Trilogia Aventuras 01: FAMS - A Grande Aventura
1 O evento começa! O garoto prepara o ritual sombrio
Notas iniciais
— PRÓLOGO —
É madrugada. Boa parte da população sobralense descansa em suas casas, enquanto outros festejam no Boteco Universitário — ou ainda, rondando pelas vielas da Margem — o fim da sexta feira e a chegada do final de semana. Alguns foram tentar dormir um pouco mais cedo àquela noite, inquietos com a chegada de um grande evento que aconteceria no final de semana no Centro de Convenções de Sobral.
Escorado em um túmulo do cemitério São José, o vigia bocejava enquanto verificava seu velho relógio de bolso que já marcava duas e quinze da madrugada, quando um estranho barulho o perturbou.
A princípio, ele não se incomodou. O sujeito tinha anos de trabalho naquele cemitério, e não tinha medo de coisas sobrenaturais. Já havia se acostumado com o ambiente, não se considerando supersticioso e sempre alegando: “Essas bobagens não existem! E se existirem, meto a porrada em qualquer uma que vier pra cima de mim!”. O vigia tinha por volta de 45 anos de idade e sua coragem era inigualável, apesar de que isso não o impedia de sempre levar consigo um crucifixo, um vidrinho de água benta, um colar de alho, utensílios feitos de prata, sal grosso e a uma fotografia de Nossa Senhora. “Uma precaução”, ele sempre alegava.
“Bam!”, outra vez o barulho, desta vez, um pouco mais alto, vindo do final do cemitério.
O vigia, então, tomou sua lanterna e saiu caminhando na direção do barulho. Ele ouviu algo como uma tampa de caixão sendo forçada. Um ladrão? Talvez. Por via das dúvidas ele carregava consigo sua lanterna e uma tora de madeira que usava como um porrete improvisado.
— Ei, quem está aí?! No que está mexendo?
Nada. Nenhuma resposta.
O vigia apressou seu passo. Chegou mais perto. E viu... um caixão recentemente aberto, mas ninguém por perto. O corpo do defunto já estava em um estado de decomposição avançado, já nem fedia mais.
— Que droga! — resmungou o vigia, focando sua lanterna no cadáver e suspeitando que um osso fora removido do braço esquerdo.
Mas, por que alguém roubaria um osso humano? Por qual motivo alguém precisaria roubá-lo? Isso o vigia não conseguia explicar, e talvez nem quisesse! No momento, o importante era ligar para a polícia.
Enquanto o funcionário tirava seu celular do bolso e tentava discar o número da polícia, uma sombra já pairava próxima a uma calçada escura e mal iluminada de uma lanchonete ali perto dos correios. Suas mãos sujas de terra seguravam um pequeno osso humano na mão; e de seu rosto, emanava um grande sorriso vencedor.
— A última peça que eu precisava para o ritual — sussurrou a voz masculina, apertando o osso na mão. — Amanhã vai começar o FAMS. Finalmente uma ocasião perfeita pra pôr o plano em ação!
O garoto voltou a andar. Ficar parado ali não era seguro, pois a criminalidade tivera crescido muito em Sobral nos últimos anos, sem contar que logo a polícia atenderia ao chamado do vigia. Ele olhou para o céu poluído, mal enxergando as estrelas, e uma lágrima caiu quando ele falou emocionado:
— O desespero das pessoas amanhã no evento... vai ser tão lindo!
CAPÍTULO 01
O EVENTO COMEÇA!
O GAROTO PREPARA O RITUAL SOMBRIO.
Sábado chegou! O grande e esperado evento está prestes a começar. Os relógios já marcam oito da manhã, e as pessoas já começam a fazer fila no Centro de Convenções de Sobral. Crianças, jovens e adultos se preparam para a ocasião que aguardavam há muito tempo — um evento que reúne os amigos, um evento em família.
Conhecido pelo seu caráter dinâmico e diversificado, o Festival de Anime e Mangá Sobralense (FAMS) sempre buscou reunir os fãs da cultura pop oriental da localidade; no entanto, conforme o passar dos anos, o evento foi crescendo e ganhando fama, e agora diversas caravanas começavam a vir de bem longe para prestigiá-lo.
