Trina
2 Capítulo 2 - Recomeçar
Notas iniciais
Priiiiiiiiinnnnnnmmm!
Meu despertador tocou. Ele ficava em cima da mesinha de carvalho ao lado da minha cama. Eu me contorci toda e consegui dar um tapa nele que o fez cair no chão.
— Já estou indo. – falei sozinha e em voz baixa, assim que voltei a minha posição inicial.
Eu sou contra a necessidade de dormir. Sério mesmo. Pare e reflita. Pior do que você querer fazer alguma coisa e não conseguir por causa do sono, é um barulho chato e irritante te acordar sem que você queira acordar. Além disso, para algumas mulheres como eu, dormir faz mal para o cabelo.
Meu longo cabelo, meio cacheado, meio ondulado, conseguia acordar cada vez pior — Eu estava começando a ficar preocupada — mas pelo menos eu gostava da cor dele – Acho que o loiro claro me cai bem — Mesmo penteando e passando creme, a primeira vista meu cabelo era mais emaranhado que um ninho de andorinhas na época do acasalamento. Pelo menos a minha pele branquela tira um pouco da atenção do meu cabelo. — Nooooossa, e como eu sou branca! – Se eu fosse naturalmente morena, eu diria que os irmãos Grimm tinham se inspirado em mim para criar a branca de neve.
Meus olhos cor de mel, mais claros na região perto da pupila e com um contorno escuro na borda exterior, era, sem dúvida, a parte que eu mais gostava no meu corpo. Devo ter puxado a minha mãe, porque meu pai tem o cabelo castanho, pele branca – não tão clara quanto a minha – e o olho negro.
A parte deplorável da minha aparência era subdividida em tantas, que eu estava quase catalogando. Eu tinha algumas espinhas no rosto, era meio gordinha e tinha 1,57 de altura. Ah! E tinha os dois primeiros dentes de cima mais avantajados — Linda, né? Eu sei.
Eu não era a menina mais popular da sala, e nem a CDF, estava no meio termo, sem honras ao mérito ou suspensões. Tinha amigos, – é claro – os melhores, em minha opinião, mas nem eles conseguiam me livrar da gozação.
Dizem que meu tipo físico é ideal para ser a chacota da turma. Acho que é verdade, já que eu era um pouquinho zoada, pelos meus colegas de classe.
A maioria usavam apelidos/adjetivos amáveis como, "Tampinha", "Nanica", "Gorduchinha", "Fortinha"... Os mais agressivos falavam coisas como "Elefante", "Rolha de Poço", “Cometa”, “Bola de Basquete”... Os criativos falavam coisas do tipo "Chupeta de Baleia", "Miniatura do Globo Terrestre" e blablabla. E ainda tinha um ou outro com o mínimo de cultura literária brasileira nas veias, e que me chamava de "Mônica" — Eu achava esse o "menos pior", porque eu adoro a Mônica – mas, na verdade, meu nome é Clara.
Eu já estava prestes a terminar o terceiro ano do ensino médio – isso mesmo, essa gozação toda é no último ano do colégio, as portas da faculdade – E estava muito feliz, por não ter que ver mais a cara da maioria daquelas pessoas e porque eu iria completar 18 anos em alguns dias.
Não era a coisa mais injusta do mundo eu ter quase 18 e ter o rosto coberto por espinhas?
Eu sei que estou sendo repetitiva, mas é que era difícil acreditar que minha puberdade tinha demorado tanto tempo para aparecer e no melhor momento da minha vida, em que eu ia sair do colégio, talvez fazer uma faculdade, trabalhar e me relacionar com novas pessoas, eu ainda estava cheia de acne.
Eu sei. A vida não é justa. Na verdade acho que "Vida" e "injustiça” são sinônimos.
Meu último dia de aula foi o mais tedioso e demorado dia da minha vida. Os professores pegaram esse momento para dar dicas e lamúrias sobre a vida no futuro.
O dia foi assim:
Primeiro Período: Artes
— Um dia vocês vão perceber como essa matéria vai fazer falta na vida de vocês. Eu tive uma aluna – Começou a professora Simoneta – que me encontrou na rua depois de terminar o colégio e disse “Professora, você tinha razão”.
Todos os alunos reviraram os olhos enquanto ela continuava.
Segundo Período: Matemática.
