Trina

13 Capítulo 13 - Bem vinda à guerra


Depois de colocar uma roupa que fosse um pouco mais quente, saí da tenda tão desesperada por finalmente poder comer depois de um longo tempo, que quase bati de frente com Quévron na entrada.

— Olá, senhorita. Imagino que estavas indo jantar.

— Sim! Por favor!

— E o elfo?

— Rafaelle? — bufei discretamente — Ele irá depois.

Ele me olhou intrigado, como se quisesse ler meus pensamentos e fiquei grata por ter alguém que não conseguia fazer isso. Sem dizer mais nada, ele começou a andar e eu o segui.

Foi uma caminhada silenciosa até chegarmos no salão onde, aparentemente, as refeições eram servidas e devo dizer que não me lembro de ter visto um refeitório tão... inusitado na vida. As diversas mesas de madeira espalhadas pelo espaço eram pedaços não muito trabalhados de troncos. Os bancos seguiam a mesma linha.

Enquanto passávamos pelo recinto, mais uma vez, cabeças se voltavam na minha direção fazendo com que todo aquele fervor de quando chegamos no salão, se tornasse cochichos.

Quévron apontou uma mesa no final do refeitório (acho que podemos chamar assim. Não sei se tem um termo diferente para criaturas mágicas). Claramente era uma mesa mais importante, já que ficava no sentido transversal as outras, além de que era bem mais bonita, com alguns entalhes na madeira

— Esses são os líderes da manada — Disse Quévron, apontando a direção.

— Devo concluir que você vai me apresentar a eles.

— Por certo. Você deve jantar com os líderes. A assuntos importantes a serem travados.

— Durante o jantar?

— Sim. É o melhor momento para isso.

Não estava muito em condições de argumentar alguma coisa, já que meu cérebro foi parar no estômago e eu só conseguia pensar em comida, então só me deixei levar.

"Toc! Toc! Toc!" – Um som seco de cascos de cavalo no chão de madeira ecoou por todo o espaço, silenciando todas as vozes.

— Apresento-lhes a recém-chegada, bruxa Trina!

Eu não conseguiria dizer quem me apresentou a todos, porque no instante em que olhei na direção da voz, todos se levantaram e aplaudiram calorosamente, como se ainda não tivessem me visto, e depois de alguns segundos muito embaraçosos, todos se sentaram, inclusive eu.

— Minha cara – Gladiu estava sentado ao meu lado, ou seja lá como eles chamam aquela posição dos cavalos — esses são Beston, Clóbita e Jorgean – Eles fizeram um aceno com a cabeça, que retribuí com um aceno — Temos muito que conversar.

— Parece que sim – suspirei discretamente.

— Mas antes, comer – erguendo a própria taça ele olhou na direção de todos e disse – que a comida seja servida, e que os deuses nos abençoem.

— Rastalá – Todos entoaram, erguendo os pratos.

— Rastalá – Imitei, um pouco tímida de estar me fazendo de boba, mas receosa de que não fazer o mesmo me deixasse sem comida, mas contrariando minhas expectativas, a comida não apareceu magicamente. Ela começou a ser servida nas mesas.

— Então, Trina, conte-nos como você veio parar aqui em nossa aldeia.

Eu tentei resumir a história da melhor maneira possível, dando ênfase de que eu não queria ir para lá, de quanto tudo parecia loucura e de que parte de mim achava que eu estava sonhando como no filme "Alice no país das maravilhas", mas eles não entenderam essa referência.

Eu já estava no fim dos acontecimentos, quando Quévron reapareceu com Rafaelle a tira colo, sentando-se ao meu lado. Pude reparar uma expressão estranha no rosto de Gladio, que me deixou na dúvida se o problema eram os dois ou a minha história.

— Incrível narrativa, senhorita. Espero que tenhas mais histórias interessantes a nos contar. Vai ser ótimo tê-la na nossa cavalaria — falou Beston.

— De fato — retrucou Jorgean — E de certo será ótimo termos uma bruxa ao nosso lado na guerra.

— Guerra? — eu engasguei com a água que estava bebendo — que guerra?

— A guerra contra os humanos, é claro.

— Temos tropas treinadas e armas em grande quantia assim como nossa força de vontade, mas nada se compararia a presença de uma bruxa – disse Beston, transbordando empolgação.