Atualmente o FAMS chegava a sua sexta edição e, desta vez, trazia como principais atrações: o dublador Luiz Sérgio, conhecido por ter dublado personagens célebres como Super Choque e Tai de Digimon Adventure; e o Detonator, grande nome do Rock, muito querido pelos fãs que o intitulavam como O Deus do Metal. Além deles, o evento contava com muitas outras novidades interessantes, e pelo que muito já fora debatido nos grupos do Facebook e Whatsapp, os cosplayers que apareceriam no evento seriam incríveis. Porém, por mais que todos — público, organizadores e parceiros — estivessem animados com a chegada do evento, existia alguém que planejava sabotá-lo com alguma espécie de ritual macabro, e Ele já se dirigia ao Centro de Convenções naquele momento.
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Os relógios já marcavam nove e meia da manhã, e o evento ainda não havia começado. As filas estavam mal organizadas e as pessoas aguardavam a liberação da entrada, impacientes, ou perdidos em encontros e reencontros nostálgicos com amigos de bairros ou cidades distantes, ou ainda, fugindo na medida do possível dos raios solares que agora castigavam mais do que nunca a todos com seu calor infernal. O número de pessoas tinha aumentado bastante com a chegada de algumas caravanas, e já não era mais possível identificar direito onde começava e terminava a fila de entrada para o evento.
Finalmente, para o alívio de todos, Marcelo, um dos organizadores veteranos do FAMS, conhecido pelo seu bom humor e simpatia incomparáveis, apareceu na entrada, e com um sorriso satisfeito, encarou a grande quantidade de pessoas que estavam na gigantesca fila mal organizada e gritou com empolgação:
— E aí, galera! Quem está ansioso pelo início do FAMS 2015?! — Nesse momento, ouviu-se diversas pessoas gritando euforicamente a palavra “Eu!!!”, e outras que já começavam a perguntar “Já vão liberar a entrada?”, “Que horas vão abrir? Tô torrando aqui!”. Paciente e alegre, Marcelo anunciou:
— Calma, gente! Por volta de nove e quarenta vamos liberar a entrada pra vocês. Faltam apenas mais dez minutos, então comecem a organizar a fila, direitinho. — Com isso, Marcelo acenou para todos e novamente entrou.
Pouco a pouco as pessoas foram se acalmando, e logo a fila começara a se organizar lentamente. Mas, enquanto todos tentavam desesperadamente se manter na fila, um jovem apenas passeava de um lado para o outro rodeando e analisando o Centro de Convenções. Ele vestia calça jeans azul, e uma blusa branca estampada com os personagens do anime/mangá Death Note. A franja de seu cabelo castanho claro exibia uma única mecha vermelha que cobria parte de seu olho direito.
“Pelo visto,” pensou o garoto, “vai ser meio complicado montar o ritual em algum lugar lá dentro.” Ele tocou na mochila marrom que carregava nas costas e andou até uma enorme árvore ali perto que chamou sua atenção, ela estava rodeada de carros e motos estacionados. “Mas... talvez exista um local próximo o bastante do evento que possa me servir. Sempre tem!”
Quando o garoto notou que duas organizadoras do FAMS — Joana e Lucivanny — andavam pelo caminho em que ele estava, procurou disfarçar como se estivesse procurando por algum conhecido e saiu, dirigindo-se a fila que agora começava a entrar no Centro de Convenções.
“Por hora, vou controlar minha ansiedade e analisar o interior do evento. Vamos ver como tudo foi organizado,” concluiu o garoto, buscando um lugar na gigantesca fila.
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A fila diminuíra bastante quando o garoto entregou seu ingresso a um dos organizadores do FAMS e entrou. Ou, quase entrou! Pois uma das normas padrões do evento era entregar a mochila aos seguranças do evento para inspeção; desse modo, evitava-se a possibilidade de entrada de drogas ilícitas ou algum acessório perigoso no evento. Não que todas as pessoas fossem tratadas como delinquentes, aquela era apenas uma medida preventiva, uma forma de trazer maior segurança e comodidade ao público. Afinal, aquele deveria ser um evento alegre e divertido para todos.
Quando o garoto entregou sua mochila para um dos seguranças, ficou nervoso, e Yves — um dos organizadores do FAMS — percebeu. Se os seguranças achassem as coisas que ele trazia na mochila...
Durante a inspeção, um dos seguranças achou algo que lhe chamou muito a atenção. Ele rapidamente olhou o garoto com um olhar desconfiado e depois chamou outro oficial que também averiguava a mochila de alguém. Os dois cochicharam algo enquanto o garoto esperava com muita tensão, e o pior de tudo... sem conseguir esconder seu nervosismo.
Quando os guardas pararam de cochichar, o segurança se aproximou do garoto e perguntou:
— Por favor, pode me dizer o seu nome? — A expressão do guarda era dura.