— Não existe vida sem matemática – O professor Cléber falava — Para tudo, em todas as profissões, existem cálculos. E vocês precisam saber o que aprenderam.
— Menos Baskara, né professor? – Perguntou um aluno do fundão e todos desataram a rir.
Terceiro Período: Matemática
Duas aulas seguidas de sermão sobre a importância da matemática foi cansativo demais.
— Se você quiser se tornar um engenheiro aeronáutico, você vai precisar de Baskara... – continuou o professor.
— Ele sabe do que está falando? – perguntei para Janine, minha amiga.
— Ele sabe que dia é hoje? – Ela cochichou de volta e nós duas rimos.
Quarto Período: Saúde.
— Não vai ter ninguém lá para pegar a mão de vocês e leva-los para o caminho da vida saudável – Foi a vez da professora Noelma — Vocês tem que se cuidar...
— Professora. Que horas você vai distribuir camisinhas? Preciso me cuidar – Disse o Henrique. Que era nada menos que o menino mais lindo e popular da sala.
Todos Gargalharam
Quinto Período: História
— Não se esqueçam. A vida é um desafio. Estaremos em contato direto no campo de batalha. Mas a Guerra nunca é plena...
“Mata a alma e envenena” – Gritava meu cérebro tentando achar graça naquilo.
Depois de toda essa tortura, fomos finalmente dispensados.
No caminho para casa fui assolada pelos pensamentos que me derrubaram durante os últimos meses.
“O que farei da minha vida?”.
Sem saber que rumo tomar, ou melhor, por onde começar essa nova fase pós-colégio, eu decidi recomeçar, e não entrar em uma faculdade, ainda. Eu queria ter novas experiências, tomar decisões por mim mesma, ter minhas próprias coisas, conhecer gente nova e novos lugares e sentia que precisava mais do que tudo, viver isso.
Demorei muito até tomar minha decisão, e depois disso, demorei muito mais para ter coragem de dar o primeiro passo.
O fim das aulas chegou. Já estava tudo pronto e só faltava uma coisa. Contar a novidade aos meus amigos.
Nós tínhamos combinado, naquela tarde, de irmos comemorar o fim do colégio, no nosso lugar favorito, a cafeteria e livraria Sant’ Andréa.
Era um lugar aconchegante com decoração clássico-moderna, jardins de inverno, terraços, poltronas macias, cafés saborosos, e estantes cheias de livros incríveis e fascinantes, que ficava pertinho da minha casa.
Quando chegou a hora da verdade, eu simplesmente falei, e acho que reagiram bem.
— Você vai se mudar?! Como assim? Pra onde? E nós? Quer dizer, e nossa amizade? Como vamos continuar amigos depois do colégio, se você vai se afastar de nós?
Esse é o Caio. Ele tem o cabelo curto, com a pele bem branquinha e algumas sardas. Usava óculos redondos com armação de ferro dourado bem fininha – Que lhe davam a aparência do Nerd que ele realmente era – Não era gordo, nem magro. Não era alto, nem baixo. E com seu físico “normal” passaria despercebido pelos “valentões”, se não fosse pelo seu cabelo laranja cor de cenoura. – Mas o Caio é legal. Nós nos conhecíamos desde a oitava série, ou nono ano, como chamam hoje em dia, e nos dávamos super bem. Ele era quase meu único amigo e eu a dele, então nos apoiávamos, nos ajudávamos e nos defendíamos sempre que possível e necessário.
— Caio calma! Respire! – Caio respirou fundou – Clara. Você vai mesmo fazer isso?
— Vou Janine. Vai ser bom para mim. Preciso sair dessa cidade. Você sabe que eu prefiro o campo e já fiquei demais em São Paulo.
Janine e eu éramos amigas desde a primeira série. Amigas de infância. Tipo “Best Friends”. Ela era a pessoa que mais me entendia e com quem eu mais podia contar. O tipo de amizade que você conta nos dedos de uma mão.
Ela era negra com o cabelo “tuim” – como ela mesma dizia – do qual ela não gostava e por isso, atualmente, ele era totalmente coberto por pequeninas tranças, que davam um pouco de peso ao seu cabelo Chanel – Eu, particularmente, sempre adorei o cabelo dela. Eu usaria um Black Power super incrível, mas ela nunca concordou comigo. – Deveria ter 1,78 de altura, era magra e tinha um lindo sorriso super branco e brilhante, com todos os dentes bem alinhados – Eu a invejava um pouco, porque ela tinha todas as qualidades que eu queria ter e muito mais – Além de ter um estilo hippie todo próprio, e de não abaixar a cabeça com o que os outros dissessem sobre ela. A sua autoconfiança era o que eu mais admirava.
