Trick and Treat
5 Roupas e chá
Notas iniciais
Menina ciumenta, ela realmente não sabe se controlar – pensava Len com um sorriso sarcástico enquanto esquentava água para fazer chá.
Ele se afastou um pouco do fogo e da chaleira, mas principalmente do fogo, não gostava daquele calor. Então foi terminar de arrumar uma badeja de prata colocando um enorme jarro de porcelana com o bico preso por uma rolha ao lado do conjunto de chá de porcelana para três.
E pensar que estou falando dela, mas eu estou me contendo o máximo também – ele terminou seus pensamentos com outro sorriso um tanto medonho.
~*~
Miku tossia brutalmente enquanto colocava a mão na frente da boca na esperança de amenizar o som, Rin percebendo perguntou:
– Miku-chan – disse gentilmente como uma criança, realmente ela era fofa quando estava desse jeito pensava Miku e sorriu dócil enquanto a fitava e a ouvia atentamente – Você esta bem? – Rin a fitava curiosa
– Estou bem, não precisa se preocupar. – repondeu sorrindo e tossiu novamente,porém seus olhos mostravam que ela estava mal e quase sofrendo
– Se você diz – ela parou de olhá-la sem se preocupar mais.
Aquilo meio que assustou de novo Miku, era como se Rin não estivesse preocupada e não se importaria com sua doença a menos que ela mandasse. Tal qual uma ordem. Ou então, como se ela realmente fosse apenas uma boneca de Rin.
Se não fosse, era exatamente como estava se sentindo, com a pequenina ajeitando o vestido em seu corpo sem parar, tudo para que ficasse de seu agrado. Ela se afastou para ver o resultado, com os dedos no queixo e o cotovelo no ar em um gesto pensativo e Miku ficou imóvel para não atrapalha-la. Esta que não deixava um detalhe passar olhando sua "boneca" de cima a baixo.
– Isso! – comemorou sorridente – Está perfeito!
Rin foi de novo para a o guarda roupa e abriu outra porta tirando de lá um par de sapatos boneca pretos de salto baixo e com uma alça delicada no tornozelo, eram uma graça, a garotinha ainda sorridente apontou para o sofá em um sinal para que Miku se sentasse e ela obedeceu, Rin então se ajoelhou e calçou os sapatos nos pés da garota de cabelos esverdeados prendendo as alças logo em seguida. Mais uma vez se afastou para observar sua obra.
– Quase pronta – disse indo atrás de umas das cadeiras e colocando de lado, mas na frente do guarda roupa – sente-se aqui agora – Miku obedeceu novamente enquanto Rin vasculhava o guarda roupa outra vez, desta vez tirou de lá uma pequena caixa de madeira e a levou até a cama.
Entretanto, por um instante ficou imóvel e silenciosa, observando a cama sem piscar parecia que ia ter um surto novamente.
– Rin, tudo bem? – perguntei assustada
Ela se virou e com um sorriso contagiante disse:
–Sim, tudo bem – então levou a caixa até o sofá onde a colocou, quando abriu tirou de lá uma escova branca linda e delicada, com enfeites de flores e galhos finos.
Começou a pentear a cabeleira verde de Miku com todo o cuidado que se podia ter fazendo a Srta Hatsune começar a relaxar com as mãos pequenas de Rin passando entres os fios de seu cabelo. Era muito bom. Uma sensação de paz, proteção e nostalgia.
–Por favor me passe essa fita vermelha no seu pulso – Rin a tirou de sua transe
– O que?
– A fita vermelha, para eu prender o seu cabelo – Ela apontava para o pulso de Miku, que seguiu com o olhar e ficou encarando sua fita da sorte
– Claro, mas tome cuidado é muito importante pra mim – indagou enquanto desenrolava a fita, levou pelo menos dois minutos de tão grande que era, ela entregou para Rin que a pegou como se fosse um tesouro finalmente reencontrado. Soberba, vislumbrava aquele fio escarlate em suas mãos pálidas com um brilho no olhar.
– Puxa ela é muito grande – Rin disse erguendo a fita até ela não tocar no chão, sem conseguir – Deve ter o seu tamanho. Não, deve ser maior se um pouco ainda fica no chão mesmo eu me esticando tanto para ergue-la — ela dizia com o mesmo sorriso sarcástico que deixava Miku encabulada
– É sim, eu a tenho, acho que desde os seis anos – ela dizia enquanto relembrava doces momentos, mas então suas lembranças acabaram. Afinal foi entre seus seis e nove anos, mais ou menos, que havia perdido a memória. Miku começou a fitar o nada com os olhos sem expressão enquanto sentia seu cabelo ser puxado para cima por Rin, que estava o prendendo em um rabo de cavalo – Sabe ela tem um significado – ela começara a puxar assunto, não querendo que o pouco de suas memórias sumissem de novo.
– Mesmo? Qual é? – Perguntara mesmo não parecendo muito empolgada como se fosse uma história repetida, continuava a dar voltas com a fita no cabelo dela, mas a ouvia mesmo assim
– Se eu me lembro pelo menos disso... – Miku falava ainda triste pelo tempo perdido – uma ponta amarrada a algo e a outra em outra coisa, por exemplo, você e Len, se amarramos uma ponta no seu pulso e a outra no pulso dele não importa o quão longe estejam um do outro mesmo assim ainda estarão ligados, por isso ela é tão grande — disse com um sorriso gentil
– Eu sei — Rin respondeu, mas Miku desta vez não prestou atenção, ainda não acabara de falar
– Mas pra mim também tem outro significado – e assim terminou
A pequena sorria com sarcasmo, como se pra ela não fosse novidade e então assim que terminou de dar o nó com a fita deixando ainda um pedaço dela para fora, penteou mais um pouco o cabelo amarrado de Miku e ajeitou a franja dela se afastou e olhou satisfeita.