— É... é... — gaguejou o garoto, suando frio. — É Luiz. Tem alguma coisa de errado com a minha mochila?
O guarda olhou rapidamente para seu colega de trabalho que voltara a verificar uma bolsa rosa, e depois centrou seu olhar em Luiz, dizendo:
— Pode me dizer... onde você conseguiu isso? — O oficial tirou uma pilha de mangás hentai da bolsa do garoto, e agora, expressando um sorriso safado, adicionou: — Essas revistinhas são mais legais que as da Play Boy.
Yves, que presenciara toda aquela situação, agora começava a rir com alivio ao presenciar a revelação dramática do oficial e a cara do garoto que ficara vermelha de tanta vergonha.
— Eu... eu costumo comprar pela internet — respondeu Luiz quando o segurança lhe entregou a bolsa com os mangás. — Tinha trazido pra cá porque um amigo tinha me pedido emprestado.
— Ah, que pena. Se estivesse a venda, eu comprava todas de você — choramingou o oficial.
— Epa, todas não! Eu também ia querer comprar umas, viu — revelou o outro segurança, rindo.
Luiz não respondeu. Apenas tirou a mecha vermelha de seu cabelo que estava outra vez sobre o rosto e sorriu desajeitadamente.
— Aproveite o evento — disse Yves, ainda rindo.
— Obrigado. — Sem perda de tempo, Luiz adentrou o Centro de Convenções. Ele não podia perder mais tempo com aqueles vermes facilmente enganáveis.
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Luiz riu enquanto caminhava e analisava a organização interna do evento. Seu plano de entrada tinha saído como planejado. Os guardas não haviam descoberto o que estava oculto naquela mochila.
“Aqueles seguranças burros,” pensou ele, “ficaram tão impressionados com os mangás hentai que se esqueceram de verificar o restante da mochila. Nem sequer perceberam os compartimentos secretos que eu criei dentro dela para guardar todos os ingredientes do ritual que eu pretendo fazer logo, logo.”
O garoto continuou caminhando até que entrou na área de games. Havia muitas pessoas naquela sala, na sua grande maioria, crianças e adolescentes. Alguns estavam jogando, outros esperando sua vez, ou, simplesmente assistindo enquanto conversavam e falavam sobre detalhes dos games ou dos personagens. Os jogos eram variados, desde futebol a jogos de ação. Luiz não era muito fã de vídeo game, sempre detestou perder, e não tinha paciência pra tentar refazer a mesma fase do jogo mais de uma vez. Mas isso não o impedia de admirar quem jogava; disso ele gostava muito. Ele olhava todos os jogos e a animação da garotada que enchia a sala.
Luiz se preparava para sair da sala — ele tinha que averiguar todos os detalhes do Centro de Convenções, e pensar onde montaria o seu ritual — quando alguém tocou em seu ombro com delicadeza e o chamou com alegria:
— E aí, cara, beleza?
— Oi, André — Luiz cumprimentou, reconhecendo o organizador do FAMS: um sujeito alto, moreno, forte e ligeiramente bonito. — Ficou responsável pela área dos games?
— Pois é, cara. Cadê, vai fazer cosplayer mesmo, hoje?
— Sim, acho que mais tarde, talvez. Primeiro quero dar uma olhada nas novidades do FAMS.
— Ah, sei. E vai fazer cosplayer de quem mesmo?
— Ainda é surpresa. Uma grande surpresa — disse Luiz, com um sorriso aparentemente inocente, mas que escondia planos diabólicos.
— Eita, cheio de segredos! — exclamou André, rindo. — Pois tá, bom evento pra ti. Vou cuidar aqui dessa garotada. — André novamente se focou no seu trabalho, e Luiz, despedindo-se do amigo, saiu da sala.
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Já havia se passado mais de uma hora desde a entrada de Luiz no Centro de Convenções, e muitos cosplayers já começavam a aparecer no evento. Luiz pôde identificar entre eles: Rony e Yanna, vestidos de Yuuta Togashi e Rikka Takanashi do anime Chuunibyou Demo Koi Ga Shitai!; Felipe Hunter vestido de Robin, o famoso parceiro do Batman; alguém que fazia cosplay de Tobi de Naruto Shippuuden; e uma garota muito simpática que ele conhecera no último evento, Danmatta, ela fazia o cosplay de Amy Rose, personagem famosa nos games do Sonic.
