Trib0s - Interativa
4 3. Ninguém vai ler essa bosta
Notas iniciais
O punho de Leon acertou o rosto de Dante em cheio. Os espectadores se animaram, começando em grande número bater os pés no chão: “BRIGA! BRIGA! BRIGA!” gritavam, incentivando a continuarem. Dahila não moveu um músculo sequer, já estava acostumada com aquele tipo de situação e não via motivo para tentar apartar um espetáculo tão interessante como aquele.
Dante se recuperou rapidamente, mexendo a mandíbula afetada. Definitivamente não deixaria barato. Sua sequência de golpes fora veloz: um soco no rosto para atordoar, três no estômago sentindo os ossos de sua mão se chocando contra as costelas de Leon, que se desequilibrou e caiu no chão, tossindo.
O de lentes de contato coloridas estava certo que havia ganhado aquela, se não fosse a atitude do punk em se levantar mais uma vez, cuspindo um pouco de sangue pro lado. Gassen teve muita força ainda para levar aquilo adiante.
Em certa ocasião, quando tudo havia esquentado demais, Dante levantara novamente o punho, segurando o outro pela camiseta e quando foi finalmente dar seu golpe, alguém o segurou.
— Ryan! — Exclamou Leon, sendo puxado pelo outro garoto.
Este tinha os cabelos marrom-escurecidos penteados impecavelmente para trás, os olhos cinzentos levemente irados por trás dos óculos de grau e vestia-se de maneira incomum se comparado aos estudantes de San Sebastian – jeans, camisa branca social com as mangas dobradas até os cotovelos e o relógio de pulso amostra. Na mão desocupada, trazia um mangá aberto.
A princípio Dante imaginou que ele fosse algum professor ou algo do gênero, até perceber as semelhanças entre Ryan e Leon.
O de óculos puxou o irmão gêmeo das mãos de Lancaster, sem abrir a boca para dizer algo, e simplesmente assim saiu de vista tão rápido quanto entrou.
A multidão se esvaiu aos poucos, voltando ao que faziam antes do show. Dahila puxou Dante para que se sentasse na arquibancada e analisou os hematomas que ficaram em seu rosto. Cortes e inchaços denunciavam a violência que fora a briga.
— O cara sabia socar, tenho que admitir — Dante riu.
— Ele faria meu tipo se não fosse tão cretino. — A garota deu de ombros. — Você deveria ter desfigurado a cara do imbecil.
— Não há necessidade. Acho que dá pra conviver de bem com ele. Curte as mesmas coisas que a gente, aparentemente, não? — Dahila não respondeu. Sua expressão continuava impaciente. Dante trouxe-a para mais perto — Hey, o que foi? Ainda não acha que ficará bem por aqui?
— Eu odeio meu pai — Resmungou em voz baixa.
— Olhe pra mim — Lancaster depositou um rápido beijo surpresa quando ela o fez — Eu tô aqui e sei que enquanto estivermos juntos tudo vai ficar bem.
A morena bufou.
— Idiota...
==========(X)==========
Ao fim do intervalo, houvera aula vaga. Algo como a professora ter sido agredida verbalmente por um dos alunos a fez sair do colégio chorando. Ninguém acreditava naquela história, porém não podia se duvidar de nada em San Sebasthian.
Estavam cada um matando o seus tédios de suas maneiras. Dahila ainda se sentava atrás de Kippie, vendo o garoto fazendo desenhinhos nos cantos do caderno. Era bizarro ver aquele jeitinho de menino romântico logo a sua frente, aliás, era bizarro ter um garoto que exalava fofura logo ali.
Dahila ainda era obrigada a ouvir a discussão sobre HQ´s no conjunto de carteiras ao lado. Khadija, Annalisy e um garoto discutiam sobre qual era o melhor filme recente da Marvel Comics.
O rapaz em questão tinha o nome de Scott Lang e parecia cansado levando em consideração as olheiras entorno dos olhos que juntamente com os curtos cabelos negros contrastavam sobre a pele branca. Khadija sempre parava no meio de suas falas para comentar sobre um estranho animalzinho de estimação seu que casualmente tirava a cabeça de dentro do casaco de Scott. O grupo de geeks chamava aquela coisinha de Palégia e pareciam gostar mesmo do que parecia ser um furão.
— Ah, Palégia vive comigo — Disse certa hora o rapaz — Chega a parecer que é mais do que um simples animal de estimação.
— Pelo jeito você gosta de animais — Khadija comentou — Eu sou apaixonada por eles. Sou voluntária em uma ONG que cuida de cães abandonados. Me dá vontade de tê-los todos para mim.
— Animais. Como não adorar? — Sorriu Annalisy.
Dahila logo se recordou de Kyu, o gato que tinha junto com Dante. Ela ainda lembrava-se de quando estava em seu quarto, mexendo no celular quando Lancaster adentrara pela porta trazendo no colo um filhote alaranjado e peludo.