– Terminei, está do jeito que eu queria – Rin estava realmente feliz.
Foi guardar a escova na caixa e a caixa no guarda roupa, depois puxou a mão de Miku, que sentiu de novo aquela onda gelada no começo e depois esta ir acabando por ficar quente e aconchegante de novo. Ela foi guiada até a frente de uma das portas do grande armário, Rin a abriu, havia um espelho, então Miku finalmente viu como estava graças ao seu reflexo
Observou cada detalhe com cautela sem expressão, por enquanto, pelo menos até ter uma noção de como estava.
Vestia um vestido vermelho que chegava até os joelhos, segurado por duas alças pequenas, que tinha detalhes brancos como na barra. Usava os sapatos boneca, um pequeno laço enfeitava cada uma das alças de couro negro presas em seus tornozelo. O cabelo estava bem preso em um rabo de cavalo, porém ele continuava cumprido passando de sua cintura como sempre, então ela sorriu satisfeita para seu reflexo arrancando um sorriso dos lábios de Rin também
– Que bom que gostou Miku–chan
– Sim, mas eu estou com um pouco de frio
–Frio? – Rin perguntou surpresa – mas não está frio, está até um pouco quente com essas velas
– Como? – se surpreendeu assustada novamente
Rin parecendo que havia saído de um transe tomou conta de seu erro e o concertou
–Aah sim, claro — ela começou – Eu esqueci. Moro aqui há tanto tempo que já me acostumei com o frio, sinto muito – essas palavras acalmaram Miku um pouco.
Ela via Rin se dirigindo para o guarda roupa mais uma vez e tirando de lá um bolero preto simples de mangas compridas. Rin colocou o bolero em Miku, a mangas não cabiam nos braços dela, eram um pouco cumpridas e deixava apenas as pontas de seus dedos aparecendo. Finalmente estava quente e ficou satisfeita como as roupas que Rin preparara. Ambas então ouviram batidas na porta e logo depois alguém entrando com uma bandeja enorme, Len. Quando este olhou para Miku lhe deu um sorriso afável.
– Rin realmente fez um bom trabalho, está linda senhorita Miku – ele andou até a mesa onde depositou a bandeia
Miku corou de leve com o comentário do lindo rapaz
– Pode me chamar apenas de Miku como sua irmã – ela finalmente disse
Rin passou por ela levando a cadeira até a mesa dizendo:
–Miku-chan, meio que, nós não somos irmãos – ela sorria gentilmente – Parece, não é? Isso porque quando fomos feitos, no mesmo dia, era para combinarmos, mas não para sermos irmãos. Isso não existe pra gente. Depois apenas fomos criados juntos. – ela fitou pro olhar confuso de Miku — É meio complicado explicar, por isso quando nos vêem dizem que somos irmãos para ficar mais fácil, mas podemos ser qualquer coisa nos olhos das pessoas, irmãos, amigos, primos, até amantes – ela já estava sentada, sendo fitava ainda com curiosidade por Miku
– Mas se para você somos irmãos, — ele disse com uma voz de reprovação para Rin – então somos irmãos – a garota se encolheu sobre o olhar duro de Len percebendo seu erro.
A tosse chata impediu Miku de argumentar ou perguntar sobre aquela história esquisita. Talvez fosse impressão, mas ela viu Rin e Len aliviados com isso. Miku se dirigiu para cama sentando de frente pra mesa e pra eles, Len ainda estava em pé arrumando as coisas para o chá enquanto Rin a fitava alegre.
– Está doente, Miku? – Len perguntou parecendo preocupado
– Acho que sim, eu estava com muito frio antes de trocar de roupa – ela tossiu novamente
– Aqui – ele encheu uma colher com algum liquido que saia de dentro de um jarro – Tome. É bom pra tosse
Miku viu Rin fitando a colher com alegria, os olhinhos verdes brilhavam em êxtase
– O que é?
– É apenas xarope, é bom para sua tosse – ele disse gentil
Então Miku abriu a boca para a colher que Len lhe direcionava e depois a retirou de sua boca vazia enquanto Miku engolia o xarope, não tinha um gosto ruim e ela já se sentia bem melhor. Rin e Len a fitavam com aquele mesmo olhar e sorrisos que lhe davam medo, porém apenas por alguns instantes, logo Rin desamarrava uma fita rosa que segurava alguns palitos.
– São palitos de canela – ela pegou um e lhe entregou – Seus preferidos, certo?
Ela assentiu pegando o palito e o comendo.
– Depois se você quiser pode tomar um pouco de chá e comer biscoitos – Len disse se sentando
Começaram então a conversar sobre Miku, principalmente, e a rir. Todo aquele clima pesado de repente pareceu sumir para a debutante mais calma e relaxada na presença dos irmãos e apenas a conversa prazerosa, os doces dos biscoitos e dos palitos de canela e a sensação cálida do chá ficaram. Entre risadas e assuntos triviais Miku foi perdendo a consciência e caindo para trás aterrissando na cama macia em meios aos bichos de pelúcia.
A única coisa de que se lembrava de relance era de ter visto Rin comendo um dos biscoitos e Len tomando um pouco do seu chá, ambos sem se preocuparem, mas sim aproveitarem. Apenas a deixava cair enquanto a fitava com aqueles olhares que ela temia desde que chegara. Antes de dormir profundamente pode ouvir Len dizendo:
– Bons sonhos...
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