Trina
11 Capítulo 11 - A aldeia centauro
Nós já estávamos andando a algum tempo, mas sempre sem chegar a lugar algum. Quévron insistia em querer me carregar nas costas, as de cavalo, não as de humano. Quer dizer, eu acho.
De qualquer forma recusei várias vezes.
Já era ruim o suficiente ter um escravo eterno. Agora ficar montando nele. Era estranho. Tudo era muito estranho.
No ponto do trajeto em que eu me joguei no chão e implorei misericórdia, estávamos subindo a várzea descampada de um rio muito largo.
— Não podemos demorar senhorita. Em breve o sol irá se pôr e o trajeto ficará mais difícil.
— Eu ouvi um "mais"? Podemos concluir então que você admite que eu tenho total direito de estar casada, principalmente se levar em conta o meu sedentarismo?
— Senhorita, deixe-me...
— Por favor, de novo não — dei uma bufadinha e levantei a contragosto.
A cada passo que eu dava, tentava não focar os pensamentos na loucura em que eu tinha me metido. Em vez disso, eu tentava me convencer de que sou uma pessoa muito corajosa com espirito aventureiro e que estava amando tudo isso. E em brevíssimos momentos, eu quase conseguia crer.
Logo à frente, o curso d'água dobrava a esquerda, e nós tivemos que segui-lo pela curva de maior raio — uhhuuu! Só que não – Quando finalmente passamos pelo "desafio bucólico curvilíneo", como chamou Rafaelle ao ouvir minhas lamúrias mentais, pude ver uma ilha montanhosa que surgia no meio do rio.
Várias construções em ruínas se amontoavam umas sobre as outras na colina da ilhota, como se fossem uma pirâmide de casas. E embora parecesse não ter uma viva alma ali, até dava pra ver certa beleza naquela catástrofe.
— Vocês sabem que lugar é aquele?
— Onde? — Eu apontei — Hum. Eu não sei. Nunca vi antes.
— Essa era uma antiga cidade humana — disse Quévron — foi destruída não há tanto tempo.
— Quem a destruiu?
— Eles mesmos.
— Eles simplesmente destruíram a própria casa?
— Não, exatamente.
Quévron começou a contar a história em versão detalhada de como todos os humanos, sobretudo os que moraram ali, eram criaturas terríveis e que mereceram o fim que tiveram.
Acho que na metade de toda aquela fábula eu já não estava mais prestando atenção. Ficava tentando entender como eu acabei me enfiando nessa furada. Já estava com saudades dos meus amigos e principalmente, já estava arrependida de ter colocado o pé para fora de casa, ou melhor, do ônibus.
"Devia ter ficado no ônibus".
— Resumindo. Uma vila próspera, um mostro, caçada, matança, e cidade destruída. Foi isso – concluiu Rafaelle, provavelmente sabendo que eu estava desatenta.
Quando o sol finalmente começou a baixar no horizonte, nós já estávamos de novo no meio da mata e a perspectiva de ficar no escuro com vários animais selvagens por aí, não me agradava muito.
Eu estava ainda mais cansada, e tinha a certeza de ter passado pela mesma árvore pelo menos umas 20 vezes.
— Quévron, eu não quero que você me carregue, mas... a gente já chegou?
— Sim.
— Sim?
— Sim. Estamos na entrada.
— Onde? — olhei para todos os lados.
— Aqui – ele apontou para o vazio – a passagem não fica à vista de todos. Somente os bem-intencionados podem vê-la e abri-la.
— Então abra.
— Tem que ser você. Como convidada, tens que provar teu valor abrindo a porta.
— Então é uma porta?
— Pode-se dizer que sim.
Olhei na direção que ele apontou antes e dei uns passos à frente. Estreitei os olhos tentando ver alguma coisa, mas não via nada.
— E então? — por fim quebrei o silêncio.
— Abra sua mente. Tente ver o que está além de seus olhos — Fechei os olhos e respirei fundo — Consegue sentir o caminho que o ar faz até encostar na sua pele? Consegue sentir os cheiros além dos pinhos? Consegue ouvir a música que cantam?
"Fácil dizer 'use os seus sentidos' quando se é um cavalo de guerra que anda com uma espada a tiracolo. Difícil mesmo é ser a garota sem coordenação motora até pra jogar vôlei imaginário".
Olhei para o Rafaelle, sabendo que ele teria lido minha mente e que provavelmente estaria rindo, mas não. Ele estava de braços cruzados e com a expressão séria e preocupada.
Virei para frente, tentando me concentrar mais uma vez, sentindo agora meu coração se acalmar.
"Abra sua mente" — estranhamente as palavras de Quévron ficavam ecoando na minha cabeça, causando uma sensação de desconforto no meu corpo inteiro, como se minhas roupas, de repente, estivessem muito justas.
Estava prestes a desistir, até que meu estômago roncou com um cheiroso saboroso no ar. No breve instante em que eu esqueci onde estava, achei que poderia esticar os braços e pegar o pão que visualizava em minha mente.
Somado a isso, senti a pele se aquecer como se estivesse exposta ao sol de uma primavera amena. O assovio do vento veio como uma lufada de ar fresco. E de repente eu não estava mais em uma floresta sozinha, estava cercada por risadas abafadas e música alegre, que vinha de longe, mas que parecia se aproximar a cada subir e descer do meu peito.
Eu comecei a andar para frente, ainda de olhos fechados, sem nem mesmo perceber.