— Você já contou sua decisão para seu pai? – Perguntou-me Janine.
— Não. Eu não marquei hora na agenda dele. Acho que é por isso que eu nunca o vejo em casa. Está sempre ocupado demais para mim, mas eu já estou acostumada.
Janine segurou minha mão, e quando eu olhei para ela, lá estava aquele olhar doce e o sorriso reconfortante que me faziam sentir que o mundo não era tão ruim, quanto realmente é.
Eu, com certeza, sentiria falta disso, quando fosse embora.
Caio estava respirando com um saco de papel, para tentar se acalmar. Eu imaginei que a noticia o deixaria meio abalado, mais nunca imaginei tal reação. Ele ficou vermelho, não falava, não comia, só respirava pelo saco de papel. Uns minutos depois ele conseguiu se acalmar, ficou olhando para mim, quase desatou a chorar e voltou a respirar ofegantemente pelo saco de papel pardo.
— Caio... não se preocupe, nós vamos continuar sendo amigos, e nos falando. É para isso que existe a internet.
— E o celular! – acrescentou Janine
— Promete, Clara? – Perguntou-me com a voz um pouco aguda.
— Claro que sim! Agora tome seu café antes que esfrie.
— Vou no banheiro primeiro. – Disse ele já se levantando
Janine olhou para mim com a cabeça um pouco inclinada, como os cachorrinhos fazem, e com um olhar que parecia ser capaz de vasculhar cada cantinho da minha alma, ela sorriu e olhou para baixo. Era só ela fazer isso e eu já sabia qual seria o próximo assunto.
— Não sei o que seria do Caio sem você. – Disse ela.
— Você sempre diz isso. Olha, nós somos bons amigos e é isso que os bons amigos fazem, cuidam um do outro.
— Sim, eles cuidam. Mas você ouviu o que você disse? “Tome seu café antes que esfrie”. Clara isso é mais que “bons amigos”. É como se você o tivesse adotado.
Janine às vezes me dizia que eu parecia ser mãe do Caio, porque eu estava sempre cuidando dele como se ele fosse meu filho. Talvez ela tivesse razão. Eu não tinha mãe, quer dizer, nunca a conheci, e meu pai nunca se importou comigo. Já os pais do Caio eram advogados muito ricos e tinham o próprio escritório de advocacia. Quase nunca estavam em casa. Como sempre viajavam a negócios, não deram muito carinho a ele. A gente tinha isso em comum. Faltava o cuidado de nossos pais conosco.
Eu não sabia como era o amor materno, mas se era o que eu sentia pelo Caio, era bom.
— E isso é um problema?
— Se você vai sair da cidade... É! É um problema!
— Ele vai ficar bem, ele só precisa de autoconfiança e você vai estar aqui para ajuda-lo. Eu só preciso de um tempo para me encontrar, saber o que fazer com o resto da minha vida.
— Tudo bem. Eu entendo. – Janine já estava ficando com os olhos cheios de lágrimas – bom vamos falar de coisas boas. Como estão os preparativos?
— Eu consegui fazer uma reserva em uma pensão. Parece que eles têm um quarto vago. Já fiz a minha mala. Só falta pegar algumas coisas para colocar na mochila.
Ela levantou uma das sobrancelhas para mim.
— Sei...
— Não me olha com essa cara. Não é para sempre
Caio voltou.
— Quando você vai? – Ele perguntou.
— No sábado.
— O dia seguinte do seu aniversário? – perguntou Janine.
— Aham — afirmei.
— Ótimo. Precisamos planejar alguma coisa para esse dia.
Janine levantou a mão, fazendo sinal de que queria mais café.
Passamos o resto da tarde conversando, comendo e tomando cafeína o suficiente para ficarmos acordados por uma semana — Foi muito bom.
...
Dois dias depois foi a formatura.
Eu só tinha meu pai de convidado. Sem avós, tios ou irmãos. Eu só o tinha de família e às vezes eu achava que não tinha ninguém.