Muitos fãs também já circulavam por todas as partes do Centro de Convenções, alguns até confusos, sem saber que local deveriam olhar primeiro, ou com qual cosplayer deveriam tirar fotos primeiro. Luiz, por outro lado, estava empolgado, mas não pelos mesmos motivos; quase todos os pensamentos que ocupavam a sua mente naquele momento estavam ligados ao seu objetivo — ao seu ritual.
O garoto averiguou e memorizou cada canto que passava — a sala de games, a sala de exibição de animes, o local reservado ao Just Dance, o palco central, os stands de venda, a sala de oficinas, a lanchonete e até os banheiros —, nada escapara a sua percepção.
Quando por fim tinha terminado, Luiz sentou-se numa das cadeiras da lanchonete e, decepcionado, meditou:
“Uma pena! Como eu imaginava, não há lugar algum que sirva para pôr os objetos ritualísticos do primeiro passo sem que alguém encontre. O ritual é composto de duas etapas importantes, e a primeira precisa coletar energia mística durante um tempo sem ser perturbada.” Luiz observou com raiva as pessoas que transitavam a sua volta e mordeu seu lábio inferior. Ele se levantou na cadeira onde estava sentado, e continuou seus pensamentos: “Essas malditas formigas estão por todos os lugares! Pelo visto vou ter que arranjar um local externo e pouco à vista aqui perto. Mas primeiro... acho que está na hora de preparar os ingredientes.” Um sorriso se formou em seus lábios — o ritual finalmente iria começar.
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Com muita cautela, o garoto entrou no banheiro masculino. Naquela hora, não havia pessoas vestindo seus cosplays lá dentro, o que se tornou uma ocasião mais do que perfeita para ele agir. Luiz abriu sua mochila, retirou os mangás hentai e outras bugigangas que trouxera para tapear os seguranças e abriu alguns compartimentos secretos que ele criou dentro da bolsa com alguns retalhos de tecido. Ele organizou em cima de seu colo alguns frascos pequenos de vidro cheios de ingredientes estranhos. De outro compartimento menor e bem lacrado da mochila, Luiz retirou o seu trunfo, aquilo que seria usado como a chave de equilíbrio no encantamento, este estava envolto num pedaço encardido de pano — era o osso humano.
Com todos os materiais revelados, o garoto — sentado no vazo sanitário — começou a preparar a mistura dentro de um globo de vidro transparente e redondo que ele mandara confeccionar numa fábrica justamente para este propósito. O globo de vidro não tinha o tamanho de uma bola de futebol, mas também não era pequeno como uma bola de beisebol. A esfera lembrava muito aquelas usadas pelas videntes, com a diferença de que não servia para ver o futuro, e havia uma tampa quadrada nela por onde Luiz podia introduzir os materiais.
Enquanto administrava cuidadosamente os materiais, recitando palavras numa língua estranha, Luiz permanecia concentrado no encantamento básico. Não era a primeira vez que ele mexia com tais forças, ele praticara muito durante algum tempo, se aperfeiçoando. O ritual era de magia enoquiana, uma corrente mágica muito poderosa e perigosa para os poucos entendidos; porém, Luiz estava ciente dos riscos e não tinha medo do que poderia lhe acontecer — ele iria até o fim para cumprir os seus propósitos!
— Ils micaolz Olprt od lalprt, bliors ds odo Busdir O Iad ovoars caosgo, casarmg ERAN la lad brints cafafam, ds I vmd Aglo Adohi Moz od Maoffas... — recitava Luiz em sussurros, olhando para um pedaço de papel que tirara do bolso; nele, estava escrito o título “A décima oitava chave enoquiana: a chama da recriação da realidade”.
Depois que recitou as últimas palavras e administrou o último ingrediente no recipiente, deixando de fora apenas o osso humano e dois colares com pequenos cristais — um preto e outro branco —, ele fechou a tampa quadrada. Mas até agora nada havia acontecido, nem uma ventania, barulho ou luz estranha se formaram. Por um instante Luiz ficou com receio de que o ritual não funcionaria, de que seus planos se tornariam um puro fracasso, mas aquele era apenas o início, ainda havia muito mais o que fazer.
Após amarrar envolta do recipiente de vidro o colar de pedra branca com o osso humano e pronunciar mais algumas palavras em linguagem enoquiana, Luiz guardou todas as suas coisas, inclusive a esfera, dentro da mochila e saiu da cabine em que estava. Duas pessoas estavam dentro do banheiro quando o garoto mostrou a face, uma delas vestindo seu cosplay enquanto o outro auxiliava; ambos ficaram surpresos ao vê-lo sair da cabine, e depois cochicharam algo sobre “dor de barriga”, rindo.