A cada passo, minha boca se enchia de um gosto doce, como o sabor de um mamão maduro, ou de um sorvete de pistache. A cada passo, o desconforto passava e eu me sentia bem como se finalmente estivesse onde deveria estar. E no último passo tudo acabou.
Eu abri os olhos e, na luz dourada de um fim de tarde, pude ver a minha frente os contornos sutis e quase transparentes de um arco de pedra.
Estiquei o braço e senti no ar entalhes detalhados em madeira. Percorri com a mão toda a história que aquela superfície tinha a contar até alcançar a maçaneta
Quando a porta se abriu, aqueles sons distantes em minha mente invadiram a floresta, finalmente me alcançando por inteira.
— Acho que consegui — Falei animada me virando para trás.
Quévron não demonstrava surpresa, mas parecia aliviado e Rafaelle respirou tão fundo, que parecia que estava competindo consigo mesmo para ver quanto tempo ficava sem ar.
— Vamos, então? — Disse como se quisesse fugir da minha análise.
Quévron assentiu com a cabeça e então entramos.
A aldeia foi uma grande surpresa, devo confessar. A passagem dava para uma espécie de praça central onde a vida borbulhava e parecia muito com o meu mundo. É claro que o lugar de onde eu vinha não existiam elfos, centauros e faunos, mas olhando além disso, todos eram seres normais assim como qualquer um. Eles conversavam, riam, brincavam, flertavam, tinham famílias e amigos. Todos eles viviam. E independente se tinham penas, chifres ou crina de cavalo, todos estavam ali juntos como um só povo.
De uma forma estranha, a música desafinou drasticamente antes de parar por completo, junto com os risos e as conversas. E antes que eu me desse conta, todos estavam olhando em nossa direção.
Olhei para trás e vi Quévron e Rafaelle ao lado do imponente arco de pedra, perfeitamente visível agora.
Quévron fez sinal para que eu prosseguisse, o que fiz, mas ser acompanhada por olhares misteriosos não me deixava muito confiante.
Não sabia dizer se eles me odiavam, se me admiravam ou se só estavam apenas tentando entender a minha escolha de roupas, tendo em vista que, se as histórias que eu já li forem verdade, devo parecer uma alienígena.
Escutei alguma coisa caindo no chão, um banco de madeira sendo arrastado e um choro de criança. Fora isso, um silencio completo.
Depois de descer a parte íngreme onde o arco se encontrava, parei de frente ao semicírculo de seres e casinhas a minha volta.
Eu não sabia mais para onde ir, e nem mesmo onde me esconder daqueles olhares.
Escutei uns murmurinhos invisíveis.
— Apresento-lhes — tomei um susto com a voz de Quévron — a mais nova recém-chegada, bruxa Trina!
"Acho que nunca vou me acostumar com essa palavra".
Antes que eu pudesse perceber, todos começaram a aplaudir e gritar em comemoração.
Eu fiquei chocada.
— Por que eles estão fazendo isso? — Cochichei para Rafaelle.
— Você é tudo que eles querem. Uma nova bruxa — Ele se afastou de mim e começou a aplaudir também.
"Mas o quê?".
Os aplausos se estenderam por um tempo, junto com o som de assovios, até que uma voz viesse silenciá-los aos poucos.
— Tudo bem. Tudo bem. Abram caminho — a voz ecoou mais alta que a multidão, revelando a imagem de um centauro tão alto e forte quanto Quévron, apesar de seu cabelo grisalho curto, fazê-lo parecer mais velho.
— Ora, ora – ele continuou – a tempos que não vejo uma de vocês. A última foi a... — seus olhos cruzaram rapidamente com os de Quévron, como se evitasse o contato visual – Bom. A muito tempo.
— Gladio, muito bom revê-lo – Eles fizeram um cumprimento estranho, cada um segurando no antebraço do outro.
— Está de volta.
Fiquei na dúvida se era uma pergunta ou uma reflexão pessoal.
— Venham. Vou acomodá-los.
Seguimos entre as pessoas descendo um caminho de terra.
— Imagino que esteja confusa – Gladio falou.
— Por que diria isso? Você lê mentes?
Ele riu largamente.
— Não. Apenas consigo ler a expressão em seu rosto.
— Ah — Não foi minha resposta mais brilhante.
— Sabe... nós já fomos uma grande cavalaria de centauros. Eramos incríveis.
— A hecatombe.
— Não sei o que é isso.
— A hecatombe foi uma das grandes guerras entre as espécies, iniciada pelos humanos. Foi um massacre. Muitos dos nossos morreram.
— Eu sinto muito.
— Tudo bem, isso já foi a muito tempo. Pelo menos serviu para nos unir como povos.
Ficamos um tempo em silêncio, pois não havia o que eu dizer nesse momento.
— As bruxas foram as mais caçadas. Muitos acreditavam que estavam extintas. Até que você apareceu. Trouxe esperança a eles. E até a mim, devo dizer.
— Eu não entendo.
— Eu imagino que deva ser muita coisa para assimilar — eu assenti – Bom, aqui está.
Paramos em frente a uma grande tenda.
— Essa aqui é a acomodação de vocês.
Rafaelle entrou na tenda sem floreios, já jogando suas coisas em cima de uma das camas.
— Se precisar de alguma coisa, basta voltar pelo caminho que viemos. Todos ficarão felizes em ajudá-la.
— Obrigada.
A tenda parecia mais confortável do que eu imaginava. Cama, armários e até um tapete.
"Acho que sempre tive a ideia errada sobre acampamentos".
— Que tal trocarmos de roupa e ir procurar comida? — Disse Rafaelle.
— Parece um bom plano.
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