Eu tentei falar com ele sobre a formatura enquanto ele estava usando o notebook, – Ele sempre estava usando o computador, ou falando pelo celular. Isso quando não fazia os dois. Então não tinha uma hora melhor – mas ele nem desviou os olhos para mim, e disse: “tá, tá, deixe o convite em qualquer lugar que depois eu pego”, ele não o pegou, então o coloquei dentro da sua pasta, na tentativa de que ele visse o convite e fosse, mas não deu certo, ele não estava lá.
Os pais de Caio também não estavam. Só estava a avó dele, que chegou de viagem para ver o neto, e a sua tia, que era a pessoa da família mais próxima e presente para ele.
Já a Janine estava com os pais, dois de seus irmãos a avó materna, os avós paternos, sua tia Camile e sua prima – filha de Camile — que tinha 12 anos. Ela tinha sorte, Janine, a única com o apoio e verdadeiro amor da família. Quer dizer, a única de nós três.
Quando os discursos começaram teve uma choradeira da maioria da sala quando os populares falavam. Na minha vez de falar, foi a vez do Caio chorar.
Eu não me lembro do que estava escrito no papel, eu não o li, simplesmente falei o que se deve falar para seus verdadeiros amigos em um momento de despedida. Eu falei com o coração.
É difícil terminar a escola, só quem já passou por isso sabe o que é. Quando chega o dia do fim, você se sente mais velho, afinal, a melhor época da sua vida acabou. Você tem que adquirir mais responsabilidade, amadurecer, e seguir um caminho novo e sem garantias. Mas apesar de tudo, eu estava feliz.
Quando a colação de grau acabou, eu e meus amigos não fomos ao baile. Desviamos o caminho para uma pizzaria, onde festejamos entre nós mesmos e evitamos um último olhar daquelas pessoas que eu queria esquecer.
O pai da Janine era muito engraçado. Contava piadas o tempo todo, fazendo com que os músculos da minha barriga doessem. A prima dela não saia de um jogo no celular da mãe. Os seus irmãos participavam da conversa com muito interesse. E sua mãe sorria o tempo todo. A tia do Caio começou a ficar bêbada e propunha um brinde a cada dois minutos. E a avó dele – sempre muito elegante – tinha suas histórias de vida para nos contar – assim como os avós de Janine – Sempre com muitos momentos embaraçosos, hilários e memoráveis.
Ficamos horas ali. Comendo, rindo, conversando e festejando o inicio da nova fase.
Quando cheguei em casa, meu pai estava lá, de cueca, meias e camisa social, sentado no sofá de couro preto, de que ele tanto se orgulhava, com o notebook no colo. – Ele vivia para trabalhar. Fazia isso a todo o momento. Às vezes eu me perguntava se ele parava para comer alguma coisa, mas a julgar pelo sua barriguinha de Chopp, eu diria que sim.
Fui direto ao quarto, e do quarto a sala, e da sala ao banheiro, e do banheiro a cozinha, mas ele nem desviou os olhos para ver como eu estava no dia da minha formatura. – Se fossem ladrões ele olhava.
Aquele momento foi a gota d’água.
Voltei para o quarto e continuei a guardar as minhas coisas. Além de roupa, eu coloquei na mala de carrinho um pouco de comida – industrializada, é claro! Já que ninguém em casa cozinhava – e alguns sapatos.
Tomei o cuidado de guardar na minha mochila os meus itens mais valiosos, como a linda câmera fotográfica do meu avô, que eu herdara de meu pai quando tinha 15 anos, e que ele nunca a usou, NUNCA — Então ainda estava em perfeito estado — Era de um modelo antigo, não muito grande e capturava a luz nas imagens como nenhuma outra.
Peguei também meus botons, que eu colecionava já há algum tempo. Minhas fotografias – é claro! – que eu guardava dentro de uma lata retangular. – Tinha fotos minhas, da Janine, do Caio, de nós três, da natureza, de luminárias de jardim, da Sant’ Andréa, da minha casa e do meu quarto, além da única foto que eu tinha da minha mãe. Eu a tinha achado no armário do meu pai, escondido dentro de um caixa. Eu sabia que era ela porque atrás estava escrito a data e uma declaração de amor da minha mãe para ele, e que citava o meu nome.