— De fato. Sozinhos não podemos vencer todas as batalhas — continuou Jorgean — algumas cidades humanas são muito avançadas para nossos arcos e espadas.

— Somos presas fáceis.

— Vocês falam como se já tivessem perdido a guerra — disse Rafaelle, pela primeira vez.

— Já perdemos muitas batalhas, elfo – disse Jorgean com um tom amargo – e muitos amigos. Então não julgue o que não sabe.

— Acho que vocês não estão entendendo — interrompi — eu não pertenço a esse mundo. Okay... eu vi algumas coisas que ultrapassaram a linha de tudo o que eu acreditava, mas entrar numa guerra? Eu nem consigo entender de onde vocês tiraram que eu sou uma bruxa.

Nesse momento, os olhos dos centauros se voltaram a Quévron, como se ele devesse uma explicação.

— Ela aceitou o juramento e retirou a adaga — ele disse como se isso fosse uma explicação totalmente lógica de que sou mesmo uma bruxa.

— Como se os olhos dela não entregassem o jogo — disse Rafaelle.

"Meus olhos?"

— Há controvérsias sobre isso

Todos começaram a falar ao mesmo tempo, discutindo sobre o que realmente é prova de bruxaria, e toda essa falação estava se tornando um caos.

— A questão é... — gritei mais alto que as vozes — a questão é que algumas horas atrás eu nunca nem tinha visto um centauro... ou um elfo. Você quer que eu entre em uma guerra? Contra os humanos? — uma sensação estranha dominou meu peito — Mas EU sou humana. Apesar de qualquer coisa que digam, é assim que eu me vejo. Vocês querem uma bruxa? Mas eu não sei lançar poder pelas mãos, eu não voo em vassouras e nem tenho um caldeirão.

"Você sabe que suas ideias sobre bruxas estão um pouco erradas, né?" — A voz de Rafaelle ecoou na minha mente.

— Além disso — continuei, ignorando-o — todos que eu conheço e amo são humanos. TODOS. Meus amigos, minhas amigas, meus parentes.

— Você não tem que lutar contra sua família. Apenas com....

— Todos os outros humanos?! — continuei — E o que vocês esperam que eu faça? Que mate alguém? Eu nem mesmo mato uma barata.

— Não temos opção. Não fomos nós que começamos isso.

— Eles matam os nossos por prazer, para sentirem que são maiores do que sua insignificância — falou Beston — Nós só nos defendemos. Ou matamos ou morremos.

Silêncio.

— Acho que vocês não entenderam — me levantei da cadeira — eu não vou entrar em uma guerra. Eu não vou lutar contra os humanos e eu, com certeza, não vou matar ninguém — enfatizei cada um dos "nãos" para ser o mais clara possível" — Eu só quero voltar para a minha casa, para o meu mundo e viver a minha miserável vida de garota suburbana.

Fiquei meio na dúvida se eles sabiam o que "suburbana" queria dizer. É estranho conversar com pessoas que você não sabe se entendem suas escolhas de palavras.

— O único motivo de eu ter andado do meio da mata até a aqui — continuei — é porque o Quévron disse que assim a gente arranjaria um maneira de me fazer voltar para casa.

Eles pareciam um pouco desapontados, especialmente Quévron.

Rafaelle parecia estar achando o garfo a coisa mais interessante do mundo, pela maneira que olhava para ele.

— Bom — Quévron foi o primeiro a falar — Nós não sabemos fazer magias. Não somos capazes de lhe dizer como voltar.

— Então?...

— Nós poderíamos procurar alguém versado em magia. Uma feiticeira, talvez.

— Não! — Gladio deu um grito, que me fez pular no lugar — feiticeiras não são confiáveis.

— Tudo bem. Outras opções? — silêncio — Então está decidido. Vamos procurar uma feiticeira para ver se ela sabe me dizer como resolver meu, ahnn, problema.

— Senhorita Trina... — Disse Quévron.

Eu respirei fundo, tentando conter toda a minha irritação.

— Meu nome não é Trina. É Clara.

Acho que a técnica do "respirar para acalmar" não funciona comigo.

— Senhorita Clara... — Ele corrigiu, pigarreando um pouco — você está pronta para aceitar o preço da feiticeira?

— Estou — apesar de dizer de forma determinada, confesso que por dentro eu estava bastante insegura do que isso de fato significaria.

