso, olhando para mim.
— Me diga!!! Você deveria saber!!!
— Eu não sei onde a gente está. Não exatamente. – sua calma me irritava – As impressões do Totem levam você para diferentes lugares do “Mundo de Lá”.
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que não estamos mais no “Mundo de Cá”.
Mais uma vez a raiva me consumiu. Eu devo ter ficado escarlate.
— O que isso tudo quer dizer? “Mundo de Cá”! “Mundo de Lá”! Eu não faço ideia do que você esta falando!
Rafaelle andou até a árvore mais próxima – que, inclusive era enorme. Tinha uns vinte metros de altura – E sentou-se no chão, apoiando-se no tronco, e colocando as mãos entre as pernas dobradas.
— É simples! – Ele virou o rosto para mim – Existem dois mundos, e várias formas de nomeá-los. “Mundo de Lá e Mundo de Cá”, “Mundo da Magia e Mundo da Força”, “Fórtide e Infirmítate”, “Pandora e Terra”...
— Pandora e Terra? Quer dizer que estamos em outro planeta? – Eu estava incrédula, mas ele pareceu se chatear de ter que explicar. Esticou as pernas no chão, revirou os olhos e continuou.
— Mais ou menos isso. Na verdade tá mais para universo paralelo. O Totem é um dos muitos modos de se deslocar entre os mundos. Só que eu não poderia usá-lo sozinho.
— O que quer dizer?
— Cada minuto que se passa, eu tenho mais certeza de que você não é humana. Se fosse para arriscar minha vida, eu apostaria que você é uma bruxa. – Meu rosto se contorceu em uma expressão de desaprovação – Caaaalma. Isso não é um termo pejorativo.
— Mas onde estamos? Como voltamos? – Só conseguia ficar desesperada.
— Então – Ele disse calmamente — como eu disse, eu não sei. Nunca viajei pelo Totem antes. E...
Um barulho nos arbustos ao lado da árvore que Rafaelle estava me fez congelar no lugar. Ele levantou-se em um salto e, de dentro do bolso, retirou um canivete, ficando em posição de guarda e o segurando na frente do corpo.
— Qual é a chance de termos caído em uma floresta com bichos que vão querer nos matar.
— Grande – Ele disse de costas para mim ainda em posição de guarda.
“Ótimo! E tudo que me defende é um bombadinho com um canivete”.
— Se você tiver algo melhor aí pode me dar! – Ele disse secamente.
“Realmente, um maromba com uma faquinha é melhor que nada”.
Ele virou o rosto na minha direção e com um olhar que eu não soube distinguir o que era.
— Torça para que não sejam os porcos.
“Porcos?”
— Sim! Humanos! Esse é o apelido carinhoso que damos a eles. – Sua voz soava cada vez mais baixa.
“Imagina qual é o apelido “Não Fofinho” que dão a eles”.
— Nem queira saber. – Ele disse ainda mais baixo.
Foi aí que eu percebi como estava acontecendo o diálogo. Mais uma vez ele estava lendo meus pensamentos. Eu fiquei com tanta raiva que eu não consegui segurar.
— SAIA DA MINHA CABEÇAAA!!! – Eu gritei furiosa.
Ele virou o rosto para mim e me olhou como se eu fosse uma total retardada. E aí que eu me toquei do que eu tinha feito. Algum animal estava à espreita e eu simplesmente gritei “Venha me pegar!”.
Então, eis que do nada e sem aviso, uma coisa enorme, e com cascos, saltou de dentro dos arbustos, que ficavam do outro lado, na nossa direção.
Rafaelle teve um reflexo rápido e se projetou na minha frente. Mas o impacto do animal nos lançou para trás. Eu caí de costas tão desengonçada quanto uma jaca podre caindo do pé. Enquanto Rafaelle conseguiu cair, ralar as costas no chão áspero, dar uma cambalhota para trás, parar de cócoras com uma mão no chão, enquanto a outra segurava o canivete e partir para cima da fera.
“Talvez, ter um bombadinho com canivete me defendendo, não seja tão ruim”.
“Droga, ele ouviu”.
Com certeza ele leu meus pensamentos de novo, porque depois de atacar o animal que se levantava sob as patas de trás, ele gastou um tempo para sorrir, e foi isso que o fez vacilar. O coice que ele levou o arremessou em uma árvore e o canivete voou longe. Eu me levantei o mais rápido que pude. O animal, que até então eu não tinha parado para observar, voltou a colocar-se sobre as quatro patas e a correr em direção a Rafaelle.