Peguei também meu notebook, que eu fiz questão de comprar com o dinheiro que eu consegui trabalhando durante três meses naquela cafeteria perto de casa. Peguei minha bolsinha de maquiagem, os meus acessórios como pulseiras, anéis, colares e brincos — a maioria estilo hippie que eu consegui das mais variadas maneiras — E o único item que minha mãe me deixou e que meu pai não jogou fora, algo como um pauzinho de prender no cabelo, mas era de acrílico e era lindo. Parecia que era um pingente de gelo e estava escrito nele, “Minha querida” – Ele estava na caixa junto com a foto.
Bom... malas prontas, eu fui para a casa de Janine, como combinado. Cheguei lá às três horas da manhã, e ela logo me deu os parabéns. Eu tinha esquecido, mas o dia seguinte da formatura era meu aniversário. E ela na madrugada do dia 9 de dezembro, quando eu fazia 18 anos, me acolhendo em sua casa e me parabenizando.
A família estendeu a comemoração da pizzaria para a casa e estavam todos na sala conversando e bebendo. Assim que me viram, vieram me dar parabéns também. Senti-me verdadeiramente em casa naquele dia.
Logo que acordamos, nós fomos até a cafeteria nos encontrar com o Caio. Pedimos o de sempre. No caso do Caio era uma xícara com muito leite e pouco café e um pão na chapa e o meu e da Janine era café, leite, creme, e canela — Adorávamos essa especiaria. Canela. Nossa marca registrada – e comíamos torradas com geleia, cada dia um sabor diferente.
“É... Eu vou sentir falta disso!” — pensei.
Depois fomos ao cinema, emendando o passeio com um piquenique no parque.
Cada um dos dois fez questão de me dar um presente.
Caio me deu uma mochila de por nas costas em tecido cru bege e com detalhes em marrom, ele dizia que como eu estava me mudando com pouca coisa, uma mochila seria útil, e toda vez que eu a usasse, seria como se ele estivesse me ajudando — Ele era um fofo — Logo comecei a usar a mochila.
Janine me deu um colar relativamente comprido, com um pingente de uma borboleta, tudo em cobre. – Eu adorei – Ela contou que a borboleta simbolizava a mudança na minha vida, a metamorfose que eu queria sofrer. Disse para eu usar o colar todo o tempo, pois ele iria me proteger. Além disso, me deu um brinco que ela mesma fez. Era um caçador de sonhos. – Lindo! – Era marrom, com uma pedrinha azul no meio, e umas penas brancas com as pontas marrons, pendurada nele. Ela tinha o par do brinco. Disse que ficaríamos ligadas através deles e que nos encontraríamos todas as noites em nossos sonhos.
Fiquei muito emocionada com os presentes, não pelo valor material, e sim sentimental, que era o que eu mais presava.
Passamos o resto do dia deitados na grama, conversando, rindo, sonhando com o futuro, e quando escureceu, ficamos vendo as estrelas e fazendo pedidos. A gente se juntou a um grupo que estava fazendo um luau à luz de uma fogueira. Cantamos muitas músicas, fizemos novas amizades e guardamos esse dia para o resto das nossas vidas.
...
Na manhã seguinte fomos para a rodoviária, minha passagem estava marcada para bem cedo. A mãe de Janine, além de ceder a sua casa como abrigo, e de me acolher, ainda acordou cedo e nos levou de carro.
No final estávamos nós três juntos, lado a lado, de novo, só que dessa vez, nos despedindo.
— Não se esqueça da gente. – disse Janine
— Impossível!
— Vê se volta logo, estamos te esperando. – Disse o Caio
— Claro!
— Se precisar de alguma coisa, fala com a gente, que vamos te ajudar. Você sabe! – Disse Janine, segurando as lágrimas.
— Eu sei! Bom, agora eu vou ter que entrar, o motorista já está indo.
Nós nos despedimos com beijos, lágrimas e um abraço triplo. Entrei no ônibus olhando para trás. Sentei no meu lugar, olhei pela janela e lá estavam os dois, ladeados, um envolvendo o braço no outro, olhando o ônibus partir como se um pedaço deles estivesse indo embora.
“Eu entendo. Um pedaço de mim também fica aqui com vocês”.
Quando o ônibus se afastou e a visão dos meus amigos na rodoviária era apenas uma lembrança, eu estava feliz. Percebi que eu tinha um, ou melhor, dois motivos para retornar a São Paulo.
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