— Riam enquanto podem, seus idiotas. Mais tarde, vão implorar pelas suas miseráveis vidas — sussurrou Luiz enquanto saía do banheiro.
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A tarde chegara desde que Luiz tinha preparado a primeira parte do ritual e saído do Centro de Convenções para colocar a esfera em um local seguro onde passaria um tempo coletando energia mística suficiente para ativar o feitiço do ritual enoquiano. Depois de concluída a tarefa, o garoto retornou até sua casa para almoçar e para aprontar o cosplay que vestiria à tarde no evento. Luiz levou consigo alguns amigos que o ajudariam a vestir a roupa do personagem e aprontar a maquiagem; estes, porém, não faziam a mínima ideia do que ele planejava realmente.
Eram exatamente três e meia da tarde quando Luiz retornou ao Centro de Convenções com seus amigos. Sua mochila agora estava mais cheia do que antes, devido à roupa e acessórios do cosplay que carregava ali dentro. Ele não precisou fingir timidez perto dos seguranças desta vez, e nem mesmo eles lembravam mais do ocorrido da manhã com os mangás hentai.
Àquela hora da tarde o ambiente esquentara bastante, e muitos cosplayers agora transitavam de um lado para o outro, alguns vestindo roupas longas e grossas e segurando armas. Mesmo com a temperatura extremamente quente, ninguém parecia se importar muito, estavam acostumados com o ambiente de Sobral, e quando a situação parecia infernal, sempre davam uma escapadinha para alguns dos ambientes refrigerados do Centro de Convenções.
Luiz passou pouco mais de quarenta minutos no banheiro com seus ajudantes, vestindo as roupas pretas, ajustando o colete e as ombreiras vermelhas, colocando a longa peruca, preparando a maquiagem do rosto — que demorou bastante, pois sua amiga era perfeccionista — e a parte mais difícil de todas: colocar as gigantescas lentes de contato em seus olhos. Todos os passos foram trabalhosos, mas no final tudo saíra perfeito, Luiz ficara idêntico ao personagem.
— Ufa, terminamos — suspirou a amiga de Luiz.
— Cara, tu ficou igualzinho a ele — falou o outro. — Ficou foda!
Luiz se analisou no pequeno espelho do banheiro e, apesar de estar completamente ensopado de suor por debaixo da roupa, ficara satisfeito com o resultado final.
— Tem razão. Fiquei bem parecido com ele mesmo.
— É, mas agora tem que procurar um lugarzinho ventilado pra secar o suor — alertou a amiga —, se não vai borrar toda a maquiagem que eu fiz.
— Não se preocupem. Daqui a pouco isso aqui não vai mais ser maquiagem mesmo — disse Luiz, sorrindo enquanto pegava o colar de cristal negro que ele não havia usado no ritual e a arma que seu personagem utilizava.
— Como assim? — perguntou sua amiga, sem entender.
— Daqui a pouco vocês vão entender. — Luiz caminhou até a saída do banheiro. Ele estava empolgado e achava que chegara a hora de colocar seu plano em prática. — Gente, obrigado pela a ajuda de vocês. Eu vou indo na frente, tá. Guardem as coisas na minha mochila. Vejo vocês lá fora.
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Luiz se dirigiu ao palco central onde normalmente as bandas tocavam ou os organizadores davam algum aviso. Enquanto caminhava até o palco, que no momento estava desocupado, Luiz percebeu que o seu cosplay estava chamando a atenção geral de todas as pessoas ao redor. Quando o viam, eles gritavam “Olha! É o Madara do Naruto!”, e tentavam pará-lo para tirar uma foto, mas Luiz simplesmente os ignorava com seu olhar frio, ou dava alguma desculpa esfarrapada. Agora nada poderia atrasá-lo! O grande momento havia chegado!
Quando estava preste a subir no palco, o garoto percebeu que um organizador do FAMS se dirigia até lá também com um pedaço de papel na mão, possivelmente para dar algum aviso. Contudo, ele foi mais rápido, pegando o microfone primeiro e chamando a atenção de todas as pessoas:
— Atenção! Atenção! Eu tenho algo para falar para vocês agora, então prestem atenção e escutem!
— Ei, cara, tá fazendo o quê? — perguntou Shawlyn, o organizador que se dirigia até lá.