Antes que eu soubesse o que estava fazendo, ou percebesse que estava fazendo alguma coisa, eu me coloquei entre os dois de braços aberto e usei meu único recurso, a voz. Com todo o ar que eu tinha nos pulmões eu gritei o mais alto que pude.
O chão começou a tremer, o ar vibrou, os pássaros alçaram voo das copas das árvores, gralhando ruidosamente e a fera derrapou e parou bem na minha frente, ficando a um metro de distância.
Eu estava apavorada. Meu coração martelava no meu peito e minha respiração estava descompassada. O chão tinha parado de vibrar, mas minhas pernas estavam fracas. Quando eu finalmente recuperei parte do meu autocontrole, eu pude ver qual era a criatura que enfrentávamos.
Era um centauro. Por mais difícil que fosse acreditar, era um centauro.
O corpo de cavalo, de pelagem marrom, era muito forte, e estava com todos os músculos tensionados. Onde deveria estar à cabeça, começava o tronco desnudo de homem.
Pisquei algumas vezes tentando me livrar da sensação de que estava sonhando.
Não deu muito certo.
Seus olhos castanhos, fixos em mim, estavam cheios de ferocidade e dúvida. Eu podia ver a surpresa estampada em seu rosto.
Ainda arfando e em choque, eu comecei a analisar a aparência do que estava a minha frente.
Parte de seu abdômen era coberto por uma fina camada de pelos equinos. Seus braços tinham grandes músculos, e estavam flexionados segurando uma longa espada que pairava no alto. O rosto dele era bruto. Tinha o queixo bem quadrado, feições firmes e demostrava as marcas de uma vida dura. Tinha um longo cabelo cacheado sem volume nenhum, com espirais negras que pendiam de sua cabeça e iam até a metade das costas. Por ser parte cavalo, ele era muito mais alto do que eu. Deveria ter uns três metros de altura.
Reparei que as únicas coisas que cobriam seu corpo eram uma faixa amarrada na altura da testa, uma tira de couro, bem fina, que dava várias voltas em seu braço esquerdo – e que naquela hora parecia que ia estourar de tão rígido que o músculo estava – e duas faixas largas de couro sobre o peito, que se cruzavam diagonalmente, formando um “X”. No centro das duas faixas havia um grosso medalhão de bronze com algumas imagens cravadas nele, além de escritas de uma língua que eu não sabia ler.
Não sei dizer quanto tempo nós ficamos presos naquele momento, arfando e em silêncio, mas o centauro foi o primeiro a se manifestar.
Rapidamente ele abaixou a espada, enquanto eu fechei os olhos me preparando para o impacto, mas não houve nada. Quando eu abri os olhos, novamente, vi a última coisa que eu esperava ver em toda a minha vida.
O centauro estava de cabeça baixa, com uma das patas de cavalo dobrada, segurando a espada com a ponta da lâmina apoiada no chão.
— Perdoai-me por atacá-la minha Senhora.
Sério, se um centauro te ataca e depois praticamente se ajoelha aos seus pés e pede perdão. O que você faria? Eu fiz o que parecia mais correto no momento.
— E.. es... estás... estás perdoado. – olhei para os lados, meio aflita — Levante-se bravo centauro – disse com floreios típicos das histórias medievais, mas ele não pareceu notar a piada.
Ele endireitou o tronco, apoiou a pata no chão, guardou a enorme espada na bainha e me olhou nos olhos. Sua expressão agora era outra. Eu podia sentir um certo ar de respeito e devoção em seu olhar – por mais que isso não fizesse sentido nenhum – Acho que havia até um pouco de vergonha.
— Agora que você está mais calmo, e nós estamos de boa e tudo mais. Você pode me dizer o porquê que você nos atacou? E principalmente o porquê você parou de nos atacar?
— Minha Senhora, essas terras são repletas de porcos.
— Porcos! Huuum – pensei um pouco – Você quer dizer humanos?
— Sim, minha senhora.
— E por isso você nos atacou?
— Sim, minha senhora. Eu faço parte do grupo de defesa da minha manada. Devo proteger as mulheres, as crianças e os demais centauros que não tem plena capacidade de defenderem-se da fúria humana.
— Uaaau! Parece difícil! Quer dizer que... bom, quer dizer que tem mais de vocês por aí?
— Sim, minha senhora. Nunca encontrastes com um centauro que lhe jurou a vida para defendê-la?
Eu desatei a rir, descontroladamente, mas nem ele não me acompanhou.
— Desculpe... – Eu cobri a boca, enquanto tentava ficar calma e silenciar a crise de riso.
— Qual é a graça, minha senhora?
