Trina
4 Capítulo 5 - Cadê a Mudança?
Notas iniciais
— Mamãe! Mamãe! – gritava uma menininha, enquanto puxava a barra da blusa de uma mulher – Mamãe!
— Que foi, filha?
— Ali ó! Ali! Tem uma moça caída ali!
— Deve estar tomando sol, filha.
— Não, mãe. Não esta não, olha! – A criança saiu correndo pelo gramado do parque.
— Filha, volta aqui! – A mãe saiu correndo atrás dela – Cuidado com a descida!
A criança passou do morrinho e começou a descer o gramado.
— Filhaaa!
Quando ela ultrapassou o morrinho, tomou um susto com o que viu. Ao lado da criança, realmente tinha uma mulher caída no chão – jogada seria a palavra mais adequada – Parecia que ela tinha tropeçado e caído de bruços.
A mulher se aproximou rapidamente da moça, ajoelhou-se ao seu lado e sentiu a pulsação em seu pescoço. – Graças a Deus, ela está viva! – Ela começou a dar tapinhas leves em seu rosto.
— Moça! Acorde! Mooooça! Acorde!
Ela abriu os olhos lentamente. Ainda estava com a visão turva.
— Oi moça, você está bem?
Ela se virou tentando recobrar a consciência.
— Tudo bem? Você caiu?
— Caiu? – Ela parecia confusa.
De repente ela sentou-se de supetão, olhando aflitamente para todos os lados. As lembranças vieram em uma enxurrada.
— Eu caí! Eu caí! Estavam atrás de mim e eu caí!
— Calma moça! Agora você esta bem! Aqui não tem ninguém atrás de você.
Ela olhou em volta, mais uma vez, mais calmamente.
— Aqui onde?
— Você está em um pequeno parque.
— ...
— Uma praça, na verdade.
— ...
— Em São Paulo. No Campo Limpo, mais precisamente.
— São Paulo?!?!
— É.
— São Paulo...
...
— Vamos tudo mundo! Subindo! Subindo! – disse o motorista plantado em frente a porta do ônibus na parada da estrada.
Os passageiros começaram a subir, um a um. O casal de namorados, o casal de idosos com a criança, as três amigas, os dois rapazes, a mulher com o bebê... Todos entraram de novo no ônibus. Todos menos dois. E parece que ninguém notou a ausência deles. O motorista simplesmente entrou, fechou a porta e começou a dirigir.
...
“Como eu vim parar aqui?”— Era a única coisa que vinha na cabeça dela.
“Estava na floresta, e aí, quando eu caí, eu... eu... bom, eu não sei”.
Inerte em seus pensamentos, suas pernas venciam distâncias sem que sua razão lhe desse um caminho para seguir.
“Aquela mulher queria chamar a polícia. Chamar para quê? Pra dizer que eu estava sendo perseguida por caçadores de bruxas em um mundo paralelo e vim parar aqui? Nem eu sei como vim parar aqui”.
Quando sua cabeça emergiu para a realidade, ela estava parada em frente a um condomínio. “O” condomínio. Ela o conhecia muito bem. Foi lá que ela conheceu seus melhores amigos, foi lá que ela passou anos da sua vida.
“É... estou de volta”— pensou.
Era um condomínio de casas. Várias residências que se espalhavam em ruas e mais ruas que não iam a lugar nenhum.
“Estou em casa”.
Percorrendo as ruas, viu ao longe a casa que buscava. Era relativamente grande, tinha dois andares – três se contar o sótão – e ficava um pouco acima do nível da rua.
A casa era bege e tinha um rodapé de 70 centímetros, feito com pedra irregular marrom claro, por volta dela toda. Na fachada tinha uma porta à esquerda, com uma escadinha de acesso. À direita, tinha uma vaga de carro coberta, que acompanhava a inclinação do terreno. No centro, uma enorme janela, daquelas que “saltam” para fora da casa e que internamente comportam um sofá. No segundo andar tinham 4 janelas de madeira branca e no telhado de telhas marrom escuro, haviam mais duas janelas do mesmo modelo das outras. Não era possível ver as laterais da casa, pois os sobrados vizinhos às ocultavam.
“Estou em casa?”.
Ela subiu a escadinha e tocou a campainha.
Tin-Don. — Esperou um pouco e nada aconteceu – Tin-Don... Tin-Don – Nada – Tiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinnnnnnnnnnn-Dooon! – Nada.
Ela aproximou a cabeça na porta, apurou os ouvidos e não escutou nada, nenhum ruído. Ninguém se mexendo para atender a campainha.
Ela ajoelhou-se no chão, apoiou a sua mochila no colo e começou a vasculhar lá dentro. Depois de alguns segundos, pareceu satisfeita quando puxou de lá de dentro um molho de chaveiros com uma chave de dentro da mochila. Inseriu a chave dentro da porta, girou e destrancou. A enorme porta de carvalho girou sobre o eixo, lentamente, à medida que Damra empurrava, e fazendo um ruído seco e tenebroso.