Com olhos assustadores devido as lentes de contato do Rinnegan, Luiz encarou Shawlyn, fazendo-o hesitar e parar na escadaria que levava ao topo do palco; e o garoto, vendo que todos tinham parado para ver o que ele tinha a pronunciar ali de cima, continuou:
— Hoje todos vocês irão testemunhar algo que vai mudar as suas miseráveis e alegres vidas completamente! Hoje vocês ouvirão gritos medonhos de desespero e dor! Hoje vocês verão o nascimento de uma grande lenda! Prepararem-se para contemplar a face de... Uchiha Madara!
Neste momento, todas as pessoas que prestavam atenção no discurso do garoto, aplaudiram e gritaram euforicamente. Para eles, tudo aquilo não passava de um pequeno teatro para animar o público.
— Vocês não irão mais me aplaudir depois do que vai acontecer aqui — sussurrou Luiz para si mesmo, expressando um sorriso zombeteiro enquanto colocava o microfone no pedestal e encostava o seu gunbai no chão para segurar o colar de cristal negro com as duas mãos em forma de oração.
Concentrado, Luiz aproximou sua boca do microfone e recitou o encantamento final:
— Ó vós espadas do Norte, escutais o que vos é pedido e tragam o poder que é chamado entre vós todos como um ferrão abrasador. Movei-vos e mostrai-vos! Abri os mistérios de vossa criação! Sede amistosos comigo e atendam minha súplica! Tornem real aquilo que nunca foi! — De olhos fechados, Luiz recitava perfeitamente cada linha do encantamento enoquiano, enquanto a plateia assistia com risos o espetáculo ridículo que o garoto promovia.
— Sai daí, seu Madara doido. Vai tomar teu remédio! — gritou alguém, gargalhando.
Luiz continuava a recitar a mesma oração mais uma vez, contudo nada parecia acontecer. Então, abrindo seus olhos ao ver que o ritual fajuto não servira para nada e sentindo-se decepcionado com a falha, ele começou a praguejar mentalmente, enquanto ouvia a zombaria de todos lá em baixo, e Shawlyn já caminhava em sua direção a fim de tirá-lo dali.
— Que droga! — Em um acesso de raiva, Luiz atirou o colar ao chão.
De repente, quando tudo parecia ter falhado, os fragmentos do colar quebrado emitiram uma forte luminosidade azul, liberando radiações elétricas e correntes de ar sobrenaturais que fizeram Shawlyn recuar com a inesperada surpresa. Enquanto isso, em algum lugar fora do Centro de Convenções, o mesmo acontecia com o recipiente escondido por Luiz, que guardava as misturas juntamente com o colar de pedra branca e o osso humano; neste, os raios de energia liberados eram alaranjados, como tempestades de fogo.
A princípio, quando os raios luminosos surgiram sob os pés de Luiz, a reação dele foi de surpresa e espanto, mas ao entender o que de fato estava acontecendo ali, ele ergueu suas mãos e começou a gargalhar.
— Sim, sim! Funcionou!
Logo as pessoas começaram a se apavorar com as ondas de energia vinda do palco que já se misturavam com a outra fonte vinda de fora e se expandiam por alguns quarteirões ali fora. Muitas pessoas estavam aos berros, gritando, chorando e se encolhendo no chão, no entanto, a massa de energia não provocava nada mais que um leve peso magnético sobre o corpo, assanhando cabelos e incomodando a visão.
Subitamente, tudo acabou. Os raios luminosos, a ventania, o peso sob o corpo. Nada. Não havia mais nada acontecendo ali.
Silêncio.
Todas as pessoas começaram a se encarar, chocadas com o ocorrido, porém aliviados por estarem vivas. Aos poucos, sussurros se fizeram ouvir — as pessoas tentavam entender o que tinha acontecido. De repente, uma risada leve e agourenta veio do palco. Todos encararam o garoto que vestia o cosplay de Uchiha Madara; ele estava de joelhos no chão e com a cabeça abaixada, vapor emanando de seu corpo. Ele ergueu seu rosto e encarou a todos lá em baixo. Algumas pessoas se espantaram quando perceberam que a pele dele estava trincada e seus olhos pareciam possuir o próprio e verdadeiro Rinnegan. Aquilo não parecia ser mais uma simples fantasia. Aquilo era real!
Luiz se levantou, pegou sua gunbai, ergueu seus braços e, com a voz modificada e semelhante a do dublador japonês do personagem, gritou:
— Contemplem... Uchiha Madara!
O ritual se concretiza...
Que perigos aguardam a todos?
1. Gunbai: O grande leque que Madara tradicionalmente utilizava como arma.
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