— Eu nunca vi um centauro na minha vida. Nem acreditava neles. Quer dizer, não acreditava que vocês existissem. Quem dirá encontrar um que jurasse a vida a mim.
— Minha senhora... – Eu o interrompi antes que ficasse louca.
— Por que você fica me chamando de “Minha Senhora” o tempo todo? Isso é irritante!
— Bom. É por respeito, minha senhora.
— É? Pois eu não me sinto respeitada. Na verdade, eu me sinto ofendida. Quando você me chama assim eu me sinto uma velha! Meu nome é Clara, e é assim que você deve me chamar.
— Tudo bem. Se assim deseja... Clara. – Ele fez uma reverência com a cabeça como se tivesse honra em pronunciar meu nome.
Com uma expressão de quem se lembrou de algo que ia fazer, ele pegou a espada mais uma vez e a segurou horizontalmente com as mãos embaixo dela. Ele me reverenciou com a cabeça e esticou a espada para mim.
— O que você vai...
— Senhora... – Ele me interrompeu, com ar solene de quem faz um discurso — Filha da natureza. Eu lhe ofereço minha espada, e as forças de meus braços, para combater seus inimigos, sempre que lhes ameaçarem. Eu lhe ofereço o meu dorso e as forças de minhas patas para sustentar seu corpo, sempre que precisares.
— Espera... – Ele não me deixou falar.
— Eu lhe ofereço minha sabedoria e meus conhecimentos, para mostrar-lhe sempre o melhor caminho. Eu lhe ofereço meu ar e minha vida em troca da sua, sempre que estiveres prestes a perecer. E que até meus últimos instantes de vida eu possa cumprir meu solene juramento.
— O que?! – Eu dei um passo para trás meio aturdida – Não!!! Não me ofereça nada! Eu não quero sua vida. Eu nem tenho inimigos para me defender.
O centauro pareceu ofendido com o que eu disse. Ele me olhou nos olhos perplexo como se não soubesse o que fazer.
— Se minha senhora não aceita meu juramento é porque, incapaz, eu sou de protege-lhe ou a qualquer outro – Ele segurou a espada de cabeça para baixo, apontou a lâmina para a região que unia o cavalo com o homem – Só me resta findar com minha inútil existência.
— Nãããããooo!
Ele me olhou nos olhos, nitidamente demonstrando tristeza.
— Se não sirvo para proteger-lhe, não sirvo para proteger ninguém.
— Mas por que você quer fazer esse juramento sem sentido?
— A honra de um centauro é achar uma bruxa a qual jurar lealdade eterna. Devo sacrificar minha vida para findar minha insignificância.
— O quê? Nãaao! Eu não quis te ofender. É que tudo isso é muito estranho. Há algumas horas atrás eu era apenas uma mulher adulta sem mãe e fugindo do pai que não me ama. Eu só queria mudar de cidade. Mudar de ares. Entende?
O centauro estava me olhando com uma expressão que eu não conseguia traduzir.
— Agora vocês dois dizem que sou uma bruxa, coisa que eu nem acreditava ser possível e ainda não acredito – continuei – Eu não tenho dúvidas de que você é um centauro. Não tem como negar. Mas é estranho entende? – Eu falei tudo tão rápido que fiquei com dúvidas se ele tinha entendido alguma palavra.
— Senhorita Clara. A senhora é de fato uma bruxa. Não há como negar.
— Não? Como não?
— Seus olhos. Nesse mundo onde existimos, apenas as bruxas tem olhos coloridos tão claros. Não há prova maior.
— De onde eu venho há muitas pessoas com os olhos claros. Todas elas são bruxas e bruxos?
Ele afastou a lâmina do corpo e começou a rir – mas ele ria com vontade – até que, por fim, ele embainhou a espada novamente.
— Não, senhorita Clara. Não existem bruxos. Essa espécie é exclusiva das damas. Em Fórtide as pessoas assumem sua verdadeira forma. Pode demorar um pouco, mas a mudança dos olhos é instantânea.
Eu escutei um gemido vindo de algum lugar as minhas costas e me virei para conferir. Era o Rafaelle, gemendo de dor ao acordar da pancada – Confesso que, por um instante, eu me esqueci dele. E me senti mal por isso – Corri em sua direção, ainda perto da árvore onde ele bateu.
— Aaaahh! – Ele se agitou freneticamente ao rever o centauro.
— Não se preocupe! Ele não vai nos fazer mal. – Eu me levantei junto com o Rafaelle – Esse é o... – Eu pensei um pouco. Eu não sabia seu nome.
— Quévron. – Respondeu o centauro fazendo mais uma reverência com uma das mãos nas costas – Desculpe pela pancada. Achei que você fosse um dos porcos. Afinal, você estava igual a um deles.