— Olá! Alguém em casa?! – aos poucos ela foi entrando, devagar, pisando com cuidado sobre o carpete de madeira. – Alguém? Sou eu! Damra! Quer dizer, Serena! – Nenhum som vinha da casa.
Damra – ou Serena – fechou a porta e andou até o meio do hall, tentando ouvir alguma coisa, mas não ouviu nada.
A casa estava escura.
Lá fora o céu brilhava sob a luz do meio dia, mas a casa estava escura.
Ela foi entrando na sala, devagar, como se estivesse prestes a pisar em uma mina terrestre. Com as cortinas fechadas a penumbra seria total se não fossem alguns raios de sol que, bravamente, entravam por pequenas frestas nas janelas.
Havia lençóis sobre os móveis – nos poucos que restaram – e poeira sobre tudo, como se a casa não fosse habitada há vários anos.
“O que aconteceu aqui?”.
Ela olhou pela casa inteira, em todos os andares e todos os cômodos, mas não achou ninguém. Nenhuma roupa nos armários e quase nenhum armário para comportar roupas. As camas estavam sem lençóis, os banheiros sem escovas, sem pasta de dente e sem sabonete. A casa estava sem luz, sem água, sem ida, e sem ninguém.
Sem entender o que havia acontecido, o porquê todos tinham sumido e não encontrado nenhuma pista do paradeiro deles. Damra percebeu que era hora de ir.
Ela tirou o vestido do Mundo de Lá, que estava usando e deixou-o em cima da cama de seu antigo quarto.
“Menos coisas para rastrearem”— pensou.
Agora ela usava uma saia comprida da cor azul marinho, uma regata cinza e um cardigan preto desabotoado. O cabelo ondulado apoiava-se livremente sobre os ombros. Usava uma gargantilha feita de nylon preto no pescoço, além do colar com o medalhão e Levava alguns anéis em seus dedos.
Toda a alegria de estar viva e de ter voltado para sua cidade, para a sua casa, estava sendo transformada em medo e em agonia.
“O que aconteceu aqui?”.
“Onde está meu pai? E minha madrasta e minha irmã?”.
Quando ela finalmente saiu da casa, já devia ser cinco horas da tarde. Ela saiu por onde entrou, trancando a porta da frente e andou na direção de outra casa dentro do condomínio. Essa já era mais simples. Era uma casa térrea, com uma porta a esquerda e uma vaga a direita, como a anterior, mas essa não tinha janelas no telhado e era no nível da rua. Suas cores eram o que mais chamavam atenção. Ela era toda amarela, com o telhado cor de argila e janelas e portas azuis.
“Não achei que sentiria tanta falta de olhar para uma casa”.
Damra se aproximou da porta de entrada, detendo-se por um instante, mas, finalmente, tocando a campainha.
Dessa vez tinha barulho. Escutou som de televisão, passos apressados para lá e para cá, som de algo se quebrando, um grito de reprovação, e por fim, a porta se abrindo.
Duas meninas idênticas, de aproximadamente 5 anos, abriram a porta, ainda usando pijamas e com brinquedos nas mãos.
— Pai! Pai! Tem uma moça aqui na porta!
As crianças saíram correndo e gritando enquanto a sombra de um homem alto e corpulento vinha substituí-las na guarda da entrada.
— Pois não. – Disse o homem calmamente, pondo-se na luz natural que havia do lado de fora da casa.
O homem não era tão assustador quanto sua imensa sombra demonstrava. Ele era imenso, sim! Com certeza tinha quase dois metros de altura, e era muito musculoso, porém usava óculos de grau estilo aviador, tinha o cabelo castanho cortado em estilo militar, vestia uma camisa social listrada rosa, para fora de uma calça social preta que lhe caia muito bem, e estava descalço.
Parecia que duas personalidades distintas viviam dentro dele, lutando para assumir o controle. De um lado o homem musculoso e rude e do outro, um homem intelectual e meigo.
— Desculpe – disse ela pensativa e hesitante – Não acho que bati na casa errada – fez uma pequena pausa, olhando para baixo – Embora eu não o conheça, mas aqui mora a Malu, não é?
O homem pareceu meio intrigado, franziu a testa e respondeu.
— Não, eu sinto muito, apenas eu e minha família.
— Mas eu tinha certeza de que ela morava nessa casa. Só se ela se mudou – Ela começou a ficar nervosa e aflita – Eu... eu... sabe, ela é minha amiga. Eu fui embora por um tempo e... minha família me deixou... e agora ela... eu... eu não...
— O que houve, amor? – disse uma terceira voz se aproximando da porta.