“Estavam doando na esquina” Ele havia dito para ela “Não pude resistir ao o ver ronronando pra mim”. Dahila ainda reclamou, todavia Dante argumentou que querendo ou não, o quarto dela era o mesmo que o dele, por tanto deveria aturar.
Com o passar do tempo, a garota também começara a se apegar ao bichano.
De volta à realidade, Kippie em sua frente deixara a caneta que usava para desenhar cair no chão e ao abaixar para pegá-la, quase teve seus dedos esmagados pela sola de um coturno. O de cabelos brancos puxou rapidamente a mão para perto do corpo, felizmente não estava tão desligado como de costume.
Percebeu que o dono daquele pé não pretendia devolver-lhe a caneta tão cedo. Kippie levantou a cabeça, fazendo um biquinho infantil como quem dissesse: “Hey, você está torturando um objeto meu!”.
Kieran Mitchell levantou uma de suas espessas sobrancelhas, os olhos azuis claros tinham um ar desafiador. Estava usando uma camiseta da banda Arctic Monkeys que cheirava levemente a tabaco e menta, sem mencionar que rodava um cigarro de filtro azul entre os dedos.
Vagamente, Kieran se abaixou e apanhou a caneta do menor balançando-a em frente aos seus olhos:
— Isto é seu? — Perguntou de modo breve, vendo Kippie assentir e tentar tomar de volta o que era seu lenta e calmamente. O de cabelos castanhos tirou de seu alcance antes que o fizesse, dando um sorriso irônico.
Era possível perceber no braço esquerdo uma grande cicatriz de um provável acidente no passado. Algo suficientemente grave para deixar uma marca que ia do pulso até o cotovelo. Já no direito, era notável uma tatuagem com a estrutura da nicotina.
Kippie parecia mais perdido que o comum, sem saber o que deveria fazer para conseguir seu objeto de volta.
— Cara, devolve — Luke surgira num passe de mágica de algum lugar.
— E porque eu deveria? — Kieran cruzou os braços em frente ao peito, ainda com aquela expressão desafiadora.
— Pois é mais do que claro que essa coisa não é sua.
— Hmm... Não, valeu. Fico com isso — Deixou mais um daqueles sorrisos antes de sair de lá, e procurar outro canto para se acomodar.
Luke suspirou desanimado, passando a mão pelo rosto.
— Sempre tem dois ou três otários na turma — Comentou. Dahila riu sarcástica.
— Faz parte da vida colegial. — Então estendeu uma caneta esferográfica azul para o colega da frente — Toma garoto. Pode ficar com essa.
A garota ainda teve de sacudir o objeto defronte ao rosto do outro, para que ele o notasse.
==========(X)==========
Na saída da aula, o sol já estava se pondo. Culpa do período integral que prendia os alunos no colégio.
Enquanto o barulho ia dando trégua aos poucos no ar fresco do fim da tarde, alguns alunos tomavam rumo diferente de suas próprias casas. Nem todos tinham o mesmo objetivo: uns queriam simplesmente dormir, outros curtir a noite sem se importar com o amanhã, e mais alguns ainda queriam ir para casa de outros colegas, sem preocupações sobre estes às vezes serem completos desconhecidos, movidos pela palpitação sexual.
Dante fazia parte dos três grupos, sendo a indecisão em carne e osso. O que o tirou de seus pensamentos fora uma animadíssima garota que barrara ele e Dahila perto do portão.
— Miyu Jefferson, do jornal da escola! — Disse ela, com um sorriso gigante de arder os olhos. — Eu sempre quis ser do jornal escolar, e a vaga estava aberta!
A garota nova era baixa, de olhos negros e pele morena. O cabelo tinha um corte estranho, sendo metade curto e metade comprido. Algumas mechas azuis também contrastavam sobre os fios.
— Será que é porque todo mundo sabe que ninguém vai ler essa bosta? — Respondeu Dahila com um revirar de olhos — Dá um tempo garota, tô querendo ir pra casa se não se incomoda...
— Só queria saber suas primeiras experiências em San Sebasthian — Não se abalou Miyu — O que achou do nível de ensino, dos colegas, dos professores mais carrascos que o normal.
— Uma droga de escola, com drogas de pessoas e droga de professores. — Soltou a outra, desviando de Jefferson e continuando a andar.
Miyu encarou Dahila se afastando, passando do portão até sumir de sua vista.
— Devo escrever isso? — Indagou em voz alta.
— Bem, é a opinião dela — Dante deu de ombros.
A garota sorriu para Lancaster, levantando a prancheta que trazia consigo e pondo o lápis a postos.
— E você? O que achou?
Dante olhou ao redor antes de pensar em uma resposta.
— Um colégio divertido, com professores assustadores e garotas incrivelmente interessantes.
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