— Hahaha – Rafaelle riu – Eu achei que você fosse um dos porcos.
Os dois sorriram, relaxaram os ombros e se comprimentaram de maneira diferente. Um segurando no braço do outro.
— Serían... Eu me chamo Serían. – disse Rafaelle.
Eu olhei para ele intrigada. Confusa com aquilo.
— Rafaelle é meu nome mundano. – Ele disse olhando para mim.
— Já disse para não ler meus pensamentos – Eu disse calmamente.
— Não foi preciso. A pergunta estava estampada em seu rosto.
— Como eu disse senhorita Clara – Falou Quévron – Se não posso dedicar minha vida para lhe servir. Não devo viver nesse mundo ou em qualquer outro – Ele desembainhou a espada outra vez.
— É serio isso? Achei que já tivéssemos superado.
— Clara! – Rafaelle me chamou a atenção – É o dever de um centauro da família dele proteger as bruxas. Eles juraram solenemente suas vidas em prol de defendê-las. Você não pode negar.
Eu olhei para ele, depois para Quévron.
— O que acontece se eu aceitar a sua ajuda?
— Meu juramento – Ele me corrigiu.
— Isso.
— Serei eternamente devoto a você. Sempre sendo fiel a seu bem estar e segurança.
— Você não tem família? Como você pode me proteger se tem o seu povo para defender.
— Esse é o dever maior da minha família de centauros. Devemos proteger as bruxas com nossas vidas. Outras famílias de centauros tem outros deveres. Algumas protegem templos, outras vigiam as estrelas.
— Eu não vou convencê-lo de desistir disso vou?
— Não!
— Ele não pode – falou Rafaelle, quer dizer Serían, quer dizer... tanto faz – Se ele não lhe oferecer juramento, será expulso da manada dele.
Eu respirei fundo.
“Tudo bem, eu desisto de tentar poupar a vida de um centauro à escravidão eterna”.
— Tudo bem! Eu aceito seu juramento... Solenemente.
Quévron segurou novamente a espada em posição de oferenda.
— Segure o cabo da espada com a mão direita e tente erguê-la.
Eu fiz exatamente como ele falou, mas quando eu a ergui, não foi a espada que eu tirei do lugar. Eu estava segurando uma adaga curva como várias ondas. Havia alguma coisa cravada em sua lâmina, mas eu não sabia dizer o que era.
A espada do centauro, ainda sobre suas mão, mudou levemente de forma. A lâmina ficou mais brilhante, o cabo de ferro fundido ficou amarelo – virou ouro – A tira de couro marrom que cobria a manopla ficou da cor branca e tinha duas pequenas pontas penduradas. A tira de couro na testa de Quévron se transformou em uma fina tiara ondulada da cor dourada; a tira de couro no seu braço também ficou branca e apresentava duas pontas soltas que pendiam do nó; ele ganhou ombreiras prateadas com viés dourado; o brasão de bronze ainda era quase o mesmo, ele mudou para a cor dourada e na borda apareceu, em arco, os mesmo desenhos que estavam cravados na minha adaga; as tiras de couro sobre seu peito em forma de “X” também adquiriram a cor branca; e sobre seu dorso de cavalo apareceu uma cela.
Ele respirou fundo de olhos fechados, e logo depois os abriu me encarando.
— Obrigado – Ele disse.
Eu balancei a cabeça, sem saber o que dizer. Toda aquela situação era irreal.
— A facilidade com que você tirou a adaga da espada representa a lealdade do centauro. Quanto mais leve, mais puras são as intenções dele. Quanto mais pesado, piores.
— Eu escutei o que Rafaelle disse, olhando para a adaga, e depois para o Quévron.
— Ela parecia mais leve do que uma pena.
— Ótimo! – disse o Serían – Então temos um aliado.
— Precisamos ir para minha vila pegar provisões para a viagem. O vilarejo das bruxas fica a muito tempo de viagem. Devemos chegar lá o quanto antes.
— O quê? Não. Eu só quero ir embora.
— Temos muito que conversar – Ele não escutou o que eu disse – Venham! Por aqui.
Eu olhei para o Rafaelle, meio perplexa, e notei uma coisa diferente nele.
— Isso são...
— Orelhas pontudas? – ele completou e suspirou – Sim. Você ainda não viu nada. Espere só para ver meu cabelo daqui a alguns dias.
— Isso é estranho.
— Bem vinda ao meu mundo – Ele concluiu, indo de encontro a Quévron.
— Eeee... – Disse sem ânimo, indo na direção deles – Onde eu fui me meter?
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