Damra, agora, olhava para baixo, confusa, como se estivesse flutuando e procurasse o chão para se apoiar.
— Querido, essa moça está procurando uma mulher chamada Malu. Disse que ela morava nessa casa.
Outro homem surgiu à porta. Esse era um pouco mais baixo que o primeiro. Tinha as laterais do cabelo castanho raspadas, enquanto a parte de cima do cabelo era lisa e jogada para frente, em um estilo de topete despojado. Assim como o outro, tinham olhos castanhos claros, ombros largos, mas não tão musculoso. Além disso, tinha um rosto meigo com linhas mais delicadas e seus olhos eram muito expressivos e cheios de ternura. Usava uma bermuda azul cobalto, pouco acima do joelho e uma regata branca que estava toda suja de alguma coisa que parecia massa de torta.
— Diga-me o que foi, querida – Falou o último homem a chegar na conversa.
— Eu... Eu morava nesse condomínio... Minha amiga também! Ela morava nessa casa! Eu tenho certeza! – Ela parecia muito aflita e confusa. Olhava para os lados, como se tivesse deixado algum detalhe lhe escapar.
— Você não quer entrar um pouquinho? Tomar uma água?
— Adriano! – Bufou o homem de camisa rosa – Não podemos mandar uma estranha entrar em nossa casa. – Ele cochichou para o outro.
— Amor, você não esta vendo que ela precisa de ajuda? – cochichou de volta.
— Mas e nossas filhas?! Não sabemos que tipo de mulher ela é! – Seu sussurro estava mais alto do que pretendia.
— Bruno!... – ele o encarou com muita convicção, sem dizer mais nada, mas como se seu olhar já dissesse tudo.
— Está bem! – Ele pareceu rendido – Entre um pouco. Se acalme.
Bruno a guiou para o sofá enquanto Adriano foi buscar um copo de água.
Damra deixou a mochila e a bolsa de lado ao se acomodar e segurou o copo com água, com as duas mãos, como se temesse deixa-lo cair, e olhou fundo nos olhos claros dos dois homens, que se sentavam a sua frente. Até que finalmente decidiu tomar a água.
— Está mais calma? – Perguntou Bruno.
Adriano lhe lançou um olhar de esguelha, como se desaprovasse essa pergunta.
— Estou sim, obrigada. – apoiou o copo na mesinha de centro entre os sofás.
— Minha querida, então agora me conte o que lhe trouxe aqui?
Bruno não pareceu feliz ao escutar a palavra “Querida” sair da boca de Adriano direcionada para uma estranha.
— Bom, é uma longa história – ela estava apertando as mãos, tentando aliviar a tensão – mas em resumo, faz um tempo que eu saí de casa para fazer uma viagem. Fui conhecer minha mãe e tudo mais. Voltei hoje, mas quando eu fui na minha casa não encontrei ninguém.
Ela prosseguiu.
— Eu tinha uma amiga que morava nessa casa – Ela os fitava fixamente – Por isso vim aqui, para ver se ela sabia o que tinha acontecido, mas... – As palavras se perderam no ar.
— Faz quanto tempo que você foi embora? – Perguntou Adriano.
— Um ano.
— E sua amiga ainda morava aqui quando você foi embora? — Bruno perguntou.
— Sim. Eu disse que ia voltar. Por isso essa história não faz sentido. Ela disse que ia me esperar. A família dela morava aqui há muito tempo. Não tinham motivos para ir embora – Bruno se levantou e começou a andar pela sala, esfregando as têmporas.
Adriano levantou da poltrona e foi se sentar ao lado dela.
— Qual é mesmo o seu nome, querida?
— Dam... Serena.
— Serena – Ele respirou fundo – Será que você não confundiu a casa?
— Não. Eu tenho certeza que é essa – Um medo crescente brotava em seu peito — Afinal, quantas casas amarelas com janelas azuis existem nesse condomínio?
— Quando nos mudamos para cá, ela já era dessa cor – Disse Bruno.
— Está vendo? Sabia! Eles não disseram para onde foram? Ano passado o pai dela começou a trabalhar em um hospital aqui perto, pouco antes de eu ir embora.
Adriano e Bruno se entreolharam e Adriano voltou a olhar para ela.
— Serena – Ele segurou suas mão com ternura – Isso não é possível, porque nós. Digo... eu, Bruno e as meninas moramos nessa casa há três anos.
— O quê?!?! – Ela puxou a mão como se ele tivesse um vírus contagioso.
Agora o medo era quase palpável, e a dominou por completo. Sua mente transbordava com diversos pensamentos e seu coração quase saltava pela boca, sufocando sua respiração.
Ela olhou de um para o outro, esperando que algum deles admiti-se a brincadeira, mas não aconteceu.
“Não pode ser verdade! Não pode ser...”.
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