— Então temos um plano — disse Gladio — eu a acompanho nessa missão.

— Não — Quévron protestou — eu devo acompanhá-la.

— E você se acha capaz dessa missão?

Eles se olharam.

— Acho que minha opinião importa, né? — interrompi — Não preciso de outro servo/escravo eterno centauro. Já que Quévron fez esse juramento, me parece justo que ele me acompanhe. Pode ser?

Gladio não pareceu muito contente, mas acabou aceitando a situação. Me perguntei se era por falta de um argumento convincente para protestar, ou se na verdade ele tinha um, mas não queria me contar. Porque a julgar pela maneira como ele abriu e fechou a boca diversas vezes, acho que as duas opções são válidas.

Depois dessa discussão toda, eu estava muito cansada para continuar o resto da noite de qualquer outra forma que não deitada em uma cama. Disse para todos que eu ia voltar para a tenda e Quévron imediatamente se levantou para me acompanhar, seguido por Gladio.

Na entrada do tal refeitório, Gladio sugeriu que Quévron fosse andando na frente com Rafaelle, que nós já o alcançaríamos, assim que o entregassem algo que ele havia pedido para mim.

Quévron concordou e eles seguiram.

— Senhorita Clara — Gladio começou, quando os dois já estavam a certa distancia — não estou convencido de que Quévron seja o mais indicado para lhe acompanhar nessa missão tão importante.

— É? E por que não?

— A algum tempo atrás — ele pareceu exitar — uma jovem, assim como você, chegou aqui na nossa aldeia. Quévron a trouxe até nós. Porém, ela não pretendia ficar aqui. Ela queria conhecer outras iguais a ela, queria saber de toda a verdade. Então, assim foi decidido que Quévron a levaria, mas em um ato de descuido, a jovem foi capturada pelos porcos. Ele tentou salvá-la, mas... bem. Não conseguiu.

Apesar dele ter deixado os detalhes da história no ar, ficou claro o que ele quis dizer com "não conseguiu" e de repente duas coisas me pareceram óbvias. A primeira é de que Quévron me via como uma oportunidade de corrigir um erro do passado e sabe-se lá mais o que ele ganharia com isso. E a segunda era de que Gladio estava muito disposto a me fazer não permitir isso, embora eu não tivesse muita certeza do porquê.

Agora, olhando para trás, é um pouco mais fácil enxergar a situação como um todo, mas na época era difícil entender. Eu estava lidando com criaturas que nunca tinha visto antes e sendo convidada a entrar em guerras que eu não entendia para lutar pelas mesmas criaturas que eu nem sabia que existiam. É difícil se ter malícia nas coisas, quando não se conhece as coisas.

— Por que você esta me contando tudo isso?

— Para que saibas que nas mãos dele, a senhorita não está segura. Eu não teria voz suficiente para convencer os outros de que ele é a escolha errada para lhe acompanhar. Só a senhorita pode fazer essa troca.

— Se não se importa, eu estou cansada e preciso dormir — decidi cortar o assunto, porque não havia o que dizer para continuá-lo, mesmo que eu quisesse — Amanhã será um dia muito cansativo.

Eu dei as costas a ele sem esperar sua resposta e comecei a descer a colina, mas não foi difícil perceber que aquela enorme presença estava me acompanhando caminho abaixo. Na entrada da tenda, Gladio me entregou um saco de pano, com o que deveria ser pão, e eu entrei dizendo "okay" para o "acordaremos bem cedo amanhã" de Quévron.

Dentro da tenda, Rafaelle estava trocando de roupa sem nenhuma cerimônia, o que me deixou bastante constrangida e vermelha, principalmente sabendo que não teria como esconder a vergonha dele, por causa do lance da mente e tal.

Acabei vestindo uma roupa reserva que estava dentro da minha bolsa — nunca fiquei tão feliz por ter desenvolvido o hábito de sempre andar com uma muda de roupa na mochila, desde o incidente do primeiro ano — e me enfiando na cama.

Achei que teria dificuldades para dormir por causa do imenso frio que faz na floresta de noite, ou das respirações ritmadas do Rafaelle, que estava fazendo abdominais na cama dele — sim, você leu certo — mas o cansaço me pegou rápido e minutos depois, já não estava mais consciente do mundo a minha volta.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.